segunda-feira, 14 de setembro de 2026
Uma referência definitiva para não deixar o blues morrer
Com 90 minutos de duração, o documentário Buddy Guy: The Blues Chase the Blues Away, que em português poderia ser traduzido literalmente como o blues afasta a melancolia e os males do coração, acompanha a trajetória de Buddy Guy, considerado historicamente um dos pilares do blues e do rock. Combinando imagens de arquivo, com depoimentos e performances inesquecíveis, a proposta do filme é documentar a história de um artista que ajudou a moldar como seus acordes e estilo personalíssimo o rock e o blues contemporâneos, e, ao mesmo tempo transmitir a força emocional, além da urgência para preservação e continuidade do próprio blues, que segundo ele foi trazido para a América nos porões dos navios negreiros.
O documentário opta por um ritmo que alterna entre momentos contemplativos e sequências vibrantes de shows nos Estados Unidos e na Inglaterra. Tudo começa com uma cena no campo, em que Buddy Guy fala da sua relação com a música, primeiro, ao ouvir o cantar dos pássaros na zona rural de Louisiana, onde a família vivia da colheita de algodão, e depois, ao ouvir John Lee Hooker (1917/2001), quando o blues virou e fez em definitivo a sua cabeça. Essa alternância funciona como uma de metrônomo, assim, quando a câmera se demora em memórias e entrevistas, o espectador respira; quando corta para o palco, ele é arremessado para a intensidade do som e à marcante trajetória musical de Buddy Guy.
A direção privilegia a intimidade e o informal, seja nos closes nas mãos, no rosto, nos instrumentos ou usando o contraste entre luzes de palco e cenas cotidianas para sublinhar a dicotomia entre a lenda pública e o homem privado, com passagens sobre a memória da sua infância até uma apresentação de gala na Casa Branca, com direito a uma palhinha do presidente Barack Obama. A cinematografia captura bem a textura do blues seja em grãos, suor do palco e rugas deixadas pelo tempo inexorável.
A trilha sonora, naturalmente, é o ponto alto estético do filme; as performances são filmadas com respeito ao som ao vivo, preservando a crueza e a dinâmica dos instrumentos e da voz dos artistas. O filme cumpre o papel de apresentar o guitarrista Buddy Guy como figura central na ponte entre o blues tradicional e o rock elétrico. Depoimentos de músicos, produtores e críticos ajudam a contextualizar sua influência ao longo do tempo como um artista inovador com mais de 50 anos de estrada.
Ainda assim, a obra poderia se beneficiar de uma investigação mais crítica sobre as contradições da indústria musical por exemplo, a exploração de artistas negros tratados como FDPs pelos donos de um estúdio, as dificuldades financeiras apesar do reconhecimento artístico que se consolidou a partir de relação entre Buddy com Muddy Waters, os Rolling Stones, Eric Clapton, Jimmy Page, Carlos Santana e outros músicos influentes ou mesmo tensões pessoais que moldaram sua carreira como a parceria proveitosa em termos criativos com Junior Wells, lendário gaitista e cantor, mas de quem acabou se afastando até a opção para o uso de guitarras com bolinhas.
Se as entrevistas formam a alma, sem dúvida alguma as sequências de shows são o coração do documentário. Buddy Guy aparece em plena forma, com solos que respiram e frases que parecem conversas íntimas, inclusive nas apresentações em pequenos clubes que começaram, a desaparecer nos anos 70 do século passado. Ele próprio montou o seu próprio clube na rua 43, o Checksboard Lounge, em Chicago, com 90 lugares, que numa apresentação dos Rolling Stones, recebeu apenas três privilegiados espectadores, uma vez que os demais lugares na plateia foram ocupados pela equipe de produção do espetáculo, além de seguranças, integrantes do grupo musical e outros astros convidados.
Há momentos em que a câmera se afasta para captar a reação do público, lembrando que o blues é tanto sobre quem toca quanto sobre quem escuta. Esses trechos justificam, por si só, a experiência de ver um filme em que a energia dos músicos e a técnica, se soma ao espetáculo. O mérito do filme rodado em 2019 foi preservar e celebrar uma lenda viva do blues e que seguiu o conselho de Muddy Waters para não deixá-lo perecer.
Buddy Guy: The Blues Chase the Blues Away ao mesmo tempo em que aponta as limitações pessoais de Buddy Guy, prevalece como uma celebração sonora e visual de um mestre que enriqueceu a música mantendo viva a chama do blues e ampliando as fronteiras do rock. A narrativa privilegia a experiência sensorial do som e a presença do artista no palco, oferecendo ao público mais que um simples registro audiovisual, mas um legado definitivo de um ícone da música.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título original: Buddy Guy: The Blues Chase the Blues Away
Direção: Michael John Warren
Elenco e participações: Buddy Guy, Eric Clapton, Jeff Beck, Carlos Santana, Mick Jagger
Gênero: Documentário musical / biográfico.
Duração: 90 minutos
Ano de lançamento: 2019
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