sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Plano A ou um sonho de vingança além da memória do holcausto e dos limites da justiça
Dizem que a vingança é um prato que se come frio, só que não, mas isso esbarra no filme Plano A (2021), com direção e roteiro dos irmãos Doron e Yoav Paz, que aborda um dos capítulos mais perturbadores pós-Segunda Guerra Mundial, quando um grupo paramilitar israelense planejou envenenar o sistema de abastecimento de água de dois grandes centros urbanos na Alemanha. A ideia era envenenar a população de cidades alemãs provocando mortes em massa, na tentativa de vingar o extermínio de milhões de pessoas pelos nazistas nos campos de concentração, durante a implementação da solução final de aniquilação dos judeus preconizada por Adfolf Hitler e seus asseclas.
Inspirado em acontecimento históricos verdadeiros, o filme com 109 minutos, parte da premissa de uma questão moral sobre o fato de que depois de Auschwitz, Treblinka e outros campos de extermínio, seria factível, exigir justiça e reparação sem que a dor se transformasse num desejo de vingança. Plano A emerge como um filme sobre o trauma, a memória e a fronteira invisível entre a justiça e a reparação, mas a sua força está no fato de deslocar o espectador da comoda posição de um assistente passivo e que ao invés de acompanhar a perseguição dos criminosos nazistas que participaram da banalização do mal para exterminação de judeus, compreender a revolta de pessoas que perderam suas famílias, seu patrimônio, suas comunidades e acabaram perdendo qualquer esperança e mesmo a confiança na humanidade projetando um atentado catastrófico.
A narrativa se passa em 1945, quando depois da derrota para os aliados começa a reconstrução da Alemanha. E, enquanto os judeus sobreviventes tentam recuperar suas vidas, para muitos deles a guerra não havia terminado com a rendição dos alemães. pois seus familiares havia sido executados, suas casas ocupadas ou destruídas, enquanto que a sociedade que permitira o Holocausto ainda continuava existindo .
Max, interpretado por August Diehl, retorna à antiga casa de sua família morta num campo de concentração, mas encontra a hostilidade da população na vizinhança, que não despareceu apesar da derrota nazista e acaba envolvido com integrantes do grupo Nakam, vingança em hebraico, uma organização clandestina com cerca de 50 integrantes, liderada pelo poeta Abba Kovner (Ishai Golan). O grupo tinha como objetivo vingar a morte de seis milhões de judeus envenando a população em larga escala através da contaminação do sistema de abastecimento de água.
O plano não nasce apenas da vontade de punir a população germânica , mas de uma experiência caótica de uma violência que destruiu vínculos afetivos e abalou a própria possibilidade de confiar no mundo e nas pessoas. A dor dos integrantes do grupo não é pessoal, mas e também histórica, em função da morte de milhões de vítimas sacrificadas nos campos de extermínio sem que o mundo conseguisse impedí-lo.
Em realidade, o projeto do Nakam radicaliza essa experiência traumática e a sua lógica era a do olho por olho e dente por dente, pois os nazistas destruíram uma comunidade inteira e sua punição deveria ter uma dimensão proporcional à própria catástrofe que provocaram. A diferença repousa numa dimensão filosófica, ou seja, a de compreender a revolta e ao mesmo tempo legitimar as suas consequências trágicas, com isso, o plano de matar alemães de forma indiscriminada transforma a identidade nacional germânica em uma espécie de critério de culpa e de punição.
A partir desse critério ilógico, a responsabilidade individual simplesmente desapareceria e a vingança passa a reproduzir justamente os mecanismos morais e antiéticos que sustentaram a barbárie nazista através da desumanização de pessoas apenas pelo pertencimento a um determinado grupo seja racial. Assim, como o Holcausto foi uma espécie de genocídio sistemático,organizado e patrocinado pelo Estado nazista, o projeto Nakam surge como uma reação igualmente violenta e caótica como reação a esse crime.
O filme Plano A questiona e coloca em cheque se a experiência da vítima, pode, por si, legitimar qualquer forma de violência posterior. O conflito de Max está entre a memória da barbárie e a possibilidade de recomeçar a partir do caos e ele aparece não como um mero vingador decidido e muito menos como um herói amoral que reencontra o caminho certo. Mas lhe restam duas opções responder à destruíção de sua família com a eliminação de outras vidas, ou tentar construir um outro futuro sem as determinações do passado.
