sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
O ponto de mutação do expressionismo no cinema
O filme M, O Vampiro de Düsseldorf / Eine Stadt sucht einen Mörder (1931), de Fritz Lang, não é apenas mais um filme expressionista e pode ser considerado um ponto de mutação do movimento ao abandonar o exagero plástico que aguçava o contraste das imagens, mantendo uma atmosfera de paranoia, introduzindo o realismo urbano na narrativa e inaugurando o cinema psicológico moderno. Para completar, ele antecipa o film noir – com histórias cheias de suspense e traição, ambientação urbana e povoadas por anti-heróis – fechando todo um ciclo estético, abrindo um outro e por isso permanece uma obra tão atual, sendo estudada criticamente inclusive em relação a outros filmes do gênero que podem servir de referência e comparação.
Com relação ao Gabinete do Dr.Caligari (1920), de Robert Wiene, considerado como marco fundador do Expressionismo Alemão, com seus cenários distorcidos, pintados à mão, e uma narrativa delirante que representava o mundo como projeção da mente doentia existem parâmetros comparativos. Lang abandona em M, O Vampiro de Düsseldorf (1931) os cenários abertamente irreais e adota locações reais, mas filmadas de modo a parecerem opressivas através do contraste de luzes e sombras.
O expressionismo em M é psicológico, não plástico, e enquanto Caligari cria um pesadelo visual, M revela um pesadelo social. O ponto em comum entre os dois filmes é que ambos exploram a fragilidade da razão e a manipulação do indivíduo por forças maiores. Em Caligari, ela se manifesta através de uma a autoridade psiquiátrica; em M, a violência e o medo permeiam a sociedade inteira.
Nosferatu (1922) de Friedrich Wilhelm Murnau (F.W.Murneau) usa sombras alongadas, enquadramentos oblíquos e uma atmosfera de peste para criar um terror quase mitológico através de um vampiro. O monstro de Fritz Lang é humano, não sobrenatural e a sombra de Beckert (Peter Lorre), embora expressionista, não é símbolo do fantástico, mas a metáfora da patologia real e do mal.
M, O Vampiro de Düsseldorf substitui o vampiro literal e que se incorpora ao título do filme por um vampiro social, ou seja, alguém de instinto predador, que se alimenta da vulnerabilidade coletiva. Os dois filmes usam amplamente a sombra como entidade narrativa, mas Lang a transforma em signo psicológico, não em criatura sobrenatural.
Metrópolis (1927), de Fritz Lang oferece parâmetros para uma rica comparação de duas obras de um mesmo autor ligado ao movimento expressionista. Em Metrópolis, que oferece uma crítica a uma sociedade distópica, tudo se manifesta através de um expressionismo monumental, arquitetônico e futurista, marcado através de cenários gigantescos, simbolismo social explícito, além de uma visão alegórica da luta de classes. Em M. O Vampiro de Düsseldorf o contraste manifesta através de um expressionismo íntimo, urbano, cotidiano, ali a cidade não é futurista, mas real e justamente por isso mais inquietante, enquanto a crítica social é menos alegórica e mais direta evocando a histeria coletiva, vigilância, com uma justiça paralela ao oficialismo. Nos dois filmes Lang mantém o interesse pela sociedade como máquina, mas em M essa máquina é invisível, psicológica e burocrática.
O filme O Último Homem (1924) de F.W.Murnau é expressionista no uso da câmera subjetiva e da distorção emocional, mesmo sem cenários irreais. Por seu turno em M, O Vampiro de Düsseldorf, Fritz Lang se aproxima quando ambos usam o espaço real como extensão do estado emocional, com a câmera expressando a humilhação, o medo, a paranoia e o expressionismo interiorizado, não decorativo. Em contraposição, Lang se afasta por seu estilo seco, direto e mais analítico, enquanto Murnau tem um estilo mais melodramático e sentimental.
Por sua forma inovadora emlinguagem e montagem, M O Vampiro de Düsseldorf é frequentemente visto como o elo entre o Expressionismo Alemão e o film noir americano dos anos 1940. Assim, entre os elementos expressionistas que migram para o noir estão sombras duras e contrastes fortes, ambientes urbanos opressivos, psicologia fragmentada e revelando a criminalidade como sintoma social. O fato é que Fritz Lang, que nos legou 44 filmes de 1919 a 1960 ao suavizar o expressionismo visual – movimento com o qual negou qualquer relação - e intensificar o psicológico, criou o modelo que Hollywood adotaria anos depois e deixou sua contribuição à história do cinema como instrumento de critica contra o autoritarismo e a manipulação, já o seu filme M, O Vampiro de Düsseldorf foi censurado e banido pelos nazistas, mas isso é outra história e foge do campo da estética para a dimensão política e ideológica de um regime autoritário. (Kleber Torres)
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