O Princípio das ideias
quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Uma guerra irracional e inútil como todos os demais conflitos bélicos
Tendo como cenário os Estados Unidos num período distópico do futuro, o filme Guerra Civil (Civil War, 2024), de Alex Garland, pode ser lido menos como um filme convencional sobre uma guerra e mais como uma reflexão sobre o colapso da democracia, numa época de crescente autoritarismo global, que casa com a banalização da violência, a perda dos direitos fundamentais do cidadão e o papel ambíguo da imprensa diante da catástrofe numa sociedade em crise. Olhe que o filme coincide com um período em que se discute a perda da hegemonia militar e econômica americana, além da emergência de uma nova geopolítica global multipolar, que nos remete também ao paradoxo de Tucídides, o qual ocorre quando uma potência emergente ameaça substituir a dominante, o que também pode resultar numa outra guerra entre nações.
Guerra Civil começa com uma pergunta aparentemente simples: o que aconteceria se os Estados Unidos mergulhassem numa nova guerra civil? Mas Garland evita responder politicamente a essa questão e não explica exatamente como e por que o conflito começou, quais são as ideologias de cada lado ou afinal quem tem ou não razão. Essa ausência é aparentemente deliberada, pois o diretor parece interessado menos na causa da guerra do que na experiência de viver dentro dela, é como se o filme retirasse do espectador a segurança proporcionada pelas explicações políticas e o colocasse diante dele o resultado final, ou seja, uma sociedade na qual as instituições deixaram de funcionar e a violência passou a organizar a vida cotidiana.
A história envolve uma equipe de jornalistas especializados na cobertura de guerras, mas sem citar os veículos para os quais trabalham, entre os quais estão Lee (Kirsten Dunst), que iniciou sua carreira no cinema com OedipusWrecks, um curta metragem dirigido por Woody Allen, para a antologia New York Stories e seu colega de trabalho Joel (Wagner Moura), que viajam pelo país até Washington para registrar a dimensão de um conflito violento que tomou as ruas das cidades americanas. O problema é que o esforço de registros jornalísticos se transforma em uma guerra pela sobrevivência, quando eles também se tornam o alvo de franco atiradores a favor e contra o governo. O elenco conta ainda com nomes como Stephen McKinley Henderson (Sammy ) e Cailee Spaeny (Jessie), uma foca -jornalista iniciante – que representa uma nova geração de fotógrafos.
Um dos aspectos mais provocadores do filme é justamente não apresentar uma divisão política convencional entre esquerda e direita no conflito nestes tempos de polarização calcificada.Assim, os Estados Unidos aparecem fragmentados por diferentes forças, entre elas a chamada Western Forces, formada pelo Texas e Califórnia numa história começa com o presidente dos Estados Unidos (Nick Offerman), visivelmente enfraquecido, anunciando uma grande e expressiva vitória das forças legalistas.
Mas Garland não transforma essas facções em representantes de projetos políticos claramente definidos e o espectador não consegue escolher facilmente um lado, mostrando que guerra deixa de ser uma disputa de ideias para transformar-se em falência da convivência política e social, já os jornalista que não são identificados pelos jornais que trabalham, se tornam os personagens da tragédia que caberia a eles descrever. O filme constrói, através de uma narrativa lenta, com muitos planos gerais de estradas, campos, veículos incendiarios, helcópteros abatidos, mortes de militares e civis em tiroteios, além de execuções no varejo e no atacado, uma espécie de metalinguagem do jornalismo, mas não como quem narra a história, e sim como mero espectador factual da tragédia.
Um contraponto que fica para o espectador é que enquanto os soldados e milicianos (guerrilheiros) lutam para modificar uma realidade, os jornalistas lutam para registrá-la e a câmera fotográfica torna-se quase uma arma. Mas existe uma diferença fundamental: se a arma convencional serve para eliminar o adversário; a câmera deveria preservar os acontecimentos, fazendo o registro histórico da notícia.
Uma cena sugestiva, é a de uma loja que permanece aberta numa cidade marcada pela troca de tiros e oferece produtos aos jornalistas, mostrando que numa guerra civil a questão das pessoas desarmadas e não envolvidas é ficar fora do conflito. O coração humano do filme emerge na relação entre Lee, que já cobriu guerras, massacres e mortes, uma mulher que prendeu a sobreviver mantendo uma determinada distância emocionaldos fatos, enquanto Jessie representa o contrário, aparecendo como uma espectadora fascinada pela guerra e termina transformada pela experiência, ao ser jogada por guerrilheiros numa cova coletiva como se nadasse em meio a centenas de corpos.
Mas, fotografar uma guerra não significa apenas produzir uma boa imagem. significa também carregar aquela imagem depois que o combate termina, revelando as consequências de um conflito irracional, que rompe a distinção entre civilização e barbárie. No final A Casa Branca e Washington deixam de ser simplesmente um símbolo do poder americano, revelando-se uma imagem de desintegração institucional da instauração do caos.
Guerra Civil também radicaliza em relação à própria realidade, porque o conflito não acontece somente no território físico, mas e também na disputa pela imagem da realidade através das lentes dos jornalistas e das suas publicações na mídia. Assim, o filme dialoga diretamente com a crise contemporânea do jornalismo, o que envolve credibilidade e a qualidade da informação num mundo de fake news e de informações controlada, pois, numa guerra, a primeira vítima é a verdade.
Dessa forma Guerra Civil é um filme sobre guerra, mas também sobre jornalismo, o que envolve imagem, memória, polarização, colapso moral e institucional. No filme, as instituições desaparecem, a imagem gerada pelas câmeras torna-se uma das últimas testemunhas da realidade e deixa uma pergunta que ultrapassa os Estados Unidos da ficção e os demais países, pois quando uma sociedade dividida deixa de compartilhar os mesmos fatos, quanto tempo ainda falta para que deixe também de compartilhar o mesmo país? A obra também é relevante para pensar criticamente o cinema contemporâneo e também o futuro do jornalismo.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: Civil War (Guerra Civil)
Direção e Roteiro : Alex Garland
Elenco : Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny, Stephen McKinley Henderson, Nick Offerman, Jefferson White, Nelson Lee, Evan Lai.
Direção de fotografia: Rob Hardy
Montagem: Jake Roberts
Música: Geoff Barrow e Ben Salisbury
Direção de arte/design de produção: Caty Maxey
Ano: 2024
Gênero: drama político, ação, guerra, suspense e thriller
Duração: 109 minutos
Países: Estados Unidos, Reino Unido e Finlândia
Idioma: inglês
segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Uma referência definitiva para não deixar o blues morrer
Com 90 minutos de duração, o documentário Buddy Guy: The Blues Chase the Blues Away, que em português poderia ser traduzido literalmente como o blues afasta a melancolia e os males do coração, acompanha a trajetória de Buddy Guy, considerado historicamente um dos pilares do blues e do rock. Combinando imagens de arquivo, com depoimentos e performances inesquecíveis, a proposta do filme é documentar a história de um artista que ajudou a moldar como seus acordes e estilo personalíssimo o rock e o blues contemporâneos, e, ao mesmo tempo transmitir a força emocional, além da urgência para preservação e continuidade do próprio blues, que segundo ele foi trazido para a América nos porões dos navios negreiros.
O documentário opta por um ritmo que alterna entre momentos contemplativos e sequências vibrantes de shows nos Estados Unidos e na Inglaterra. Tudo começa com uma cena no campo, em que Buddy Guy fala da sua relação com a música, primeiro, ao ouvir o cantar dos pássaros na zona rural de Louisiana, onde a família vivia da colheita de algodão, e depois, ao ouvir John Lee Hooker (1917/2001), quando o blues virou e fez em definitivo a sua cabeça. Essa alternância funciona como uma de metrônomo, assim, quando a câmera se demora em memórias e entrevistas, o espectador respira; quando corta para o palco, ele é arremessado para a intensidade do som e à marcante trajetória musical de Buddy Guy.
A direção privilegia a intimidade e o informal, seja nos closes nas mãos, no rosto, nos instrumentos ou usando o contraste entre luzes de palco e cenas cotidianas para sublinhar a dicotomia entre a lenda pública e o homem privado, com passagens sobre a memória da sua infância até uma apresentação de gala na Casa Branca, com direito a uma palhinha do presidente Barack Obama. A cinematografia captura bem a textura do blues seja em grãos, suor do palco e rugas deixadas pelo tempo inexorável.
A trilha sonora, naturalmente, é o ponto alto estético do filme; as performances são filmadas com respeito ao som ao vivo, preservando a crueza e a dinâmica dos instrumentos e da voz dos artistas. O filme cumpre o papel de apresentar o guitarrista Buddy Guy como figura central na ponte entre o blues tradicional e o rock elétrico. Depoimentos de músicos, produtores e críticos ajudam a contextualizar sua influência ao longo do tempo como um artista inovador com mais de 50 anos de estrada.
Ainda assim, a obra poderia se beneficiar de uma investigação mais crítica sobre as contradições da indústria musical por exemplo, a exploração de artistas negros tratados como FDPs pelos donos de um estúdio, as dificuldades financeiras apesar do reconhecimento artístico que se consolidou a partir de relação entre Buddy com Muddy Waters, os Rolling Stones, Eric Clapton, Jimmy Page, Carlos Santana e outros músicos influentes ou mesmo tensões pessoais que moldaram sua carreira como a parceria proveitosa em termos criativos com Junior Wells, lendário gaitista e cantor, mas de quem acabou se afastando até a opção para o uso de guitarras com bolinhas.
