sábado, 15 de agosto de 2026

Joyce e a arte da epifania ou o instante mágico de revelação?

Os críticos literários e estudiosos se debruçam há mais de um século na tentativa de compreender ou decifrar o enigma sobre o que James Joyce queria dizer especificamente com a palavra epifania. Esse complexo conceito parece acompanhar toda a obra joyceana como uma sombra luminosa, através de textos curtos que nos legou e surge no início de sua trajetória literária para designar aquele instante súbito em que uma realidade ou fato aparentemente banal, se revela magicamente em sua intensidade secreta emergindo como uma espécie de aparição ou de uma iluminação ganhando assim uma dimensão até certo ponto metafísica. Os 40 textos da coleção escritos no período de 1902/1904, foram impressos em 1965, em uma edição organizada por Robert Scholes e Richard M. Kain, partir das pístas deixadas dez anos antes por Oscar Silverman que havia organizado e editado 22 delas. O material catalogado ganhou, em 2018 no Brasil, uma cuidadosa edição publicada pela Autêntica, com tradução de Tomaz Tadeu, fotos de Dublin da fotógrafa americana Lee Miller num ensaio para a revista Vogue e complementada por um ensaio da crítica italiana Ilaria Natali. Cabe observar que embora Joyce tenha iniciado no conjunto das anotações de cerca de 71 cenas e episódios, curtos e independentes, sem nenhuma relação aparente entre si, aos quais chamou de epifanias, apenas 40 foram catalogadas servindo de base para a edição brasileira, enriquecendo a fortuna crítica da obra joyceana. Em seu ensaio, Natali parte da premissa que as epifanias envolvem um paradoxo entre a ironia e a ambivalência para com textos curtos, com frases cortadas e descrições descontextualizadas que beiram ao non sense, “para tentarem reconciliar a dimensão privada com a dimensão pública,” em cenas casuais de fatos do próprio cotidiano. Em termos conceituais, a própria palavra epifania, de origem grega, significa aparição, trazer, vir à luz, revelar e manifestar em termos físicos ou metafísicos, mas em termos profanos a revelação da aparência externa de um objeto ou um corpo qualquer. Em termos mais amplos, o próprio Dicionário Clássico de Oxford classifica epifania quando “tanto no mito quanto no culto quando um deus revela sua presença ou manifesta o seu poder a um mortal ou grupo de mortais que “veem” ou “reconhecem” o deus”. A verdade é que à medida que Joyce avança em seguida para Dublinenses, produzuma série de contos em que as epifanias aparecem em momentos triviais e reveladores da vida e do drama humano dos seus personagens. Também Um retrato do artista quando jovem e Stephen Hero podem ser considerados uma espécie de epifania, ou seja, um reflexo metafórico do próprio Joyce na juventude. Já em Ulisses até Finnegans Wake, a epifania deixa de ser apenas um recurso narrativo e se transforma numa espécie de princípio subterrâneo que permeia sua literatura como uma obra experimental em progresso. Com as epifanias a questão fundamental é tentar compreender como Joyce passou a vida literária tentando responder a uma pergunta: como fazer aparecer aquilo que está escondido dentro do cotidiano? E resposta começa com o instante epifânico, mas que torna-se muito mais radical, pois não basta revelar uma coisa escondida; é preciso transformar a própria maneira de perceber a realidade, narrar e nomear o mundo incorporando os textos epifânicos ao corpo da sua obra literária. Assim, a grande revolução de Joyce começa pela desconfiança em relação ao extraordinário. A literatura tradicional frequentemente procura acontecimentos excepcionais: guerras, mortes, amores impossíveis, aventuras, tragédias. Joyce, ao contrário, volta-se para o homem comum, para a rua, a casa, o bar, o quarto, a conversa, o silêncio, o pensamento aparentemente insignificante, passeando até sobre o que ocorre na cabeça do personagem. É nesse universo que nasce a epifania, porque o extraordinário não está necessariamente no acontecimento, mas na sua percepção. Dessa