sexta-feira, 24 de março de 2023

Matrix e a Inteligência artificial num futuro ciberpunk distópico

Há quem diga que a história da cultura pop no mundo globalizado se divide em duas etapas: antes e depois de Matrix, filme rodado em 1999, transformado numa espécie de cult movie, sendo considerado um dos melhores filmes de ficção cientifica. Ele retrata um futuro ciberpunk distópico em que o real e o sonho se desdobram através da rede de computadores gerando fatos paralelos e açõesque se desdobram numa espécie de multiverso. O filme iniciou uma série exitosa sequenciada com Matrix Reloaded (2003), The Matrix Revolutions (2003) e The Matrix Ressurections (2021), mas também ganhou desdobramento em livros, jogos, animações e histórias em quadrinhos. Ele reúne referencias filosóficas e religiosas, com citações referentes aos livros Simulacros e Simulações, de Jean Baudrillard; Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll e à Alegoria da Caverna, de Platão, além de resgatar lutas de kung-fu e de inovar em técnicas cinematográficas, inclusive em termos de efeitos especiais. Tudo começa quando Thomas A. Anderson (Keanu Reeves) trabalha normalmente durante o dia como programador de uma empresa de tecnologia da informação e à noite, se transforma em Neo, um hacker que rouba dados estratégicos. Ele invade sistemas de computadores, cometendo crimes cibernéticos, uma atividade ilegal e contraria ao sistema político vigente, o qual controla informações e a vida da população com um forte aparato repressivo apoiado por um suporte tecnológico. Anderson/Neo vivia questionando sobre o que "O que é a Matrix?" e acaba recebendo um recado lacônico e enigmático pelo computador: “Matrix pegou você!”, o que o acaba levando aos caminhos de Morpheus (Laurence Fishburne), um personagem enigmático, o qual atua nos bastidores e usa a rede de computadores para enfrentar um governo autoritário, comandado por máquinas pensantes, as quais utilizam recursos da inteligência artificial para dominar a população humana mantida em hibernação. O sistema utiliza o calor dos seus corpos como fonte alimentadora de energia para os seus sistemas digitais, os quais operam conectando em tempo real o mundo real e o virtual habitado por avatares e complementado com os recursos da realidade aumentada. Depois de capturado por agentes do sistema e que investigavam as suas atividades consideradas subversivas, Neo se recusa em cooperar com seus captores, que o libertam após implantarem no seu um software eletrônico de vigilância para poderem monitorar os seus passos e chegarem a Morpheus. Posto em liberdade, Neo é contatado por Trinity (Carrie-Anne Moss), uma hacker atuante, que extrai o equipamento de monitoramento e o estimula a procurar a verdade sobre a Matrix, que está em todo o lugar e em tudo. Ela também o leva até Morpheus, considerado terrorista pelo governo e como o homem mais perigoso que existe. Morpheus mostra para Neo que ele tem duas opções: voltar a sua vida como Thomas Anderson e se omitir diante do sistema ou descobrir o que é a Matrix, que está em toda parte ou mesmo quando se faz qualquer coisa, e conclui: “não se pode explicar o que a Matrix, é preciso que se veja por si mesmo, o que se parece com o país de Alice no País das Maravilhas,“ numa alusão à obra de Lewis Carroll. Ele conclui perguntando se Neo já teve algum sonho que parecesse real e diz que ele é bem vindo ao mundo real, até porque Matrix é controle absoluto, formatando um mundo irreal controlado por computadores. Em síntese, Matrix é o sistema com toda a sua complexidade e poder. Neo aceita a segunda opção e toma um comprimido vermelho. Depois, ele desperta desorientado no tempo e no espaço, fragilizado, num e completamente sem pelos, com uma série de fios entranhados na sua pele ligados a cabos. Neo acaba ejetado da máquina e é resgatado por Morpheus e Trinity, que o transportam até a nave Nebuchadnezzar, onde é apresentado à equipe que trabalha em oposição ao sistema e trabalha no enfrentamento de Matriux. Morpheus revela a Neo que o mundo que ele conhece simplesmente não existe: é parte de uma simulação interativa neural, a que chamam de Matrix, um conceito muito parecido como o do multiverso, um conceito hodierno, que extrapola os limites da realidade objetiva. Ele também fala sobre a profecia de que um dia surgirá o Escolhido, que passaria a liderar a resistência e derrotar as máquinas num confronto decisivo. Para Morpheus, Neo seria esse homem predestinado e o alerta sobre os riscos desta luta, uma vez que a morte dentro da Matrix também leva de forma inexorável, à morte no mundo real. Por fim, Neo é levado para uma consulta ao Oráculo, que funciona como uma espécie de guia religioso com previsões que podem ajudar a encontrar o caminho e que orientam inclusive para os caminhos do autoconhecimento. No prognostico, ele diz que apesar de Neo ter o dom, ele não é o Escolhido mas, diz que em breve, um evento fará com que escolha entre sua vida e a de Morpheus. O evento previsto na consulta oracular foi a prisão de Morpheus, que passou a ser torturado pelo agente Smith (Hugo Weaving), um robô com forma humana e que considera o homem um predador tão danoso quanto um vírus, e outros prepostos do governo, os quais se vestem de forma similar aos homens de preto, uma lenda sobre uma agência secreta que monitora no mundo real a ação dos alienígenas na terra. Nos diálogos com Morpheus, o agente Smith tenta colher informações sobre o movimento antigoverno e também discute com ele sobre conceitos filosóficos como a diferença entre conhecer e trilhar um determinado caminho. Em companhia de Trinity, Neo traça uma estratégia para libertar o seu orientador, inclusive matando guardas no edifício do governo onde Morpheus estava preso e usando inclusive um helicóptero. Mas, enquanto Morpheus e Trinity fazem seu retorno ao mundo real após o exitoso ataque, Neo tenta escapar com eles, mas acaba enfrentando num duelo mortal ao agente Smith numa luta acirrada, ele acaba atingido mortalmente pelo antagonista. Ao ver a morte de Neo na Matrix, Trinity diz no ouvido: “Você não pode estar morto, porque eu o amo" . Com estas palavras Neo ressuscita e volta a enfrentar os agentes do governo, esquivando-se veloz dos tiros e revelando suas novas capacidades de combate, como a de parar as balas no ar, um efeito especial inovador no filme, que ficou conhecido como “bullet time”, em que embora o disparo do projétil ocorra em câmera lenta, ao mesmo tempo em que do ponto de vista do observador tudo parece ocorrer numa velocidade normal. Ao decifrar os códigos de Matrix e entrar na linguagem da máquina, Neo decifra os segredos do sistema –establhisment- e deixa uma mensagem de esperança para o futuro, destacando a importância luta por um mundo sem regras e livre, onde tudo é possível. Assim, o que haverá depois, no futuro, cabe a cada um decidir fazendo valer as prerrogativas do livre arbítrio e porque não da própria democracia, no seu sentido amplo e irrestrito.(Kleber Torres) Ficha técnica Título : Matrix Direção e roteiro: Andy e Larry Wachowski Elenco : Keanu Reeves, Lawrence Fishburne, Carrie-Anne Moss, Hugo Weaving, Joe Pantolino, Gloria Foster, Marcus Chong e Paul Goddard Música: Don Davis Direção Fotografia : Bill Pope Edição: Zach Staenberg Gênero : Ficção Estados Unidos Duração: 135 minutos 1999

