sábado, 26 de maio de 2018

Um ex-ladrão que escapou do dragão invisível da corrupção





Com locações em São Paulo, Brasília, Belém e Miami, o documentário “Pega Ladrão”,  assinado pelo  jornalista e diretor Otávio Escobar conta a  história do empresário paraense Sila da Conceição, que tem negócios no Brasil e nos Estados Unidos, com investimentos no setor financeiro, na construção civil e numa frota de táxi. 
Ex-batedor de carteiras até o inicio dos anos 80, ele atuou por dez anos como lanceiro  e passou onze meses preso, mas  ao ser solto, como não conseguia emprego no mercado formal de trabalho,  foi a um  banco onde conseguiu  empréstimo para comprar o primeiro carro - um fusca 79 - , táxi que dirigia mesmo sem habilitação, deu inicio à formação de uma frota que hoje opera em Belém e Manaus.
“Prazer, Sila, ex-ladrão”,  desta forma ele apresentou-se ao gerente do banco para pedir a concessão do primeiro empréstimo para a compra do primeiro táxi, sempre liquidando as dívidas antes do prazo, ampliando assim o acesso ao crédito.  Como não tinha referências comerciais, ele conta que apresentou ao gerente os nomes dos diretores dos presídios em que esteve detido e assim começou uma guinada na sua vida, iniciando uma história vitoriosa como empresário bem sucedido e que também foi tema de um livro “Danem-se as normas”, em que  narra a história da sua vida, um rapaz que em meados da década de 1960, trabalhava no mercado Ver-o-Peso, em Belém, onde vendia tapioca para garantir a sobrevivência da mãe e dos irmãos e que depois foi batedor de carteiras em três capitais brasileiras.
O livro e o documentário também falam da vida de Sila como ladrão com ações em Belém, depois em Brasília, que naquele tempo em que era batedor de carteiras não tinha tantos políticos e São Paulo, onde atuou por vários anos e cumpriu pena no Carandiru. Este passado também gerou dificuldades no mundo empresarial e acusações de policiais e jornais sobre o seu envolvimento com atividades ilícitas na sua ascensão no universo empresarial. No filme, ele conta que foi interpelado por um juiz porque tinha uma frota de cem carros, enquanto o magistrado não tinha nenhum ao que respondeu com ironia: “o senhor trabalhou mal”;
Já como empresário bem sucedido, ele participou de  talks shows, onde foi entrevistado por Marília Gabriela e Jô Soares, bem como esteve em eventos empresariais onde falava da sua experiência de sucesso lembrando que “mesmo quando era ladrão, eu já tinha uma filosofia de vida”. Outro segredo que ele ensina é que ninguém morre por trabalhar ou por amar demais.
Ele também atribui o seu sucesso empresarial à disciplina e diz que o segredo está não no que se ganha, mas no que se deixa de gastar.  No documentário está incluída uma reportagem do jornalista Tim Lopes, que foi morto no Rio, por traficantes, em 2002  e que um ano antes havia acompanhado Sila em uma visita à cela em que ficou preso no Carandiru e no hotel em que se hospedava no centro da capital paulista.
Hoje, Sila tem uma das maiores frotas de táxi de Belém e Manaus, e uma empresa de investimentos imobiliários nos Estados Unidos. Ele reside em Miami, onde dirige um Mercedes  pelas ruas e monitora os seus negócios, investindo na cidadania americana, mas questiona métodos vigentes no mundo dos negócios no Brasil, que muitas vezes ferem a própria ética em onde “ser honesto é foda”.

Para um homem que foi ladrão e conviveu com prostitutas, traficantes e assassinos, passando por diversas vezes pela prisão, o sucesso foi  resultado de trabalho honesto, até porque não se pode perder o crédito, e de muito esforço. Ele lamenta que no Brasil  de hoje tudo funcione na base da propina, por isso preferiu trabalhar e viver nos Estados Unidos, que oferece mais segurança e estabilidade para quem trabalha e investe sem ter de enfrentar o dragão invisível da corrupção ou o tradicional jeitinho brasileiro.(Kleber Torres_)

domingo, 13 de maio de 2018

Os caminhos do cinema e da invenção para uma Viagem à Lua








Uma obra prima na história do cinema, assim pode ser considerado o primeiro filme de ficção científica, "Viagem à Lua", lançado em 1902, com direção de Georges Méliès, definido como um dos primeiros mágicos do cinema. A produção assinada por Eric Lange, David Shepard e Serge Bloomberg, com duração de 15 minutos, foi inspirada em dois romances populares de sucesso na época: "Da Terra à Lua", de Júlio Verne, e "Os Primeiros Homens na Lua", de H. G. Wells.

