domingo, 14 de dezembro de 2025

A história da decadência de um homem e o nascimento de um mito do cinema

Aos 95 anos de sua primeira exibição, poucas obras do cinema alemão carregam o peso histórico e simbólico de O Anjo Azul (Der blaue Engel, 1930), dirigido por Josef von Sternberg. Embora frequentemente associado ao expressionismo tardio com sua atmosfera carregada, seus contrastes visuais e sua teatralidade psicológica, o filme se situa na fronteira entre o expressionismo e o realismo da República de Weimar, refletindo a decadência moral e social de uma época que caminhava para o abismo. O filme cristaliza tensões da Alemanha pré-nazista, inaugura um novo tipo de estrela global e define esteticamente a linguagem do cinema sonoro. Em termos históricos, o filme estreou em 1930, quando a Alemanha vivia uma instabilidade econômica pós-crash de 1929 e os reflexos da derrota sofrida na I Guerra Mundial; além de enfrentar uma polarização política crescente, agravada por uma decadência moral percebida por setores conservadores da sociedade em paralelo a uma grande efervescência artística e cultural A história do professor Immanuel Rath (Emill Jennings) um homem respeitável que se desintegra ao entrar em contato com o submundo boêmio. O filme funciona como metáfora da própria sociedade alemã que se manifestava com a crise da autoridade burguesa em colapso; o choque entre moralidade tradicional e modernidade urbana e até mesmo a sensação de desorientação coletiva. Os críticos e o próprio público da época reconheceram no filme um retrato incômodo de sua própria realidade. Ao contrapor vozes humanas, com o cacarejo de galinhas, assovios, som ambiente e a própria música, O Anjo Azul se tornou um dos primeiros grandes sucessos do cinema sonoro europeu consagrando o uso e difusão da nova tecnologia. Ele demonstrou que o som podia ser integrado de forma expressiva, não apenas técnica, com isso canções podiam se tornar elementos narrativos centrais de um filme, enquanto performances vocais podiam criar mitologias culturais a exemplo da música “Falling in Love Again”, de Friedrich Hollaender e a voz de Marlene Dietrich transformaram o filme em um fenômeno internacional. Ambientado em 1925, o filme narra as desventuras de um professor rígido e respeitável, cuja vida disciplinada e rotineira começa a ruir quando ele tenta disciplinar seus alunos frequentadores do cabaré O Anjo Azul. Lá, ele conhece Lola, a cantora sedutora vivida por Marlene Dietrich, cuja performance magnética como intérprete da canção central do filme captura não apenas o professor, mas toda uma geração de espectadores alcançando o estrelato internacional. Rath, dominado por uma paixão obsessiva, abandona sua carreira, sua reputação e sua dignidade para seguir Lola, com quem acaba se casando. O que começa como fascínio transforma-se em humilhação pública, culminando em sua completa degradação emocional e social, com o professor transformado num palhaço. A trajetória do professor envolve todo um circulo vicioso que resulta numa espiral trágica, um ensaio devastador sobre desejo, submissão, decadência e autodestruição. Em contraposição, se O Anjo Azul é a história da queda de Rath, é também e talvez sobretudo a história real da ascensão de Marlene Dietrich. O filme a lançou ao estrelato internacional, transformando-a em um dos rostos mais reconhecíveis do cinema mundial. Sternberg moldou a construção da personagem de Marlene Dietrich com precisão cirúrgica, colocando-a sob iluminação suave, com enquadramentos calculados e figurinos que misturavam sensualidade e mistério. Lola-Lola não é apenas uma personagem; é um arquétipo Lola encarna simultaneamente força e vulnerabilidade, frieza e sedução. Sua presença em cena é simplesmente hipnótica. O fato é que após o sucesso do filme, Dietrich foi levada a Hollywood, onde se tornou símbolo de glamour cosmopolita e de transgressão, influenciando moda, comportamento e a própria linguagem do star system. É impossível assistir ao filme sem perceber que O Anjo Azul é, em grande parte, uma vitrine cinematográfica e de marketing construídos para revelar atriz ao mundo e o mundo respondeu com fascínio. Estudo psicológico A trágica derrocada de Rath é uma das mais dolorosas e bem construídas da história do cinema. Em termos simbólicos, ele representa a própria fragilidade da autoridade burguesa, ou seja, um professor, símbolo da ordem e da moralidade, que é destruído por aquilo que tenta reprimir. Há ainda a vulnerabilidade humana diante do desejo, pois o professor não é uma vítima de Lola, mas de si mesmo, de sua incapacidade de lidar com seus impulsos e de sua necessidade desesperada de afeto. Já a crítica social da República de Weimar mostra que a sua queda ecoa a instabilidade da Alemanha do período, marcada por crises econômicas, tensões políticas e um profundo sentimento de desorientação. A imagem final de Rath, reduzido a uma figura patética, é um dos momentos mais devastadores do cinema alemão um retrato cru da perda de identidade e dignidade, um caminho pavimentado para a morte. O fato é que O Anjo Azul permanece ao longo do tempo de sua quase centenária história como uma obra-prima não apenas por sua estética expressionista, mas por sua profundidade psicológica e seu impacto cultural. É o filme que ao mesmo tempo destrói um homem e cria um mito. A ruína de Rath e a ascensão de Dietrich são dois movimentos opostos que se entrelaçam dialeticamente, formando uma narrativa sobre poder, desejo e transformação temas que continuam a ressoar agora no século XXI através de um marco em preto e branco da história do cinema , que não envelhece e se transforma em cada volta que o mundo dá. (Kleber Torres) Ficha Técnica Título original: Der Blaue Engel(O Anjo Azul) Direção: Josef von Sternberg Roteiro: Carl Zuckmayer, Karl Vollmöller, Robert Liebmann e Heinrich Mann (autor do livro roteirizado Professor Unrat) Elenco: Emil Jannings, Marlene Dietrich, Kurt Gerron, Rosa Valetti, Hans Albers e Reinhold Bernt Música: Friedrich Hollaender Cinematografia: Günther Rittau e Hans Schneeberger País: Alemanha Gênero: Drama 100 minutos Ano: 1930

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