quinta-feira, 23 de março de 2023

Uma dramédia instigante e anárquica com humor britânico

Anárquica e instigante, assim pode ser definida a dramédia – que uma espécie de drama e comédia - O Duque (The Duke) , filme dirigido com competência pelo experiente Roger Michell, que nos legou Um lugar chamado Notting Hill(1999), Amor para sempre(2004) e Vênus (2006). A obra é baseada na história real do motorista de ônibus sexagenário, Kempton Burton, que executou em 1961, o furto do quadro do Duque de Wellington, pintado por Francisco Goya, o qual estava exposto na Galeria Nacional, em Londres. O objetivo desta ação criminosa era cobrar do governo inglês melhor política e assistência aos idosos, o que incluía o acesso gratuito à televisão, sem necessidade do TV License. O filme é instigante e revela Kempton Bunton (Jim, Broadbent), como um homem simples, autodidata, que se rebela com a falta de atenção das autoridades para os idosos e por isso rouba a obra de arte em exposição em um museu britânico. Para devolver o quadro, ele começa a enviar cartas ao governo cobrando melhorias para a população dos idosos no Reino Unido, os textos são analisados por uma especialista que constrói o perfil do criminoso, como pessoa com participação ativa na comunidade e com mais de 50 anos. Um dos destaques do filme é a interpretação de Jim Broadbent, ganhador de um Oscar, em Iris (2001) e que atuou em Moulin Rouge e em filmes da série Harry Poter, como ArquyimeistreAmbrose e Helen Mirren(Dotrothy Bunton), que também conquistou um Oscar (2007), em A Rainha (The Queen), como Elizabeth II. Mirren interpreta a mulher de Bunton, uma senhora idosa, com os pés no chão e que acompanha com preocupação a trajetória do marido, que também foi preso anteriormente ao roubo por não pagar a taxa de televisão cobrada pelo governo inglês. Na prisão, ele escreveu várias peças teatrais que enviava sem sucesso a editoras e à própria televisão governamental. Bunton não só escrevia cartas cobrando assistência aos idosos, como acabou demitido de uma padaria comunitária por defender um asiático que era discriminado pelo chefe, citando Mahatma Gandhi. O filme tem dois pontos altos: o julgamento, em que ele se diz inocente das acusações, despertando a participação do público no recinto e acaba sendo absolvido pelos jurados, além do uso de uma cena do Satânico Dr. No (1962) . o primeiro filme de 007, com Sean Connery, que aparece numa cena de O Duque, com o quadro roubado. Quatro anos depois de absolvido, Kempton Button escreve uma carta à promotoria confessando o roubo e devolvendo a obra, sendo preso por três meses em função do desaparecimento da moldura da tela e escreve mais uma peça teatral. Ele morreu sem ter nenhuma obra publicada e nem encenada nos palcos britânicos, já a TV License , imposto obrigatório cobrado pelo governo inglês para quem tem televisão em casa, somente foi tornada gratuita para idosos com mais de 74 anos e com desconto para pessoas registradas como deficientes visuais, agora, no século XXI. Ficha técnica Título : O Duque (The Duke) Direção : Roger Michell Roteiro: Richard Bean e Clive Coleman Elenco : Jim Broadbent, Helen Mirren, Jake Whitehead, Ann Maxwell Martin, Fion Whitehead, Aimeé Kelly, Craig Craney, Simon Hubbard, Machael Adams, Cinematografia : Mike Elei Direção de Arte: Adam Tomlinson Música : George Fenton Duração : 96 minutos Reino Unido 2021

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

A vida e as múltiplas mortes do rei do rock


 




“O que matou Elvis segundo os médicos, foi o coração; outros médicos dizem que foram os comprimidos;  alguns dizem que fui eu. Vou te contar o que matou Elvis: foi o amor. O  seu amor por vocês”, estas declarações  do coronel Tom Parker (Tom Hanks) explica em parte na cinebiografia Elvis,  a trajetória de a ascensão e decadência  do roqueiro Elvis Presley interpretado por Austin Butler. Um drama humano que envolveu sexo, drogas e rock’n roll, que rendeu aos seus produtores US$ 286 milhões.

O filme evidencia a parceria tóxica  entre o cantor de origem humilde e pouco instruído,  com o seu empresário  que se apresentava como coronel Tom Parker -ninguém sabe se este é efetivamente o seu nome-, que ao longo de mais de duas décadas, cuidou de contratos nem sempre favoráveis ao rei do rock. Ele o submetia a ações de marketing meramente comerciais sem agregar valor à carreira do artista, inclusive com a produção de filmes de classe B, colocando o astro do rock como vendedor de gadgets e eletrodomésticos além de outros produtos vendáveis  para uma sociedade de consumo.

O filme tem como contraponto a expansão dos  EUA como potência econômica e militar hegemônica  e os conflitos pessoais de Elvis ao longo dos anos como cantor branco, mas profundamente influenciado pelo jazz, o blues e pela música gospell. A cinebiografia mostra também a relação de Elvis com a mulher Priscilla Presley (Olivia DeJonge), com quem teve uma filha e que tentava influenciá-lo positivamente,  tentando dar um rumo para sua carreira como artista e inspirando-o na tomada de decisões que o tornaram um referencial para outros artistas brancos e negros os quais o sucederam após a sua morte  em 1977 aos 42 anos..

Dirigido por Baz Luhrmann de "Moulin Rouge", "O Grande Gatsby" e "Romeu e Julieta", que assinou o roteiro juntamente  com Sam Brommell, Craig Pearce e Jeremy Doner, Elvis tem uma narrativa a partir do ponto de vista Tom Parker, que assume o comando da história e até o protagonismo da história deixando em segundo plano o biografado. Mostra também como um empresário circense e inescrupuloso, que  descobre a sua mina de ouro a partir de um jovem branco, interiorano e o qual começava a se apresentar em eventos dançando como um negro e cantando rock.

Ao assumir o controle da carreira do artista emergente e que acabou se tornando uma superestrela do rock, levando suas fãs ao êxtase e deixando os seus críticos irados, o coronel Parker investe em contratos lesivos visando quitar suas dívidas de jogo nos cassinos e manter um elevado padrão de vida. Em paralelo à trajetória de Elvis o filme tem inserções sobre seu relacionamento com artistas negros como BB King e Little Richards, que o  inspiravam bem como a autores de estilos variados como  rap e o hip hop nos dias de hoje, apresentando como pano de fundo os grande eventos que marcaram a história num mundo dividido pela guerra fria, pela guerra do Vietnã, pela contracultura e até com o surgimento dos Beatles.   

Além da relação conturbada entre Elvis e o seu antagonista, o filme também mostra a sua relação do artista com a mãe, Gladys (Helen Thomson) e o pai, Vernon (Richard Roxburgh), com a mulher e com os amigos que o cercavam na mansão de Graceland, em Memphis, no Tenesse, onde nasceu e morreu. A influência das drogas e seu afastamento  gradual de Priscila, também revela a deterioração da saúde física e mental de Elvis, que acaba sucumbindo ainda jovem.

A direção do filme também investiu com esmero no resgate dos cenários da época e em  sequências antológicas em Las Vegas, onde  Elvis passou a se  apresentar em shows nos cassinos  final  já no estágio final de sua carreira. O filme é de certa forma lento, tenta mostrar um Elvis ingênuo, mas a história do rei do rock é de certa forma roubada pela força do seu antagonista o coronel Parker, numa excelente interpretação de Tom Hanks, experiente ganhador de dois Óscares em Forrest Gump e Philadelphia,  que deverá ser indicado para a disputa do troféu pela sexta vez

A atuação Austin Butler é convincente  e pode também leva-lo à disputa do Óscar em 2023, sendo reforçada pela  trilha sonora estruturada por Elliott Wheeller, que além de incluir sucesso do próprio  Elvis, teve ainda de lambuja a participação de artistas como Doja Cat, Måneskin, Eminem e CeeLo Green. A lição que fica é que apesar da sua morte física, Elvis não morreu. Ele revive nas telas do cinema e até em teorias conspiratórias tão em voga nestes tempos de fake News. Há quem diga que ele teria sumido da vida pública por diversos motivos, o que poderia ser tema de outro filme ou quem sabe, de até um romance, pois se o Rei está morto, Viva ao Rei!(Kleber Torres)

domingo, 19 de junho de 2022

As diversas faces virtuais no crime ponto com



 

Construído no formato de documentário com seis episódios exibidos inicialmente em 2019 e depois reprisados posteriormente através do canal Investigação Discovery (ID), a série Crime.com,  revela para o espectador golpes e crimes digitais inimagináveis que aconteceram na internet brasileira, com repercussão e desdobramentos inclusive em outros países. Cada caso é complementado com depoimentos de pessoas envolvidas em cada um dos casos apresentados.

Cada episódio, com 45  minutos de duração  em média, envolve três casos diferentes, narrados pelo ator e locutor Luiz Guilherme Deliberador Favati, o qual explica didaticamente aspectos fundamentais dos crimes cometidos com a ajuda dos recursos e das tecnologias digitais, mas com impacto na vida real das vítimas. Uma preocupação evidenciada no projeto está em revelar  como pensam e atuam os na prática  os autores de fraudes digitais seja através de píshing, uma técnica de engenharia social usada para enganar as vítimas e obter informações pessoais sobre as mesmas, com acesso a informações sobre senhas, arquivos pessoais, cartões de crédito utilizados e depósitos bancários, ou mesmo de outras modalidades operacionais.

