sexta-feira, 4 de setembro de 2026
A união de terror & sexo sem precisar drogas ou rock’n roll
Ninguém discute que o filme o Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968), produzido e dirigido num ano mirabilis, é uma das obras mais ousadas de José Mojica Marins. É um filme antológico que mistura horror, com grotesco e crítica social, consolidando o estilo transgressor do cineasta e expandindo o imaginário em torno de Zé do Caixão, a partir de um roteiro de Rubens F. Lucchetti. Apesar de não ser tão celebrado quanto outras produções de Mojica, um dos mestres do terror, o longa é fundamental para entender sua estética e sua visão sobre a maldade
Com pouco mais de 80 minutos, filme é dividido em três episódios independentes, todos dirigidos por Mojica e começa com a história do O fabricante de bonecas, seguido de Taras, marcado por necrofilia e por fim Ideologia, que trata até de canibalismo e desvia do debate simplificado entre direita e esquerda roteirizado pela ditadura militar que governava o país, para um plano de sadomasoquismo e morte. O próprio Zé do Caixão tem papel de destaque no último bloco que tem como uma das referências os sete dias da criação do mundo a partir do Gênesis.
Mas tudo começa com questionamento :”quem sou eu? não interessa. Como também não interessa quem é você, ou melhor, não interessa quem somos. O que interessa em realidade em saber quem somos”, diz José Mojica Marins, ou melhor Zé do Caixão na introdução do filme, destacando que o que existe é a coragem e o medo definindo a própria existência e a morte inexorável, para concluir categoricamente que “se o terror o aprisiona, o terror é você!”
A história do O Fabricante de Bonecas começa com uma festa num bar e depois, mostra um artesão que fabricava bonecas e suas filhas como vítimas da ganância e violência de criminosos. A narrativa mistura inocência aparente com brutalidade, revelando a perversidade humana em busca de lucro, culminando com um assalto e estupro, mas termina de forma surpreendente e cabeças cortadas. É o episódio mais consistente do filme, com atmosfera de conto de fadas macabro e forte impacto visual, uma história que tem a ver com filmes como Dolly, a boneca maldita; Chucky ou Boneca do mal sobre bonecos e assassinatos.
Em Tara, vendedor de balões feio e solitário desenvolve um fetiche por pés e uma obsessão por uma jovem a quem segue como um stalking dos dias hodiernos. A jovem interpretada por Iris Bruzzi, acaba assassinada no dia do seu casamento e tudo termina em necrofilia com aranhas, cobras, ratos e lagartos da estética de terror zoológico de Zé do Caixão. É considerado em termos críticos o segmento mais problemático em termos de ritmo e direção, mas traz uma abordagem perturbadora sobre desejo, obsessão e os prazeres após morte.
O mais polêmico da série, Ideologia apresenta uma versão alternativa de Zé do Caixão como professor e um intelectual que participa de debates na TV discutindo valores e crenças, culminando em um desfecho brutal num jantar canibalesco onde sobram cabeças, pés e mãos,depois de uma série de sequências sobre sadomasoquismo e outras práticas nada heterodoxas. Cabe observar que Mojica produziu filmes pornôs nos anos 80 para sobreviver às dificuldades financeiras em função da censura do Despertar da Besta também conhecido como Ritual dos Sádicos e outras obras. É o capítulo mais explícito em termos de crítica social e filosófica, onde o horror serve de instrumento para confrontar ideias e convenções, refletindo sobre moralidade e poder.
Apesar de falhas técnicas em montagem, continuidade e som, o filme compensa com densidade temática e ousadia criativa.Mesmo sem o personagem clássico em todos os segmentos, o filme reforça a expansão do mito de Zé do Caixão como símbolo do terror ao tratar do mal e da reflexão sobre a condição humana. Já o roteirista Rubens F. Lucchetti ajudou a dar forma às histórias, consolidando uma parceria que seria marcante no terror brasileiro.
Vale lembrar que o título Estranho Mundo de Zé do Caixão se expandiu para quadrinhos e televisão, mostrando a força cultural da criação de Mojica, que conquistou projeção internacional com seus filmes terror.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: O Estranho Mundo de Zé do Caixão
Direção: José Mojica Marins
Roteiro: José Mojica Marins e Rubens F. Lucchetti (roteiro/argumento)
Elenco : Luis Sérgio Person, Vanni Miller, Verônica Krimann, Iris Bruzzi e George Mishel, Arnaldo Brasil, José Mojica Marins, Osvaldo de Souza, Nidi Reis e Jean Silva
Fotografia : Jorge Atilli
Gênero: Terror; antologia (três episódios)
Formato: Preto e branco
Duração: 90 minutos
País: Brasil
Idioma: Português
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário