quarta-feira, 2 de setembro de 2026
O que ocorre quando um homem assume dos dois lados numa guerra
O filme O Último Matador (Last Man Standing), de 1996, dirigido por Walter Hill, funciona como um desdobramento moderno e urbano de Por Uns Dólares a Mais e de Yojimbo, porque replica o mesmo esqueleto narrativo, ou seja, a história de um pistoleiro ou ronim, uma espécie samurai independente e sem mestre, que joga duas facções uma contra a outra num contexto diferente. A nova versão neo-western combina elementos do gangster movie com a estética do western spaghetti na Era da Lei Seca.
No epicentro da recessão americana no final dos anos 30, após a quebra da Bolsa de Nova York, o matador de aluguel John Smith (Bruce Willis) – o sobrenome sugestivo do personagem tem tudo a ver como referência à Smith & Wesson, nome da maior e mais tradicional fabricante americana de armas de fogo – se refugia numa pequena cidade isolada na fronteira com o México. Ali, gangs rivais disputam o controle do tráfico de bebidas durante a Lei Seca e visando tirar vantagem na disputa, Smith acaba plantando o estopim para deflagração de uma verdadeira guerra entre os grupos antagônicos que se destroem mutuamente .
Como se pode obsevar a mesma matriz dramática parte do modelo referecial de Yojimbo, em que um estranho chega numa cidade qualquer, oferece serviços a duas facções rivais e as faz colidir, mantendo os mesmos referenciais centrais de entrada, manipulação, escalada e confronto final. Essa continuidade estrutural é a base do desdobramento tanto do filme japonês, com a sua dramaticidade e violência implicita, que se transformou num cult movie, como também em Por Uns Dólares a Mais, que opera dentro do perfil de um spaghetti western com mitificação do pistoleiro, lirismo musical de Morricone e enquadramentos operísticos.
Nesse viés, Last Man Standing desloca a ação para 1930s Prohibition Texas, período da Lei Seca, aproximando‑a do film noir de gangster e enfatizando violência a urbana e a corrupção. O arquétipo do homem sem nome não é reconfigurado, assim, enquanto Leone estiliza o pistoleiro como mito lacônico; Walter Hill o transforma Bruce Willis em John Smith um operador pragmático e mais emocionalmente marcado, adequado ao cinema de ação dos anos 1990, confrontando com o grupo liderado pelo italiano Fredo Strozzi (Ned Eisenberg) e a quadrilha liderada pelo irlandês Sr. Doyle (David Patrick Kelly), que disputam a liderança do contrabando de bebidas na fronteira com o México.
A força do núcleo dramático permite transplantes culturais e de gênero sem perder coerência narrativa. Assim, o que muda é o subtexto de um conflito que se transfere de uma pequena cidade japonesa e da honra do ronin para o mito do Oeste americano e depois, para a corrupção urbana na América na época da Lei Seca. Mas se Leone transforma a história em mito; Hill usa a mesma trama para explorar violência sistêmica e ambiguidade moral num cenário de crime organizado e corrupto.
Mas ler Last Man Standing apenas como um mero remake simplifica as diferenças de subtexto e estética, pois cada uma das três versões reflete preocupações históricas e estéticas próprias. Mas como nas antigas histórias infantis vale lambrar para histórias cujo enredo de certa forma se repete e que “entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, o rei meu senhor, que me conte mais de quatro…(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título: O Último Matador / Last Man Standing
Direção e Roteiro : Walter Hill (baseado em Yojimbo de Ryûzô Kikushima e Akira Kurosawa)
Elenco : Bruce Willis; Christopher Walken; Bruce Dern; William Sanderson; David Patrick Kelly
Música : Ry Cooder
Fotografia : Lloyd Ahern
Montagem : Freeman A. Davies
Duração : 101 minutos
Origem : Estados Unidos
Ano : 1996
terça-feira, 1 de setembro de 2026
O Princípio das Ideias: um pequeno blog com vocação internacional
O Princípio das Ideias (principiodasideias.blogspot.com) apresenta um caso interessante de longevidade na blogosfera: são mais de dez anos de existência, 309 postagens e cerca de 33.031 acessos, com uma característica particularmente relevante para um veículo especializado, pois a audiência não está concentrada apenas no Brasil.
Há uma primeira conclusão que merece destaque: 33 mil acessos em pouco mais de uma década pode parecer um número modesto quando comparado aos grandes portais, mas é significativo para um blog especializado, de produção independente e com apenas 309 publicações.
O mais importante, entretanto, não é simplesmente o número absoluto de acessos. É a qualidade e a distribuição geográfica dessa audiência. A distribuição informada é:
País Acessos Participação aproximada
Brasil 8.490 25,7%
Hong Kong 6.090 18,4%
Singapura 4.630 14,0%
Estados Unidos 4.290 13,0%
Alemanha 1.020 3,1%
México 652 2,0%
Portugal 634 1,9%
Rússia 598 1,8%
França 482 1,5%
Outros 6.150 18,6%
Isso significa que aproximadamente três quartos dos acessos vêm de fora do Brasil. É um dado extraordinário para um blog brasileiro escrito essencialmente em português. Mais do que indicar simplesmente uma audiência estrangeira, essa distribuição sugere que o conteúdo cinematográfico possui qualidade e capacidade de circulação internacional, provavelmente favorecida pela natureza universal dos temas abordados: filmes, diretores, atores, obras clássicas e personagens que podem ser pesquisados mundialmente.
Há ainda uma peculiaridade: Hong Kong e Singapura aparecem à frente dos Estados Unidos. Isso merece investigação antes de ser interpretado automaticamente como audiência humana. Portanto, o dado é valioso, mas precisa ser qualificado. Outro indicador particularmente interessante é o comportamento recente: além dos 33.031 acessos acumulados; estao registrados 1.736 acessos em julho; e cerca de 2.500 em agosto.
Se esses números são comparáveis dentro da mesma métrica do Blogger, há um crescimento de aproximadamente 44% entre julho e agosto.Isso muda bastante a interpretação do blog. Não estamos diante apenas de um arquivo histórico de textos cinematográficos. Existe sinal de reativação ou aceleração da audiência.
O blog teria saído de uma lógica de acervo para uma possibilidade de crescimento. E esse é provavelmente o aspecto mais importante para o futuro do projeto. e 309 textos representam um patrimônio editorial Eles constituem um acervo digital especializado em cinema.
Se cada texto estiver associado a um filme, diretor, ator, gênero, período histórico ou tema cinematográfico, o blog possui algo que os algoritmos de busca valorizam: um conjunto temático relativamente coerente. Isso cria uma vantagem conhecida no ambiente digital como autoridade temática
Vale lembrar que m blog que publica sobre tudo pode ter muitos textos, mas dificuldade para estabelecer identidade. O Princípio das Ideias fez o contrário: construiu uma espécie de biblioteca cinematográfica digital e o conjunto de textos permite estabelecer inúmeras conexões internas sobre filme → diretor → ator → gênero → período → movimento cinematográfico → crítica → outros filmes. Essa arquitetura pode ser transformada em uma importante estratégia de SEO.
Conteúdo
O blog provavelmente possui um estoque de conteúdo muito maior do que sua capacidade atual de distribuição. É um problema comum entre blogs jornalísticos e culturais antigos. O jornalista produz, o texto permanece publicado. Mas o mecanismo de descoberta mudou, hoje, publicar um texto e esperar que o leitor encontre o conteúdo é insuficiente, pois, conteúdo precisa ser recirculado permanentemente.
Um artigo sobre um filme produzido há dez anos pode voltar a receber milhares de acessos se houver uma nova série, remake, morte de um ator, premiação, aniversário do diretor ou alguma discussão contemporânea relacionada à obra.
Cinema é especialmente favorável a esse mecanismo porque os filmes nunca desaparecem completamente da cultura. Assim, o o blog poderia ser organizado como uma cinemateca crítica digital.e há espaço para parcerias nesse projeto.
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