quinta-feira, 3 de setembro de 2026
As multiplas convergências entre Yojimbo, Por uns Dólares a Mais e O Último Matador
Embora produzidos e dirigidos cronologicamente em anos diferentes, há uma série de convergências entre Yojimbo (1961), obra-prima de Akira Kurosawa; Por uns dólares a mais (1965), de Sergio Leoni e O último matador (1996), de Walter Hill. Tudo começa pelo fato de que os três filmes que podem ser considerados cult movies, partilham um esqueleto narrativo idêntico, ou seja, o ronin/estranho/pistoleiro que chega a um microcosmo dominado por duas facções e as manipula até à autodestruição. A partir daí, convergem temas da modernidade como a ambiguidade moral, instrumentalização da violência como instrumento de poder, a corrupção e o uso do protagonista como agente disruptivo.
As diferenças de tom, gênero e contexto histórico reconfiguram, porém, o sentido político e estético desse mesmo núcleo narrativo de cada filme. A trama envolve um estranho que chega a uma cidade e manipula até a destruição das duas facções em disputa pelo poder, o que emerge em Yojimbo com a chegada de um ronin, uma espécie de samurai independente e fora do sistema, um modelo que Sergio Leoni transpõe para o western e associando à vingança de mais um personagem, o coronel Mortimer (Lee Van Cleef), com uma história à parte, enquanto Walter Hill promove a reaplicação do enredo nos Estados Unidos, na época da Lei Seca e da depressão provocada pela quebra da bolsa de Nova York.
Como ponto em comum, os três filmes apresentam um anti-herói ambiguo que opera fora da lei e distante dos limites morais, no primeiro caso, como um Ronin cínico e cuja expressão de maior força está no gestual. Em Por uns dólares a mais, emerge em Clint Eastwood um personagem sem nome Joe Doe (Zé Ninguém), mas mitificado e, no caso de O último pistoleiro, um personagem urbano e pragmático que opera visando o lucro e resultados imediatos. Nos três casos as sociedades refletem uma crise de valores e sérios problemas com o crime organizado.
Em termos de beats dramáticos, ou seja, a menor unidade de ação e reação dentro de uma cena, marcando uma pequena mudança de comportamento, tom ou objetivo, Yojimbo preserva e mantém todos os beats originais em termos de entrada, escalada até o confronto final. Já o spaghetti de Leoni mantém os beats e os estiliza para o cenário do farwest. O filme de Hill mantém os beats e moderniza a violência numa disputa de gangsters americanos.
Em termos temáticos, os três filmes convergem em termos de violência instrumental, corrupção e mostrando a moral ambígua do personagem central com todas as suas circunstâncias. Se em Yojimbo a crítica social é velada, o filme de cowboy, faz uma mitificação do indivíduo como um caçador de recompensas, enquanto o O último matador foca na violência sistêmica de uma sociedade corrupta e a luta do personagem pela sobrevivência.
No aspecto estético Kurozawa na sua obra prima privilegia o expectador com o uso do silêncio e des gestualidade, complementados com olhares e estabelecimento do climade tensão nas sequências. Por uns dólares a mais destaca os close-ups e a trilha sonora enquanto O último Matador oferece um ritmo de ação dinâmico e uma acústica urbana.
A questão é ver como a mesma ideia da sinopse inicial funciona em cada filme. Assim, Yojimbo a emerge como uma fábula é social e moral a partir da experiência do Japão derrotado após a Segunda Guerra Mundial, em que Kurosawa usa o ronin para expor decadência e hipocrisia, nesse caso a violência tem função crítica social e política. Em Por uns dólares a mais, Leone transforma a fábula em mito; e o caçador de recompensas vira figura quase mítica, a violência é estilizada e a trilha sonora de Enio Morricone eleva o tom épico, enquanto Hill desloca em O último pistoleiro a fabulação para o crime urbano; o foco é a eficiência do protagonista como operador num sistema corrupto, com violência mais explícita e menos lirismo mítico, agitado com os ventos da modernidade.
O que Yojimbo ensina em termos de plasticidade narrativa é que um núcleo dramático forte sobrevive a mudanças culturais e de gênero, como ocorreu nos dois remakes que o seguiram comn sucesso. Outra lição é de que o mesmo enredo pode servir para crítica social, mitificação individual ou exploração do crime urbano, dependendo de escolhas estéticas. O filme janponês também suscitou debates sobre a questão da autoria e ética no cinema, pois a semelhança entre Yojimbo e Por um punhado de dólares gerou debate legal e ético sobre créditos e apropriação, lembrando que inspirar e copiar têm fronteiras contestadas. Nesse caso tudo terminou com com um acordo nos tribunais internacionais.