forma um personagem pode passar anos vivendo dentro de uma determinada situação sem compreendê-la. De repente, alguma coisa, um click, uma frase, um gesto, uma música, uma lembrança qualquer induz a virar a chave e produzir uma ruptura. Por alguns segundos, aquilo que era invisível torna-se visível e a epifania é, portanto, menos uma revelação do mundo do que uma alteração da consciência diante do mundo gerando uma espécie de iluminação, mudando a dimensão do olhar do espectador. Em Dublinenses, publicado em 1914, Joyce constrói uma galeria de personagens aprisionados em suas próprias circunstâncias. Dublin, que também é cenário de Ulisses em 16 de junho de 1904, também aparece como uma cidade marcada pela repetição, pela religião, pela moral, pelas convenções sociais, pela pobreza e por uma espécie de imobilidade espiritual, vivendo uma espécie de paralisia no próprio tempo. A epifania surge justamente nesse processo, quando essa paralisia se torna consciente e os personagens assumem uma dimensão crítica da realidade. No conto “Araby”, por exemplo, o jovem narrador vive a fantasia de uma paixão quase religiosa. A ida ao bazar, entretanto, termina em frustração, pois o mundo imaginado pelo garoto entra em choque com a realidade banal e comercial. O que ocorre ali não é simplesmente uma decepção amorosa, é o nascimento de uma consciência, quando o personagem percebe que havia projetado sobre o mundo uma fantasia que o mundo não podia sustentar. Em “Eveline”, a epifania assume outra forma. A personagem encontra diante de si a possibilidade de escapar, mas, no momento decisivo, permanece presa ao passado. A revelação está justamente na incapacidade de agir. Já em “Os mortos”, a epifania atinge uma dimensão muito mais profunda quando Gabriel Conroy descobre que sua mulher, Gretta, guarda a lembrança de Michael Furey, um jovem que morreu por amor a ela. A informação aparentemente simples desencadeia em Gabriel uma crise de consciência e um drama existencial de preterimento ao perceber a distância entre aquilo que imaginava ser e aquilo que efetivamente é. A neve que cai sobre a Irlanda no final do conto adquire então uma dimensão simbólica extraordinária e, metaforicamente, ela cobre os vivos e os mortos, o presente e o passado, os indivíduos e a paisagem. Em Um retrato do artista quando jovem, Joyce desloca a epifania para o centro da formação de Stephen Dedalus um projeto que se desdobra em Ulisses, quando o personagem não está apenas descobrindo o mundo, mas como olhar focado para o mundo, com sua complexidade. Stephen começa submetido às autoridades que organizam sua existência a partir da família, Igreja, nacionalismo, tradição, gradualmente, porém, começa a construir uma consciência própria e assim, a epifania passa a ser também uma experiência estética. A realidade cotidiana pode, de repente, revelar uma beleza que não estava evidente. O episódio da jovem na praia é exemplar. Stephen contempla a figura feminina e experimenta uma espécie de iluminação estética. O mundo sensível deixa de ser simplesmente um conjunto de objetos e passa a adquirir uma intensidade que exige expressão e jovem começa então a compreender sua vocação. Dessa forma, o artista seria aquele que consegue capturar o instante em que as coisas deixam de ser simplesmente coisas, assumindo uma dimensão estética. É aí que Joyce começa a aproximar epifania da criação artística e dos campos da invenção, ele não inventa necessariamente o momento revelador, mas precisa saber literatura nasce do instante em que o olhar comum é interrompido. Já m Ulisses, Joyce leva essa experiência a uma escala inteiramente nova. O romance acompanha aproximadamente um único dia na vida de Leopold Bloom, Stephen Dedalus e outros habitantes de Dublin. Externamente, quase nada parece acontecer num único dia espelhado nas notícias dos jornais sobre mortes, acontecimentos cotidianos até o sim no solilóquio de Molly Bloom. E, entretanto, interiormente, acontece quase tudo na obra, ou