Se as entrevistas formam a alma, sem dúvida alguma as sequências de shows são o coração do documentário. Buddy Guy aparece em plena forma, com solos que respiram e frases que parecem conversas íntimas, inclusive nas apresentações em pequenos clubes que começaram, a desaparecer nos anos 70 do século passado. Ele próprio montou o seu próprio clube na rua 43, o Checksboard Lounge, em Chicago, com 90 lugares, que numa apresentação dos Rolling Stones, recebeu apenas três privilegiados espectadores, uma vez que os demais lugares na plateia foram ocupados pela equipe de produção do espetáculo, além de seguranças, integrantes do grupo musical e outros astros convidados.
Há momentos em que a câmera se afasta para captar a reação do público, lembrando que o blues é tanto sobre quem toca quanto sobre quem escuta. Esses trechos justificam, por si só, a experiência de ver um filme em que a energia dos músicos e a técnica, se soma ao espetáculo. O mérito do filme rodado em 2019 foi preservar e celebrar uma lenda viva do blues e que seguiu o conselho de Muddy Waters para não deixá-lo perecer.
Buddy Guy: The Blues Chase the Blues Away ao mesmo tempo em que aponta as limitações pessoais de Buddy Guy, prevalece como uma celebração sonora e visual de um mestre que enriqueceu a música mantendo viva a chama do blues e ampliando as fronteiras do rock. A narrativa privilegia a experiência sensorial do som e a presença do artista no palco, oferecendo ao público mais que um simples registro audiovisual, mas um legado definitivo de um ícone da música.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: Buddy Guy: The Blues Chase the Blues Away
Direção: Michael John Warren
Elenco e participações: Buddy Guy, Eric Clapton, Jeff Beck, Carlos Santana, Mick Jagger
Gênero: Documentário musical / biográfico.
Duração: 90 minutos
Ano de lançamento: 2019
sexta-feira, 4 de setembro de 2026
A união de terror & sexo sem precisar drogas ou rock’n roll
Ninguém discute que o filme o Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), produzido e dirigido num ano mirabilis, é uma das obras mais ousadas de José Mojica Marins. É um filme antológico que mistura horror, com grotesco e crítica social, consolidando o estilo transgressor do cineasta e expandindo o imaginário em torno de Zé do Caixão, a partir de um roteiro de Rubens F. Lucchetti. Apesar de não ser tão celebrado quanto outras produções de Mojica, um dos mestres do terror, o longa é fundamental para entender sua estética e sua visão sobre a maldade
Com pouco mais de 80 minutos, filme é dividido em três episódios independentes, todos dirigidos por Mojica e começa com a história do O fabricante de bonecas, seguido de Taras, marcado por necrofilia e por fim Ideologia, que trata até de canibalismo e desvia do debate simplificado entre direita e esquerda roteirizado pela ditadura militar que governava o país, para um plano de sadomasoquismo e morte. O próprio Zé do Caixão tem papel de destaque no último bloco que tem como uma das referências os sete dias da criação do mundo a partir do Gênesis.
Mas tudo começa com questionamento :”quem sou eu? não interessa. Como também não interessa quem é você, ou melhor, não interessa quem somos. O que interessa em realidade em saber quem somos”, diz José Mojica Marins, ou melhor Zé do Caixão na introdução do filme, destacando que o que existe é a coragem e o medo definindo a própria existência e a morte inexorável, para concluir categoricamente que “se o terror o aprisiona, o terror é você!”
A história do O Fabricante de Bonecas começa com uma festa num bar e depois, mostra um artesão que fabricava bonecas e suas filhas como vítimas da ganância e violência de criminosos. A narrativa mistura inocência aparente com brutalidade, revelando a perversidade humana em busca de lucro, culminando com um assalto e estupro, mas termina de forma surpreendente e cabeças cortadas. É o episódio mais consistente do filme, com atmosfera de conto de fadas macabro e forte impacto visual, uma história que tem a ver com filmes como Dolly, a boneca maldita; Chucky ou Boneca do mal sobre bonecos e assassinatos.
Em Tara, vendedor de balões feio e solitário desenvolve um fetiche por pés e uma obsessão por uma jovem a quem segue como um stalking dos dias hodiernos. A jovem interpretada por Iris Bruzzi, acaba assassinada no dia do seu casamento e tudo termina em necrofilia com aranhas, cobras, ratos e lagartos da estética de terror zoológico de Zé do Caixão. É considerado em termos críticos o segmento mais problemático em termos de ritmo e direção, mas traz uma abordagem perturbadora sobre desejo, obsessão e os prazeres após morte.
