quarta-feira, 30 de setembro de 2026
Uma guerra irracional e inútil como todos os demais conflitos bélicos
Tendo como cenário os Estados Unidos num período distópico do futuro, o filme Guerra Civil (Civil War, 2024), de Alex Garland, pode ser lido menos como um filme convencional sobre uma guerra e mais como uma reflexão sobre o colapso da democracia, numa época de crescente autoritarismo global, que casa com a banalização da violência, a perda dos direitos fundamentais do cidadão e o papel ambíguo da imprensa diante da catástrofe numa sociedade em crise. Olhe que o filme coincide com um período em que se discute a perda da hegemonia militar e econômica americana, além da emergência de uma nova geopolítica global multipolar, que nos remete também ao paradoxo de Tucídides, o qual ocorre quando uma potência emergente ameaça substituir a dominante, o que também pode resultar numa outra guerra entre nações.
Guerra Civil começa com uma pergunta aparentemente simples: o que aconteceria se os Estados Unidos mergulhassem numa nova guerra civil? Mas Garland evita responder politicamente a essa questão e não explica exatamente como e por que o conflito começou, quais são as ideologias de cada lado ou afinal quem tem ou não razão. Essa ausência é aparentemente deliberada, pois o diretor parece interessado menos na causa da guerra do que na experiência de viver dentro dela, é como se o filme retirasse do espectador a segurança proporcionada pelas explicações políticas e o colocasse diante dele o resultado final, ou seja, uma sociedade na qual as instituições deixaram de funcionar e a violência passou a organizar a vida cotidiana.
A história envolve uma equipe de jornalistas especializados na cobertura de guerras, mas sem citar os veículos para os quais trabalham, entre os quais estão Lee (Kirsten Dunst), que iniciou sua carreira no cinema com OedipusWrecks, um curta metragem dirigido por Woody Allen, para a antologia New York Stories e seu colega de trabalho Joel (Wagner Moura), que viajam pelo país até Washington para registrar a dimensão de um conflito violento que tomou as ruas das cidades americanas. O problema é que o esforço de registros jornalísticos se transforma em uma guerra pela sobrevivência, quando eles também se tornam o alvo de franco atiradores a favor e contra o governo. O elenco conta ainda com nomes como Stephen McKinley Henderson (Sammy ) e Cailee Spaeny (Jessie), uma foca -jornalista iniciante – que representa uma nova geração de fotógrafos.
Um dos aspectos mais provocadores do filme é justamente não apresentar uma divisão política convencional entre esquerda e direita no conflito nestes tempos de polarização calcificada.Assim, os Estados Unidos aparecem fragmentados por diferentes forças, entre elas a chamada Western Forces, formada pelo Texas e Califórnia numa história começa com o presidente dos Estados Unidos (Nick Offerman), visivelmente enfraquecido, anunciando uma grande e expressiva vitória das forças legalistas.
Mas Garland não transforma essas facções em representantes de projetos políticos claramente definidos e o espectador não consegue escolher facilmente um lado, mostrando que guerra deixa de ser uma disputa de ideias para transformar-se em falência da convivência política e social, já os jornalista que não são identificados pelos jornais que trabalham, se tornam os personagens da tragédia que caberia a eles descrever. O filme constrói, através de uma narrativa lenta, com muitos planos gerais de estradas, campos, veículos incendiarios, helcópteros abatidos, mortes de militares e civis em tiroteios, além de execuções no varejo e no atacado, uma espécie de metalinguagem do jornalismo, mas não como quem narra a história, e sim como mero espectador factual da tragédia.
Um contraponto que fica para o espectador é que enquanto os soldados e milicianos (guerrilheiros) lutam para modificar uma realidade, os jornalistas lutam para registrá-la e a câmera fotográfica torna-se quase uma arma. Mas existe uma diferença fundamental: se a arma convencional serve para eliminar o adversário; a câmera deveria preservar os acontecimentos, fazendo o registro histórico da notícia.
Uma cena sugestiva, é a de uma loja que permanece aberta numa cidade marcada pela troca de tiros e oferece produtos aos jornalistas, mostrando que numa guerra civil a questão das pessoas desarmadas e não envolvidas é ficar fora do conflito. O coração humano do filme emerge na relação entre Lee, que já cobriu guerras, massacres e mortes, uma mulher que prendeu a sobreviver mantendo uma determinada distância emocionaldos fatos, enquanto Jessie representa o contrário, aparecendo como uma espectadora fascinada pela guerra e termina transformada pela experiência, ao ser jogada por guerrilheiros numa cova coletiva como se nadasse em meio a centenas de corpos.
Mas, fotografar uma guerra não significa apenas produzir uma boa imagem. significa também carregar aquela imagem depois que o combate termina, revelando as consequências de um conflito irracional, que rompe a distinção entre civilização e barbárie. No final A Casa Branca e Washington deixam de ser simplesmente um símbolo do poder americano, revelando-se uma imagem de desintegração institucional da instauração do caos.
Guerra Civil também radicaliza em relação à própria realidade, porque o conflito não acontece somente no território físico, mas e também na disputa pela imagem da realidade através das lentes dos jornalistas e das suas publicações na mídia. Assim, o filme dialoga diretamente com a crise contemporânea do jornalismo, o que envolve credibilidade e a qualidade da informação num mundo de fake news e de informações controlada, pois, numa guerra, a primeira vítima é a verdade.
Dessa forma Guerra Civil é um filme sobre guerra, mas também sobre jornalismo, o que envolve imagem, memória, polarização, colapso moral e institucional. No filme, as instituições desaparecem, a imagem gerada pelas câmeras torna-se uma das últimas testemunhas da realidade e deixa uma pergunta que ultrapassa os Estados Unidos da ficção e os demais países, pois quando uma sociedade dividida deixa de compartilhar os mesmos fatos, quanto tempo ainda falta para que deixe também de compartilhar o mesmo país? A obra também é relevante para pensar criticamente o cinema contemporâneo e também o futuro do jornalismo.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: Civil War (Guerra Civil)
Direção e Roteiro : Alex Garland
Elenco : Kirsten Dunst, Wagner Moura, Cailee Spaeny, Stephen McKinley Henderson, Nick Offerman, Jefferson White, Nelson Lee, Evan Lai.
Direção de fotografia: Rob Hardy
Montagem: Jake Roberts
Música: Geoff Barrow e Ben Salisbury
Direção de arte/design de produção: Caty Maxey
Ano: 2024
Gênero: drama político, ação, guerra, suspense e thriller
Duração: 109 minutos
Países: Estados Unidos, Reino Unido e Finlândia
Idioma: inglês
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