O filme foi pioneiro na abordagem da possibilidade de uma viagem espacial e da existência de seres alienígenas, mas incluiu a utilização de foguetes de design parecido com os dos dias hodiernos, isso sem falar no uso de efeitos especiais e até mesmo com retorno dos astronautas à terra através de um pouso da nave num oceano. “Viagem à lua” também compatibiliza cenas de desenho animado de com a imagem de um foguete encravado  no olho da face visível da Lua com feições humanizadas.

Tudo começa quando o professor Barbenfouillis, interpretado por Georges Méliès, convence seus colegas a participarem de uma viagem de exploração lunar, um sonho atávico, acalentado pelo homem desde os tempos imemoriais. O grupo parte em uma nave parecida com as dos dias atuais que foi disparada por um imenso canhão e aterrissa no olho direito da Lua.

O problema é que o grupo de exploradores – que se vestem como os antigos feiticeiros e alquimistas - acaba enfrentando os seres lunares hostis que os levam ao seu rei para um possível julgamento. Numa virada diante da possível ameaça, terráqueos conseguem escapar quando descobrem que os inimigos explodem e viram fumaça diante de uma arma mortal: um simples toque de um guarda-chuva, evidenciando os primeiros efeitos especiais do cinema.

O filme é mudo, mas tem um fundo musical proporcionado pela Mont Alto Motion Picture Orchestra com participação de Eric Behein, Brian Benison, Antonio Coppola, Frederic Hodger, Robert Israel, Neal Kurz e Eric Le Guaen.  A obra produzida pela Star Film teve sua recuperação quadro a quadro concluída em 2011 pela Lubster Films, com uma versão colorida e uma em preto e branco como a original e termina com os heróis sendo recebidos em festa na terra, uma cena que se repetiu na vida real na segunda metade do século XX. (KLeber Torres)


Ficha técnica

Título : Viagem à Lua (Le Voyage dans la Lune)

Data de lançamento: 1 de setembro de 1902 (França)
Direção: Georges Méliès
Produção:  Eric Lange, David Shepard e Serge Blomberg
Figurino: Jeanne d'Alcy
Roteiro : Georges Méliès, Júlio Verne, H. G. Wells
Elenco: Georges Méliès, François Lallement, Jules-Eugène Legris
Drama/Fantasia/Ficção Científica
16 min

terça-feira, 1 de maio de 2018

Banksy ocupa Nova York com suas polêmicas obras de arte






O documentário Chris Moukarbel que tem como titulo Banksy ocupa Nova York (Banksy Does New York) tem como referência uma série de performances de guerrilha artística do britânico Banksy,  pseudônimo de um artista plástico  pintor de grafites e de telas, ativista político e diretor de cinema, que com  a sua arte de rua satírica e subversiva combina humor negro e grafites com um conjunto de técnicas revolucionárias e inovadoras, durante o mês de outubro de 2013, em Nova Iorque, onde  realizou uma série de performances  pelas ruas e espaços urbanos com interferências criativas  terrenos baldios, prédios decadentes e mesmo na parte inferior de  pontes ou viadutos.
O fato é que todas as suas intervenções foram divulgadas em um site e acabaram atraindo a atenção de moradores  da Big Apple e turistas, que fotografavam e faziam selfies junto às obras de arte. Dentre os happenings  se destacam uma crítica à construção da nova torre no Trade Center, além de uma escultura de um Ronald McDonald mal-humorado, com cara de um Deus grego e usando um enorme sapato vermelho que era engraxado por um jovem humildemente  humano.
Entre as surpresas das performances aparece a de um caminhão carregado de bichos de pelúcia que choravam e gritavam simbolizando animais indo para o abate, enquanto o veiculo era estacionado propositalmente em frente a lojas de comercialização de carne de gado, de frango ou de porco. Num outro evento,  ele colocou numa das ruas de NY um vendedor ambulante comercializando seus quadros que valiam US$ 250 mil no mercado formal pelo equivalente a US 60 ou seja cerca de R$ 210 reais, vendendo no total o equivalente a US$ 420, sendo que um dos compradores adquiriu quatro trabalhos para decorar a sua casa.
A performance atraiu uma verdadeira caçada entre fãs, aspirantes a colecionadores de arte e a polícia que os reprimia apreendendo inclusive uma das peças do artista que trabalhou anonimamente e em parceria com artistas americanos. Um especialista no mercado de arte não só catalogou as peças, como também ajudou aos proprietários das paredes e até mesmo de uma esfinge colocada pelo artista em um terreno baldio na realização de uma exposição em que não foram vendidos nenhum dos trabalhos de Banksy. O fato é que todos queriam um pedaço de sua obra antes que fossem destruídas e as tinham em muitos casos através de fotos ou ajudando na sua preservação.
Em sua essência, o  documentário busca  acompanhar a sequência  das obras de Banksy em Nova York e explora a velocidade da reação do público através do whatsApp e das redes sociais, numa mobilização sem precedentes como numa corrida do ouro ou mesmo na busca do sentido da arte e quem sabe da essência da própria vida, num tempo de metáforas e da instantaneidade.(Kleber Torres)


FIcha Técnica:

Título :  Banksy Does New York (Banksy ocupa Nova York)
Direção; Chris Moukarbel
Gênero : Documentário
Nacionalidade : EUA

Ano: 2017

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Uma história que transcende as barreiras e da essência do jornalismo










Uma aula de jornalismo e uma lição de vida assim pode ser definida a essência o documentário The newspaperman: the life and times de Bem Bradlee  (O Homem do Jornal: A Vida de Ben Bradlee), de John Maggio, com duração de 90 minutos e narrado pelo próprio jornalista. O filme revela a história de um controvertido  profissional em imprensa que foi  aluno de uma das melhores universidades americanas,  oficial da Marinha americana com oito condecorações, correspondente internacional, privou da amizade do presidente John Kennedy, que durante 29 anos foi editor do Washington Post e personagem interpretado por Jason Robards e Tom Hanks, em Todos os Homens do Presidente, de Alan Pakula, e do  The Post - A Guerra Secreta.
Com uma série de depoimentos da mulher, dos filhos e amigos, o filme revela a história de um homem de  família conservadora e que esteve incluído num estudo sobre lideres da Universidade de Havard nos anos 40. Ele conta que casou com a primeira jovem que namorou e no mesmo dia passou a atuar por oito anos na Marinha dos Estados Unidos, revelando sua capacidade de liderança e de resiliência no Pacífico durante a II Guerra Mundial.
Uma mostra desta capacidade foi o fato que na adolescência foi acometido poliomielite e superou as sequelas dedicando-se ao esporte com  ajuda e incentivo decisivos do pai. Ele  conseguiu seu primeiro emprego como jornalista em 1948 e acabou  consolidando a sua carreira quando convidado para ser  correspondente da revista Newsweek em Paris, onde conheceu a segunda mulher Tony.
O filme revela todas as facetas do jornalista, que viveu em festas e happenings de uma sociedade glamorosa,  flertando com mulheres cativanetes e cultivando amizade íntima com os Kennedys, em especial com John Kennedy que foi eleito presidente dos Estados Unidos e não perdoava nem mesmo a mulher do amigo.
Bradlee teve participação decisiva como  editor do The Washington Post na  divulgação dos Papéis do Pentágono, que resultou  numa vitória da liberdade de imprensa na Suprema Corte  - sequenciando uma cobertura iniciada pelo New York Times, que foi impedido de divulgar uma sequência de reportagens de documentos secretos sobre a guerra do Vietnã, através e uma decisão favorável ao governo americano – e que abalou o governo de Richard Nixon e o Caso Watergate acabou por derrubá-lo depois de reeleito para presidência dos Estados Unidos.
O problema é que os próceres do governo no caso de Watergate ao invés de admitirem os erros do presidente, botavam a culpa do escândalo na imprensa como ocorre no âmbito tupiniquim com os nossos corruptos envolvidos na Operação Lava Jato.
Os dois casos que tiveram repercussão mundial e são narrados no filme pelo próprio Bem Bradlee, como  também por seus protagonistas, como os repórteres Bob Woodward e Carl Berstein, que levaram com o seu aval até o fim a apuração do caso do Watergate, que a princípio seria um roubo conduzido por cinco ladrões desastrados, mas desmascarados pelos seus vínculos com a CIA e consequentemente com o governo americano. O presidente Nixon era vingativo e gravava costumeiramente as conversas com aliados e inimigos políticos, chegando a banir da Casa Branca a presença dos jornalistas do Washington Post.
No documentário que inclui depoimentos de familiares, amigos, jornalistas e políticos, o ex-secretário de Estado, Henry Kissinger fala do estilo jornalístico de Bradlee que criou uma coluna sobre gente revelando o dia a dia dos poderosos de platão, como um profissional que tinha uma preocupação com boas histórias e a verdade.
Revela ainda as duas facetas do editor, que se desculpou e assumiu um erro por uma série de reportagens indicadas para o Pulitzer – o maior prêmio jornalístico da imprensa americana-   que, comprovou-se, haviam sido forjadas pela repórter  Janet Cooke ao narrar a história fictícia – uma Fake News – de um menino de oito anos viciado em heroína desde os cinco anos. 
Bradlee assumiu o engano com uma histórica  matéria de capa seguida de quatro páginas internas, num exemplo louvável de humildade e de transparência, coisa de quem sabe separar o joio do trigo e por experiência pessoal,  avançar e recuar no momento preciso, o que aprendeu nas artes da guerra e que aplicou com sabedoria na vida.(Kleber Torres)

sábado, 10 de março de 2018

Viver às vezes parece ser fácil de olhos fechados embora seja sempre perigoso





        Candidato da Espanha ao Oscar 2015 na categoria melhor filme estrangeiro, Viver é Fácil Com os Olhos Fechados tem como referência de título o primeiro verso da segunda parte da música Strawberry Fields Forever, destacando que Living is easy with eyes closed. O filme é um Road Movie misturando com excelentes resultados realidade e ficção a partir de um fato real: a ida de John Lennon à Espanha para filmar Como Eu Ganhei a Guerra, rodado em 1966, durante a ditadura franquista, o que gerou uma ampla polêmica internacional.
        O filme começa com um curto documentário mostrando o sucesso global dos Beatles e fatos polêmicos sobre o grupo já em fase de desagregação como a comparação de Lennon no auge da banda declarando: “Atualmente somos mais populares que Jesus Cristo".”  O roqueiro iconoclasta também se queixa no documentário das pressões cotidianas que colocavam em questão a própria individualidade dos artistas, que já não sabiam quem eram em função das apresentações contínuas em vários países e das exigências do marketing dos seus promotores e produtores.
        Tudo começa quando, em plena ditadura do generalíssimo Franco, Lennon, com a mulher, filho e equipe de filmagem se desloca para a cidade espanhola de Almería, com o objetivo de rodar um longa-metragem. A filmagem ocorre em meio aos rumores de dissolução do grupo o que aconteceu somente três anos depois.
        O filme tem como personagem principal o solitário professor Antonio San Roman (Javier Cámara), que leva uma vida modesta  ensinando inglês e latim numa rígida escola religiosa. Ele procura ensinar a língua inglesa aos alunos usando canções dos Beatles e numa das aulas ele faz uma análise da letra de Help (Ajude), que tem um sentido amplo com metáforas  sobre a juventude e a idade adulta, até porque todos nós em um momento da vida vamos  necessitar de algum tipo de ajuda de alguém.
        Tudo muda quando Antonio descobre que seu ídolo Lennon está em Almeria, uma pequena cidade onde prosperam melecas e ramelas. Então,  ele  pega o seu velho carro e parte de Madri para o interior, disposto a conversar com John Lennon e reclamar porque os discos dos Beatles não traziam no encarte as letras das músicas. Coincidência ou não entre realidade e ficção, o filme faz referência no final, que após 1966, os discos da banda britânica na Espanha tiveram encartes com as respectivas letras das músicas.
        Nesta viagem ele encontra dois jovens a quem oferece carona: a bela Belén (Natalia Molina) uma adolescente que esta enjoando no terceiro mês de gravidez e Juanjo (Francesc Colomer),iniciando uma viagem quixotesca marcada de esperança e muitas decepções. Os três oferecem o lastro da dimensão humana do filme com seus dramas: um professor solitário e que era um beatlemaníaco, uma jovem sem rumo e que se prepara para ter um filho, mas que rejeita uma proposta de casamento do professor e acaba tendo momentos íntimos com Juanjo.
        Juanjo, que criava cabelos longos como os dos Beatles, era um jovem rebelde, que foge de casa aos 16 anos por contestar a autoridade paterna e esta mais sintonizado com os Rolling Stones, considerados mais agressivos e  mal comportados.
        O jovem acaba agredido por fregueses machistas do bar onde vai trabalhar e o professor Antonio acumula além disto frustrações pelo fechamento da estrada que dava acesso ao local das filmagens, o que o faz indagar porque tudo dava errado com ele. Outra tentativa frustrada dele é quando chega à casa alugada por Lennon e expulso do portão pela mulher do músico e ator, Cynthia que joga em sua direção caqueiros de planta quando o professor tentava abordar o filhote do casal, Julian Lennon.
          Cabe salientar que o professor  tem sucesso no encontro com o Beatle depois de um contato com um integrante da equipe de filmagem no cinema onde eram rodadas as cenas de cada dia de filmagem, mas o encontro é particular, no set de filmagens sem testemunhas, porque o astro do rock era uma pessoa tímida. O professor é recebido pelo roqueiro numa motorhome.
        O filme tem no seu titulo uma critica velada à  sombria ditadura franquista que deixou no seu rastro milhares de mortos. O  diretor David Trueba consegue colocar na tela os dramas e sonhos humanos, bem como a questão da deficiência de Bruno, um jovem com lesões no cérebro e que vive restrito a uma cadeira de roda.
        Além de conseguir mostrar a dimensão dos dramas humanos e tapas em profusão em várias sequencias, o filme também prima pela qualidade da fotografia no quente verão espanhol e ao resgatar o figurino de uma  época de mudanças culturais aceleradas.
        Em  Viver é Fácil com os Olhos Fechados o professor Antonio mostra que não se pode viver com medo e é preciso ousar, não apenas contra uma ditadura fascista, mas e também contra os seus simbolos um padre ranzinza que aplicava tabefes nos alunos.
        O professor também nos alerta para que não se deixe roubar a dignidade e enquanto Juanjo volta em companhia do pai e de Belén para Madrid. Ele, antes do retorno à capital espanhola destrói a plantação de morangos (strawberry fields) do agricultor que espancou o jovem e o havia agredido quando foi exigir que o mesmo se desculpasse junto ao adolescente.
        Realizado nesta missão, o professor vibrava bem alto “Help” ao volante do seu pequeno carro e como um quinto beatle sumiu na estrada retornado para casa ao som de Strawbarry Fields Forever, talvez mostrando uma contradição de que viver não é fácil muito menos de olhos fechados e como dizia o nosso Guimarães Rosa, é muito perigoso. (Kleber Torres)


