O Princípio das ideias
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
A união de terror & sexo sem precisar drogas ou rock’n roll
Ninguém discute que o filme o Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), produzido e dirigido num ano mirabilis, é uma das obras mais ousadas de José Mojica Marins. É um filme antológico que mistura horror, com grotesco e crítica social, consolidando o estilo transgressor do cineasta e expandindo o imaginário em torno de Zé do Caixão, a partir de um roteiro de Rubens F. Lucchetti. Apesar de não ser tão celebrado quanto outras produções de Mojica, um dos mestres do terror, o longa é fundamental para entender sua estética e sua visão sobre a maldade
Com pouco mais de 80 minutos, filme é dividido em três episódios independentes, todos dirigidos por Mojica e começa com a história do O fabricante de bonecas, seguido de Taras, marcado por necrofilia e por fim Ideologia, que trata até de canibalismo e desvia do debate simplificado entre direita e esquerda roteirizado pela ditadura militar que governava o país, para um plano de sadomasoquismo e morte. O próprio Zé do Caixão tem papel de destaque no último bloco que tem como uma das referências os sete dias da criação do mundo a partir do Gênesis.
Mas tudo começa com questionamento :”quem sou eu? não interessa. Como também não interessa quem é você, ou melhor, não interessa quem somos. O que interessa em realidade em saber quem somos”, diz José Mojica Marins, ou melhor Zé do Caixão na introdução do filme, destacando que o que existe é a coragem e o medo definindo a própria existência e a morte inexorável, para concluir categoricamente que “se o terror o aprisiona, o terror é você!”
A história do O Fabricante de Bonecas começa com uma festa num bar e depois, mostra um artesão que fabricava bonecas e suas filhas como vítimas da ganância e violência de criminosos. A narrativa mistura inocência aparente com brutalidade, revelando a perversidade humana em busca de lucro, culminando com um assalto e estupro, mas termina de forma surpreendente e cabeças cortadas. É o episódio mais consistente do filme, com atmosfera de conto de fadas macabro e forte impacto visual, uma história que tem a ver com filmes como Dolly, a boneca maldita; Chucky ou Boneca do mal sobre bonecos e assassinatos.
Em Tara, vendedor de balões feio e solitário desenvolve um fetiche por pés e uma obsessão por uma jovem a quem segue como um stalking dos dias hodiernos. A jovem interpretada por Iris Bruzzi, acaba assassinada no dia do seu casamento e tudo termina em necrofilia com aranhas, cobras, ratos e lagartos da estética de terror zoológico de Zé do Caixão. É considerado em termos críticos o segmento mais problemático em termos de ritmo e direção, mas traz uma abordagem perturbadora sobre desejo, obsessão e os prazeres após morte.
O mais polêmico da série, Ideologia apresenta uma versão alternativa de Zé do Caixão como professor e um intelectual que participa de debates na TV discutindo valores e crenças, culminando em um desfecho brutal num jantar canibalesco onde sobram cabeças, pés e mãos,depois de uma série de sequências sobre sadomasoquismo e outras práticas nada heterodoxas. Cabe observar que Mojica produziu filmes pornôs nos anos 80 para sobreviver às dificuldades financeiras em função da censura do Despertar da Besta também conhecido como Ritual dos Sádicos e outras obras. É o capítulo mais explícito em termos de crítica social e filosófica, onde o horror serve de instrumento para confrontar ideias e convenções, refletindo sobre moralidade e poder.
Apesar de falhas técnicas em montagem, continuidade e som, o filme compensa com densidade temática e ousadia criativa.Mesmo sem o personagem clássico em todos os segmentos, o filme reforça a expansão do mito de Zé do Caixão como símbolo do terror ao tratar do mal e da reflexão sobre a condição humana. Já o roteirista Rubens F. Lucchetti ajudou a dar forma às histórias, consolidando uma parceria que seria marcante no terror brasileiro.
Vale lembrar que o título Estranho Mundo de Zé do Caixão se expandiu para quadrinhos e televisão, mostrando a força cultural da criação de Mojica, que conquistou projeção internacional com seus filmes terror.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: O Estranho Mundo de Zé do Caixão
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins e Rubens F. Lucchetti (roteiro/argumento)
Elenco : Luis Sérgio Person, Vanni Miller, Verônica Krimann, Iris Bruzzi e George Mishel, Arnaldo Brasil, José Mojica Marins, Osvaldo de Souza, Nidi Reis e Jean Silva
Fotografia : Jorge Atilli
Gênero: Terror; antologia (três episódios)
Formato: Preto e branco
Duração: 90 minutos
País: Brasil
Idioma: Português
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
As multiplas convergências entre Yojimbo, Por uns Dólares a Mais e O Último Matador
Embora produzidos e dirigidos cronologicamente em anos diferentes, há uma série de convergências entre Yojimbo (1961), obra-prima de Akira Kurosawa; Por uns dólares a mais (1965), de Sergio Leoni e O último matador (1996), de Walter Hill. Tudo começa pelo fato de que os três filmes que podem ser considerados cult movies, partilham um esqueleto narrativo idêntico, ou seja, o ronin/estranho/pistoleiro que chega a um microcosmo dominado por duas facções e as manipula até à autodestruição. A partir daí, convergem temas da modernidade como a ambiguidade moral, instrumentalização da violência como instrumento de poder, a corrupção e o uso do protagonista como agente disruptivo.