O mais polêmico da série, Ideologia apresenta uma versão alternativa de Zé do Caixão como professor e um intelectual que participa de debates na TV discutindo valores e crenças, culminando em um desfecho brutal num jantar canibalesco onde sobram cabeças, pés e mãos,depois de uma série de sequências sobre sadomasoquismo e outras práticas nada heterodoxas. Cabe observar que Mojica produziu filmes pornôs nos anos 80 para sobreviver às dificuldades financeiras em função da censura do Despertar da Besta também conhecido como Ritual dos Sádicos e outras obras. É o capítulo mais explícito em termos de crítica social e filosófica, onde o horror serve de instrumento para confrontar ideias e convenções, refletindo sobre moralidade e poder.
Apesar de falhas técnicas em montagem, continuidade e som, o filme compensa com densidade temática e ousadia criativa.Mesmo sem o personagem clássico em todos os segmentos, o filme reforça a expansão do mito de Zé do Caixão como símbolo do terror ao tratar do mal e da reflexão sobre a condição humana. Já o roteirista Rubens F. Lucchetti ajudou a dar forma às histórias, consolidando uma parceria que seria marcante no terror brasileiro.
Vale lembrar que o título Estranho Mundo de Zé do Caixão se expandiu para quadrinhos e televisão, mostrando a força cultural da criação de Mojica, que conquistou projeção internacional com seus filmes terror.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: O Estranho Mundo de Zé do Caixão
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins e Rubens F. Lucchetti (roteiro/argumento)
Elenco : Luis Sérgio Person, Vanni Miller, Verônica Krimann, Iris Bruzzi e George Mishel, Arnaldo Brasil, José Mojica Marins, Osvaldo de Souza, Nidi Reis e Jean Silva
Fotografia : Jorge Atilli
Gênero: Terror; antologia (três episódios)
Formato: Preto e branco
Duração: 90 minutos
País: Brasil
Idioma: Português
quinta-feira, 3 de setembro de 2026
As multiplas convergências entre Yojimbo, Por uns Dólares a Mais e O Último Matador
Embora produzidos e dirigidos cronologicamente em anos diferentes, há uma série de convergências entre Yojimbo (1961), obra-prima de Akira Kurosawa; Por uns dólares a mais (1965), de Sergio Leoni e O último matador (1996), de Walter Hill. Tudo começa pelo fato de que os três filmes que podem ser considerados cult movies, partilham um esqueleto narrativo idêntico, ou seja, o ronin/estranho/pistoleiro que chega a um microcosmo dominado por duas facções e as manipula até à autodestruição. A partir daí, convergem temas da modernidade como a ambiguidade moral, instrumentalização da violência como instrumento de poder, a corrupção e o uso do protagonista como agente disruptivo.
As diferenças de tom, gênero e contexto histórico reconfiguram, porém, o sentido político e estético desse mesmo núcleo narrativo de cada filme. A trama envolve um estranho que chega a uma cidade e manipula até a destruição das duas facções em disputa pelo poder, o que emerge em Yojimbo com a chegada de um ronin, uma espécie de samurai independente e fora do sistema, um modelo que Sergio Leoni transpõe para o western e associando à vingança de mais um personagem, o coronel Mortimer (Lee Van Cleef), com uma história à parte, enquanto Walter Hill promove a reaplicação do enredo nos Estados Unidos, na época da Lei Seca e da depressão provocada pela quebra da bolsa de Nova York.
Como ponto em comum, os três filmes apresentam um anti-herói ambiguo que opera fora da lei e distante dos limites morais, no primeiro caso, como um Ronin cínico e cuja expressão de maior força está no gestual. Em Por uns dólares a mais, emerge em Clint Eastwood um personagem sem nome Joe Doe (Zé Ninguém), mas mitificado e, no caso de O último pistoleiro, um personagem urbano e pragmático que opera visando o lucro e resultados imediatos. Nos três casos as sociedades refletem uma crise de valores e sérios problemas com o crime organizado.
Em termos de beats dramáticos, ou seja, a menor unidade de ação e reação dentro de uma cena, marcando uma pequena mudança de comportamento, tom ou objetivo, Yojimbo preserva e mantém todos os beats originais em termos de entrada, escalada até o confronto final. Já o spaghetti de Leoni mantém os beats e os estiliza para o cenário do farwest. O filme de Hill mantém os beats e moderniza a violência numa disputa de gangsters americanos.
Em termos temáticos, os três filmes convergem em termos de violência instrumental, corrupção e mostrando a moral ambígua do personagem central com todas as suas circunstâncias. Se em Yojimbo a crítica social é velada, o filme de cowboy, faz uma mitificação do indivíduo como um caçador de recompensas, enquanto o O último matador foca na violência sistêmica de uma sociedade corrupta e a luta do personagem pela sobrevivência.