Em termos práticos, as convergência entre os três filmes está também na estrutura e nos beats narrativos; a diferença está no que cada autor faz com esse esqueleto. Assim, Kurosawa o usa como fábula social, Leone como mito estilizado e Hill como thriller urbano. Nos três filmes os personagens centrais sobrevivem às disputas letais.
Em Yojimbo o ronin, Sanjuro (Toshiro Mifune); após provocar a destruição das gangues, recupera a ordem ambígua na vila e parte caminhando em direção a outra cidade. Em Por uns dólares a mais , o homem sem nome / Monco ou Joe Doe , que depois do duelo final, ferido, deixa a cidade vivo e enigmático. John Smith – cujo sobrenome pode ser referência à maior fábrica de armas americana – o pistoleiro interpretado por Bruce Willis vence os confrontos finais e sai da cidade, mantendo o arquétipo do errante.
Em termos gerais a violência aparece sempre como instrumento ambíguo. Primeiro, com o ronin age como corretivo para o crime organizado, pois ele destrói as facções corruptas, mas não por altruísmo puro; sua ação mistura lucro, ironia e um senso próprio de justiça com uma dose de mau-caractismo. Isso coloca em cena uma pergunta clássica, ou seja, até que ponto os fins justificam os meios? Kurosawa apresenta uma sociedade em colapso onde as instituições falham; o agente externo, o ronin, assume o papel de juiz e executor, expondo a fragilidade da ordem social e a falta de limites éticos e morais. O mesmo se aplica aos dois remakes que o seguiram em condições diversas o mesmo roteiro seja no western ou no tempo de leis seca.
Em todos os três filmes, o protagonista é um personagem errante que não se integra socialmente; sua ação salva a cidade, mas também a deixa dependente de violência externa uma reflexão mais ampla sobre o preço da ordem. Há ainda por trás da narrativa a discussão sobre a decadência moral e capitalismo emergente através da ganância dos chefes das quadrilhas locais transformando a cidade num microcosmo do que Kurosawa via na sociedade moderna, até como crítica à mercantilização das relações humanas e o consumo.
O confronto entre espada e revólver simboliza a erosão de códigos tradicionais da honra do samurai – bushido ou a lei do guerreiro – frente a tecnologias e práticas modernas que alteram a ética do combate. Numa interpretação cínica, Yojimbo é uma fantasia catártica em que a violência limpa o mal quando a lei falha e há um pessimismo prático sobre a ação política. O filme denuncia a banalização da violência e alerta que soluções individuais não substituem reformas sociais; assim vitória é ambígua e moralmente problemática.
Yojimbo e os remakes que o sucederam ensinam sobre o fato quando a ordem social se corrompe, a ação individual pode restaurar a paz, mas a paz alcançada é moralmente ambígua, ficando uma lição sobre os limites da justiça privada e sobre como a forma ou seja, o gesto, o silêncio e o mise‑en‑scène comunicam como filosofia e a política idológica tanto quanto o próprio enredo.
Uma constatação que fica é que a universalidade da trama prova que o mito do forasteiro manipulador é atemporal. Se em Yojimbo a figura solitária, vestindo kimono simples, armado com katana, representa o código samurai em decadência, mas ainda carrega ironia moral, já o homem sem nome de Por um punhado de dólares revela a transposição da trama para o faroeste e o mundo dos caçadores de recompensa.
Já Walter Hill não esconde a influência e que O último matador é praticamente uma refilmagem de Yojimbo, mas com roupagem americana. A interpretação de Bruce Willis reforça o arquétipo do anti-herói lacônico, mas sem a aura mítica de Clint Eastwood ou o peso filosófico de Kurosawa, o filme mostra como uma mesma narrativa pode atravessar culturas e épocas, adaptando-se a diferentes contextos sociais, estéticos e culturais.
Por fim, O último matador não tem o impacto cultural de Kurosawa ou Leone, mas funciona como um elo moderno dessa tradição, Bruce Willis entrega um anti-herói mais desencantado, refletindo os anos 1990, uma época marcada por cinismo e violência estilizada no cinema. Mas além de tudo vale observar também os diálogos da matriz de tudo em Yojimbo ou o Guarda-Costas, a tradução do nome do japonês para o português, quando o personagem eternizado por Toshiro Mifune declarou num diálogo impertinente: “acho que não há cura para a estupidez, exceto a morte.” (Kleber Torres)
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário