sábado, 10 de julho de 2021

Um olhar diferenciado sobre a loucura e a arte

 



 

O filme Nise - O coração da loucura (2015) narra a trajetória da psicanalista Nise Silveira (Glória Pires), uma psicanalista que cuidava dos pacientes do manicômio onde trabalhava como clientes. Ele optou pela terapia ocupacional, como parte da estratégia para humanização do tratamento psiquiátrico, substituindo a lobotomia e do eletrochoque, duas terapias invasivas muito utilizadas nos hospícios do Brasil, onde os loucos eram segregados da família e da sociedade, tornando-se objeto de manipulação em pesquisas nem sempre adequadas para os pacientes e antiéticas.

Nise era uma leitora de Jung e, juntamente com uma artista plástica e apoio de  uma pequena equipe de colaboradores, trabalhou na construção do projeto que que resultou na implantação do Museu do Inconsciente, em 1952, reunido trabalhos de artistas plásticos esquizofrênicos e que evoluíam tecnicamente na elaboração de quadros e esculturas, em que revelam o seu mundo interior e a sua visão da vida.

Ela descobriu que os clientes, termo que  usava para os pacientes, pintavam inicialmente quadros abstratos e depois com a evolução do processo criativo construíam mandalas e obras figurativas com muitos círculos, atraindo a atenção inclusive de críticos de artes plásticas com Mário Pedrosa (Charles Frick), ganhando espaço na mídia brasileira e reconhecimento pela socidade.

Os seus métodos para humanização do tratamento eram questionados por outros psicanalistas com quem trabalhava, que  procuravam desconstruir o seu projeto, acusando-a de comunista. Ela  considerava que os loucos estavam dissociados do pensamento racional e o importante no tratamento era que se descobrisse a sua própria linguagem a partir da própria realidade objetiva do cliente.

Ao ser questionada  sobre o seu método de trabalho, ela respondeu ao colega que a criticava: “você usa  furador de gelo (instrumento usado na lobotomia, cirurgia que deixava os pacientes em sua maioria  incapazes de se comuncar, andar ou se alimentar)  e eu  o pincel”, destacando as diferenças irreconciliáveis entre os dois processos.

O filme não faz referências  a Arthur Bispo do Rosário, considerado um gênio por alguns e louco por outros, um dos mais célebres artistas plásticos conhecidos no grupo de internos manicomiais da  época e chupa uma cena do filme Estranho no Ninho, baseado no romance de Ken Kesey, considerado um dos clássicos da contracultura, em que os pacientes eram levados no ônibus para um passeio fora do ambiente do manicômio. No caso brasileiro, os pacientes foram ao Jardim Botânico.

Nise: O coração da loucura também nos ensina que de artista e louco cada um de nós tem um pouco e que uma das funções principais da arte é revelar a linguagem a linguagem do inconsciente, a qual temos o dever de se decifrar. No final do filme, a psicanalista Nise Silveira, já  idosa e usando óculos de grau potentes declara que “há dez mil modos de pertencer a vida e lutar pela sua época”, uma lição que deve ser aprendida por todos nós. (Kleber Torres)

 

Ficha técnica

Título : Nise – O coração da loucura

Diretor : Roberto Berliner

Roteiro : Flávia Castro, Maurício Lissovki, Maria Camargo e Chris Alcazar

Elenco : Glória Pires, Augusto Medeiros, Bernardo Marinho, Charles Frick, Cláudio Jaborandy, Fabrício Boliveira, Felipe Rocha e Fernando Eiras

Diretor de Fotografia : André Horta  

Diretor de arte : Daniel Flaksman

Brasil

2015

110 minutos

domingo, 13 de junho de 2021

Opioides, uma tragédia com 500 mil mortes nos Estados Unidos



                                          

O documentário O Crime do Século (The Crime of the Century), dirigido por Alex Gibney e exibido recentemente pela HBO e HBO GO, narra a tragédia dos opioídes, uma classe de drogas derivadas da papoula, nos Estados Unidos, com o registro de 500 mil mortes nos primeiros 20 anos deste século. O filme foi dividido em duas partes, com quase quatro horas de duração e revela por através de entrevistas e vídeos como funciona indústria farmacêutica responsável pela epidemia de opioides, com um custo social estimado em US$ 1 trilhão, num país onde a cada 25 minutos nasce uma criança viciada com sinais de abstinência.