As diferenças de tom, gênero e contexto histórico reconfiguram, porém, o sentido político e estético desse mesmo núcleo narrativo de cada filme. A trama envolve um estranho que chega a uma cidade e manipula até a destruição das duas facções em disputa pelo poder, o que emerge em Yojimbo com a chegada de um ronin, uma espécie de samurai independente e fora do sistema, um modelo que Sergio Leoni transpõe para o western e associando à vingança de mais um personagem, o coronel Mortimer (Lee Van Cleef), com uma história à parte, enquanto Walter Hill promove a reaplicação do enredo nos Estados Unidos, na época da Lei Seca e da depressão provocada pela quebra da bolsa de Nova York.
Como ponto em comum, os três filmes apresentam um anti-herói ambiguo que opera fora da lei e distante dos limites morais, no primeiro caso, como um Ronin cínico e cuja expressão de maior força está no gestual. Em Por uns dólares a mais, emerge em Clint Eastwood um personagem sem nome Joe Doe (Zé Ninguém), mas mitificado e, no caso de O último pistoleiro, um personagem urbano e pragmático que opera visando o lucro e resultados imediatos. Nos três casos as sociedades refletem uma crise de valores e sérios problemas com o crime organizado.
Em termos de beats dramáticos, ou seja, a menor unidade de ação e reação dentro de uma cena, marcando uma pequena mudança de comportamento, tom ou objetivo, Yojimbo preserva e mantém todos os beats originais em termos de entrada, escalada até o confronto final. Já o spaghetti de Leoni mantém os beats e os estiliza para o cenário do farwest. O filme de Hill mantém os beats e moderniza a violência numa disputa de gangsters americanos.
Em termos temáticos, os três filmes convergem em termos de violência instrumental, corrupção e mostrando a moral ambígua do personagem central com todas as suas circunstâncias. Se em Yojimbo a crítica social é velada, o filme de cowboy, faz uma mitificação do indivíduo como um caçador de recompensas, enquanto o O último matador foca na violência sistêmica de uma sociedade corrupta e a luta do personagem pela sobrevivência.
No aspecto estético Kurozawa na sua obra prima privilegia o expectador com o uso do silêncio e des gestualidade, complementados com olhares e estabelecimento do climade tensão nas sequências. Por uns dólares a mais destaca os close-ups e a trilha sonora enquanto O último Matador oferece um ritmo de ação dinâmico e uma acústica urbana.
A questão é ver como a mesma ideia da sinopse inicial funciona em cada filme. Assim, Yojimbo a emerge como uma fábula é social e moral a partir da experiência do Japão derrotado após a Segunda Guerra Mundial, em que Kurosawa usa o ronin para expor decadência e hipocrisia, nesse caso a violência tem função crítica social e política. Em Por uns dólares a mais, Leone transforma a fábula em mito; e o caçador de recompensas vira figura quase mítica, a violência é estilizada e a trilha sonora de Enio Morricone eleva o tom épico, enquanto Hill desloca em O último pistoleiro a fabulação para o crime urbano; o foco é a eficiência do protagonista como operador num sistema corrupto, com violência mais explícita e menos lirismo mítico, agitado com os ventos da modernidade.
O que Yojimbo ensina em termos de plasticidade narrativa é que um núcleo dramático forte sobrevive a mudanças culturais e de gênero, como ocorreu nos dois remakes que o seguiram comn sucesso. Outra lição é de que o mesmo enredo pode servir para crítica social, mitificação individual ou exploração do crime urbano, dependendo de escolhas estéticas. O filme janponês também suscitou debates sobre a questão da autoria e ética no cinema, pois a semelhança entre Yojimbo e Por um punhado de dólares gerou debate legal e ético sobre créditos e apropriação, lembrando que inspirar e copiar têm fronteiras contestadas. Nesse caso tudo terminou com com um acordo nos tribunais internacionais.
Em termos práticos, as convergência entre os três filmes está também na estrutura e nos beats narrativos; a diferença está no que cada autor faz com esse esqueleto. Assim, Kurosawa o usa como fábula social, Leone como mito estilizado e Hill como thriller urbano. Nos três filmes os personagens centrais sobrevivem às disputas letais.
Em Yojimbo o ronin, Sanjuro (Toshiro Mifune); após provocar a destruição das gangues, recupera a ordem ambígua na vila e parte caminhando em direção a outra cidade. Em Por uns dólares a mais , o homem sem nome / Monco ou Joe Doe , que depois do duelo final, ferido, deixa a cidade vivo e enigmático. John Smith – cujo sobrenome pode ser referência à maior fábrica de armas americana – o pistoleiro interpretado por Bruce Willis vence os confrontos finais e sai da cidade, mantendo o arquétipo do errante.