Ficha técnica:

Titulo : Viver é fácil de olhos fechados / Living is easy with eyes closed
Direção e roteiro : David Trueba
Elenco : Francisco Colomer (Juanjo), Javier Câmara (Antonio), Ramon Fontserè (Ramon), Natalia Molina (Belén), Rogelio Fernandez (Bruno), Jorge Sanz (Dad) e  Violeta Rodriguez (Julia)
Música : Pat Matheny e Charlie Haden
Cinematografista : Daniel Pilar
Espanha
Colorido
105 minutos

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Qual a lógica e os limites entre ficção e realidade ?





Qual o limite ficção e  realidade é o tema de In the Mouth of Madness (À Beira da Loucura ), um filme de terror  por dirigido por John Carpenter e que mergulha no roteiro de Michael de Luca no universo abismal e caótico de H.P.Lovercraft, um escritor americano que revolucionou o gênero de terror, atribuindo-lhe elementos fantásticos típicos dos gêneros de fantasia e ficção científica.
A história começa quando um investigador, John Trent (Sam Neill) é contratado para localizar Sutter Cane ( Jürgen Prochnow), um escritor de livros de terror que, após terminar seu último livro, desapareceu misteriosamente e sem deixar rastros. Mesmo desconfiando que isso não passa de uma jogada publicitária de marketing para divulgação do livro alavancando as vendas, ele aceita o trabalho de investigação.
Sem pistas definidas, ele começa a ler os livros do escritor desaparecido, buscando identificar  um local onde o Cane possa estar escondido, o que o leva à loucura. O problema é os livros de terror de Cane são essencialmente violentos e, após sua leitura, os leitores começam a agir de modo bizarro, provocando incidentes e mortes.
No início do filme,  as cenas se concentram num paciente, Trent internado num manicômio e que nega ser louco, pede um cigarro ao psiquiatra e depois, numa outra sequência manifesta sinais de já admitir a prevalência da loucura. Como investigador, ele  procurava ao mesmo tempo seguir a rota de pagamentos ao escritor, Sytter Cane considerado o profeta louco das palavras impressa, cuja ficção se tornou uma espécie de religião, um processo que culmina com a publicação do livro The Mouse of Madness, que dá titulo ao filme.
O problema é que em paralelo ao sumiço do escritor, cuja obra em seu conjunto tem um valor estimado de U$S 1 bilhão,  o seu agente literário fica louco e acaba contido à bala, o que coloca em xeque a ideia de um golpe publicitário para divulgação do novo best-seller. Também fica evidenciado para o investigador John Trent é que um ano antes do desaparecimento de Cane o seu trabalho havia se tornado cada vez mais estranho e bizarro, considerando que ele refletia não a ficção, mas a própria realidade, o que é um dos temas centrais do filme que tem um desenho noir.
O detetive, que parece um cético, acredita que  o efeito dos livros no comportamento dos leitores e do próprio agente literário seria fruto de uma espécie de histeria coletiva. Mas, o desenrolar do filme é marcado ainda por noticias sobre uma escalada de violência e mesmo da morte de policiais, enquanto o detetive Trent começa a devorar  os livros do escritor descobrindo criaturas sinistras que vivem na escuridão ou gente que enlouquece e vira monstro.