A interpretação de Diehl dialoga com uma presença física marcada pelo esgotamento, pelo silêncio e pela dificuldades de reestabelecer vínculos afetivos, como um homem que sobreviveu biologicamente a uma tragédia coletiva, mas ainda precisa descobrir se ainda lhe restou alguma forma de vida e humanidade depois da catástrofe, impedindo que o filme se reduza à dimensão de uma aventura de perseguição e espionagem. O dilema para ele e o grupo seria saber se vingar aos mortos seria honrá-los ou entregar aos seus assassinos uma influência permanente sobre as vidas dos sobreviventes.
Lento no seu desenvolvimento, Plano A apresenta limitações cinematográficas, numa narrativa que combina suspense, infiltração clandestina de terroristas numa população civil e a emergência de um conflito moral , o que alterna a própria trajetória de Max com os preparativos do grupo Nakan. Embora em deterninados momentos , a dimensão do plano de vingança pareça maior que a capacidade do roteiro no trajeto dos próprios personagens, mas sem conseguir envolver o espectador. De certa forma o enredo da história acaba prejudicado pela narrativa morosa e escolhas visuais pouco claras.
O aspecto mais dramático do filme está na passagem da vingança individual para a punição coletiva, pois o Nakam não pretende apenas punir os criminiosos identificados, os nazistas de carteirinha, mas extrapolar estes limites punindo uma nação inteira, partindo do pressuposto de que os alemães, como uma coletividade foram omissos e, também, seriam por isso também responsáveis pelo Holcausto, devendo pagar por isso. O que também envolve uma questão política, moral e ideológica, afinal qual a autoridade para definir a culpa dos executores e determinar a sua respectiva punição.
Assim, o ressentimento não implica em sentir raiva ou desejar a justiça, mas a busca de uma relação com o passado, na qual a ofensa se torna o centro permanente da existência. E no Plano A, que acabou desarticulado pelas forças de segurança dos aliados, fica evidente que a questão não é exigir que os sobreviventes superem rapidamente os traumas gerados pelo programa de extremínio nazista ou, simplesmente perdoem os criminosos. O problema é quando a vingança se torna o único horizonte possível, assim, o inimigo continua determinando o futuro daqueles que pretendem libertar-se do passado.
Vale observar uma questão apontada por Hannah Arendet sobre a necessidade de distinguir a responsabilidade, a culpa e o julgamento com relação aos crimes perpetrados pelos nazistas na implementação daquilo que consideravam a solução final, com o extermínio dos judeus, distinguindo a responsabilidade individual, a culpa e o julgamento político. Afinal, a dimensão histórica de um crime não autoriza automaticamente e de forma simplista a condenação indistinta de todos os membros da sociedade germânica.
O filme ganha em profundidade ao mostrar que a violência pode destruir não apenas corpos e comunidades, mas afetando até mesmo os critérios que as pessoas distinguem a justiça da injustiça Ele mostra os persongens da trama como sujeitos históricos capazes de resistência, revolta, decisões políticas e suas contradições morais, além de expor o risco de trasformar a condição de vítima em uma autorização ilimitada como carta branca para punir e matar no atacado ou no varejo.
Afinal, o que está em jogo é a tensão entre a legitimidade da indignação e os limites éticos ou morais dos meios escolohidos para expressá-la. A dimensão histórica e política da questão merecia uma abordahgem menos convencional e psicologicamente mais efetiva do problema ou do que fazer quando a justiça parece insufciente diante de um crime que ultrapassa as dimensões da razão e da própria imaginação humana com a produção de mortes a torto e a direito numa dimensão industrial, daí a necssidade de preservar a memória das vítimas, responsabilizar criminalmente os culpados e impedindo a continuidade da lógica da desumanizção para produzir novas vítimas.
Plano A nos confronta emblemáticamente com uma contradição trágica, ou seja, a vingança promete devolver às vítimas o poder que lhes foi retirado, mas pode acabar subordinando o futuro à mesma violência que destruiu seu passado gerando uma espécie de circulo vicioso incontrolável.(Kleber Torres)
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