Em termos gerais a violência aparece sempre como instrumento ambíguo. Primeiro, com o ronin age como corretivo para o crime organizado, pois ele destrói as facções corruptas, mas não por altruísmo puro; sua ação mistura lucro, ironia e um senso próprio de justiça com uma dose de mau-caractismo. Isso coloca em cena uma pergunta clássica, ou seja, até que ponto os fins justificam os meios? Kurosawa apresenta uma sociedade em colapso onde as instituições falham; o agente externo, o ronin, assume o papel de juiz e executor, expondo a fragilidade da ordem social e a falta de limites éticos e morais. O mesmo se aplica aos dois remakes que o seguiram em condições diversas o mesmo roteiro seja no western ou no tempo de leis seca.
Em todos os três filmes, o protagonista é um personagem errante que não se integra socialmente; sua ação salva a cidade, mas também a deixa dependente de violência externa uma reflexão mais ampla sobre o preço da ordem. Há ainda por trás da narrativa a discussão sobre a decadência moral e capitalismo emergente através da ganância dos chefes das quadrilhas locais transformando a cidade num microcosmo do que Kurosawa via na sociedade moderna, até como crítica à mercantilização das relações humanas e o consumo.
O confronto entre espada e revólver simboliza a erosão de códigos tradicionais da honra do samurai – bushido ou a lei do guerreiro – frente a tecnologias e práticas modernas que alteram a ética do combate. Numa interpretação cínica, Yojimbo é uma fantasia catártica em que a violência limpa o mal quando a lei falha e há um pessimismo prático sobre a ação política. O filme denuncia a banalização da violência e alerta que soluções individuais não substituem reformas sociais; assim vitória é ambígua e moralmente problemática.
Yojimbo e os remakes que o sucederam ensinam sobre o fato quando a ordem social se corrompe, a ação individual pode restaurar a paz, mas a paz alcançada é moralmente ambígua, ficando uma lição sobre os limites da justiça privada e sobre como a forma ou seja, o gesto, o silêncio e o mise‑en‑scène comunicam como filosofia e a política idológica tanto quanto o próprio enredo.
Uma constatação que fica é que a universalidade da trama prova que o mito do forasteiro manipulador é atemporal. Se em Yojimbo a figura solitária, vestindo kimono simples, armado com katana, representa o código samurai em decadência, mas ainda carrega ironia moral, já o homem sem nome de Por um punhado de dólares revela a transposição da trama para o faroeste e o mundo dos caçadores de recompensa.
Já Walter Hill não esconde a influência e que O último matador é praticamente uma refilmagem de Yojimbo, mas com roupagem americana. A interpretação de Bruce Willis reforça o arquétipo do anti-herói lacônico, mas sem a aura mítica de Clint Eastwood ou o peso filosófico de Kurosawa, o filme mostra como uma mesma narrativa pode atravessar culturas e épocas, adaptando-se a diferentes contextos sociais, estéticos e culturais.
Por fim, O último matador não tem o impacto cultural de Kurosawa ou Leone, mas funciona como um elo moderno dessa tradição, Bruce Willis entrega um anti-herói mais desencantado, refletindo os anos 1990, uma época marcada por cinismo e violência estilizada no cinema. Mas além de tudo vale observar também os diálogos da matriz de tudo em Yojimbo ou o Guarda-Costas, a tradução do nome do japonês para o português, quando o personagem eternizado por Toshiro Mifune declarou num diálogo impertinente: “acho que não há cura para a estupidez, exceto a morte.” (Kleber Torres)
Curta Baiano abre votação popular para escolher vencedores da Mostra Competitiva 2026
Votação começa em 5 de setembro e reúne 13 curtas produzidos por participantes da formação; público poderá montar seu ranking e ajudar a definir os três filmes que dividirão R$ 7 mil em prêmios. Entre os concorrentes está o filme itabunense A Moldura Vazia, com roteiro e participação especial de Cláudio Zumaeta, direção de Vitor Augusto Xavier.
Estrelado por Aldo Bastos, A moldura vazia narra a história de um homem isolado em um quarto de hotel, que vive imerso em um estado de apatia e desconexão existencial. Cercado por medicamentos, poucos pertences e molduras vazias, ele parece aprisionado dentro de sua própria mente. Entre realidade, alucinações e reflexos de si mesmo, sua percepção começa a se fragmentar, levando-o a confrontar o tempo, a velhice, a impermanência e o sentido da própria existência.
Votação
Depois de uma jornada de formação, criação e produção audiovisual, chegou a vez do público entrar em cena. A partir do dia 5 de setembro, o Curta Baiano 2026 abre oficialmente a votação popular de sua Mostra Competitiva, reunindo 13 curtas-metragens realizados por participantes da Oficina Online Curta Baiano.
As produções apresentam diferentes linguagens, gêneros e maneiras de contar histórias, passando pela ficção, animação, experimental, vídeo-poema e videoclipe. Com até cinco minutos de duração, os trabalhos foram produzidos em 2026 e representam diferentes olhares de novos realizadores sobre suas histórias, territórios, experiências e formas de fazer cinema.