Trent também  sonha vendo um policial que ia lhe bater virar monstro, além de ver mortos vivos e corpos sangrando. No filme não há violência explicita, mas sugerida por cortes providenciais. Assim, enquanto o detetive  continua devorando os livros de Cane, ele romonta a sua capa, construindo um mapa em que colocando Hobb’s End, um lugar imaginário e cenário do romance   In the Mouse of Madness na Nova Inglaterra (New England).
A editora Linda Styles(Julie Carmen) propõe que o detetive a acompanhe até a Nova Inglaterra. Na viagem em um carro que passeia entre nuvens, eles passam por um estranho garoto de bicicleta e depois Styles atropela um velho que viajava na direção inversa à sua  e que acaba morrendo. Mas em Hobb’s End, onde chegam, tudo é insólito: as ruas estão vazias, há uma casa de antiguidades e num hotel, uma velha senhora seria a personagem do romance de Cane e que teria matado o marido, os hospeda. Na viagem, Trent e Styles também conversam sobre a relação entre realidade/ficção e sanidade/insanidade, mas quais os limites da razão e do bom senso?
Na cidade e no seu entorno, as cenas de violência se seguem em sequências diversas em que aparecem cães rottweiler agressivos, crianças violentas e homens armados que também procuram por Cane, abrigado numa espécie de catedral gótica. Em essência tudo parece indicar que o fim do mundo se iniciava em Hobbs End.
Styles deixa o detetive no hotel e  tenta escapar do labirinto de Hobb’a End sonzinha, mas o dono de um bar onde vai lhe diz que a cidade não é para turistas, depois, ela vai a uma Igreja onde uma criança a chama de mãe e em seguida encontra Cane  protegido pelos cachorros.  Ao voltar ao hotel a editora vê o quadro do hotel mudar de forma e descobre que a realidade é relativa e o que aparentemente é não existia.
Trent também tenta deixar a cidade cuja população parece enlouquecida e encontra Sutter Cane que pede para que ele o deixasse porque seria bom para o livro e que levasse os seus originais para o editor. O detive destrói os originais e apresenta o seu relato ao CEO da editora, Charlton Heston, que le informa sobre a publicação já editada e o filme que está chegando aos cinemas;
Mas À Beira da Loucura prossegue com cenas estranhas e neste ínterim a cidade convive com nova onda de violência e de crimes, numa escalada sem precedentes e o filme termina com o hospício destruído e com os móveis quebrados, com Trent ganhando as ruas, enquanto no prenúncio de uma espécie de  apocalipse uma voz numa emissora de radio informa  que vai continuar a transitir enquanto  puder aguentar. Um cinema abandonado e em meio ao cenário caótico ostenta cartazes e a exibição do In the Mouse of Madness, mostrando o caos e a boca escancarada da loucura.


