quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Entre a poesia e o sexo no drama das mil e uma noites



As Mil e uma Noites (Mille e uma Notte) de Pier Paolo Pasolini é um filme onírico que envolve drama, erotismo, pornografia e até comédia, tendo como base uma frase do próprio cineasta ao considerar que a verdade não está num sonho, mas em muitos sonhos superpostos. Tudo começa quando um homem inicia uma estranha viagem à procura de sua amante, uma bela escrava chamada Zumurrud, que foi raptada por um ser de olhos azuis.
Na sua longa e aventureira busca, ele vai cruzar com uma série de outros personagens com seus dramas humanos envolvidos em traições, cobiças e desejos eróticos. O filme mostra o leilão de uma escrava que se recusa a ser vendida  e pode ser encarado como uma grande alegoria formada por pequenas histórias que se somam tendo como pano de fundo relações hetero e homossexuais em abundância.
Um dos personagens diz que o que Deus quer acontece e o que não quer não acontece e o filme faz parte de Trilogia da Vida  produzida no período de 1971 a 1974, inciada por Decameron,  seguido de Os Contos de Canterbury e de As 1001 Noites,  obras polêmicas e que dividiram a opinião do público e da própria  crítica. Ela foi encerrada com o assassinato Pasolini em circunstâncias consideradas misteriosas, em novembro de 1975.
No filme As Mil e uma Noites tudo é metafórico, chocante  e superdimensionado, misturando poesia belas com imagens como a de uma espécie de Eros,  que usa um arco e flecha com um pênis na ponta como se fosse um vibrador. Há também a relação dúbia  entre  Aziz (Ninetto Davoli)/Aziza e ainda o caso da Rainha Dunya, que odeia homens e tem um jardim particular, num contexto que envolve sexo, prazer, sadomasoquismo e a morte inexorável.
Um personagem faz referência à importância da ciência, arte e literatura, lembrando que sem conhecimento não há nada, numa sociedade que valoriza apenas o dinheiro. Já um sapato deixado numa tumba nos remete à história da Gata Borralheira  e depois há uma  referência a conhecer o mundo numa viagem pelo mar.
Numa outra sequência, Franco Citti, com cabelos vermelhos, interpreta um demônio que mantém como prisioneira uma jovem branca, uma cor que contrasta com  a dos demais personagens do filme, inclusive da bela nativa africana com seus olhos claros. Assim, quando um jovem entra  por acidente no local, não consegue resistir à  beleza da moça, que também se apaixona por ele. Quando o demônio retorna ao local, descobre que não há nada mais que ele possa fazer, então  corta-lhe os braços, depois  as pernas, mas a vítima em sua resistência ainda é capaz de fazer amor com os olhos.
O filme também é premonitório quando mostra um jovem assassinado, o que aconteceu na vida real um ano depois com o próprio cineasta. Como comunista e homossexual, Pasolini revela em seus filmes uma critica à política e ao sexo mostrando personagens às vezes de carne e osso, que respiram, amam, comem, bebem, trepam e dormem para depois sonhar. O problema é sabermos  onde está o limite do sonho ou da realidade num mundo conturbado e às vezes cruel, onde nem sempre a razão ou até mesmo o prevalecem.(Kleber Torres)
Ficha técnica
 Direção e roteiro: Pier Paolo Pasolini
Elenco : Ninetto Davoli, Franco Merli e Inês Pelegrini
Gênero Drama, comédia e erotismo   
Ano : 1974
Duração: 3h10min

Uma produção Franco/Italiana 

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A heterodoxa educação siberiana para o crime