 

A primeira parte traz um histórico do uso dos opioides, que foram introduzidos na Índia por Alexandre Magno e cujo uso já era conhecido pelos ocidentais ainda na antiguidade, sendo cultivada pelos egípcios e cujo uso e produção depois se alastrou pelo Mediterrâneo. Os derivados da papoula foram condenados pela Santa Inquisição, que ligava a droga ao diabo e às coisas infernais.

 

Na primeira metade do século XIX a Merck sintetizou a morfina e a Bayer, no início do século XX, passou a fabricar a heroína como substituta da morfina, então um produto vendido no varejo, como medicamento contra tosse. Historicamente, os opioides já eram usados  desde o século XVI, como láudano, uma mistura à base de vinho branco, açafrão, cravo, canela e ópio, desenvolvido pelo alquimista Paracelso, também utilizado como medicamento e relaxante.

 

Os derivados do ópio também alimentaram no século XX os cofres da máfia e os carteis mexicanos. O filme deixa transparecer a existência de uma relação entre os negócios dos carteis do crime organizado e as industrias farmacêuticas, até mesmo em função da complexidade logística de distribuição e da cadeia produtiva do ópio. Vale salientar, que para conquistar o mercado para novos produtos, os carteis chegaram mesmo a distribuir amostras grátis de matanfetaminas.

  

O Crime do Século mostra como a gigante da indústria farmacêutica Purdue Pharma, que lucrou mais de US$ 14,5 bilhões com a venda de opoides, conseguiu que a Agência de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA) aprovasse para uso mais amplo um analgésico potente para pacientes com dores crônicas ou em estágio terminal, mas que causa alta dependência. A droga foi considerada segura pelo FDA e  depois tentativas infrutíferas para corrigir o erro por parte de agências reguladoras oficiais e órgãos da Justiça, a empresa se uniu extrajudicialmente a distribuidoras de opioides e seguiu em frente, requerendo falência depois de uma multa de US$ 8,3 bilhões. O laboratório continua operando e deve pagar a multa com dinheiro da venda dos opioides.

 

Em sua trajetória, o Purdue Pharma cresceu a partir de um pequeno laboratório adquirido por três irmãos da família Sackler. A empresa opera a partir da premissa de que não há mal para o qual não seja capaz de criar um comprimido, e  a partir dos anos 60 do século passado passou a investir no mercado de calmantes e viciantes. Assim, na medida que dezenas de milhares de pessoas se tornavam viciadas e morriam, com a droga se alastrando até mesmo entre jovens de comunidade rurais, o que tornou os opioides conhecidos como heroína caipira,  o negócio bilionário se consolidou e o mercado criado por ela abriu caminhos para a prescrição de medicamentos ainda mais potentes e  mortais.

 

Os laboratórios consideram que a droga não é o problema, mas sim quem usa os produtos. O Purdue Pharma primeiro produziu o MS Contin, um sulfato de morfina e depois lançou Oxicodona, um opioide que age lentamente sendo absorvido pela corrente sanguínea, mas ocultou os perigos para os usuários em função dos lucros em escala numa parceria com clinicas, médicos e funcionários da FDA, que consideravam os viciados como pseudo dependentes.  O carro chefe do laboratório, o Oxicodona, tem uma potencia duas vezes superior à morfina e chegou a movimentar em vendas US$ 1 bilhão por ano.

 

A segunda parte do documentário é dedicada à agressiva estratégia de  marketing para o opioide sintético Fentanil, o que serve  como base para se chegar a uma ligação entre a indústria farmacêutica e as políticas governamentai, enquanto a epidemia silenciosa de ópio avançava de forma gradativa, matando 40 pessoas de diferentes faixas etárias e de diferentes classes sociais por dia nos Estados Unidos.

 

Nesta estratégia, os laboratórios subornavam médicos com prêmios, pagando palestras e outros incentivos para que prescrevessem droga. O filme inclui participações de representantes da DEA, jornalistas e pesquisadores,  além do ex-vice-presidente de Vendas do Insys Alec Burlakoff e  da ex-gerente de Vendas do, Insys Sunrise Lee, que chegaram a ser concenados a prisão e do traficante de Fentanil, Caleb Lanier, que vendia o produto para sustentar o próprio vício..

 

O filme também narra tragédias pessoais com a participação de profissionais de saúde, sobreviventes e familiares das vítimas dos opioides, além de  contar  ainda com a participação de denunciantes e informantes, além de exibir documentos vazados, entrevistas e acesso aos bastidores das investigações, nos Estados Unidos onde foram comercializados mais de 100 bilhões de compridos nas duas primeiras décadas do século XXI.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica

 

Título : O Crime do Século (The Crime of the Century)

 

Direção e roteiro  : Alex Gibney

 

Música : Brian Deminy

 

Gênero : Documentário

 

2020

 

231 minutos

 

 

 


sábado, 5 de junho de 2021

Uma história de pioneirismo e esquecimento no mundo do cinema



 

O documentário Alice Guy-Blaché – uma história não contada  resgata a trajetória de uma  cineasta pouco conhecida e quase nunca citada na história do cinema, em que pese a sua contribuição pioneira desde o final do século  XIX. O filme dirigido por Pamela B.Green e narrado por Jodie Foster reúne imagens de arquivo e entrevistas com familiares da cineasta, atores e  grandes nomes do cinema, além de mostrar  algumas obras da cineasta considerada uma grande artista, mas que acabou esquecida apesar da sua contribuição à história do cinema.

Alice Guy-Blaché nasceu na França, viveu sua juventude no Chile, retornou à Europa e depois viveu por longos anos em New Jersey (USA), onde produziu, dirigiu, roteirizou e atuou  em centenas de filmes, muitos deles preservados hoje na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e no museu Eastman. No documentário, a cineasta  conta que queria ser artista, mas o pai não deixou. A sua ligação com o cinema começou ao se empregar  como estenografa numa produtora francesa.

Ela destaca que não sabia nada de fotografia e teve de aprender tudo sobre cinema na prática do dia a dia. Seu primeiro filme foi A Fada do Repolho,  uma metáfora que combinava conto de fadas e o folclore, foi construído sem um roteiro definido e uma história que foi criada com a própria sequência das filmagens. Ela também dirigiu uma versão de O Corcunda de Notre Dame no Estúdio Esmeralda, de Gaumont, onde também trabalhou como chefe de produção.

Um fato observado em Alice Guy-Blaché – uma história não contada  é que os seus filmes eram sofisticados, experimentais  e poderiam ser considerados similares aos curtas exibidos nos dias atuais no youtube. Eram filmes que tinham sempre uma conclusão, num tempo em que também ocorriam problemas com os filmes, as câmeras e mesmo a revelação.

Nos Estados Unidos ela fundou a Solax, uma produtora cinematográfica que comandou como uma mulher de negócios astuta e que teria produzido filmes de cowboy e sobre a Guerra de Secessão. Os seus biógrafos acreditam que ela dirigiu mais de 200 filmes.

Como pioneira na história do cinema, a cineasta  também foi diretora da primeira comédia, O Colchão Epiléptico e teria influenciado inclusive  Serguei Eisenstein na direção de Outubro. Ela também foi pioneira em seriados, com a direção e produção de 25 episódios de A Paixão de Cristo, bem como no uso de efeitos especiais. Alice também teria influenciado Alfred Hitchcok, com o uso do espaço, ritmo das sequências  e movimentação de câmeras.

São do período americano filmes como Comédia de erros, Parsons Sue, Tramp Strategy, Hys mother hymn, Two little Rangers e Fight in the Dark, filmes que falam sobre fragmentos da vida e que de certa forma registraram a vida da sociedade americana no século XX. Em A full and his Money, narra a história de um cara idiota que acha uma carteira de dinheiro, compra um carro e passa a ser cortejado por todos que no passado ignoravam , quando era socialmente invisível. Os seus filmes também tratavam da condição da mulher na sociedade, inclusive como personagem central em filmes de faroeste, além de falar  da discriminação racial.O ciclo americano foi  encerrado com o final da primeira guerra mundial.

Alice Guy-Blaché  teve seus filmes exibidos na Universidade de Columbia e foi afetada pala perda de dinheiro na bolsa e pelo incêndio do seu estúdio, o que a deixou fora do mercado. Em  1918 com a eclosão da pandemia provocada pela gripe espanhola, ela voltou para a França com os filhos, tendo realizado seu último filme  em 1922.

O documentário sobre ela a mostra como Alice Guy-Blaché como a mulher que ajudou a inventar o cinema, num roteiro assinado por    Pamela B. Green e Joan Simon, baseado no livro Alice Guy-Blaché lost visionary of the cinema, de Alison McMahan, uma obra que também merece ser lida. (Kleber Torres)

 

 

Ficha técnica

 

Título : Be natural: the untold story of Alice Guy-Blaché (Alice Guy-Blaché – uma história não contada)

Direção : Pamela B.Gree

Roteiro:  Pamela Green e Joan Simon

Narração : Jodie Foster

Documentário

103 min

 Estados Unidos

domingo, 23 de maio de 2021

Um drama humano que ultrapassa as fronteiras da loucura


 

A questão da loucura e da inclusão social dos pacientes com esquizofrenia  é o tema de Palavras Nas Paredes do Banheiro, que narra o drama de Adam (Charlie Plumer), um estudante que sofre alucinações, e participa do teste de uma nova droga inteligente capaz de atenuar os sintomas da doença facilitando a sua integração na escola, no trabalho e na vida familiar.

Em função dos efeitos colaterais, Adam, que pretende se especializar em gastronomia, interrompe por conta própria o uso do medicamento que joga nos jardins da sua casa e volta a ter alucinações recorrentes  com personagens imaginários que vivem ao seu redor, a exemplo do segurança interpretado por Lobo Serbastian e de Rebecca (Annasophia Robb).

No seu drama pessoal e existencial Adam discute suas dúvidas com o padre Patrick (Andy Garcia) e tem sua vida alterada quando entra em contato com  a colega de sala Maya Arnez (Taylor Russell), a quem contrata para um reforço em matemática e por quem acaba se apaixonando. A história é baseada no livro homônimo  de Julia Walton, que narra o drama de Adam, jovem que se preparava para a conclusão do ensino médio e acessar a uma universidade,

O filme tem direção competente de Thor Freudenthal, que assinou ‘Diário de um Banana’ e ‘Percy Jackson e o Mar de Monstros’. e mostra que além dos medicamentos, do apoio da família e da comunidade o amor é uma porta que se abre para a inclusão dos esquizofrênicos, que têm seus limites e suas possibilidades mesmo  disputando espaço num mundo cada vez mais competitivo, racional e tecnológico. Afinal quais os limites da sanidade e da loucura? (Kleber Torres)

 

Ficha Técnica:

Título : Words on the Bathroom (Palavras nas paredes do banheiro)

Direção: Thor Freudenthal

Roteiro : Nick Naveda

Elenco : Charles Plummer, Taylor Russel, Andy Garcia, Annasophia Robb,Beth Grant, Devon Bostik, Lobo Sebastian, Molly Parker

Cinematografista : Michael Goi

Gênero : Drama

Direção : 111 minutos

Origem : Estados Unidos

Ano 2020


sábado, 8 de maio de 2021

Quando a burocracia atravanca até a prisão de um serial killer



 

O filme Citizen X (Cidadão X) narra a história de  um serial killer Andrei Chikatilo, interpretado por Jeffrey De Munn, um pacato pai de família e integrante do Partido Comunista,  que durante 12 anos matou 52 pessoas, 35 delas ainda crianças e jovens com menos de 17 anos,  na antiga União Soviética. Ganhador de um Globo de Ouro e de um Emmy, o filme foi dirigido por Chris Gerolmo, que construiu o roteiro a partir do livro The Killer Departament, de Robert Cullen, sobre um psicopata que ficou conhecido como “Monstro de Rostov”, matando mais de cinco dezenas de vítimas entre 1978 a 1990, sendo preso somente após uma mobilização das forças de segurança atuando na identificação de suspeitos em estações ferroviárias.

 

Tudo começou no  início dos anos oitenta quando corpos de algumas crianças  violentadas foram encontradas na área rural. As vítimas eram mortas a facadas com requinte de crueldade, de abuso sexual em alguns casos e apresentavam ferimentos nos olhos.

 

As investigações começaram com  médico legista Viktor Burakov (Stephen Rea), recebe os corpos das primeiras vítimas no necrotério e apresenta um informe para as autoridades de segurança e burocratas do partido, os quais discordam da  teoria de que estavam enfrentando a ação de um serial killer, o que seria um problema apenas dos  países capitalistas com as suas contradições. Neste caso, a ajuda de peritos do FBI não podia nem ser cogitada.

 

Enfrentando as barreiras da burocracia, que limitava até os pedidos de apoio de mais investigadores ou mesmo de equipamentos, como computadores, Burakov acaba assumindo o comando das investigações, contando  com a ajuda do coronel Mikhail Fetsov (Donald Sutherland). A ajuda se fortalece com sua promoção a general, o que permitiu afastar da coordenação das investigações aos burocratas do partido.

 

Nos primeiros anos das investigações Burakov chega a deter Chikatilo, com uma faca e uma corda na bolsa que levava, mas tem de soltá-lo porque era trabalhador de uma fábrica e um camarada membro do partido. Os burocratas  também evitaram que o assunto chegasse aos jornais, para não alarmar a população sobre o desaparecimento e morte de pessoas, bem como colocaram um burocrata e promotor de Moscou, para, sem sucesso coordenar as investigações que eram direcionadas aos homossexuais da comunidade.

A prisão do serial killer esbarrou porém na sua estratégia para evitar uma confissão dos crimes, adiando a cada dia a confissão dos crimes, o que poderia implicar na necessidade de sua soltura por falta de provas para posterior condenação. A mudança no caso acontece, com a convocação do psiquiatra Alexander Bukhan (Max Von Sidow), que com análises acadêmicas traçou um perfil do sociopata, o Cidadão X e conseguiu quebrar a sua resistência, ajudando assim na condenação do assassino.(Kleber Torres_)

Ficha técnica

 

Título : Citizen X  (Cidadão X)

Diretor e roteirista – Chris Gerolmo

Elenco : Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey De Munn, John Wood, Imelda Stauton w Tusse Silbery

Cinematografista – Robert Fraisse

Gênero :  Suspense e Terror

EUA

1995

110 minutos


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Quando a loucura vai muito além da contracultura



 

Considerado como  um dos  marcos referenciais da “Nouvelle Vague”, movimento de contestatório de cineastas franceses que produziam nos anos 50 e 60 do século passado filmes de baixo custo e de contracultura, o Pierrot le Fou (O Demônio das Onze Horas) é uma produção franco-italiana, de 1965, dirigida por Jean-Luc Goddard, que produziu o roteiro a partir do romance Obsession, de Lionel White. A obra é considerada um cult movie e foi exibida recentemente pelo Telecine como parte dos festejos dos 125 anos do cinema.

Tudo começa quando o professor Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo), que ensinava espanhol e era um leitor assíduo, daqueles que leem até na banheira, vivia desiludido e insatisfeito com a vida pequeno-burguesa que levava. Depois de perder o emprego num  canal de televisão, ele é convidado pela sua mulher italiana para uma festa com amigos e que poderia sinalizar para um novo emprego, com a volta ao mercado de trabalho.

O casal contrata uma babá, Marianne (Ana Karina) para cuidar dos seus filhos durante o evento. Mas, insatisfeito com a festa, Griffon toma um carro emprestado e volta sozinho para casa, onde a bela e jovem babá tenta seduzi-lo. Os dois deixam o local e vão para um apartamento inacabado, onde se envolvem num assassinato, depois e em fuga, eles roubam um carro que deixam mergulhado no Mediterrâneo, no sul da costa francesa.

A partir daí a dupla se envolve numa série de incidentes e ações muitas vezes surreais tendo algumas delas como referência textos de livros sobre arte e filosofia. Ele também escreve um poema concreto, que se intercala com os textos e cenas do filme. Os dois também se envolvem com guerrilheiros, terroristas e traficantes de armas, com Griffon sendo chamado por diversos codinomes pela amante.

O filme, que tem a ver com a proposta glauberiana de uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, termina de forma bizarra e até inesperada como uma explosão de metáforas, o que permite várias releituras, ilações e análises mais diversas para o espectador.(Kleber Torres(

 

Ficha técnica:

Título : O Diabo das Onze Horas (Pierrot le Fou)

Direção e roteiro:  Jean-Luc Goddard

Elenco : Jean-Paul Belmond,  Anna Karina, Graziella Galvani,

Gênero : Drama

Música : Antoine Duhame e Boris Bassiak

Direção de fotografia : Raoul Coutard

Origem : França-Itália

1965

115 minutos


sábado, 10 de abril de 2021

O vinculo nem sempre sutil entre o poder e o crime organizado



 

Il Divo – la spettacolare vita de Giulio Andreotti  é um filme biográfico que traça a trajetória  política do primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, interpretado por Toni Servillo, um dos líderes da Democracia Cristã, indicado sete vezes para a presidência do conselho de ministros e outras 25 para integrar o ministério. Tudo começa partir de sua última eleição em 1992 e revela as ligações de Andreotti com o crime organizado inclusive promovendo assassinatos políticos, como o que resultou na morte do jornalista Mino Pecorelli, em 1979 um dos seus críticos mais ferozes.

Ele manteve um grupo de seguidores fieis e sua vinculação com a máfia foi revelada através de depoimentos e denúncias  de diversos mafiosos presos como Tommaso Buscetta (Gaetano Balisteri),  que foi preso no Brasil em 1983 e cujas informações causaram prejuízos para a Cosa Nostra na Itália e nos Estados Unidos, onde morreu 17 anos depois.

O filme que tem uma narrativa lenta também revela  um suposto encontro de Andreotti, que era chamado pelos seus críticos de O Divo, Primeira Letra do Alfabeto, Corcunda, Raposo, Salamandra, Moloch, Papa Negro, Homem das Trevas e Belzebu, com o chefe Totó Riina citado nos vários processos do ex-primeiro ministro italiano, que chegou a ser absolvido em alguns deles por falta de provas.

A história relata o período compreendido desde a restauração da democracia italiana  no pós-guerra, entre 1946 e 1992,  com sua indicação por sete vezes para a chefia do governo italiano e para composições ministeriais. Giulio Andreotti aparece como um político hábil, articulado e de comportamento heterodoxo, indo sempre à Igreja, mas usando práticas escusas para se manter no poder a qualquer preço até mesmo com o custo de vidas humanas.

Il Divo revela a ação da loja maçônica P2, que atuava nos bastidores do poder em conjunto com a Democracia Crista, que teve entre as suas peças chaves Amintore Fanfani, Giulio Andreotti e Aldo Moro, executado depois de permanecer 55 dias em poder da Brigada Vermelha   e que em cartas escritas no cativeiro, denunciava as práticas heterodoxas da DC.

Para exemplificar a sua capacidade de sobrevivência Andreotti conta no filme, que um médico lhe deu seis meses de vida e ao retornar para nova consulta, quem tinha falecido foi o médico. No filme, ele sai à noite andando em companhia de seguranças pelas ruas de Roma para verificar in loco pichações que o denunciavam por massacres e conspirações. Ele também ia a igreja regularmente durante a madrugada e foi comparado pelo pároco que o recebeu, com o primeiro ministro Alcide de Gasperi. “que falava com Deus, enquanto ele falava com os padres,” justificando ironicamente que fazia assim porque os padres votam.

Ele também dizia que não acreditava no acaso, mas na vontade de Deus e não se queixava dos críticos, porque considerava que tinha um senso de humor, mas tinha também em seu poder um grade arquivo dos aliados e desafetos. Andreotti destacava ainda que “a ironia é a melhor forma de cura para não morrer, mas as curas para os que vão morrer são atrozes”.  

 

Isolado e abandonado por aliados que também respondiam a processos por corrupção, ele se defende no julgamento dizendo que os seus acusadores “não fazem ideia sobre os delitos que tive cometer para garantir o bem-estar e o desenvolvimento do país durante muitos anos. Eu fui o poder e vivi a monstruosa invisível contradição de perpetrar o mal para garantir o bem estar coletivo”, com um custo de 236 mortos e 817 feridos em diversos incidentes numa estratégia de tensão a  de sobrevivência com o uso da força, da violência e da intimidação. (Kleber Torres)

 

Ficha técnica

Título : Il Divo – la spettacolare vita de Giulio Andreotti  / O Divo

Diretor e Roteirista : Paolo Sorrentino

Elenco : Toni Servillo, Ana Bonaiuto, Flávio Bucci, Carlo Bucciroso, Piera Degli Esposti, Paolo Graziosi, Giulio Bosetti, Massimo Popolizio, Giorgio Colangeli,  Alberto Cracco, Lorenzo Gioielli e Gaetano Balistreri

Música : Teho Teardo

Cinematografia : Luca Bigazzi

120 minutos