Ficha Técnica

Titulo : À Beira da Loucura (In the Mouse of Madness)
Direção : John Carpenter
Roteiro : Michael de Luca
Elenco: Sam Neil, Jurgen Prochnow, David Warner, Charlton Heston, Julie Carmen
Gênero : Terror
Origem : EUA
Ano : 1995

95 minutos 

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Miles Davis une jornalismo e música num filme autobiográfico



Ao tentar  publicar uma matéria exclusiva sobre o trompetista Miles Davis (Don Cheadle), um dos mais influentes músicos do século XX, que estava afastado dos palcos há cinco anos em função do uso intensivo de drogas e medicamentos, o repórter Dave Braden (Ewan McGregor) não respeita o seu isolamento e tenta resgatar a história do músico numa reportagem para a Rolling Stone, uma revista mensal americana, com foco na música, política e cultura popular, o que resulta numa inesperada aventura marcada por flashbacks. O resultado é o resgate da trajetória de artista sem limites e a revelação das diversas facetas controvertidas de um maiores dos astros do jazz.
Tudo começa quando Davis, que estava afastado há anos do circuito musical, faz uma intervenção em um programa de uma emissora americana e pede que não chamem a sua música de jazz, mas simplesmente de música da alma, complementando: “se vai contar uma história, conte com atitude, não me venha com papo furado”.
No mesmo programa o trompetista  faz referências a So What,  no álbum Kind of Blue, uma  álbum gravado em 1958, com a participação de monstros como o pianista Bill Evans, o baterista Jimmy Cobb, o baixista Paul Chambers e os saxofonistas John Coltrane e Julian “Cannonball” Adderley. O álbum tem sido aclamado pela critica como o mais bem-sucedido trabalho de Miles Davis e a obra de jazz mais vendida ao longo do tempo.
Davis pede ainda que o apresentador do programa toque Solea, um dos destaques do álbum Sketches os Spain, de 1959, onde também aparecem como destaques "Concierto de Aranjuez" , de Joaquim Rodrigo; “Will of the Wisp”, de Manuel Falla; “The Pan Piper” de Gil Evans, que também assina Saeta e Solea.
Para o jornalista Dave Braden, Davis define sua história de vida em duas linhas: “ nasci e mudei para Nova York, conheci uns caras, compus umas música, usei umas drogas (coca e heroína), compus ainda mais e até você aparecer na minha casa.” O filme fala da relação conturbada de Davis com a dançarina Cicely Tyson, que o ajudou numa das fases a superar o vício em heroína e que o deixa em definitivo em 1988.
Com  o objetivo de conseguir a entrevista desejada o repórter promete a Davis a melhor cocaína da cidade e ele acaba autografando na casa do traficante diversos álbuns que o mesmo colecionava. Ao jornalista, Davis, que era filho de uma família de recursos, também conta que acordou negro e sabendo tocar  e diz acreditar que a música que não evolui está morta e sepultada.
O filme é marcado por muitos flashbacks da vida do artista, com incursões na sua vida sentimental, nas festas que fazia, nos cuidados em guardar gravações, na relação conturbada com as gravadoras e que foi também vítima de prisões forjadas quando um policial o ameaça e espanca injustamente.
O filme mostra o lado humano de um artista completo, que teve muitos altos e baixos como todos os seres humanos, mas deixou imortalizada uma obra gigantesca, e que em 1944, tocou no  grupo de Billy Eckstine, em St. Louis, onde se apresentou ao lado de lendas vivas como Dizzy Gillespie e de Charles Parquer, The Bird, ao substituir  Buddy Anderson, entrando como terceiro trompetista por algumas semanas, mas acabou ficando em definitivo, sendo incorporado ao elenco da banda.
Alguns críticos questionam a qualidade do filme em função dos cortes rápidos e de veracidade da história, com o trompetista e o repórter em busca de cocaína e de receber US$ 20 mil que lhe eram devidos por uma gravadora, nas fica a ligeira sensação de que faltava algo mais, inclusive em termos de músicas de um artista com um legado tão expressivo e de qualidade reconhecida internacionalmente. (Kleber Torres)

Ficha técnica

Títulos : Miles Ahead (Miles Davis)
Direção: Don Cheadle
Elenco: Don Cheadle, Ewan McGregor, Emayatzy Corinealdi  
Gênero: Drama e Biografia  

Estados Unidos