Um menino siberiano é criado pelo avô, o Vovô Kuzya (John Malkovich), um líder em uma comunidade de criminosos de uma pequena comunidade, aprendendo a lidar com a violência desde pequeno para que quando crescer juntamente com os amigos se integrem à máfia russa. O filme narra a história de dois jovens amigos de infância Kolima e Gagarin, que tomaram rumos diferentes e  depois de crescidos se tornam inimigos mortais, o que resulta  numa grande e implacável caçada humana.
No filme, o velho Kuzya aconselha ao neto para que ame e respeite todos os seres vivos, com exceção dos policiais, dos banqueiros e dos empresários “que roubam e exploram a nossa gente, mas de quem roubar não seria um crime.” Ele ensina ainda que o lar de todo o ser vivo é o céu e orienta ao neto e aos seus amigos pelo desprezo ao dinheiro e a acumulação de bens materiais.
Na educação do neto ele ensina ainda que não é permitido drogas na comunidade e mata um traficante obrigando-o a comer heroína. Já Gagarin é preso aos sete anos, depois de roubar um comboio que elevava suprimentos do exército e volta à comunidade integrado na máfia russa e com uma visão niilista do mundo e da vida.
Na aldeia, os adultos e jovens criminosos praticam toda a sorte de crimes e usam artifícios engenhosos para driblar a policia, colocando um carro da mesma cor numa rua enquanto escondem um veículo roubado. O avô ensina ao meio de peripécias dos jovens que “a fome vai, a fome vêm, mas a dignidade uma vez perdida não volta nunca mais”, ressaltando a importância de um código de honra para os criminosos, o que seria aparentemente uma contradição.
Nos seus ensinamentos, o velho Kuzya ensina que quando um criminoso morre, o seu canivete, uma arma de defesa e ataque, deve ser quebrado. Assim, uma parte fica com o falecido e a outra com a pessoa a quem mais amou, para que o morto possa reencontrar a paz e a tranquilidade.
Já o Gagarin ao voltar da prisão em outra região da Russia  considera que esse negócio de justiça não existe. Ele também se autodefine um lobo solitário, que sempre esteve sozinho, que não pertence a ninguém e não tem pertencimento sobre nada. Em seguida ele e Kolima vão para uma capital do território, onde Gagarin se encontra com um grupo de Black Seeds, mafiosos, com quem se confraterniza e cheira cocaína, irritando o amigo.
Kolima conhece Xênia uma jovem especial por quem se apaixona e que dizia que não era normal. Ela  na sua ingenuidade tinha um comportamento infantil, chegou a tocar um piano que estava sendo levado por uma enchente do rio que cruzava o vilarejo. Isso no mesmo momento em que outro integrante do grupo de amigos da juventude, o Vitalic, morre afogado levado pela correnteza
O que divide definitivamente a amizade entre os dois é quando Gagarin, um niilista que não acredita nas regras e em nada, por isso poderia fazer nietzschianamente o que quisesse, estupra  Xênia, a namorada do amigo, que era deficiente mental e ela acaba ficando catatônica. O avô orienta então que pela lei, o neto deve achar quem cometeu o crime e solta todas as pombas que criava num aviário.
Gagarin foge e passa a atuar na máfia dos Black Seeds, enquanto Kolima ingressa numa tropa especial do exército. Quando os dois se enfrentam algum tempo depois de uma longa caçada,  Gagarin tenta se explicar dizendo que não há desculpa e nem razão para o que fez e que ele é uma espécie de rei de Midas – aquele que transformava em ouro todo que tocava – reverso, destruindo tudo o que tocava. Ele avisa ao ex-amigo que  vai se matar e pede um tempo de dois minutos, porque acreditava que a vida não valia a pena e nunguém nunca olhou para ele. (Kleber Torres)
 


Fucha Técnica:

Título : Educação Siberiana (Siberian Education)
Direção: Gabriele Salvatores
Elenco: Arnas Fedaravicius, Vilius Tumalavicius, John Malkovich
Música : Mauro Pagani
Roteiro: Gabriele Salvatores, Stefano Rulli, Sandro Petraglia

Lançamento : 28 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Filme revela depoimentos sobre a tragédia de quatro cidades fantasmas





O documentário Cidades Fantasmas conta a dramática história de quatro cidades que antes foram dinâmicas, com vida própria e que abrigaram populações com diversas atividades econômicas, mas hoje estão abandonadas e devoradas pelo tempo. As causas são variadas e incluem desde catástrofes naturais, como no caso do vulcão que arrasou  Armero, na Colômbia; motivações econômicas, como em Fordlândia, no Brasil e  Humberstone, no Chile vítima do esgotamento da exploração de salitre ou ainda erros ambientais como Epecuén, na Argentina, que acabou inundada com a canalização de um lago.
Dirigido pelo cineasta Tyrrel Spencer e com roteiro assinado por Carolina Silvestrin, Guilherme Soares Zavella e André Luiz Garcia, o documentário começa com a câmera passeando por um cemitério e depois por ruas de casas abandonadas seguido da  narrativa de um homem que volta à terra onde estão enterrados seus mortos e suas lembranças.
A cidade é Humbertone, no Chile, um outrora dinâmico centro de produção de sal e que foi economicamente inviabilizada com a paralisação da extração mineral, revelando que todo o princípio tem um fim e a impossibilidade de se sobreviver numa área desértica, numa terra tão seca e vazia. Os entrevistados falam do aspecto econômico e também dos acidentes graves com a ocorrência de explosões retardadas. Mostra ainda a desocupação em massa da população e a migração dos desempregados para outros centros urbanos.
O segundo caso é o da Fordlândia, um mega projeto da Ford, para exploração de seringais visando a produção de borracha na Amazônia e que resultou num monumental insucesso em função de pragas e doenças que dizimaram as plantações. Com o abandono do empreendimento pelos americanos, a área foi transformada num centro de criação de gado de raça e num centro programas de melhoramento genético dos bovinos.
Brasileiros que trabalharam ou que hoje vivem na área narram a saga  dos empregados nativos que ocupavam cargos subalternos, uma vez que todo o comando operacional de americanos que moravam em separado numa vila, onde havia uma casa reservada para a família Ford.
Também estão incluídos depoimentos dramáticos dos sobreviventes de Armero, na Colômbia, depois de uma erupção do Nevada Ruiz que matou há mais de três décadas 20 mil pessoas, uma tragédia  que poderia ser evitada se o governo retirasse a tempo as milhares de vítimas que acabaram sucumbindo num rio larva vulcânica. Como se não bastasse a tragédia, as casas que não foram devastadas acabaram roubadas e vandalizadas.

Por fim os erros técnicos em Ypecuén são criticados por pessoas que perderam suas casas em função de uma obra de canalização de um lago, depois de uma estiagem prolongada. A cidade era um promissor centro de turismo e estava num estágio de desenvolvimento acelerado, mas acabou submersa.(Kleber Torres)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

Sexo x Loucura sem drogas e sem rock’n roll








Considerado uma obra prima de Roman Polansky, o filme Repulsa ao Sexo (1965), conta a história de uma bela mulher, Carol Ledoux (Catherine Deneuve), que vive um profundo conflito psicológico por ser muito reprimida sexualmente, o que a coloca no tênue limite entre a sanidade e a loucura. Os problemas se agravam quando ela fica sozinha em seu apartamento e entra em uma profunda depressão, passando a ter  alucinações com estupros recorrentes, cenas de sadismo e de assassinatos.
Carol mostra uma estranha repugnância ao sexo e  aos homens, o que se manifesta nos pensamentos enquanto trabalha num salão de beleza de luxo ou mesmo em sua casa, com relação até mesmo ao antagonismo à escova de dentes do cunhado ou ficando visivelmente nervosa ao ouvir os gemidos da irmã e do seu parceiro em um quarto contiguo ao seu. Ao perceber as reações da jovem o namorado da irmã a considera estranha, inclusive quando ela pergunta à própria irmã se ele iria dormir no apartamento das duas todas as noites.
Em essência Carol considerava  o apartamento  um refúgio pessoal, mesmo sabendo que cada um tem de cuidar da sua vida.  Os seus medos afloram com a cobrança do aluguel pelo senhorio ou  nas relações dúbias com um jovem com quem marcou um encontro e não foi. O seu mundo esquizofrênico aflora quando a irmã viaja com o namorado e a deixa sozinha tomando conta da casa.
No trabalho, ela tem manifestações de ausências e acaba sendo mandada para descansar em casa,  onde ouve passos e ruídos estranhos, mas acaba dormindo, acordando em seguida para tomar um banho. Ela também seria vitima de um presumível  estupro em casa e acaba acordando no meio da sala, quando o telefone toca.
De volta ao  emprego, a dona do salão de beleza faz questão de frisar que “isso é um negócio e você não pode simplesmente sumir por três dias“. Numa cena seguinte, ela corta o dedo de uma cliente com um alicate de unha provocando um forte sangramento.
O filme em preto e branco, com uma excelente fotografia, mantém no seu desenrolar um clima permanente de suspense e de  tensão, culminando com cenas de sangue e assassinatos. Na trama o namorado dela se encontra com amigos no bar, enquanto a jovem vê filmes pela televisão em casa.
Carol também o mata quando ele invade a sua casa, cujas portas fecha com pedaços de madeira e pregos para evitar a entrada de estranhos. Mesmo assim, depois ela se vê estuprada por desconhecido e como cena recorrente, volta a despertar quando o telefone toca no meio da sala.
A bela mulher também mata o senhorio que veio cobrar o aluguel e reclama ao perceber que o apartamento parece um chiqueiro. O homem  se propõe a dispensar o aluguel em troca de favores sexuais, mas acaba morto a navalhadas.
Os crimes são descobertos quando a irmã volta de viagem com o namorado e acha a casa revirada e com um forte odor de corpos em decomposição. A casa também é invadida por vizinhos e curiosos, que veem juntamente com a irmã uma Carol catatônica, imóvel e completamente estática diante da foto da família deixando transparecer apenas um olhar vazio em direção ao nada absoluto.(Kleber Torres)


Ficha técnica:
Título: Repulsion (Repulsa ao Sexo)
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, Gérard Brach, David Stone
Elenco :Catherine Deneuve (Carole), Ian Hendry (Michael) e  Yvone Furneaux (Helen); John Fraser (Colin); Patrick Wymark (Landlord)
Música : Chico Hamilton
Cinematografia: Gilbert Taylor

 1965 ‧ Drama/Thriller ‧ 1h 46m

domingo, 13 de agosto de 2017

Um super herói contracultural e intergalático genuinamente baiano




Considerado um dos marcos da contracultura no Brasil, o filme  Meteorango Kid – Herói Intergalático (1969), dirigido por André Luiz Oliveira é um cult movie, mas ainda é pouco conhecido e tem sido mostrado raras exibições para cinéfilos, a última delas no Festival de Cinema de Invenção realizado no primeiro semestre deste ano pelo Canal Brasil, resgatando algumas das mais relevantes obras cinematográficas dos anos 60. O filme, que tem como destaque a fotografia e o enredo, foi proibido para menores de 18 anos e para veiculação na TV, mas conquistou no ano da sua estreia  o Prêmio Especial do Júri, o Prêmio da Opinião Pública e a Margarida de Prata da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no Festival de Brasília.
A história, que começa com chegada de um alienígena nos coqueirais baianos e se transforma em Lula, rapaz de classe média alta,  que sonhar ser um super herói e o astro principal do filme "Tarzan e as Bananas de Ouro", uma sátira ao modelo de Edgar Rice Burroughs, que criou o rei das selvas, quando sua empregada o acorda. Antes de sair de casa ao som de "É Proibido Proibir", Lula recebe um bilhete contando que Duda, um amigo, morrera e ao invés de se emocionar, ele ri da tragédia.
Na faculdade, ele destoa de um grupo de alunos divididos entre direitistas e esquerdistas e assim, procura não  se envolver com as discussões tão em voga no movimento estudantil num tempo de repressão e medo. Ao mesmo tempo, enquanto seus colegas  participam de discussões acaloradas e às sem sentido como uma metáfora para driblar a censura, Lula opta por ler uma revista uma em quadrinhos e depois em tirar sarro dos colegas.
Na sequência seguinte, ele entre  numa produtora cinematográfica e imagina ser o personagem principal de "Tarzan e as Bananas de Ouro". Ali, o produtor, que o conhece desde a mais tenra infância, propõe a sua inserção no  papel  central do seu próximo filme, desde que o pai de Lula, que é capitalista, invista no custeio da produção. O produtor também fala das regras do jogo do mercado cinemagráfico que para dar lucro exige cenas de sexo, mulheres bonitas e violência.
Ao sair  da produtora, Lula encontra com seus amigos Caveira e Zé Veneno, os três vão à casa de Caveira fumar maconha e sob os efeitos da erva, ele  se propõe a oferecer o produto aos seus pais que se escandalizariam. Em sua "viagem", Lula pensa estar em seu quarto e imagina se transformar num super-herói batmaniano, que comete parricídio. Numa outra sequência, Lula, Caveira e Zé discutem e ele pega uma arma e dá um tiro Caveira, porque matar o não matar é diferenciado apenas pelo ato de efetuar o disparo, o que lhe confere uma visão nietzscheana da vida e dos fatos.
Ao voltar para a rua, o herói intergalático encontra uma amiga jornalista e a acompanha até a Ilha de Bananal, onde pescadores garantem ter visto discos-voadores. O filme faz uma critica à desnacionalização e americanização da cultura brasileira com a influencia dos brasilianistas que estudavam a nossa cultura e a sociedade. Num outro corte, ele imagina fazer parte de um filme de ação, desta vez enfrentando piratas armados de metralhadoras e fuzis, usando lanchas no interior da Bahia de Todos os Santos.
Depois, ele vai ao velório de Duda, que se suicidara em uma poça d'água rasa no meio da rua, e se lembra, sem mostrar nenhum arrependimento, que o havia humilhado por ser homossexual. O pai de Duda pede que ele acompanhe sua filha até a casa da avó para dar um telefonema. Ao chegar, Lula dá um susto na velha, que desmaia, e ainda seduz e fatura a irmã do suicida. Ao voltar ao velório, ele diz jogando as cinzas de um cigarro no morto: "papei sua irmã".
Ao retornar para  sua casa depois de um dia cheio de aventura e desventuras, ele é surpreendido pela família e amigos que prepararam uma festa surpresa de aniversário. O filme também mostra uma sequência no Teatro Castro Alves, onde para assistir a uma peça, ele se apresenta montado num burro e faz propaganda se sabão em pó e de produtos que se contrapõem aos valores à  cultura, porque quando “não se pode fazer nada a gente avacalha”, como diz o Lula numa das suas reflexões.
As sequencias das cenas se contrapõem também com a de um vampiro magro e subdesenvolvido, que segue mulheres indefesas nas ruas e acaba esbarrando num cara cabeludo que de costas se parecia com uma mulher. Ele se vinga de tudo comendo uma maça. No mais o filme termina com o alienígena descendo da sua cruz e subindo anum coqueiro para um retorno  dialético ao hiperespaço.
Entre legendas de procurado viva ou morto para o personagem central, fica na tela um questionamento válido para o período da contracultura e para os tumultuados dias atuais: “o que será de mim e da minha vida ? E o que importa?” Afinal o filme termina com outra frase simbólica do tempo do desbunde: “curti adoiado...” 
Há quem acredite que o filme traça o perfil  de uma geração oprimida pela ditadura e pela moral de uma sociedade hipócrita, num período de mudanças radicais do paz e amor livre, bem como com a subversão da cultura e dos valores éticos e morais, mas que não resultou na construção de uma nova sociedade e nem de uma nova ordem mundial.(Kleber Torres)


Ficha Técnica:
Título: Meteorango Kid - Herói Intergalático
Direção e roteiro: André Luiz Oliveira
Elenco: Nilda Spencer, Antonio Luiz Martins, Sônia Dias, Carlos Bastos e Milton Gaúcho
Música : Luiz Galvão
Direção de fotografia:  Vito Diniz,
Fotografia de cena: Cravo Neto, Mário
Produção: André Luiz Oliveira, Marcio Curi, Milton Oliveira
Data de lançamento: 1969
Brasil
P & B

Duração: 85 minutos

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O que há entre a vida, a morte e o nada absoluto





O  Longo Caminho da Morte é um  drama que se propõe a uma reflexão sobre a vida, a morte, o capitalismo  e a loucura, sendo considerado um filme underground, produto do cinema marginal, filmado em 1971 com roteiro e direção de Júlio Calasso Júnior. A obra  fala vida e a morte do Coronel Orestes (Othon Bastos), fazendeiro de café decadente e perpassa três gerações de sua família entre o desespero, os sonhos, as alucinações e o envolvimento de três mulheres distintas na sua vida, além de uma pitada alegórica de  sexo numa árvore gigantesca e cenas de sadomasoquimo.

Marcado por monólogos alongados por digressões filosóficas confusas além  de uma profusão de planos gerais, deixando num segundo lugar  a  interpretação dos atores, o filme narra o drama de um oligarca rural envolvido com a política e que tem como pano de fundo e contraponto a cidade, com seu cenário urbano.

Neste contexto do conflito entre rural e o urbano, cidade aparece como síntese da modernização do país e de suas contradições sociais, enterrando  definitivamente o coronelismo substituído pelos empresários, industriais e  construtores de prédios que nascem sobre espaço agrícola, o mesmo que no passado fizera o prestígio e a riqueza do personagem central da trama.

Influenciado pelo Cinema Novo e pela contracultura, o Longo Caminho da Morte não tem uma narrativa linear e se  perde em cenas rurais e na casa grande da fazenda sem maior signfiicação. O filme é também o único longa de metragem ficção dirigido por Julio Calasso Júnior, uma obra marcada pelo  experimentalismo narrativo e pela aproximação com a contracultura, na busca de uma ambiciosa estética própria e de uma linguagem.

A obra trata em essência a decadência da oligarquia rural paulista enriquecida pela cultura do café – e falha ao tentar buscar raízes críticas na ironia, no deboche e se perde na excessiva monotonia das cenas que transitam do real ao surreal sem os limites necessários para entendimento da interface entre a sanidade, que tem limites não definidos e a própria loucura. Ele se perde no  ritmo essencialmente irregular e por isso transcende os parâmetros físicos entre a vida e da morte para se aproximar da essência do nada, com um discurso de vanguarda.

O filme começa com um velório  e num longo plano panorâmico –uma das suas marcas narrativas - mostra partes de pessoas sentadas, vestidas de negro velando um cadáver, cuja imagem é revelada de forma lenta e gradual. Ao fundo, o som de uma pá escavando a terra fazendo evidenciando o contraste entre os vivos e o morto, que será enterrado com o seu passado pretérito e ressurge na tela  em imagens como personagem de uma tragédia pessoal e da sua classe social em extinção, revelando uma outra disputa  entre as imagens e um discurso sobre a inevitabilidade da morte e da finitude da vida, sem vencidos e vencedores.

domingo, 23 de julho de 2017

Armazém Secos e molhados: A mercantilização da informação um problema reconhecido desde o século XVII




A transformação da notícia numa ‘commoditie’ e num produto comercial é o tema de  “O Mercado de Notícias”, um documentário de 2014, que tem como base a peça homônima do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572- 1637), “The staple of news”, encenada pela primeira vez em Londres, nos idos de1626, e que foi traduzida a quatro mãos pelo cineasta Jorge Furtado, diretor e roteirista do filme e pela professora Liziane Kugland. A peça é uma sátira a uma profissão nova no século XVII: o  jornalismo e antevê a revolução da multiplicação de informações.
Já o filme O Mercado de Notícias, intercala trechos da peça – que tem um sabor de comédia – e ao mesmo tempo reúne de forma complementar uma série de entrevistas  construindo  um painel sobre mídia e democracia, mostrando que ao jornalista cabe ver, escutar, relatar e analisar os fatos observados no dia a dia. O filme também resgata ao mesmo tempo para o leigo  uma breve história da imprensa, desde o seu surgimento até os dias atuais, mostrando seu papel na construção da opinião pública, bem como analisando os interesses políticos ou econômicos por trás de cada noticia.
O próprio cineasta destaca no site sobre o documentário, que ele enfatiza dois aspectos destacados na peça de Ben Jonson: “o debate sobre a credibilidade da notícia, que inevitavelmente contraria e favorece interesses; o segundo é a necessidade constante e crescente de informações, a demanda por notícias que acaba por se tornar entretenimento”. No filme, fica evidenciado que cada reportagem responde a uma pergunta e que as fontes de informações têm seus interesses pessoais, corporativos ou querem simplesmente ferrar alguém, utilizando para este fim o jornalista que deve de forma criteriosa, ouvir as diversas versões sobre um mesmo fato mostrando-o na sua amplitude.
O filme reúne entrevistas com José Roberto Toledo, Bob Fernandes, Mino Carta, Renata Lo Pretti, Jânio Freitas, Luis Nassif, Geneton Moraes Neto, Raimundo Pereira, Cristiana Lobo, Fernando Rodrigues, e outros profissionais que falam das suas experiências e das perspectivas com relação ao futuro da profissão com o surgimento da internet e a concorrência dos blogs, que são individualizados e nem sempre têm sua fonte de recursos reconhecida.
 O documentário  analisa diversos casos como o quadro falso de um Picasso do INSS, que foi recebido no século passado como parte do pagamento de uma divida. Também são citados o caso da Escola Parque, da receita da Caipirinha e até mesmo da bolinha de papel que foi jogada no candidato José Serra, na campanha eleitoral de 2010 e que foi transformado num incidente de proporções com repercussão na mídia e na própria campanha eleitoral.
A peça tem como fundamento o caso de um herdeiro que recebe a noticia da morte do pai através de um andarilho e acaba herdando 60 milhões de libras. Ele discute com amigos a aplicação dos recursos e financia um amigo para ser escrivão de uma agência de notícias. A peça é narrada por um apresentador de prólogos e tem a participação de um grupo de mulheres como a comadre Tagarela, Expectativa, Censura e Prazeres filha do Natal e do Carnaval.
“O Mercado de Notícias” revela que no passado as noticias eram transmitidas por viajantes e retransmitidas por barbeiros. A anunciada agência dirigida pelo senhor Trombone, trabalha com quatro repórteres, homens que trabalham nas ruas e bão a qualquer lugar em busca da mercadoria, a notícia, sua fonte de renda e de sobrevivência, como também das empresas de comunicação. Entre as fontes de informação estariam a corte, a igreja, os bancos e os tribunais e fica nas entrelinhas a evidencia de que a boa reputação da verdade se perdeu desde que o dinheiro passou a ser o único valor.

Um dos entrevistados diz que a informação de um incêndio num supermercado do bairro em si não é notícia, e que ela seria considerada como tal produzida por jornalistas. Nos depoimentos fica a proposta de um jornalismo coletivo, além da eclosão das fakenews  -noticias falsas- e a necessidade do posicionamento do jornalista como profissional da informação, que deve ter honestidade intelectual e buscar as varias versões para os fatos, até porque, como dizia Millor Fernandes, “jornalismo é oposição, o resto é um armazém de secos e molhados”.(Kleber Torres)