No aspecto estético Kurozawa na sua obra prima privilegia o expectador com o uso do silêncio e des gestualidade, complementados com olhares e estabelecimento do climade tensão nas sequências. Por uns dólares a mais destaca os close-ups e a trilha sonora enquanto O último Matador oferece um ritmo de ação dinâmico e uma acústica urbana.
A questão é ver como a mesma ideia da sinopse inicial funciona em cada filme. Assim, Yojimbo a emerge como uma fábula é social e moral a partir da experiência do Japão derrotado após a Segunda Guerra Mundial, em que Kurosawa usa o ronin para expor decadência e hipocrisia, nesse caso a violência tem função crítica social e política. Em Por uns dólares a mais, Leone transforma a fábula em mito; e o caçador de recompensas vira figura quase mítica, a violência é estilizada e a trilha sonora de Enio Morricone eleva o tom épico, enquanto Hill desloca em O último pistoleiro a fabulação para o crime urbano; o foco é a eficiência do protagonista como operador num sistema corrupto, com violência mais explícita e menos lirismo mítico, agitado com os ventos da modernidade.
O que Yojimbo ensina em termos de plasticidade narrativa é que um núcleo dramático forte sobrevive a mudanças culturais e de gênero, como ocorreu nos dois remakes que o seguiram comn sucesso. Outra lição é de que o mesmo enredo pode servir para crítica social, mitificação individual ou exploração do crime urbano, dependendo de escolhas estéticas. O filme janponês também suscitou debates sobre a questão da autoria e ética no cinema, pois a semelhança entre Yojimbo e Por um punhado de dólares gerou debate legal e ético sobre créditos e apropriação, lembrando que inspirar e copiar têm fronteiras contestadas. Nesse caso tudo terminou com com um acordo nos tribunais internacionais.
Em termos práticos, as convergência entre os três filmes está também na estrutura e nos beats narrativos; a diferença está no que cada autor faz com esse esqueleto. Assim, Kurosawa o usa como fábula social, Leone como mito estilizado e Hill como thriller urbano. Nos três filmes os personagens centrais sobrevivem às disputas letais.
Em Yojimbo o ronin, Sanjuro (Toshiro Mifune); após provocar a destruição das gangues, recupera a ordem ambígua na vila e parte caminhando em direção a outra cidade. Em Por uns dólares a mais , o homem sem nome / Monco ou Joe Doe , que depois do duelo final, ferido, deixa a cidade vivo e enigmático. John Smith – cujo sobrenome pode ser referência à maior fábrica de armas americana – o pistoleiro interpretado por Bruce Willis vence os confrontos finais e sai da cidade, mantendo o arquétipo do errante.
Em termos gerais a violência aparece sempre como instrumento ambíguo. Primeiro, com o ronin age como corretivo para o crime organizado, pois ele destrói as facções corruptas, mas não por altruísmo puro; sua ação mistura lucro, ironia e um senso próprio de justiça com uma dose de mau-caractismo. Isso coloca em cena uma pergunta clássica, ou seja, até que ponto os fins justificam os meios? Kurosawa apresenta uma sociedade em colapso onde as instituições falham; o agente externo, o ronin, assume o papel de juiz e executor, expondo a fragilidade da ordem social e a falta de limites éticos e morais. O mesmo se aplica aos dois remakes que o seguiram em condições diversas o mesmo roteiro seja no western ou no tempo de leis seca.
Em todos os três filmes, o protagonista é um personagem errante que não se integra socialmente; sua ação salva a cidade, mas também a deixa dependente de violência externa uma reflexão mais ampla sobre o preço da ordem. Há ainda por trás da narrativa a discussão sobre a decadência moral e capitalismo emergente através da ganância dos chefes das quadrilhas locais transformando a cidade num microcosmo do que Kurosawa via na sociedade moderna, até como crítica à mercantilização das relações humanas e o consumo.
O confronto entre espada e revólver simboliza a erosão de códigos tradicionais da honra do samurai – bushido ou a lei do guerreiro – frente a tecnologias e práticas modernas que alteram a ética do combate. Numa interpretação cínica, Yojimbo é uma fantasia catártica em que a violência limpa o mal quando a lei falha e há um pessimismo prático sobre a ação política. O filme denuncia a banalização da violência e alerta que soluções individuais não substituem reformas sociais; assim vitória é ambígua e moralmente problemática.