A votação ficará aberta de 5 a 15 de setembro de 2026 e será realizada pela internet, na pagina https://www.curtabaiano.com.br/p/curtas.html permitindo que espectadores de qualquer lugar acompanhem a mostra e participem da escolha dos vencedores.
O público vira júri
Nesta etapa, quem assiste também ajuda a decidir o resultado.
Cada pessoa poderá participar uma única vez, organizando seus filmes preferidos em ordem de preferência. O eleitor deverá indicar obrigatoriamente seu 1º, 2º e 3º colocados e, se desejar, também poderá escolher um 4º e um 5º filme.
A votação utilizará um sistema de pontuação: o filme escolhido em primeiro lugar recebe 5 pontos; o segundo, 4 pontos; o terceiro, 3 pontos; o quarto, 2 pontos; e o quinto, 1 ponto.
Um mesmo curta não poderá ocupar mais de uma posição no voto de uma mesma pessoa.
A proposta é permitir que o público não apenas indique quais produções mais gostou, mas estabeleça uma verdadeira ordem de preferência entre os trabalhos da mostra.
R$ 7 mil em premiação
Ao final da votação, os pontos serão contabilizados para definição dos vencedores da Mostra Competitiva Curta Baiano 2026.
Os três primeiros colocados dividirão R$ 7 mil em prêmios:
🥇 1º lugar — R$ 3.000
🥈 2º lugar — R$ 2.500
🥉 3º lugar — R$ 1.500
O resultado final será divulgado no dia 25 de setembro de 2026.
Formação que chega às telas
A Mostra Competitiva representa a culminância de um processo que começou antes das câmeras serem ligadas.
O Curta Baiano foi estruturado a partir de três pilares — formação, produção e exibição — com o objetivo de fortalecer a produção audiovisual na Bahia, estimular novos realizadores e ampliar o acesso à criação e circulação de obras audiovisuais.
Após participarem da formação online, os alunos foram desafiados a transformar conhecimento em realização e produzir seus próprios curtas-metragens. Agora, essas obras deixam o ambiente da oficina e encontram seu destino fundamental: o público.
São histórias produzidas com diferentes estruturas, experiências e recursos, mas unidas pela possibilidade de transformar ideias em imagens e sons.
Assista antes de votar
Todos os 13 filmes da Mostra Competitiva estarão disponíveis na plataforma do Curta Baiano, acompanhados de informações sobre as obras e seus realizadores.
A organização convida o público a conhecer os trabalhos antes de registrar sua escolha, assistir às diferentes produções e só então montar seu ranking.
A votação começa em 5 de setembro e termina em 15 de setembro.
Mais do que escolher vencedores, cada voto representa também um incentivo a quem está dando novos passos na realização audiovisual e ajuda a ampliar a circulação do cinema produzido na Bahia.
Assista. Escolha. Vote.
A partir de 5 de setembro, o público entra em cena no Curta Baiano 2026.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
O que ocorre quando um homem assume dos dois lados numa guerra
O filme O Último Matador (Last Man Standing), de 1996, dirigido por Walter Hill, funciona como um desdobramento moderno e urbano de Por Uns Dólares a Mais e de Yojimbo, porque replica o mesmo esqueleto narrativo, ou seja, a história de um pistoleiro ou ronim, uma espécie samurai independente e sem mestre, que joga duas facções uma contra a outra num contexto diferente. A nova versão neo-western combina elementos do gangster movie com a estética do western spaghetti na Era da Lei Seca.
No epicentro da recessão americana no final dos anos 30, após a quebra da Bolsa de Nova York, o matador de aluguel John Smith (Bruce Willis) – o sobrenome sugestivo do personagem tem tudo a ver como referência à Smith & Wesson, nome da maior e mais tradicional fabricante americana de armas de fogo – se refugia numa pequena cidade isolada na fronteira com o México. Ali, gangs rivais disputam o controle do tráfico de bebidas durante a Lei Seca e visando tirar vantagem na disputa, Smith acaba plantando o estopim para deflagração de uma verdadeira guerra entre os grupos antagônicos que se destroem mutuamente .
Como se pode obsevar a mesma matriz dramática parte do modelo referecial de Yojimbo, em que um estranho chega numa cidade qualquer, oferece serviços a duas facções rivais e as faz colidir, mantendo os mesmos referenciais centrais de entrada, manipulação, escalada e confronto final. Essa continuidade estrutural é a base do desdobramento tanto do filme japonês, com a sua dramaticidade e violência implicita, que se transformou num cult movie, como também em Por Uns Dólares a Mais, que opera dentro do perfil de um spaghetti western com mitificação do pistoleiro, lirismo musical de Morricone e enquadramentos operísticos.