seja, pensamentos, lembranças, desejos, fantasias, associações, piadas e percepções que atravessam continuamente a consciência. A grande descoberta de Joyce é que a consciência não funciona como uma peça narrativa tradicional.Ela não começa, desenvolve-se e nem termina de maneira ordenada, dessa forma uma palavra lembra outra, um cheiro recupera uma pessoa ou um lugar qualquer, enquanto uma música abre uma porta para o passado, uma imagem conduz a outra, e presente é constantemente invadido pelo passado nesse contexto, a epifania também se transforma. Dessa forma uma vida inteira pode tornar-se uma sucessão de pequenas epifanias, talvez o que James Joyce tenha tentado vislumbrar em Finnegans Wake que pode ser um caminho parta o despertar ou uma morte qualquer. Como as mudanças são decisivas, Joyce já não precisa construir uma cena para produzir uma revelação e a epifania deixa de ser um ponto isolado para começar a funcionar como uma espécie de modo de existência da consciência. Uma das grandes ironias de Ulisses é um homem comum como Harold Bloom poder conter uma epopeia inteira dentro da cabeça, além do mais revelando como uma vida aparentemente insignificante pode ser infinitamente complexa. Já Finnegans Wake leva a experiência ainda mais longe, para dentro da própria linguagem exigindo que a ideia de epifania precisa ser radicalmente repensada. Em Finnegans Wake, publicado em 1939, Joyce desmonta as fronteiras convencionais da língua em que o Inglês, latim, francês, italiano, alemão e outros idiomas aparecem misturados. Palavras são fundidas, deformadas e reinventadas e o leitor não recebe simplesmente um significado e ainda se perde num intrincado quebra cabeças joyceano, quando precisa produzir e entender o significado e a linguagem deixa de ser uma janela transparente para a realidade que abre as portas para o abismo e o caos. E esse talvez seja o último estágio da epifania joyceana, que começa com coisas simples como o caso de Bray, na sala da casa em Mertello Terrace, passando depois pelo fato de que não tem escola na amanhã, numa noite de sábado, no inverno, com o personagem joyceano sentado junto à lareira ou ainda quando as crianças que tinham ficado até mais tarde estão vestindo suas coisas para ir embora depois que a festa acabou e quando passa o último bonde. O fato é as epifanias não têm em si nenhum mistério, são textos literários aparentememte simples que falam até do inferno num pequeno campo de hirtas ervas daninhas onde aparece um ser metade homem e metade cabra ou como a número quatro, que tem como cenário : “[Dublin: na Mountjoy Square] Joyce – (conclui) …Isso dá quarenta mil libras. Tia Lillie – (risinhos) – Oh! Louvado… Eu também era assim…… Quando menina estava certa que ia dedsposar um lorde…ou algo assim… Joyce – (pensa) – É possível que ela esteja se comparando comigo ?” O texto como os das as demais epifanias, inclusive a que fala da morte do seu irmão ainda jovem, é redondo e fecha-se em si mesmo, sem necessidade de cortes e abertos a acréscimos, escapando também ao limite meramente literário, mas, podendo ser até objeto de um roteiro cinematográfico reunindo as 40 unidades catalogadas pelos estudiosos da obra joyceana, mas como não há limites no campo da invenção, eles podem ser analisados a partir de duas clases distintas seja aparecendo como meras narrativas ou ganhando uma dimensão dramática. As epifanias tem como base a premissa de Santo Asgostinho de que as três coisas são fundamentais para compreensão do belo são a integridade, o que envolve uma totalidade, uma simetria e uma radiância. Mas Joyce defendia na sua concepção teórica mais abrangente, pois que há necessidade de reconhecermos que o objeto é uma coisa integral, com uma estrutura complexa organizada e orgânica , ou seja, uma coisa que é , e dessa forma ele conclui lembrando que “a alma do mais comum dos objetos, a estrutura que é assim ajustada, nos parece radiante. O objeto atinge a sua epifania.” Joyce também antecipou até a poesia concreta. (Kleber Torres)