Yojimbo e os remakes que o sucederam ensinam sobre o fato quando a ordem social se corrompe, a ação individual pode restaurar a paz, mas a paz alcançada é moralmente ambígua, ficando uma lição sobre os limites da justiça privada e sobre como a forma ou seja, o gesto, o silêncio e o mise‑en‑scène comunicam como filosofia e a política idológica tanto quanto o próprio enredo.
Uma constatação que fica é que a universalidade da trama prova que o mito do forasteiro manipulador é atemporal. Se em Yojimbo a figura solitária, vestindo kimono simples, armado com katana, representa o código samurai em decadência, mas ainda carrega ironia moral, já o homem sem nome de Por um punhado de dólares revela a transposição da trama para o faroeste e o mundo dos caçadores de recompensa.
Já Walter Hill não esconde a influência e que O último matador é praticamente uma refilmagem de Yojimbo, mas com roupagem americana. A interpretação de Bruce Willis reforça o arquétipo do anti-herói lacônico, mas sem a aura mítica de Clint Eastwood ou o peso filosófico de Kurosawa, o filme mostra como uma mesma narrativa pode atravessar culturas e épocas, adaptando-se a diferentes contextos sociais, estéticos e culturais.
Por fim, O último matador não tem o impacto cultural de Kurosawa ou Leone, mas funciona como um elo moderno dessa tradição, Bruce Willis entrega um anti-herói mais desencantado, refletindo os anos 1990, uma época marcada por cinismo e violência estilizada no cinema. Mas além de tudo vale observar também os diálogos da matriz de tudo em Yojimbo ou o Guarda-Costas, a tradução do nome do japonês para o português, quando o personagem eternizado por Toshiro Mifune declarou num diálogo impertinente: “acho que não há cura para a estupidez, exceto a morte.” (Kleber Torres)
Curta Baiano abre votação popular para escolher vencedores da Mostra Competitiva 2026
Votação começa em 5 de setembro e reúne 13 curtas produzidos por participantes da formação; público poderá montar seu ranking e ajudar a definir os três filmes que dividirão R$ 7 mil em prêmios. Entre os concorrentes está o filme itabunense A Moldura Vazia, com roteiro e participação especial de Cláudio Zumaeta, direção de Vitor Augusto Xavier.
Estrelado por Aldo Bastos, A moldura vazia narra a história de um homem isolado em um quarto de hotel, que vive imerso em um estado de apatia e desconexão existencial. Cercado por medicamentos, poucos pertences e molduras vazias, ele parece aprisionado dentro de sua própria mente. Entre realidade, alucinações e reflexos de si mesmo, sua percepção começa a se fragmentar, levando-o a confrontar o tempo, a velhice, a impermanência e o sentido da própria existência.
Votação
Depois de uma jornada de formação, criação e produção audiovisual, chegou a vez do público entrar em cena. A partir do dia 5 de setembro, o Curta Baiano 2026 abre oficialmente a votação popular de sua Mostra Competitiva, reunindo 13 curtas-metragens realizados por participantes da Oficina Online Curta Baiano.
As produções apresentam diferentes linguagens, gêneros e maneiras de contar histórias, passando pela ficção, animação, experimental, vídeo-poema e videoclipe. Com até cinco minutos de duração, os trabalhos foram produzidos em 2026 e representam diferentes olhares de novos realizadores sobre suas histórias, territórios, experiências e formas de fazer cinema.
A votação ficará aberta de 5 a 15 de setembro de 2026 e será realizada pela internet, na pagina https://www.curtabaiano.com.br/p/curtas.html permitindo que espectadores de qualquer lugar acompanhem a mostra e participem da escolha dos vencedores.
O público vira júri
Nesta etapa, quem assiste também ajuda a decidir o resultado.
Cada pessoa poderá participar uma única vez, organizando seus filmes preferidos em ordem de preferência. O eleitor deverá indicar obrigatoriamente seu 1º, 2º e 3º colocados e, se desejar, também poderá escolher um 4º e um 5º filme.
A votação utilizará um sistema de pontuação: o filme escolhido em primeiro lugar recebe 5 pontos; o segundo, 4 pontos; o terceiro, 3 pontos; o quarto, 2 pontos; e o quinto, 1 ponto.
Um mesmo curta não poderá ocupar mais de uma posição no voto de uma mesma pessoa.
A proposta é permitir que o público não apenas indique quais produções mais gostou, mas estabeleça uma verdadeira ordem de preferência entre os trabalhos da mostra.
R$ 7 mil em premiação
Ao final da votação, os pontos serão contabilizados para definição dos vencedores da Mostra Competitiva Curta Baiano 2026.
Os três primeiros colocados dividirão R$ 7 mil em prêmios:
🥇 1º lugar — R$ 3.000
🥈 2º lugar — R$ 2.500
🥉 3º lugar — R$ 1.500
O resultado final será divulgado no dia 25 de setembro de 2026.
