sexta-feira, 22 de maio de 2026
Uma crítica da modernidade através de uma visão alegórica e surrealista
Uma crítica da modernidade através de uma visão alegórica e surrealista
Considerado como uma espécie de ‘cult movie’ por sua estética surrealista e pela crítica alegórica ao conformismo, à alienação, à repetição mecânica do cotidiano e até à falta de sentido da vida na modernidade, Vivarium (2019), que no Brasil recebeu o título de Viveiro, envolve também uma das experiências mais inquietantes do cinema de ficção científica e terror contemporâneo ao questionar sobre a própria essência da realidade ou mesmo do ser e estar transitoriamente no mundo hodierno. Dirigido por Lorcan Finnegan, que também participou da elaboração do roteiro ao lado de Garret Shanley e estrelado por Jesse Eisenberg (Tom) e Imogen Poots (Gemma), o filme parte de uma premissa aparentemente simples de um jovem casal que procura uma casa para morar, para construir uma alegoria sufocante sobre viver a dois, reprodução social e aprisionamento existencial.
A força de Viveiro está justamente na sua capacidade de transformar o banal em pesadelo transfigurando a própria realidade objetiva. O conjunto habitacional Yonder, numa periferia qualquer, com suas casas idênticas, jardins perfeitamente aparados e céu artificialmente azul com algumas nuvens, funciona como uma caricatura grotesca do sonho suburbano contemporâneo. Assim, o que deveria representar estabilidade e conforto torna-se um labirinto sem saída, funcionando como uma espécie de prisão cromaticamente pasteurizada onde o tempo perde significado.
O filme dialoga claramente com tradições do horror psicológico europeu e da ficção científica existencialista. Nele há ecos do filme The Truman Show, Cube e até da arquitetura opressiva de Playtime, dá a Viveiro encontra identidade particular ao abordar a mecanização da vida adulta moderna e à alienação das pessoas. Assim, comprar uma casa, criar um filho, trabalhar até a exaustão emergem num roteiro que trata esses marcos sociais como engrenagens de um experimento biológico cruel com a adoção de uma criança estranha deixada para o casal.
A interpretação de Imogen Poots é especialmente eficiente ao traduzir o desgaste psicológico progressivo da personagem Gemma com seus questionamentos existenciais. Enquanto isso, Jesse Eisenberg explora novamente sua conhecida persona ansiosa e neurótica, o que o leva a um colapso físico e mental na busca de uma saída para tentar sair do viveiro e do isolamento social. Ambos sao como cobaias humanas dentro de um ecossistema indiferente, com a missão de criar uma criança de crescimento vertiginoso para serem libertados.
Mas é na figura da criança, que é ao mesmo tempo humana e alienígena, onde o filme alcança seu aspecto mais perturbador. O menino sem identidade própria, que imita vozes, emite gritos estranhos e comportamentos mecânicos, simboliza tanto os temores da parentalidade compulsória quanto a reprodução automática dos modelos sociais de comincação e controle O horror do filme não nasce de monstros tradicionais, mas da ideia de que a vida moderna pode transformar indivíduos em organismos condicionados à repetição infinita como numa espécie de beco sem saída.
Viveiro aposta numa estética artificial que provoca no espectador uma espécie de desconforto contínuo, uma vez que as cores excessivamente limpas, os enquadramentos geométricos das casas e das nuvens e a repetição obsessiva das habitações criam uma sensação de irrealidade permanente. O subúrbio aparece como uma simulação defeituosa do mundo humano, produzindo mais desconforto do que entretenimento ao aprisionar o espectador dentro de uma ansiedade contemporânea reconhecível, com a suspeita de que a vida moderna está organizada em rotinas pré-estabelecidas, de consumo, reprodução e conformismo.
O fato é que após levar Tom e Gemma até a casa número nove de uma das ruas do conjunto, o estranho corretor Martin ( Jonathan Aris) simplesmente desaparece e o casal acaba descobrindo que está preso num labirinto e sem possibilidade de fuga. Os dois recebem com frequência caixas de suprimentos e um bebê estranho com um recado para que cuidem dele até para sua libertação. A criança cresce rápido e apresenta um comportamento muito estranho e sem lógica andando ao crescer pelas ruas do bairro.
O núcleo habitacional criado uma uma espécie de viveiro humano, não tem moradores aparentes e nem espaços de convivência, funcionando como uma metáfora do isolamento, da alienação e monotonia num ambiente em que caracteriza uma perda da individualidade das pessoas. Já a criança de características alienígenas com seus comportamento representa a manipulação e as pressões sociais sobre a paternidade, enquanto os adultos são presos a escolhas impostas.
O filme também, incoprora metáforas como o da escavação de um buraco na tentativa de escapar do isolamento social e acaba se transformando num tútmulo, isso no sentido literal impedindo os personagens de fugir das imposições do isolamento social e uma vida transitória e previsível, o que envolve uma reflexão sobre as escolhas de cada um, a liberdade e as condicionantes de cada um para além das suas circunstâncias, o que envolve o ciclo nem sempre lógico da resistência humana e que se prolonga de forma dialética, quando a criança (Senan Jennings) cresce e se torna adulta ( Éanna Hardwicke) para assumir o papel do corretor Martin e prospectar novos clientes para o viveiro. (Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: Viveiro / Vivarium
Direção: Lorcan Finnegan
Roteiro: Garret Shanley e Lorcan Finnegan
Elenco: Imogen Poots , Jesse Eisenberg, Jonathan Aris, Éanna Hardwicke, Senan Jennings, Danielle Ryan
Olga Wehrly — Mulher Chorando
Fotografia: MacGregor
Montagem: Tony Cranstoun
Trilha sonora: Kristian Eidnes Andersen
Direção de arte: Philip Murphy
Gênero: Ficção científica, suspense psicológico, horror
Duração: 97 minutos
Países de produção: Irlanda, Bélgica e Dinamarca
Idioma: Inglês
Ano de lançamento: 2019
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