domingo, 5 de julho de 2026
O que faz um anti-herói numa terra dominada pela violência e corrupção
O filmeYojimbo (O guarda-costas),de Akira Korosawa, é um clássico do cinema de 1961 que combina humor negro, violência estilizada, crítica social e envolve um protagonista ambíguo. A sua estrutura narrativa relativamente simples conta a história de um ronin – samurai autônomo e errante que não servia a nenhum senhor – solitário, que acabou manipulando duas facções rivais, inspirando diretamente A Fistful of Dollars(Por uns dólares a mais), de SergioLeonie outro remake Last Man Standing (O último matador), de Walter Hill, gerando até uma disputa judicial sobre direitos autorais que culminou num acordo financeiro com Kurosawa. Tudo começa com a chegada de um ronin que se apresenta como Sanjuro Kuwabatake (Toshirô Mifune), numa vila quase deserta onde observa sinais de decadência e violência. Ele descobre que a cidade é controlada por duas facções rivais lideradas por Ushitora (Kyu Sazanka) e Seibei Iguchi (Seizaburô Kawazu), que comandavam seus capangas e concentravam toda uma estrutura corrupta de poder. Ao perceber a fraqueza estratégica das facções na disputa pelo poder, o ronin se oferece como guarda‑costas e começa a jogar as quadrilhas numa guerra, aceitando pagamento de ambos os senhores enquanto semeia desconfiança e provocações mútuas entre os rivais. O clima de tensão se acentua com a chegada de um jovem, Unosuke (Tatsuya Nakadai), armado com um revólver e altera o equilíbrio do jogo de poder. A partir daí há uma sucessão de sequestros, massacres e traições que tornam o conflito mais sangrento, resultando na aniquilação das gangues e na libertação da vila. Com a cidade em ruínas e o poder das facções eliminado, o ronin parte, deixando um final moralmente ambíguo sobre a questão da justiça e da violência, do poder e da ética. A obra é marcada por cenas curtas, com cortes precisos, e onde o uso do silêncio substitui longos diálogos revelando uma tensão contínua quanto aos enquadramentos numa cidade desolada e onde o espaço vazio reforça a sensação de caos social e isolamento do protagonista. Já o personagem central Janjuro Kuwabatake se revela um anti‑herói ambíguo sendo ao mesmo tempo carismático,cínico e imprevisível, mas cuja presença física e gestual, dita o ritmo e densidade ao filme. Kurosawa equilibra violência explícita com ironia moral servindo simultaneamente a dois grupos em conflito e em que a violência não é celebrada, mas mostrada como consequência e instrumento narrativo. Yojimbo condensou em 110 minutos uma combinação rara de invenção formal, associada com um personagem icônico e ampla ressonância cultural, nele Kurosawa reinventou o anti‑herói cinematográfico, criou imagens e ritmos que influenciaram o cinema ocidental e gerou debates sobre autoria que ampliaram sua fama como um dos cineastas mais influentes da história. Ele também substitui com maestria a épica por episódios precisos e cortes secos, criando tensão contínua e um ritmo moderno, que ainda hoje parece contemporâneo, mas também dialoga com o western e o noir, revelando segundo críticos inspirações em filmes policiais e faroestes americanos, criando um híbrido que facilitou sua transposição para o spaghetti western de Leone. O personagem central Janjuro antecipa figuras modernas do cinema e da TV que operam fora de códigos morais claros, servindo ao mesmo tempo a duas quadrilhas que disputam o domínio de uma cidade e serviu como de refência sobre como uma estrutura narrativa pode ser reescrita em contextos culturais distintos seja no Japão, na Itália e nos Estados Unidos, mantendo núcleo dramático, mas mudando tom e o cenário.Yojimbo é ao mesmo tempo uma obra‑prima perfeita em forma e execução, funcionando como um gerador de possibilidades estéticas, inspirando gêneros, criando um arquétipo de perssonagens e provocando debates sobre autoria que mantém o filme vivo ao longo do tempo. Historicamente, ele influenciou remakes como Por uns dólares a mais e O último pistoleiro porque ofereceu um modelo narrativo claro, com a história de um ronin/pistoleiro que manipula duas facções rivais numa cidade qualquer, aliado a soluções formais em termos de ritmo, espaço, sincronia e apresentando um personagem central icônico, gerando um modelo fácil de transpor para outros gêneros e mercados. (Kleber Torres) Ficha técnica Título: Yojimbo (用心棒) Direção: Akira Kurosawa Roteiro: Akira Kurosawa e Ryûzô Kikushima Elenco: Toshirô Mifune, Tatsuya Nakadai, Seizaburô Kawazu, Isuzu Yamada, Eijirō Tono, Kyu Sazanka e Hiroyuki Sanada Fotografia: Kazuo Miyagawa Trilha sonora: Masaru Sato Ano : 1961 Duração: 110 minutos Origem : Japão Cor: Preto e branco Gênero: drama/ samurai / ação / suspense
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