Formação que chega às telas
A Mostra Competitiva representa a culminância de um processo que começou antes das câmeras serem ligadas.
O Curta Baiano foi estruturado a partir de três pilares — formação, produção e exibição — com o objetivo de fortalecer a produção audiovisual na Bahia, estimular novos realizadores e ampliar o acesso à criação e circulação de obras audiovisuais.
Após participarem da formação online, os alunos foram desafiados a transformar conhecimento em realização e produzir seus próprios curtas-metragens. Agora, essas obras deixam o ambiente da oficina e encontram seu destino fundamental: o público.
São histórias produzidas com diferentes estruturas, experiências e recursos, mas unidas pela possibilidade de transformar ideias em imagens e sons.
Assista antes de votar
Todos os 13 filmes da Mostra Competitiva estarão disponíveis na plataforma do Curta Baiano, acompanhados de informações sobre as obras e seus realizadores.
A organização convida o público a conhecer os trabalhos antes de registrar sua escolha, assistir às diferentes produções e só então montar seu ranking.
A votação começa em 5 de setembro e termina em 15 de setembro.
Mais do que escolher vencedores, cada voto representa também um incentivo a quem está dando novos passos na realização audiovisual e ajuda a ampliar a circulação do cinema produzido na Bahia.
Assista. Escolha. Vote.
A partir de 5 de setembro, o público entra em cena no Curta Baiano 2026.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
O que ocorre quando um homem assume dos dois lados numa guerra
O filme O Último Matador (Last Man Standing), de 1996, dirigido por Walter Hill, funciona como um desdobramento moderno e urbano de Por Uns Dólares a Mais e de Yojimbo, porque replica o mesmo esqueleto narrativo, ou seja, a história de um pistoleiro ou ronim, uma espécie samurai independente e sem mestre, que joga duas facções uma contra a outra num contexto diferente. A nova versão neo-western combina elementos do gangster movie com a estética do western spaghetti na Era da Lei Seca.
No epicentro da recessão americana no final dos anos 30, após a quebra da Bolsa de Nova York, o matador de aluguel John Smith (Bruce Willis) – o sobrenome sugestivo do personagem tem tudo a ver como referência à Smith & Wesson, nome da maior e mais tradicional fabricante americana de armas de fogo – se refugia numa pequena cidade isolada na fronteira com o México. Ali, gangs rivais disputam o controle do tráfico de bebidas durante a Lei Seca e visando tirar vantagem na disputa, Smith acaba plantando o estopim para deflagração de uma verdadeira guerra entre os grupos antagônicos que se destroem mutuamente .
Como se pode obsevar a mesma matriz dramática parte do modelo referecial de Yojimbo, em que um estranho chega numa cidade qualquer, oferece serviços a duas facções rivais e as faz colidir, mantendo os mesmos referenciais centrais de entrada, manipulação, escalada e confronto final. Essa continuidade estrutural é a base do desdobramento tanto do filme japonês, com a sua dramaticidade e violência implicita, que se transformou num cult movie, como também em Por Uns Dólares a Mais, que opera dentro do perfil de um spaghetti western com mitificação do pistoleiro, lirismo musical de Morricone e enquadramentos operísticos.
Nesse viés, Last Man Standing desloca a ação para 1930s Prohibition Texas, período da Lei Seca, aproximando‑a do film noir de gangster e enfatizando violência a urbana e a corrupção. O arquétipo do homem sem nome não é reconfigurado, assim, enquanto Leone estiliza o pistoleiro como mito lacônico; Walter Hill o transforma Bruce Willis em John Smith um operador pragmático e mais emocionalmente marcado, adequado ao cinema de ação dos anos 1990, confrontando com o grupo liderado pelo italiano Fredo Strozzi (Ned Eisenberg) e a quadrilha liderada pelo irlandês Sr. Doyle (David Patrick Kelly), que disputam a liderança do contrabando de bebidas na fronteira com o México.
A força do núcleo dramático permite transplantes culturais e de gênero sem perder coerência narrativa. Assim, o que muda é o subtexto de um conflito que se transfere de uma pequena cidade japonesa e da honra do ronin para o mito do Oeste americano e depois, para a corrupção urbana na América na época da Lei Seca. Mas se Leone transforma a história em mito; Hill usa a mesma trama para explorar violência sistêmica e ambiguidade moral num cenário de crime organizado e corrupto.
Mas ler Last Man Standing apenas como um mero remake simplifica as diferenças de subtexto e estética, pois cada uma das três versões reflete preocupações históricas e estéticas próprias. Mas como nas antigas histórias infantis vale lambrar para histórias cujo enredo de certa forma se repete e que “entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, o rei meu senhor, que me conte mais de quatro…(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título: O Último Matador / Last Man Standing
Direção e Roteiro : Walter Hill (baseado em Yojimbo de Ryûzô Kikushima e Akira Kurosawa)
Elenco : Bruce Willis; Christopher Walken; Bruce Dern; William Sanderson; David Patrick Kelly
Música : Ry Cooder
Fotografia : Lloyd Ahern
Montagem : Freeman A. Davies
Duração : 101 minutos
Origem : Estados Unidos
Ano : 1996
terça-feira, 1 de setembro de 2026
O Princípio das Ideias: um pequeno blog com vocação internacional
O Princípio das Ideias (principiodasideias.blogspot.com) apresenta um caso interessante de longevidade na blogosfera: são mais de dez anos de existência, 309 postagens e cerca de 33.031 acessos, com uma característica particularmente relevante para um veículo especializado, pois a audiência não está concentrada apenas no Brasil.
Há uma primeira conclusão que merece destaque: 33 mil acessos em pouco mais de uma década pode parecer um número modesto quando comparado aos grandes portais, mas é significativo para um blog especializado, de produção independente e com apenas 309 publicações.
O mais importante, entretanto, não é simplesmente o número absoluto de acessos. É a qualidade e a distribuição geográfica dessa audiência. A distribuição informada é:
País Acessos Participação aproximada
Brasil 8.490 25,7%
Hong Kong 6.090 18,4%
Singapura 4.630 14,0%
Estados Unidos 4.290 13,0%
Alemanha 1.020 3,1%
México 652 2,0%
Portugal 634 1,9%
Rússia 598 1,8%
França 482 1,5%
Outros 6.150 18,6%
Isso significa que aproximadamente três quartos dos acessos vêm de fora do Brasil. É um dado extraordinário para um blog brasileiro escrito essencialmente em português. Mais do que indicar simplesmente uma audiência estrangeira, essa distribuição sugere que o conteúdo cinematográfico possui qualidade e capacidade de circulação internacional, provavelmente favorecida pela natureza universal dos temas abordados: filmes, diretores, atores, obras clássicas e personagens que podem ser pesquisados mundialmente.
Há ainda uma peculiaridade: Hong Kong e Singapura aparecem à frente dos Estados Unidos. Isso merece investigação antes de ser interpretado automaticamente como audiência humana. Portanto, o dado é valioso, mas precisa ser qualificado. Outro indicador particularmente interessante é o comportamento recente: além dos 33.031 acessos acumulados; estao registrados 1.736 acessos em julho; e cerca de 2.500 em agosto.
Se esses números são comparáveis dentro da mesma métrica do Blogger, há um crescimento de aproximadamente 44% entre julho e agosto.Isso muda bastante a interpretação do blog. Não estamos diante apenas de um arquivo histórico de textos cinematográficos. Existe sinal de reativação ou aceleração da audiência.
O blog teria saído de uma lógica de acervo para uma possibilidade de crescimento. E esse é provavelmente o aspecto mais importante para o futuro do projeto. e 309 textos representam um patrimônio editorial Eles constituem um acervo digital especializado em cinema.
Se cada texto estiver associado a um filme, diretor, ator, gênero, período histórico ou tema cinematográfico, o blog possui algo que os algoritmos de busca valorizam: um conjunto temático relativamente coerente. Isso cria uma vantagem conhecida no ambiente digital como autoridade temática
Vale lembrar que m blog que publica sobre tudo pode ter muitos textos, mas dificuldade para estabelecer identidade. O Princípio das Ideias fez o contrário: construiu uma espécie de biblioteca cinematográfica digital e o conjunto de textos permite estabelecer inúmeras conexões internas sobre filme → diretor → ator → gênero → período → movimento cinematográfico → crítica → outros filmes. Essa arquitetura pode ser transformada em uma importante estratégia de SEO.
Conteúdo
O blog provavelmente possui um estoque de conteúdo muito maior do que sua capacidade atual de distribuição. É um problema comum entre blogs jornalísticos e culturais antigos. O jornalista produz, o texto permanece publicado. Mas o mecanismo de descoberta mudou, hoje, publicar um texto e esperar que o leitor encontre o conteúdo é insuficiente, pois, conteúdo precisa ser recirculado permanentemente.
Um artigo sobre um filme produzido há dez anos pode voltar a receber milhares de acessos se houver uma nova série, remake, morte de um ator, premiação, aniversário do diretor ou alguma discussão contemporânea relacionada à obra.
Cinema é especialmente favorável a esse mecanismo porque os filmes nunca desaparecem completamente da cultura. Assim, o o blog poderia ser organizado como uma cinemateca crítica digital.e há espaço para parcerias nesse projeto.
Assinar:
Postagens (Atom)




