sábado, 3 de abril de 2021

Uma biografia em P & B do pior cineasta do mundo

  

 

 


  

Rodado em preto e branco, o filme Ed Wood,  dirigido por Tim Burton faz uma biografia de Edward Davis Wood Júnior, ator, diretor e produtor de Glen or Glenda, Jailbait, Bride of Monster (A Noiva do Monstro) e Plano 9 do Espaço Sideral, considerado pela crítica o pior diretor de todos os tempos, um título que lhe foi outorgado oficialmente após a sua morte. O filme teve o roteiro  baseado no livro Nightmare of Ecstasy : Life and arte of Edward D. Wood Jr, de Rudolph Grey e que foi um fracasso de bilheteria, com um custo em 1994 de US$ 18 milhões de dólares, mas rendendo aos produtores menos de um terço do valor investido no projeto.

No filme Ed Wood é um produtor e diretor de filmes eróticos, de terror e de ficção científica, nem sempre nesta ordem, interpretado por Johnny Depp, numa excelente reconstrução de um complexo personagem,  que também se travestia vestindo roupas femininas e usava a criatividade e o jeitinho para enfrentar as eternas limitações financeiras na produção de seus filmes, bem como no uso de efeitos especiais. Wood usava os recursos mais heterodoxos e que acabavam com resultados risíveis para os espectadores.

Wood reuniu, nos anos 50, um grupo de artistas como a Vampira (Lisa Marie) e o vidente Criswell (Jeffrey Jones) que o seguiam e participavam dos seus filmes ao lado de Bela Lugosi (Martin Landau), ator de mais de uma centena de filmes, que havia interpretado o conde Drácula,  já em final de carreira, viciado em morfina e em decadência.

O filme faz um cruzamento entre a trajetória de Ed Wood, que morreu pobre, com problemas de depressão e alcoolismo em 1978. A biografia cinematográfica  conquistou dois Óscares com Martin Landau como melhor ator coadjuvante pela sua interpretação  de Bela Lugosi e com Rick Baker com a sua equipe na categoria melhor maquiagem em 1995.

O filme além de narrar as trajetórias de Ed Wood e de Bela Lugosi nos últimos anos de sua vida,  também faz um contraponto entre o pior cineasta que se compara sempre e acaba tendo um encontro casual em um bar com Orson Wells (Vincent D’Onofrio), autor do antológico Cidadão Kane, com quem dialoga sobre os dramas de um diretor sempre em confronto com os produtores, que cobram resultados pelos seus investimentos.

A biografia cinematográfica de Ed Wood também revela sua ligação com o cross-dressing, ou seja, o hábito de vestir roupas femininas como a drag  Shirley, que foi seu alter ego nos seus últimos anos de vida e segundo o próprio, sem nenhuma conotação homossexual pois sentia atração pelas pessoas do sexo oposto ao seu. O filme merece ser visto e enriquece o acervo de informações e conhecimento para os cinéfilos, que vão conhecer os bastidores do cinema que nem sempre é colorido e muito menos glamuroso. (Kleber Torres)  

 

 

 

Ficha técnica :

Título : Ed Wood

Diretor : Tim Burton

Roteiro : Tim Burton, Scott Alexander e Larry Karaszewski

Elenco : Johnny Deep, Martin Landau, Sara Jessica Parker, Patrícia Artquette, Jeffrey Jones, E.D. Spradlin, Vincent D’Onofrio, Lisa Mariue e Bill Murray

Música : Howatrd Shore

Cinematografista :Stefan Czapsky

Gênero : Drama e biografia

EUA

1994

127 minutos


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Um duelo entre a inteligência e os adoradores da morte



Enquanto durar a Guerra (Mientras dure la guerra) dirigido e roteirizado por Alejandro Amenábar, que  também assinou "De Olhos Abertos", "Os Outros” e "Mar Adentro", ganhador do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, envolve duas narrativas que se sobrepõem  e se complementam ao mostrar as trajetórias do reitor da universidade de Salamanca, o pensador cristão e existencialista Miguel Unamuno (Kara Elejalde) e a ascensão do generalíssimo Francisco Franco (Santi Prego)  ao poder num rastro de 200 mil mortos. Franco governo a Espanha por 40 anos.

O drama começa em 18 de Julho de 1936, quando um grupo de militares liderados pelos generais Emilio Mola e Francisco Franco perpetra um golpe de Estado contra o Governo da Segunda República, formado por uma frente popular. Isso  recrudesce a guerra civil espanhola, num pais dividido entre republicanos, de esquerda e os monarquistas, de direita, liderados por militares apoiados pelos nazistas e fascistas, que testaram no conflito espanhol suas armas de guerras com uso de tanques, blindados e aviões de combate de ultima geração usados na II Guerra Mundial.

Por temer uma vitória dos comunistas que eram aliados dos republicanos, Miguel Unamuno, que cunhou o conceito da preservação da civilização cristã ocidental, assume publicamente o seu apoio à rebelião militar, que tinha como discurso a promessa reestabelecer a ordem ao país imerso no caos. Essa tomada de posição contra o Governo Republicano fez com que Unamuno fosse exonerado da sua função de reitor da Universidade de Salamanca, cargo que lhe foi outorgado com a chegada das tropas do general Franco, que liderava uma coalisão de forças unindo as tropas  para uma campanha vitoriosa, assumindo o controle do país.

Um personagem que ganha destaque no desenrolar da trama, que envolve os dois personagens centrais de Enquanto Durar a Guerra, é o general Millán-Astray (Eduard Fernández), um estropiado herói de guerra ferido em combate e que liderava a franja ideológica radical do franquismo, defendendo a prevalência da morte no embate com a cultura e a inteligência, comandando o expurgo e a eliminação de comunistas, maçons, homossexuais, artistas e  intelectuais. Uma das vitimas foi condenada à morte porque foi acusada de não ir à missa.

Enquanto Durar a Guerra tem o seu clímax em um incidente na Universidade de Salamanca, em 12 de outubro de 1936, ou seja, no terceiro mês desde o início da guerra civil, durante uma aula magna de abertura do ano letivo presidida por Unamuno, como reitor da instituição. O filósofo reagiu quando um dos oradores Francisco Maldonado de Guevara, lançou um candente ataque contra a Catalunha e aos Bascos, etnia de origem de Miguel Unamuno, qualificando-os de anti-Espanha e de tumores no sadio corpo da nação e que seriam erradicados cirurgicamente.

Em seguida, militantes na platéia reopetiam o lema da Falange: "Viva la muerte!", ao que Milán-Astray, general falangista também presente ao ato, respondeu com um costumeiro repto: "Espanha!".  Nesse momento um grupo uniformizado de camisas azuis da Falange invadiu o salão  e fez uma saudação oficial com braço direito para o alto, ao retrato de Franco em uma parede do salão nobre da universidade.

Unamuno,  levantou-se e pronunciou o discurso que lhe rendeu a exoneração do cargo de reitor e a uma prisão domiciliar:  “As vezes, permanecer calado equivale a mentir porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Quero fazer alguns comentários ao discurso - se posso chamá-lo assim - do professor Maldonado, que se encontra entre nós. Falou-se aqui da guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu mesmo já fiz isso em outras oportunidades. Mas não, a nossa é tão somente uma guerra incivil. Vencer não é convencer, e há, sobretudo, que convencer.” ]

- O ódio, que não deixa lugar à compaixão, não pode convencer. Um dos oradores aqui presentes é catalão, nascido em Barcelona e está aqui para ensinar a doutrina cristã, que vós não quereis conhecer. Eu mesmo nasci em Bilbao e passei a minha vida ensinando a língua espanhola, a qual desconheceis [...],” complementou.

 “Deixarei de lado a ofensa pessoal que se deduz da repentina explosão contra bascos e catalães, chamando-os de anti-Espanha até porque com a mesma razão poderiam eles dizer o mesmo,» disse Unamuno, que naquele momento, era interpelado aos brados pelo general José Millán-Astray , que nutria um profundo ressentimento contra filósofo e professor, tentando interromper a sua fala enquanto seus seguidores gritavam o slogan da Falange: «Viva a morte!»

Ao que  Unamuno, replicou: «Acabo de ouvir o necrófilo e insensato grito de "Viva a morte!". Isto me parece o mesmo que "Morte à Vida". E eu, que passei minha vida compondo frases paradoxais que despertavam a ira dos que não as compreendiam, devo dizer, como especialista na matéria, que esta me parece ridícula e repelente. Como foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que a ele é dirigida, se bem que de forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele mesmo é um símbolo da morte. O general Milan-Astray é um inválido. Não é necessário dizer isso com um acento pejorativo pois é, de fato, um inválido de guerra. Cervantes também o foi. Mas extremos não servem como norma. Desgraçadamente na Espanha atual há demasiados mutilados”....»

Millán-Astray responde irritado «Morra a intelectualidade traidora! Viva a morte!» e Unamuno, indiferente e sem intimidar-se,  concluiu: «Este é o templo da inteligência e eu sou seu sumo sacerdote! Vós estais profanando este sagrado recinto. Tenho sempre sido, digam o que digam, um profeta de meu próprio país. Vencereis porque tendes sobrada força bruta. Mas não convencereis porque para convencer há que persuadir. E para persuadir lhes falta algo que não tendes: razão e direito. Mas me parece inútil cogitar de que pensais na Espanha».

No filme Unamuno acaba escapando dos seus antagonistas devido a uma intervenção de Carmen Franco, mulher do caudilho espanhol, que o puxou pelo braço retirando-o do recinto conturbado. Unamuno morre dois meses depois em sua prisão domiciliar e seus dois maiores amigos também foram neste interim executados pelos falangistas, que também executaram o maior poeta espanhol do século XX, Federico Garcia Lorca citado de passagem no filme, mas isso é outra história.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica:

 

Título : Enquanto Durar a Guerra ( Mientras dure la guerra)

Direção e roteiro  :  Alejandro Amenábar

Elenco : Kara Elejalde, Eduard Fernández, Santi Prego, Inma Cuevas, Luis Bermejo Luis Zahera, Nathalie Poza, Patricia Lopes e Tito Valverde

Gênero: Drama histórico

2019

115 minutos

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Prorrogadas as inscrições para a Mostra de Filmes Baianos com Acessibilidade



 

Produtores audiovisuais terão mais tempo para inscrever seus filmes produzidos na Bahia, com recursos de acessibilidade, no projeto Editando Sonhos: Jornada Formativa em Acessibilidade Audiovisual. O festival virtual de cinema apresentará filmes baianos acessíveis produzidos a partir de 2018, com quatro obras a serem premiadas no valor de R$ 500. Agora as inscrições podem ser feitas até o dia 21.02 (domingo), por meio de formulário eletrônico.  A exibição será de três filmes de curta-metragem e um de longa-metragem, seguidos de debate entre a equipe e o público nos dias 27.02 (sábado), das 18h às 21h30, e no dia 28.02 (domingo), das 16h às 19h30. A premiação será no último dia, 28.02, às 20h.

 

A mostra de cinema é uma das ações do Projeto Editando Sonhos, que tem como objetivo promover a popularização dos recursos de acessibilidade comunicacional: Legenda para Surdos e Ensurdecidos (LSE), Janela de Libras (JL) e Audiodescrição (AD). O evento é parte da programação desta iniciativa que propõe habilidades para desenvolvimento de produtos inclusivos, as quais agentes de diversas etapas da cadeia produtiva do audiovisual terão a oportunidade de se qualificar sobre tais recursos em suas produções.

 

Um júri técnico constituído por sete membros da sociedade civil e uma curadoria especial formada por três integrantes compõem a seleção dos filmes. Como curadores, estão José Araripe Jr e Bárbara Carneiro. José Araripe Jr é um artista multimídia, roteirista e diretor de conteúdos audiovisuais para TV, cinema e publicidade, com vasta atuação, tanto como diretor e roteirista quanto como diretor de arte em cinema. Recentemente foi gerente executivo de conteúdo e de projetos especiais da TV Brasil/RJ, diretor geral do IRDEB , diretor de conteúdo e programação da TVE Bahia e consultor criativo do Núcleo Griot de Animação.

 

Bárbara Carneiro, por sua vez, é autora do roteiro de Audiodescrição que ganhou como melhor roteiro por júri popular e terceiro lugar por júri técnico do Festival Ver Ouvindo, em Pernambuco em 2017. Já o audiodescritor José Carlos Rodrigues, tem experiência na produção de audiodescrição para filmes, espetáculos teatrais, peças comerciais e seminários e atualmente é membro da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/SC.


Além da Mostra de Filmes Baianos com Acessibilidade, direcionada para produções acessíveis já realizadas na Bahia, o projeto Editando Sonhos conta também com palestra, mesas-redondas, minicurso e oficinas com profissionais da Bahia e de outras partes do Brasil especializados no ramo. A live de abertura do projeto, dia 22.02, às 10h, traz o tema “Audiodescrição e cinema - Por uma tradução visual que respeite a linguagem da obra” e terá como palestrante Bell Machado, diretora na Quesst Consultoria em audiodescrição e acessibilidade cultural.

 

A programação do projeto segue de 22 a 28.02, gratuita e on-line, com emissão de certificados.  Ainda é possível se inscrever nas oficinas até dia 18.02, via formulário eletrônico. Já as mesas-redondas, que acontecem dias 24 e 25.02 não necessitam de inscrições e estão abertas ao público no canal Editando Sonhos, no Youtube. As sessões de cinema serão dias 27 e 28.02. 

 

Em função do impedimento visual combinado com a falta de acessibilidade, milhares de pessoas são excluídas da vida cultural e, consequentemente, da interação social, do enriquecimento intelectual e das emoções que a arte e a cultura proporcionam. É fundamental que artistas, produtores culturais, educadores, jornalistas e profissionais das mais diversas áreas percebam a importância da inclusão irrestrita em atividades culturais e se apropriem de processos básicos de produção de conteúdo acessível.

 

“Compreendendo a diversidade de pessoas e, entre estas, a diversidade de possibilidades de acesso ao que é produzido culturalmente, um projeto como o Editando Sonhos vem contribuir e muito, com um lugar que a cultura, as artes e a sociedade em geral ainda pouco conhecem. É o lugar de outras formas de comunicação, de acesso, de língua e linguagem, que neste caso são possíveis com os recursos de acessibilidade como Audiodescrição, Libras (em janela ou ao vivo) e Legenda Fechada para Surdos e Ensurdecidos”, defende Sandra Rosa Farias, uma das produtoras do projeto.

Farias destaca também que o Editando Sonhos através das oficinas de capacitação, formação e informação e da Mostra de recursos acessíveis traz, principalmente para a classe produtora e exibidora de arte e cultura, o que é e como é possível oferecer para todas as pessoas sua produção, com estes recursos, coerentes com a qualidade do que é a sua produção.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, existem cerca de 45 milhões de pessoas cegas no mundo. De acordo com o Censo do IBGE 2010, 45 milhões de brasileiros disseram ter algum tipo de deficiência, ou seja, quase 24% da população. Nesse cenário, a iniciativa assume o papel colaborador na luta de combate à exclusão cultural no estado da Bahia, uma vez que produtores audiovisuais em sua maioria estão alheios à inserção de acessibilidade em seus projetos, processos e produtos culturais.

 

O projeto tem apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc, direcionada pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

 

SERVIÇO:

 

Projeto Editando Sonhos: Ação Formativa em Acessibilidade no Audiovisual

Mostra de filmes baianos com acessibilidade

Primeira sessão - dia: 27/02/2021 (sábado), das 18h às 21h30

Segunda sessão -  dia: 28/02/2021 (domingo), das 16h às 19h30.

Premiação de quatro filmes baianos com acessibilidade

Dia: - 28/02/2021, às 20h

Inscrições: Gratuita, até 15.02.2021 através do formulário: https://forms.gle/2fATxUHfPLpzgw3VA

Mais informações: https://linktr.ee/projetoeditandosonhos

https://projetoeditandoson.wixsite.com/editandosonhos

https://www.facebook.com/projetoeditandosonhos

projetoeditandosonhos@gmail.com

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O círculo tecnológico do fim da privacidade



A questão do fim da privacidade em um mundo cada vez mais tecnologizado é o tema central do filme O Círculo, sobre uma organização dirigida por Eamon Bailey (Tom Hanks), um empresário sem escrúpulos e acusado de violar a Lei Antitruste, que limita o poder monopolístico em setores da economia. A empresa tem como  principal produto o SeeChange, uma pequena câmera digital que permite aos usuários compartilharem detalhes de suas vidas com o mundo e em tempo real, colocando a cheque a sua privacidade e a sua vida particular.

Tudo começa com Mae (Emma Watson), uma universitária com futuro promissor, que realiza o sonho de trabalhar naquela que é considerada maior empresa de tecnologia do mundo, O Círculo. Mas ela vê sua vida mudar completamente de ponta a cabeça ao ser  contratada pelo grupo econômico, o qual  passa a monitorar e documentar sua vida em tempo integral, sempre com cobranças crescentes e exigindo inclusive de sua maior participação em eventos noturnos e nos finais de semana.

Para a empresa, a participação dos colaboradores é importante para sua integração no grupo e maior motivação para o trabalho, melhorando o rendimento pessoal do profissional a ela vinculado. Mae também é convidada para uma avaliação médica com uma especialista em esclerose múltipla e que também gostaria de coletar dados sobre o seu pai, que estava doente. A jovem se envolve no projeto True You (você é verdade) bancado pela empresa, em que tudo é gravado, visto, transmitido e analisado, com isso cada passo e respiração da pessoa monitorada acaba armazenada pelo Círculo.

As coisas se complicam quando seu namorado é ameaçado de morte, mas Mae não deixa a empresa, que mantém um rígido sistema de vigilância com o argumento de que ”nós nos importamos com as pessoas que são importantes para nós”. Ela conclui que segredos são mentiras que tornam os crimes possíveis e promete levar uma câmera do SeeChange para onde fosse, com isso, em três semanas ganhou  milhões de seguidores e visibilidade na rede mundial de computadores se transformando numa celebridade, mas como o circulo vicioso, ele precisa ser inteiro, para isso o ideal seria colocar todas as informações da pessoa no sistema agregando até titulo de eleitor, carteira de motorista e registro civil.

A empresa no seu conceito de poder considerava que em função do seu suporte tecnológico,  o governo precisava mais dela, do que ela das atenções governamentais e em sua expansão 22 nações operavam eleições através do Círculo, que pelo sistema de soul search, também tem contribuições na área da saúde ou segurança, podendo localizar uma pessoa desaparecida ou fugida em 20 minutos através de um complexo sistema de reconhecimento facial. Um exemplo de eficiência, foi o caso de uma mulher na Inglaterra, que foi presa depois de matar os três filhos e que ao fugir da cadeia foi localizada em apenas 10 minutos e 21 segundos.

O que Mae não imaginava, no entanto, é que toda essa exposição teria um preço, não só para ela, mas também para todos ao seu redor. Assim, para tentar consertar o erro,  sai da casa dos pais e volta para o Circulo na tentativa de consertar o sistema a partir do seu bojo, atuando no contrafluxo  dentro de uma organização que investia continuamente na melhoria dos serviços, porque afinal, tudo é negócio e informação é poder,  o que pode dar lucro.

Alegando que não queria viver desconectada, Mae tenta o contragolpe contra o sistema ao propor uma conexão ininterrupta, que começasse desde a empresa, com a transparência das ações dos seus líderes, através da exposição de suas vidas e rotinas. O próprio Eamon Bailey descobre ao ficar exposto que, “estamos ferrados”, porque, não tinha  mais segredos e a privacidade acabou e lamenta tragicamente: “nós não vivemos mais na sombras e as luzes se apagam”, apontando que na hora de mudança, ela tem de ser imediata até porque o futuro não espera e o feitiço acaba virando, às vezes, contra o feiticeiro.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica:

Título : O Círculo

Diretor : James Ponsoldt

Roteiro: James Ponsoldt e Dave Eggers

Elenco : Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Katen Gila, Ellar Coltrane, Patton Oswalt e Glenne Headly

Cinematografista: Matthew Libalique

2017

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Imagem, + música e a linguagem absoluta do cinema


 

Sem necessidade de roteiro ou de palavras, o documentário Um homem com uma câmera (Tchelovek s Kinoapparatom) mostra o dia a dia de três cidades soviéticas: Moscou e Kiev, na Ucrânia e Riga, na Estônia, em 1929. Nele,  o cinegrafista Michail Kaufman revela a rotina urbana de modo impessoal, desde o amanhecer ainda com as ruas vazias e que vão gradualmente se enchendo de pessoas e veículos, indo até o anoitecer com cenas de trabalho, atividades e lazer cotidianos.

 

O próprio diretor Dziga Vertov, autor e executor do projeto, escreveu no seu diário e informa na apresentação do documentário, que o  filme apresenta uma experiência revolucionária na comunicação cinemática de eventos visíveis, sem a ajuda de intertítulos, sem roteiro ou um cenários específicos,  prescindindo de atores ou palavras. Para ele, esse trabalho de cunho experimental objetivava criar uma linguagem absoluta verdadeiramente internacional do cinema baseada na sua total separação da linguagem do teatro e da literatura.

 

O filme é interessante pela sua importância histórica e trabalha de forma ampla a linguagem do cinema casando o movimento de câmeras bem como das imagens das pessoas ou máquinas em movimento, com  a música da  The Cinematic Orchestra, uma companhia inglesa que produziu  uma trilha sonora para o filme e participou da exibição de Um homem com uma Câmera em diversos festivais.

 

Cabe salientar que em 1996, o compositor norueguês Geir Jenssen, o  Biosphere, reescreveu a trilha sonora para o filme,  seguindo  as instruções  do diretor Dziga Vertov para que o filme fosse acompanhado por um pianista. O trabalho  foi interrompido e completado anos depois por Per Martinsen, conhecido como Mental Overdrive. O filme foi recuperado em 2014 e foi exibido no final de 2020 no Telecine Cult.

 

A ideia de Vertov era radical e revolucionária: ele se propôs a  filmar e editar a realidade, mostrando para isso um dia numa  metrópole, sem diálogos e nem a edição de imagens captadas por um cinegrafista. O material foi  reunido em seis rolos e a música com o seu ritmo faz o contraponto com as imagens sequenciais e aleatórias convivendo com sinais de trânsito e fusões propositais.

 

Um homem com uma câmera  começa com um efeito especial mostrando uma câmera  e o irmão do diretor, Michail Kaufman, com o seu equipamento de filmagem sobre ela. Ele  é o único personagem mostrado ao longo do documentário  filmando a vida em  cidades de grande porte, mas tudo começa num cinema vazio e que vai se enchendo gradualmente de espectadores, em seguida,  a orquestra começa a tocar para exibição de um filme sobre o filme em exibição numa experiência metalinguística.

 

As sequências  revelam imagens feitas ainda durante a madrugada, com as ruas e avenidas vazias de cidades  adormecidas e, gradualmente, elas vão ganhando vida e movimento, com o despertar dos moradores e o começo  das suas atividades, com a abertura de lojas ou mostrando  um berçário. As cenas se sucedem com a circulação de bondes e trens, além de máquinas e engrenagens ligadas nas indústrias, que se somam a equipamentos fotográficos, telefones, lâmpadas acesas, pneus e carros em movimento, com muita gente nas ruas e em diversos tipo de atividades.

 

No filme não aparecem  autoridades e nem celebridades, apenas  pessoas comuns mostrando a sua realidade cotidiana revelada em imagens, às vezes de gente anônima  numa rua distante, nos interiores de edifícios e em casas, e sempre com um homem com a sua câmera saindo para as ruas, onde filma pombos, carros e seus passageiros, trilhos de estrada de ferro e de bondes cujas imagens se fundem de forma  criativa.

 

Numa outra sequência, uma mulher acorda e de forma sensual se veste lentamente. Também mendigos são  filmados nas ruas, onde aparecem flores, janelas fechadas e até aviões cortando o espaço, terminando muitas vezes com um close na lente da câmera, a qual também funciona como um olho do cineasta e até mesmo do espectador diante da sequência abrupta de imagens que se sucedem.

 

Em geral, as cidades, as pessoas e os objetos são  observados à distância, em planos gerais ou em closes,  sem que diretor ou o câmera que circula  entre elas interfiram  na rotina, sem nenhuma  atuação, mas  revelando ação pura. No documentário máquina se torna também uma personagem da obra e se insere na rotina das cidades e das pessoas, em contraposição como a mulher que abre a janela descortinando a paisagem urbana e uma outra que pedala uma bicicleta.

 

O filme também aparece como instrumento  de propaganda ideológica  do regime socialista durante o período stalinista, mostrando  as facetas urbanização acelerada, o avanço da industrialização e da tecnologia, sugerindo  crescimento econômico e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, no documentário há espaço para mostrar os dramas humanos, com trabalhadores em condições adversas suando nas fábricas ou nas minas, viajando apinhados no transporte, além do socorro à vítimas de acidentes e a mobilização de bombeiros num combate a incêndios.

 

Tudo funciona no filme  como um grande painel e um grande quebra cabeças envolvendo  pessoas que nascem, crescem e morrem, casam e divorciam-se, trabalham, sorriem e choram. Além de servir como uma espécie de espelho da sociedade urbanizada, o documentário apresenta em seu bojo, numa espécie processo de edição paralela, não apenas a realidade em preto e branco captada pelas câmeras,  mas mostrando uma espécie making of, de como as imagens foram registradas nas mais diversas circunstâncias e mesmo na revelação do filme e da sua montagem numa mesa de edição, com escolha dos frames e das sequências de cenas intercaladas.

  

Em essência , Um homem com uma câmera, que foi incluído num livro sobre os 1001 filmes que se deve assistir antes de morrer, atingiu o seu objetivo ao potencializar na tela a força da linguagem cinematográfica e que foi adaptada à dinâmica dos telejornais de nossos dias, os quais não conseguiram prescindir das palavras dos entrevistados ou dos locutores, embora cada sequencia mostrada valha por milhares de palavras, valendo por isso como uma aula sobre cinema, jornalismo e servindo de referência para outros documentários (Kleber Torres).


Ficha técnica:

Título – Um homem com uma câmera (Tchelovek s kinoapparatom)

Direção : Dziga Vertov

Cinematografista: Mikhail Kaufman     

Editor assistente : Elizaveth Svilova

Ano:  1929

Preto & Branco


domingo, 17 de janeiro de 2021

TVI lança amanhã (18) “O Síndico” uma série filmada em Itabuna



 

A TVI Play lança amanhã (18), às 22 horas, a série “O Síndico”, uma comédia em cinco capítulos sobre a convivência é um condomínio  num  prédio em Itabuna, com direção de Betse de Paula e um elenco que conta com o global Carlos Betão, ao lado de Jailton Alves, Raquel Rocha, Tamires Santana, e Sérgio Ramos. O cenário é o condomínio da Torre da Primavera, que reúne três edifícios de grande portenha zona Norte da cidade.

 

A série conta a história de um ator itabunense que  acidentalmente se torna síndico e fica preso na disputa entre moradores. “O Síndico” é a primeira série de ficção filmada integralmente Itabuna, além do mais, todo o elenco é baiano formado por atores e não atores da região Sul da Bahia e dirigido pela carioca Beth Paula, que se uniu à equipe metade baiana e metade carioca para construir esta comédia marcada pelo humor e irreverência.

 

Jailton Alves interpreta Quim Maia e pode reunir suas experiências pessoais como síndico do prédio em que residia  para construir o protagonista da série, que  tem em termos de referência que remonta aos tempos do rádio com o  “Prédio Balança Mas Não Cai”, que se tornou um clássico programa de humor e que alcançou a televisão.

 

No cinema também são referências para “O Síndico”, o clássico Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock, que também explora por via do suspense o tema da vizinhança. Mais recentemente, no cinema  nacional  Edifício Master e o Som ao Redor trataram, do tema e na TV, a série A Grande Família também fala de convivência.

 

O Sindico tem direção de Betse de Paula, que começou no cinema em 1985, como assistente de produção de Sérgio Resende e construiu uma sólida carreira ao longo dos últimos 30 anos com filmes premiados entre os quais estão Encantadeiras (2020), Vozes da Floresta (2019), Desarquivando Alice Gonzaga(2017) e Dissecando Antonieta(2015).

 

A série foi produzida pela Floresta Filmes em parceria com a Aurora Filmes, com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual e da Agencia Nacional de Cinema (Ancine), além do apoio da prefeitura de Itabuna, através da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, durante a gestão de Daniel Leão.

 

Ficha Técnica

 

Título : O Sindico

Direção : Betse de Paula

Roteiro: Clara Mello, Betse de Paula e Sérgio Ramos

Elenco :      Jailton Alves, Carlos Betão, Don Diego, Vinícius Patrício, Raquel Rocha, Ruth Felisone, Susana Moellen, Jiovana Freire, Tamires Santana, Eva Lima,  Pryscila Coutinho, Sérgio Ramos, Rogério Tomas e Lia Azevedo

sábado, 9 de janeiro de 2021

O outra morte matada de João Heleno dos Britos



 40 anos depois de morte de John Lennon,  um dos integrantes dos Beatles, num atentado ocorrido no edifício Dakota, em 8 de dezembro de 1980, na cidade de Nova York, a tragédia ganha uma releitura tupiniquim com o curta metragem João Heleno dos Britos, como uma saga 100% nordestina, underground e envolvendo uma narrativa criativa com um jeitinho bem brasileiro, voando por 20 minutos nas asas agrestes  da ficção.

O  João  Heleno do faroeste sertanejo  começa com uma disputa de poder entre os Britos e Arapuã. O filme inicia com um tiroteio no agreste, onde seu Brito jovem (Giovani Gomes)  enfrenta um grupo da família dos Arapuã, num confronto mortal. Quase sem munição e  apenas com  uma bala no revólver,  ele dá o tiro derradeiro e a bala se choca  com o projetil de um pistoleiro rival provocando um verdadeiro panavuê.

As balas  explodem e, num milagre só possível no sertão e no mundo encantado da invenção, os  fragmentos se dispersam, matam logos dois pistoleiros,  explodem  um urubu azarado, que voava em local e hora errados, e liquida  aos demais jagunços encerrando a primeira parte de uma história manchada de sangue, se transformando numa lenda contada de boca a boca, como uma história do c* ou como uma robusta colhuda.  

Doente e enfraquecido, o patriarca da família dos Britos (Sóstenes Lennon Fonseca),   chama os dois últimos herdeiros, inclusive  a João Heleno dos Britos, recomendando para  que vocês “não deixem, um condenado daqueles (os Arapuãs)  encostarem um dedo e nem pensar uma cruzeta contra os Britos”, exalando seu último suspiro.

Com a  morte do velho Brito, começa uma série de confrontos que se transformam num rio de sangue, o qual esguicha em abundância dos feridos até a morte. Neste ínterim e no meio da disputa mortal,  João  Heleno dos Brito conhece e se apaixona  por uma  japonesa Ono Yoka (Harumi Harada), cujo nome se parece com o de Yoko Ono a verdadeira mulher do Beatle morto na vida real.

Apaixonados, os dois acabam se casando, tendo filhos e João Heleno  dispensa os jagunços a seu serviço e propõe o fim da disputa  entre as famílias rivais. A decisão repercute nos jornais da terra que trazem nas manchetes de primeira página informações sobre 10 anos sem uma morte em Caruaru e mostrando uma cidade vivendo em paz.

A suspensão do acordo  termina de forma abrupta, quando o locutor de uma emissora local volta do lanche comendo o sanduiche e ao invés de ler e comentar as manchetes dos jornais locais, anuncia num furo de reportagem e,  como na história do ídolo  do rock John Lennon, ele informa que o João Heleno dos Brito, foi  morto a tiros de revólver 38, por um pistoleiro. A notícia repercute e uma mulher comenta: “tira os meninos da rua, que mataram João Heleno dos Brito” e num átimo as ruas se esvaziam, com gente correndo para suas casas.

No fim, tudo acaba bem, num campo verdejante com pessoas ouvindo músicas de cítara e instrumentos de percussão indianos e o João Heleno beatificado num outro plano astral. Afinal o que é realidade e o que não é quando se fala do sertão e de coisas como a chegada de Lampião no céu ou no inferno, mas isto o leitor é que escolhe.(Kleber Torres)

 

Ficha Técnica :

Título :João  Heleno dos Britos

Duireção e Roteiro : Neco Tabosa

Elenco : Tagore  Suassuna, Harumi Harada, Daniel Araújo, Giovanni Gomes e Sóstenes Lennon Fonseca

Cinematogafista : Roberto Yuri

Brasil

20 minutos