segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Qual o preço da morte onde a vida não tem valor?

“Onde a vida não tinha valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis porque surgiram os caçadores de recompensa”, essa informação considerada emblemática na história do cinema marca a abertura de Por uns dólares a mais (A Fistful of Dollars), de Sérgio Leoni, considerado um remake de Yojimbo (1961), de Akira Koroswa, que chegou às telas quatro anos depois da obra-prima japonesa. Ambos os filmes partilham do mesmo núcleo narrativo de uma trama em que um homem sem nome manipula duas facções rivais, mas ambos diferem em tom, contexto cultural e ênfase temática. Apesar da rivalidade na disputa da recompensa, os dois caçadores decidem unir forças e se infiltrar no bando de El Indio para conseguirem seu intento. Tudo começa quando o caçador de recompensa Mortimer desce na estação de trem de uma pequena vila no deserto, onde pega o cartaz de um bandido procurado e em seguida, vai ao bar onde abate com um tiro um pistoleiro. Mortimer vê o cartaz de outro elemento da quadrilha de El Indio, ‘Baby’ Red Cavanaugh (José Marco), que também vinha sendo coincidentemente procurado por Manco. A convergência está na estrutura dramática e nas cenas onde ocorre uma mudança de comportamento, de ação, revelação ou até mesmo numa pausa dos diálogos. Ambientado no Novo México e Texas, o filme foi rodado na região desértica de Almeria, na Espanha, cujos cenários tornaram-se uma atração turística para visitantes de vários países. A narrativa envolve dois caçadores de recompensas, Manco (Clint Eastwood) e o coronel Douglas Mortimer (LeeVan Cleff, que disputam o mesmo prêmio, a cabeça El Indio (Gian Maria Volonté), que fugiu de uma prisão e cuja captura vivo ou morto foi fixada em dez mil dólares e planejava com sua gang assaltar o banco de El Paso. A história também envolve uma vingaça a ser esclarecida no final do filme. Em termos comparativos, “Yojimbo”, de Kurosawa, é um drama de ética que tem como ambientação uma vila feudal japonesa, retratando a época pré-moderna do Japão, com seu contexto social e hierárquico. Já “Por um punhado de dólares” tem como cenário uma cidade fronteiriça do velho oeste, sem lei e sem ordem, onde o vencedor é sempe aquele que saca primeiro. No caso do filme japonês o protagonista Kuwabatake Sanjuro (Toshirô Mifune), é um ronin, personagem que se impõe pela gestualidade e marcado pela ambiguidade moral como um homem acima do bem e do mal, o que lhe confere uma aura nietzcheana. Já a versão spaghetti de 1965 tem como um dos personagens centrais um caçador de recompensas Clint Eastwood, o Manco, que num jogo de poquer responde laconicamente a um dos jogadores que diz não ter ouvido a sua aposta: “sua vida”, para em seguida sacar sua arma eexecutar os três dos envolvidos na disputa de cartas. Em paralelo El Indio escapa da cadeia depois de matar com ajuda do seu bando quase todos os guardas do presídio, numa fuga planejada e o governo estabelece uma recompensa de US$ 10 mil pela sua recompensa, aguçando a caçada de Monco e Mortimer. Na fuga, El Indio se vinga matando um dos seus delatores que o havia entregue à polícia e retoma um relógio musical roubado por ele anos antes de uma mulher, que se suicidou ao ser estuprada após assistir o assasinato do seu marido. Nas investigações para sua localização, Mortimer é informado que o facínora planejava o assalto a um banco de primeira classe e seguro, possivelmente em El Paso, a maior e mais importante cidade da região. Também para tentar localizá-lo, ele se associa a Manco, que tenta entrar para o bando do assaltante libertando um dos parceiros do vilão da prisão, para, num assalto a um banco em Santa Cruz, liquidar três integrantes da quadrilha que foram em sua companhia. Manco também envia um telegrama ao xerife de El Paso informando dos planos do assalto ao banco local, mesmo assim usando explosivos, o bando explode a parede dos fundos do banco e leva o cofre, mas não consegue abri-lo. Enquanto isso, em Agua Caliente, um pequeno povoado numa área montanhosa, Mortimer liquida um dos integrantes da gang do El Indio que o reconheceu, e em seguida, oferece seus seus serviços ao grupo para a abertura do cofre roubado. El Indio guarda o dinheiro prometendo dividi-lo em um mês. Manco e Mortimesr abrem o cofre, escondem o dinheiro, mas acabam sendo encontrados e torturados. Os dois conseguem escapar e fazem valer a vingança. Além de ganharem a recompensa pela morte dos bandidos mortos num confronto final, receberão uma recompensa pela recuperação do dinheiro roubado do banco. No final, é esclarecido o mistério do relógio musical, o que é uma outra história acrescentada ao enredo do