terça-feira, 18 de agosto de 2026

Quando a velhice desafia a polícia, o tempo e a própria ideia de crime

Há uma ironia poderosa no ponto de partida do filme “O Grande Roubo” (2016), de Terry Lee Cooker, que também dirigiu “O Guarda de Auschwitz”, “O Tatuador” e “Hooligan Legacy”, os homens cujas idades somadas superam 400 anos e que protagonizam o assalto não têm o perfil convencional dos criminosos cinematográficos. Não são jovens, atléticos, violentos ou movidos pela adrenalina, mas homens envelhecidos, alquebrados, alguns já próximos dos 70 anos, carregando consigo uma longa experiência no mundo do crime. É justamente essa condição que transforma o filme em algo mais interessante do que um simples filme sobre assalto. Baseado no caso real do roubo à Hatton Garden, em Londres, o filme acompanha um grupo de criminosos veteranos liderados por Brian Reader ( Sidney Livingstone) que associado a Basil (Michael McKell), especialista em alarmes e a um grupo de amigos para realizar aquilo que parece ser o golpe definitivo de suas vidas. A operação, executada em 2015, resultou em dezenas de milhões de libras em joias, dinheiro e outros valores roubados, mas, na maior parte não recuperados. O que interessa ao cinema, porém, não é apenas a dimensão financeira ou jornalística do roubo, mas a inversão de expectativas. O primeiro mérito da história está justamente na idade provecta dos protagonistas. Enquanto o cinema policial construiu durante décadas uma mitologia em torno do criminoso jovem, associado com velocidade, força, armas, carros e fuga. O Grande Roubo substitui tudo isso por outra coisa, ou seja, a experiência desses homens que conhecem os bastidores e regras do mundo do crime porque passaram boa parte da vida dentro dele, por isso sabem planejar, esperar, observar e desconfiar. O assalto, portanto, não nasce de uma explosão de violência, mas de uma espécie de artesanato criminoso com o estudo de cada detalhe do golpe até a sua implementação num final de semana. Essa característica aproxima o filme de uma tradição do cinema britânico de personagens marginais que envelheceram sem abandonar completamente o passado. Assim, o crime deixa de ser apenas uma atividade marginal e passa a funcionar como identidade, ele também deixa no ar uma questão fundamental, ou seja, o que acontece quando um homem envelhece, mas sua identidade continua presa ao passado? O grande roubo seria, então, uma espécie de última aventura rumo ao caminho da aposentadoria, da cadeia ou mesmo da morte. Os personagens sabem que estão envelhecendo e o golpe pode ser interpretado como uma tentativa de transformar uma vida inteira de criminalidade em uma última grande vitória, portanto, não se trata apenas de roubar dinheiro, mas trata-se de deixar uma marca como um grande golpe de mestre. O título original, Hatton Garden: The Heist (O assalto de Hatton Garden), é mais objetivo, pois título brasileiro, O Grande Roubo, enfatiza a dimensão épica do acontecimento, e de fato, existe realmente algo de épico na ideia de um grupo de criminosos veteranos desafiar um sistema de segurança moderno e sofisticado para conseguir penetrar no coração financeiro de Londres. Nesse sentido, o cofre representa mais do que dinheiro: representa a fortaleza do sistema e os velhos criminosos querem provar que ainda conseguem derrotá-lo. O elemento mais interessante da história talvez seja justamente o cofre, como metáfora de uma promessa de segurança absoluta, afinal, ele existe para dizer que determinados objetos estão protegidos contra o mundo exterior. O grupo, entretanto, demonstra que nenhuma segurança é absoluta e essa é uma das grandes ironias do filme revelando uma espécie de paradoxo, pois, quanto mais sofisticado é o sistema, maior parece ser o prazer de derrotá-lo. A operação transforma a invasão do cofre em uma espécie de duelo entre inteligência criminosa e tecnologia numa batalha entre duas gerações contra o próprio sistema inexpugnável. De um lado, homens envelhecidos, aparentemente ultrapassados; do outro, alarmes, câmeras, sistemas eletrônicos e mecanismos de segurança e os velhos ainda vencem. Mas o filme ganha outra camada quando o roubo deixa de ser uma aventura e começa a produzir suas consequências, pois o grupo consegue realizar o golpe, mas não consegue administrar perfeitamente aquilo que vem depois e é aí que a narrativa desmonta a fantasia do crime perfeito, pois, problema nunca é apenas entrar é sair, e, principalmente, desaparecer com aquilo que foi roubado. A polícia inglesa começa a reconstruir os movimentos dos envolvidos e gradativamente a investigação transforma pequenos erros em pistas que vão sendo exploradas pelos investigadores. Assim, a experiência acumulada pelos criminosos não é suficiente para neutralizar completamente a vigilância moderna e embora os homens que conseguiram derrotar um dos sistemas de segurança mais sofisticados de Londres acabam sendo derrotados por sua própria necessidade de continuar existindo depois do crime. A dimensão mais fascinante da história real está justamente no dinheiro que não foi recuperado, em que pese parte do grupo tenha admitido sua participação no crime e presa. O certo é que parte substancial do produto do roubo jamais voltou para seus proprietários e a investigação conseguiu recuperar apenas uma parcela dos valores, enquanto uma quantidade significativa permaneceu desaparecida. Isso acrescenta ao caso uma espécie de epílogo policial que o cinema dificilmente consegue encerrar completamente, a prisão dos criminosos não significa necessariamente a recuperação da fortuna, mas onde está o dinheiro? No final das contas O Grande Roubo adquire uma dimensão quase trágica, pois os homens vencem e perdem simultaneamente, vencem porque conseguem executar um dos assaltos mais espetaculares da história britânica, mas perdem porque terminam presos e identificados. Mas existe uma terceira possibilidade, pois, talvez tenham conseguido aquilo que realmente desejavam, ou seja, transformar suas próprias vidas em uma história, pois o crime passa a ser narrativa e a prisão não apaga o roubo, mas, pelo contrário, ajuda a transformá-lo em lenda. O filme O Homem que Matou o Facínora/ The man Who Shoot Liberty Valance(1962) de John Ford ensina que quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda. O espectador sabe desde o princípio que está diante de criminosos, mas o cinema cria uma curiosa ambiguidade, pois, acompanhamos a inteligência do plano, admiramos a ousadia da sua execução, observamos a implementação e, inevitavelmente, somos colocados na posição de torcer pelo sucesso da operação. Esse é um dos mecanismos clássicos do filme de assalto e espectador sabe que o personagem está errado, mas quer descobrir se ele conseguirá vencer. A interrogação aparece num estranho personagem jovem, de paletó e gravata que aparece no começo do filme e que deixa no final um anel de brilhante roubado nas mãos de um esmolé idoso, o que ele teria afinal com o roubo? (Kleber Torres) Ficha técnica: Título : Hatton Garden: The Heist O Grande Roubo Direção : Terry Lee Coker Roteiro : Ian Burnfield, Terry Lee Coker e Michael McKell Elenco : Michael McKell , Sidney Livingstone, Robert Putt, James Osborne, Sidney Kean, Ian Burfield, A.G. Longhurst, Richard Toone, Richard Duggins e Nicola Granada Fotografia : Terry Lee Coker Montagem : Terry Lee Coker Gênero: Drama, ação, suspense Música : Ian Wherry Ano: 2016 País : Reino Unido Idioma : Inglês Duração : 87 minutos

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