Nesse viés, Last Man Standing desloca a ação para 1930s Prohibition Texas, período da Lei Seca, aproximando‑a do film noir de gangster e enfatizando violência a urbana e a corrupção. O arquétipo do homem sem nome não é reconfigurado, assim, enquanto Leone estiliza o pistoleiro como mito lacônico; Walter Hill o transforma Bruce Willis em John Smith um operador pragmático e mais emocionalmente marcado, adequado ao cinema de ação dos anos 1990, confrontando com o grupo liderado pelo italiano Fredo Strozzi (Ned Eisenberg) e a quadrilha liderada pelo irlandês Sr. Doyle (David Patrick Kelly), que disputam a liderança do contrabando de bebidas na fronteira com o México.
A força do núcleo dramático permite transplantes culturais e de gênero sem perder coerência narrativa. Assim, o que muda é o subtexto de um conflito que se transfere de uma pequena cidade japonesa e da honra do ronin para o mito do Oeste americano e depois, para a corrupção urbana na América na época da Lei Seca. Mas se Leone transforma a história em mito; Hill usa a mesma trama para explorar violência sistêmica e ambiguidade moral num cenário de crime organizado e corrupto.
Mas ler Last Man Standing apenas como um mero remake simplifica as diferenças de subtexto e estética, pois cada uma das três versões reflete preocupações históricas e estéticas próprias. Mas como nas antigas histórias infantis vale lambrar para histórias cujo enredo de certa forma se repete e que “entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, o rei meu senhor, que me conte mais de quatro…(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título: O Último Matador / Last Man Standing
Direção e Roteiro : Walter Hill (baseado em Yojimbo de Ryûzô Kikushima e Akira Kurosawa)
Elenco : Bruce Willis; Christopher Walken; Bruce Dern; William Sanderson; David Patrick Kelly
Música : Ry Cooder
Fotografia : Lloyd Ahern
Montagem : Freeman A. Davies
Duração : 101 minutos
Origem : Estados Unidos
Ano : 1996
terça-feira, 1 de setembro de 2026
O Princípio das Ideias: um pequeno blog com vocação internacional
O Princípio das Ideias (principiodasideias.blogspot.com) apresenta um caso interessante de longevidade na blogosfera: são mais de dez anos de existência, 309 postagens e cerca de 33.031 acessos, com uma característica particularmente relevante para um veículo especializado, pois a audiência não está concentrada apenas no Brasil.
Há uma primeira conclusão que merece destaque: 33 mil acessos em pouco mais de uma década pode parecer um número modesto quando comparado aos grandes portais, mas é significativo para um blog especializado, de produção independente e com apenas 309 publicações.
O mais importante, entretanto, não é simplesmente o número absoluto de acessos. É a qualidade e a distribuição geográfica dessa audiência. A distribuição informada é:
País Acessos Participação aproximada
Brasil 8.490 25,7%
Hong Kong 6.090 18,4%
Singapura 4.630 14,0%
Estados Unidos 4.290 13,0%
Alemanha 1.020 3,1%
México 652 2,0%
Portugal 634 1,9%
Rússia 598 1,8%
França 482 1,5%
Outros 6.150 18,6%
Isso significa que aproximadamente três quartos dos acessos vêm de fora do Brasil. É um dado extraordinário para um blog brasileiro escrito essencialmente em português. Mais do que indicar simplesmente uma audiência estrangeira, essa distribuição sugere que o conteúdo cinematográfico possui qualidade e capacidade de circulação internacional, provavelmente favorecida pela natureza universal dos temas abordados: filmes, diretores, atores, obras clássicas e personagens que podem ser pesquisados mundialmente.
Há ainda uma peculiaridade: Hong Kong e Singapura aparecem à frente dos Estados Unidos. Isso merece investigação antes de ser interpretado automaticamente como audiência humana. Portanto, o dado é valioso, mas precisa ser qualificado. Outro indicador particularmente interessante é o comportamento recente: além dos 33.031 acessos acumulados; estao registrados 1.736 acessos em julho; e cerca de 2.500 em agosto.
Se esses números são comparáveis dentro da mesma métrica do Blogger, há um crescimento de aproximadamente 44% entre julho e agosto.Isso muda bastante a interpretação do blog. Não estamos diante apenas de um arquivo histórico de textos cinematográficos. Existe sinal de reativação ou aceleração da audiência.
O blog teria saído de uma lógica de acervo para uma possibilidade de crescimento. E esse é provavelmente o aspecto mais importante para o futuro do projeto. e 309 textos representam um patrimônio editorial Eles constituem um acervo digital especializado em cinema.
Se cada texto estiver associado a um filme, diretor, ator, gênero, período histórico ou tema cinematográfico, o blog possui algo que os algoritmos de busca valorizam: um conjunto temático relativamente coerente. Isso cria uma vantagem conhecida no ambiente digital como autoridade temática
Vale lembrar que m blog que publica sobre tudo pode ter muitos textos, mas dificuldade para estabelecer identidade. O Princípio das Ideias fez o contrário: construiu uma espécie de biblioteca cinematográfica digital e o conjunto de textos permite estabelecer inúmeras conexões internas sobre filme → diretor → ator → gênero → período → movimento cinematográfico → crítica → outros filmes. Essa arquitetura pode ser transformada em uma importante estratégia de SEO.
Conteúdo
O blog provavelmente possui um estoque de conteúdo muito maior do que sua capacidade atual de distribuição. É um problema comum entre blogs jornalísticos e culturais antigos. O jornalista produz, o texto permanece publicado. Mas o mecanismo de descoberta mudou, hoje, publicar um texto e esperar que o leitor encontre o conteúdo é insuficiente, pois, conteúdo precisa ser recirculado permanentemente.
Um artigo sobre um filme produzido há dez anos pode voltar a receber milhares de acessos se houver uma nova série, remake, morte de um ator, premiação, aniversário do diretor ou alguma discussão contemporânea relacionada à obra.
Cinema é especialmente favorável a esse mecanismo porque os filmes nunca desaparecem completamente da cultura. Assim, o o blog poderia ser organizado como uma cinemateca crítica digital.e há espaço para parcerias nesse projeto.
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
Qual o preço da morte onde a vida não tem valor?
“Onde a vida não tinha valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis porque surgiram os caçadores de recompensa”, essa informação considerada emblemática na história do cinema marca a abertura de Por uns dólares a mais (A Fistful of Dollars), de Sérgio Leoni, considerado um remake de Yojimbo (1961), de Akira Koroswa, que chegou às telas quatro anos depois da obra-prima japonesa. Ambos os filmes partilham do mesmo núcleo narrativo de uma trama em que um homem sem nome manipula duas facções rivais, mas ambos diferem em tom, contexto cultural e ênfase temática.
Apesar da rivalidade na disputa da recompensa, os dois caçadores decidem unir forças e se infiltrar no bando de El Indio para conseguirem seu intento. Tudo começa quando o caçador de recompensa Mortimer desce na estação de trem de uma pequena vila no deserto, onde pega o cartaz de um bandido procurado e em seguida, vai ao bar onde abate com um tiro um pistoleiro. Mortimer vê o cartaz de outro elemento da quadrilha de El Indio, ‘Baby’ Red Cavanaugh (José Marco), que também vinha sendo coincidentemente procurado por Manco.
A convergência está na estrutura dramática e nas cenas onde ocorre uma mudança de comportamento, de ação, revelação ou até mesmo numa pausa dos diálogos. Ambientado no Novo México e Texas, o filme foi rodado na região desértica de Almeria, na Espanha, cujos cenários tornaram-se uma atração turística para visitantes de vários países. A narrativa envolve dois caçadores de recompensas, Manco (Clint Eastwood) e o coronel Douglas Mortimer (LeeVan Cleff, que disputam o mesmo prêmio, a cabeça El Indio (Gian Maria Volonté), que fugiu de uma prisão e cuja captura vivo ou morto foi fixada em dez mil dólares e planejava com sua gang assaltar o banco de El Paso. A história também envolve uma vingaça a ser esclarecida no final do filme.
Em termos comparativos, “Yojimbo”, de Kurosawa, é um drama de ética que tem como ambientação uma vila feudal japonesa, retratando a época pré-moderna do Japão, com seu contexto social e hierárquico. Já “Por um punhado de dólares” tem como cenário uma cidade fronteiriça do velho oeste, sem lei e sem ordem, onde o vencedor é sempe aquele que saca primeiro.
No caso do filme japonês o protagonista Kuwabatake Sanjuro (Toshirô Mifune), é um ronin, personagem que se impõe pela gestualidade e marcado pela ambiguidade moral como um homem acima do bem e do mal, o que lhe confere uma aura nietzcheana. Já a versão spaghetti de 1965 tem como um dos personagens centrais um caçador de recompensas Clint Eastwood, o Manco, que num jogo de poquer responde laconicamente a um dos jogadores que diz não ter ouvido a sua aposta: “sua vida”, para em seguida sacar sua arma eexecutar os três dos envolvidos na disputa de cartas.
Em paralelo El Indio escapa da cadeia depois de matar com ajuda do seu bando quase todos os guardas do presídio, numa fuga planejada e o governo estabelece uma recompensa de US$ 10 mil pela sua recompensa, aguçando a caçada de Monco e Mortimer. Na fuga, El Indio se vinga matando um dos seus delatores que o havia entregue à polícia e retoma um relógio musical roubado por ele anos antes de uma mulher, que se suicidou ao ser estuprada após assistir o assasinato do seu marido.
Nas investigações para sua localização, Mortimer é informado que o facínora planejava o assalto a um banco de primeira classe e seguro, possivelmente em El Paso, a maior e mais importante cidade da região. Também para tentar localizá-lo, ele se associa a Manco, que tenta entrar para o bando do assaltante libertando um dos parceiros do vilão da prisão, para, num assalto a um banco em Santa Cruz, liquidar três integrantes da quadrilha que foram em sua companhia.
Manco também envia um telegrama ao xerife de El Paso informando dos planos do assalto ao banco local, mesmo assim usando explosivos, o bando explode a parede dos fundos do banco e leva o cofre, mas não consegue abri-lo. Enquanto isso, em Agua Caliente, um pequeno povoado numa área montanhosa, Mortimer liquida um dos integrantes da gang do El Indio que o reconheceu, e em seguida, oferece seus seus serviços ao grupo para a abertura do cofre roubado.
El Indio guarda o dinheiro prometendo dividi-lo em um mês. Manco e Mortimesr abrem o cofre, escondem o dinheiro, mas acabam sendo encontrados e torturados. Os dois conseguem escapar e fazem valer a vingança. Além de ganharem a recompensa pela morte dos bandidos mortos num confronto final, receberão uma recompensa pela recuperação do dinheiro roubado do banco. No final, é esclarecido o mistério do relógio musical, o que é uma outra história acrescentada ao enredo do remake que se tornou um clássico, ganhou vida própria e resultou numa ação judicial patrocinada por Kurosawa.
Em termos cronológicos, “Por Uns Dólares a Mais” é o segundo filme da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, sendo considerado um dos maiores spaghetti westerns já produzidos. Ele segue a linha de westerns italianos iniciada por “Por um Punhado de Dólares” e antecede “O Bom, o Mau e o Feio” e consolidou o western como gênero legítimo, influenciando outros cineastas como Quentin Tarantino. que unem violência, humor negro e ação nas suas narrativas cinematográficas.
A obra reúne no elenco Clint Eastwood e Lee Van Cleef como caçadores de recompensas que enfrentam o vilão El Indio, num elenco que reuniu nomes como os de Gian Maria Volonté e Klaus Kinski. Leone intensifica o uso de close-ups, planos longos e ritmo cadenciado, criando tensão quase operística e a trilha sonora assinada por Ennio Morricone eleva o filme com composições que se tornaram referência mundial.
A trama tem em comum a história de um estranho chega numa cidade em crise, percebe duas facções em disputa pelo poder, oferece serviços a ambas e as faz colidir, esse esqueleto é idêntico nas duas obras. O enredo replica a entrada do herói; jogo de favores e traições; escalada violenta; confronto final que aniquila as facções. Tanto em por “Uns dólares” a mais como em “Iojimbo”,há também em comum a economia minimalista de ação, marcada por cenas curtas e cortes secos que mantêm ritmo e suspense; mas explorando o silêncio e olhar como linguagem, mesmo quando no princípio era o verbo.(KLEBER TORRES)
Ficha técnica:
Título :Por uns Dólares a Mais (A Fistful of Dollars ou Per qualche dollaro in più )
Direção:Sergio Leone
Roteiro: Sergio Leone, Luciano Vincenzoni e Fulvio Morsella
Trilha sonora : Ennio Moriconi
Montagem: Giorgio Serrallonga
Duração : 132 minutos
Origem : Itália, Alemanha Ocidental e Espanha
Genero : Western, Drama
1965
terça-feira, 18 de agosto de 2026
Quando a velhice desafia a polícia, o tempo e a própria ideia de crime
Há uma ironia poderosa no ponto de partida do filme “O Grande Roubo” (2016), de Terry Lee Cooker, que também dirigiu “O Guarda de Auschwitz”, “O Tatuador” e “Hooligan Legacy”, os homens cujas idades somadas superam 400 anos e que protagonizam o assalto não têm o perfil convencional dos criminosos cinematográficos. Não são jovens, atléticos, violentos ou movidos pela adrenalina, mas homens envelhecidos, alquebrados, alguns já próximos dos 70 anos, carregando consigo uma longa experiência no mundo do crime. É justamente essa condição que transforma o filme em algo mais interessante do que um simples filme sobre assalto.
Baseado no caso real do roubo à Hatton Garden, em Londres, o filme acompanha um grupo de criminosos veteranos liderados por Brian Reader ( Sidney Livingstone) que associado a Basil (Michael McKell), especialista em alarmes e a um grupo de amigos para realizar aquilo que parece ser o golpe definitivo de suas vidas. A operação, executada em 2015, resultou em dezenas de milhões de libras em joias, dinheiro e outros valores roubados, mas, na maior parte não recuperados. O que interessa ao cinema, porém, não é apenas a dimensão financeira ou jornalística do roubo, mas a inversão de expectativas.
O primeiro mérito da história está justamente na idade provecta dos protagonistas. Enquanto o cinema policial construiu durante décadas uma mitologia em torno do criminoso jovem, associado com velocidade, força, armas, carros e fuga. O Grande Roubo substitui tudo isso por outra coisa, ou seja, a experiência desses homens que conhecem os bastidores e regras do mundo do crime porque passaram boa parte da vida dentro dele, por isso sabem planejar, esperar, observar e desconfiar. O assalto, portanto, não nasce de uma explosão de violência, mas de uma espécie de artesanato criminoso com o estudo de cada detalhe do golpe até a sua implementação num final de semana.
Essa característica aproxima o filme de uma tradição do cinema britânico de personagens marginais que envelheceram sem abandonar completamente o passado. Assim, o crime deixa de ser apenas uma atividade marginal e passa a funcionar como identidade, ele também deixa no ar uma questão fundamental, ou seja, o que acontece quando um homem envelhece, mas sua identidade continua presa ao passado? O grande roubo seria, então, uma espécie de última aventura rumo ao caminho da aposentadoria, da cadeia ou mesmo da morte.