remake que se tornou um clássico, ganhou vida própria e resultou numa ação judicial patrocinada por Kurosawa. Em termos cronológicos, “Por Uns Dólares a Mais” é o segundo filme da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, sendo considerado um dos maiores spaghetti westerns já produzidos. Ele segue a linha de westerns italianos iniciada por “Por um Punhado de Dólares” e antecede “O Bom, o Mau e o Feio” e consolidou o western como gênero legítimo, influenciando outros cineastas como Quentin Tarantino. que unem violência, humor negro e ação nas suas narrativas cinematográficas. A obra reúne no elenco Clint Eastwood e Lee Van Cleef como caçadores de recompensas que enfrentam o vilão El Indio, num elenco que reuniu nomes como os de Gian Maria Volonté e Klaus Kinski. Leone intensifica o uso de close-ups, planos longos e ritmo cadenciado, criando tensão quase operística e a trilha sonora assinada por Ennio Morricone eleva o filme com composições que se tornaram referência mundial. A trama tem em comum a história de um estranho chega numa cidade em crise, percebe duas facções em disputa pelo poder, oferece serviços a ambas e as faz colidir, esse esqueleto é idêntico nas duas obras. O enredo replica a entrada do herói; jogo de favores e traições; escalada violenta; confronto final que aniquila as facções. Tanto em por “Uns dólares” a mais como em “Iojimbo”,há também em comum a economia minimalista de ação, marcada por cenas curtas e cortes secos que mantêm ritmo e suspense; mas explorando o silêncio e olhar como linguagem, mesmo quando no princípio era o verbo.(KLEBER TORRES) Ficha técnica: Título :Por uns Dólares a Mais (A Fistful of Dollars ou Per qualche dollaro in più ) Direção:Sergio Leone Roteiro: Sergio Leone, Luciano Vincenzoni e Fulvio Morsella Trilha sonora : Ennio Moriconi Montagem: Giorgio Serrallonga Duração : 132 minutos Origem : Itália, Alemanha Ocidental e Espanha Genero : Western, Drama 1965

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Quando a velhice desafia a polícia, o tempo e a própria ideia de crime

Há uma ironia poderosa no ponto de partida do filme “O Grande Roubo” (2016), de Terry Lee Cooker, que também dirigiu “O Guarda de Auschwitz”, “O Tatuador” e “Hooligan Legacy”, os homens cujas idades somadas superam 400 anos e que protagonizam o assalto não têm o perfil convencional dos criminosos cinematográficos. Não são jovens, atléticos, violentos ou movidos pela adrenalina, mas homens envelhecidos, alquebrados, alguns já próximos dos 70 anos, carregando consigo uma longa experiência no mundo do crime. É justamente essa condição que transforma o filme em algo mais interessante do que um simples filme sobre assalto. Baseado no caso real do roubo à Hatton Garden, em Londres, o filme acompanha um grupo de criminosos veteranos liderados por Brian Reader ( Sidney Livingstone) que associado a Basil (Michael McKell), especialista em alarmes e a um grupo de amigos para realizar aquilo que parece ser o golpe definitivo de suas vidas. A operação, executada em 2015, resultou em dezenas de milhões de libras em joias, dinheiro e outros valores roubados, mas, na maior parte não recuperados. O que interessa ao cinema, porém, não é apenas a dimensão financeira ou jornalística do roubo, mas a inversão de expectativas. O primeiro mérito da história está justamente na idade provecta dos protagonistas. Enquanto o cinema policial construiu durante décadas uma mitologia em torno do criminoso jovem, associado com velocidade, força, armas, carros e fuga. O Grande Roubo substitui tudo isso por outra coisa, ou seja, a experiência desses homens que conhecem os bastidores e regras do mundo do crime porque passaram boa parte da vida dentro dele, por isso sabem planejar, esperar, observar e desconfiar. O assalto, portanto, não nasce de uma explosão de violência, mas de uma espécie de artesanato criminoso com o estudo de cada detalhe do golpe até a sua implementação num final de semana. Essa característica aproxima o filme de uma tradição do cinema britânico de personagens marginais que envelheceram sem abandonar completamente o passado. Assim, o crime deixa de ser apenas uma atividade marginal e passa a funcionar como identidade, ele também deixa no ar uma questão fundamental, ou seja, o que acontece quando um homem envelhece, mas sua identidade continua presa ao passado? O grande roubo seria, então, uma espécie de última aventura rumo ao caminho da aposentadoria, da cadeia ou mesmo da morte. Os personagens sabem que estão envelhecendo e o golpe pode ser interpretado como uma tentativa de transformar uma vida inteira de criminalidade em uma última grande vitória, portanto, não se trata apenas de roubar dinheiro, mas trata-se de deixar uma marca como um grande golpe de mestre. O título original, Hatton Garden: The Heist (O assalto de Hatton Garden), é mais objetivo, pois título brasileiro, O Grande Roubo, enfatiza a dimensão épica do acontecimento, e de fato, existe realmente algo de épico na ideia de um grupo de criminosos veteranos desafiar um sistema de segurança moderno e sofisticado para conseguir penetrar no coração financeiro de Londres. Nesse sentido, o cofre representa mais do que dinheiro: representa a fortaleza do sistema e os velhos criminosos querem provar que ainda conseguem derrotá-lo. O elemento mais interessante da história talvez seja justamente o cofre, como metáfora de uma promessa de segurança absoluta, afinal, ele existe para dizer que determinados objetos estão protegidos contra o mundo exterior. O grupo, entretanto, demonstra que nenhuma segurança é absoluta e essa é uma das grandes ironias do filme revelando uma espécie de paradoxo, pois, quanto mais sofisticado é o sistema, maior parece ser o prazer de derrotá-lo. A operação transforma a invasão do cofre em uma espécie de duelo entre inteligência criminosa e tecnologia numa batalha entre duas gerações contra o próprio sistema inexpugnável. De um lado, homens envelhecidos, aparentemente ultrapassados; do outro, alarmes, câmeras, sistemas eletrônicos e mecanismos de segurança e os velhos ainda vencem. Mas o filme ganha outra camada quando o roubo deixa de ser uma aventura e começa a produzir suas consequências, pois o grupo consegue realizar o golpe, mas não consegue administrar perfeitamente aquilo que vem depois e é aí que a narrativa desmonta a fantasia do crime perfeito, pois, problema nunca é apenas entrar é sair, e, principalmente, desaparecer com aquilo que foi roubado. A polícia inglesa começa a reconstruir os movimentos dos envolvidos e gradativamente a investigação transforma pequenos erros em pistas que vão sendo exploradas pelos investigadores. Assim, a experiência acumulada pelos criminosos não é suficiente para neutralizar completamente a vigilância moderna e embora os homens que conseguiram derrotar um dos sistemas de segurança mais sofisticados de Londres acabam sendo derrotados por sua própria necessidade de continuar existindo depois do crime. A dimensão mais fascinante da história real está justamente no dinheiro que não foi recuperado, em que pese parte do grupo tenha admitido sua participação no crime e presa. O certo é que parte substancial do produto do roubo jamais voltou para seus proprietários e a investigação conseguiu recuperar apenas uma parcela dos valores, enquanto uma quantidade significativa permaneceu desaparecida. Isso acrescenta ao caso uma espécie de epílogo policial que o cinema dificilmente consegue encerrar completamente, a prisão dos criminosos não significa necessariamente a recuperação da fortuna, mas onde está o dinheiro? No final das contas O Grande Roubo adquire uma dimensão quase trágica, pois os homens vencem e perdem simultaneamente, vencem porque conseguem executar um dos assaltos mais espetaculares da história britânica, mas perdem porque terminam presos e identificados. Mas existe uma terceira possibilidade, pois, talvez tenham conseguido aquilo que realmente desejavam, ou seja, transformar suas próprias vidas em uma história, pois o crime passa a ser narrativa e a prisão não apaga o roubo, mas, pelo contrário, ajuda a transformá-lo em lenda. O filme O Homem que Matou o Facínora/ The man Who Shoot Liberty Valance(1962) de John Ford ensina que quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda. O espectador sabe desde o princípio que está diante de criminosos, mas o cinema cria uma curiosa ambiguidade, pois, acompanhamos a inteligência do plano, admiramos a ousadia da sua execução, observamos a implementação e, inevitavelmente, somos colocados na posição de torcer pelo sucesso da operação. Esse é um dos mecanismos clássicos do filme de assalto e espectador sabe que o personagem está errado, mas quer descobrir se ele conseguirá vencer. A interrogação aparece num estranho personagem jovem, de paletó e gravata que aparece no começo do filme e que deixa no final um anel de brilhante roubado nas mãos de um esmolé idoso, o que ele teria afinal com o roubo? (Kleber Torres) Ficha técnica: Título : Hatton Garden: The Heist O Grande Roubo Direção : Terry Lee Coker Roteiro : Ian Burnfield, Terry Lee Coker e Michael McKell Elenco : Michael McKell , Sidney Livingstone, Robert Putt, James Osborne, Sidney Kean, Ian Burfield, A.G. Longhurst, Richard Toone, Richard Duggins e Nicola Granada Fotografia : Terry Lee Coker Montagem : Terry Lee Coker Gênero: Drama, ação, suspense Música : Ian Wherry Ano: 2016 País : Reino Unido Idioma : Inglês Duração : 87 minutos