Os personagens sabem que estão envelhecendo e o golpe pode ser interpretado como uma tentativa de transformar uma vida inteira de criminalidade em uma última grande vitória, portanto, não se trata apenas de roubar dinheiro, mas trata-se de deixar uma marca como um grande golpe de mestre. O título original, Hatton Garden: The Heist (O assalto de Hatton Garden), é mais objetivo, pois título brasileiro, O Grande Roubo, enfatiza a dimensão épica do acontecimento, e de fato, existe realmente algo de épico na ideia de um grupo de criminosos veteranos desafiar um sistema de segurança moderno e sofisticado para conseguir penetrar no coração financeiro de Londres.
Nesse sentido, o cofre representa mais do que dinheiro: representa a fortaleza do sistema e os velhos criminosos querem provar que ainda conseguem derrotá-lo. O elemento mais interessante da história talvez seja justamente o cofre, como metáfora de uma promessa de segurança absoluta, afinal, ele existe para dizer que determinados objetos estão protegidos contra o mundo exterior. O grupo, entretanto, demonstra que nenhuma segurança é absoluta e essa é uma das grandes ironias do filme revelando uma espécie de paradoxo, pois, quanto mais sofisticado é o sistema, maior parece ser o prazer de derrotá-lo. A operação transforma a invasão do cofre em uma espécie de duelo entre inteligência criminosa e tecnologia numa batalha entre duas gerações contra o próprio sistema inexpugnável.
De um lado, homens envelhecidos, aparentemente ultrapassados; do outro, alarmes, câmeras, sistemas eletrônicos e mecanismos de segurança e os velhos ainda vencem. Mas o filme ganha outra camada quando o roubo deixa de ser uma aventura e começa a produzir suas consequências, pois o grupo consegue realizar o golpe, mas não consegue administrar perfeitamente aquilo que vem depois e é aí que a narrativa desmonta a fantasia do crime perfeito, pois, problema nunca é apenas entrar é sair, e, principalmente, desaparecer com aquilo que foi roubado.
A polícia inglesa começa a reconstruir os movimentos dos envolvidos e gradativamente a investigação transforma pequenos erros em pistas que vão sendo exploradas pelos investigadores. Assim, a experiência acumulada pelos criminosos não é suficiente para neutralizar completamente a vigilância moderna e embora os homens que conseguiram derrotar um dos sistemas de segurança mais sofisticados de Londres acabam sendo derrotados por sua própria necessidade de continuar existindo depois do crime. A dimensão mais fascinante da história real está justamente no dinheiro que não foi recuperado, em que pese parte do grupo tenha admitido sua participação no crime e presa.
O certo é que parte substancial do produto do roubo jamais voltou para seus proprietários e a investigação conseguiu recuperar apenas uma parcela dos valores, enquanto uma quantidade significativa permaneceu desaparecida. Isso acrescenta ao caso uma espécie de epílogo policial que o cinema dificilmente consegue encerrar completamente, a prisão dos criminosos não significa necessariamente a recuperação da fortuna, mas onde está o dinheiro?
No final das contas O Grande Roubo adquire uma dimensão quase trágica, pois os homens vencem e perdem simultaneamente, vencem porque conseguem executar um dos assaltos mais espetaculares da história britânica, mas perdem porque terminam presos e identificados. Mas existe uma terceira possibilidade, pois, talvez tenham conseguido aquilo que realmente desejavam, ou seja, transformar suas próprias vidas em uma história, pois o crime passa a ser narrativa e a prisão não apaga o roubo, mas, pelo contrário, ajuda a transformá-lo em lenda. O filme O Homem que Matou o Facínora/ The man Who Shoot Liberty Valance(1962) de John Ford ensina que quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda.
O espectador sabe desde o princípio que está diante de criminosos, mas o cinema cria uma curiosa ambiguidade, pois, acompanhamos a inteligência do plano, admiramos a ousadia da sua execução, observamos a implementação e, inevitavelmente, somos colocados na posição de torcer pelo sucesso da operação. Esse é um dos mecanismos clássicos do filme de assalto e espectador sabe que o personagem está errado, mas quer descobrir se ele conseguirá vencer. A interrogação aparece num estranho personagem jovem, de paletó e gravata que aparece no começo do filme e que deixa no final um anel de brilhante roubado nas mãos de um esmolé idoso, o que ele teria afinal com o roubo? (Kleber Torres)
Ficha técnica:
Título : Hatton Garden: The Heist O Grande Roubo
Direção : Terry Lee Coker
Roteiro : Ian Burnfield, Terry Lee Coker e Michael McKell
Elenco : Michael McKell , Sidney Livingstone, Robert Putt, James Osborne, Sidney Kean, Ian Burfield, A.G. Longhurst, Richard Toone, Richard Duggins e Nicola Granada
Fotografia : Terry Lee Coker
Montagem : Terry Lee Coker
Gênero: Drama, ação, suspense
Música : Ian Wherry
Ano: 2016
País : Reino Unido
Idioma : Inglês
Duração : 87 minutos
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