 "Crimes.com" tem também como proposta evidenciar a  vulnerabilidade das pessoas ou de empresas   aos golpes virtuais através do acesso à rede mundial de computadores ou mesmo por telefone. Tudo isto é facilitado pela crescente  exposição individual através às muitas plataformas digitais, as quais sempre são monitoradas por criminosos com acesso ao crescente uso de aplicativos  usados largamente nos dias de hoje para diversas finalidades.

De forma complementar,  série inclui ainda depoimentos de personagens envolvidos nos casos, como delegados, investigadores, advogados, técnicos, consultores e vítimas que aparecem em cada história, em que são apresentadas as reencenações dos crimes e fraudes. Estes ingredientes conferem maior dramaticidade e veracidade à série, que deveria ser ampliada no futuro, porque as modalidades de crimes se multiplicam e se desdobram em inovações como, por exemplo, o surgimento de quadrilhas especializadas no roubo através de transferências de recursos pelo pix ou oferecendo lucros mirabolantes através da operação com criptomoedas.

Uma das histórias da série teve como referência a atuação de um dos maiores hackers do Brasil, que se apresenta como Daniel Nascimento e foi cooptado por um outro operador identificado como Fênix, o qual usava carros de luxo e evidenciava um elevado padrão de vida. Os dois invadiam computadores através do sistema de pishing e ganhavam dinheiro para si e para clientes beneficiados pelas fraudes. O caso foi investigado pela Polícia Federal que acabou chegando aos operadores do golpe e hoje, o jovem hacker teria abandonado as atividades criminosas,  passando a operar do outro lado do balcão. Agora, atua no mercado como consultor na área de cibersegurança.

O segundo caso mostrado pelo Investigação Discovery foi uma fraude contra uma empresa produtora de aplicativos, que tinha seus produtos copiados integralmente por uma concorrente e lançado antes da desenvolvedora, com mudanças apenas nas cores dos apps. O caso também foi investigado pela polícia, consultores e advogados da empresa, que começaram apurando as formas possíveis de vazamentos das informações que deveriam ser sigilosas.

Os policiais começaram primeiramente  a monitorar os equipamentos da empresa  e as rotinas dos servidores, os quais foram submetidos a perícia. Gustavo Batistuzzo conta que as pistas apontavam inicialmente para o diretor de tecnologia de informação da empresa, Sérgio Andrade, e, assim, foi solicitado em paralelo um mandado de busca e apreensão nos computadores e telefones dos trabalhadores da empresa.

Resultado: foi descoberto que todos os sócios da suposta empresa concorrente, que teve a venda dos softwares piratas suspensos pela Justiça, eram empregados da empresa lesada nos seus direitos autorais e  de propriedade tecnológica.

O terceiro caso começa com um suposto sequestro de um homem, que em seguida corre sozinho numa rua com ferimentos na testa e hematomas no corpo. Ele cai no passeio e é socorrido desmaiado. A vítima é nada menos que um empresário bem sucedido, que comandava um Clube de Empreendedorismo, especializado em investir no mercado de apostas esportivas no mercado internacional e que funcionava em realidade como uma pirâmide financeira.

A policia apurou que o golpe movimentou mais de R$  200 milhões. Uma das vitimas tinha R$ 77 mil aplicados  na conta de gerenciamento do saldo digital de investimento, um capital que era monitorado através de um aplicativo que registrava os ganhos diários na operação. Posteriormente, ela   foi notificada que devido a problemas virtuais e operacionais os saques seriam suspensos por um período de 40 dias.

O empresário de sucesso e que vivia um elevado padrão de vida marcado pela ostentação, com carros de luxo e    viagens internacionais, acalmou os investidores em lives nas redes sociais, fazendo o que a policia considerou uma espécie de jogo de cena,  através de golpes estimulados pela ilusão e pela esperteza. Nas investigações também ficou constatada a inexistência na bolsa de Londres de qualquer cadastro da Chutehold, a sua empresa, que tinha sua base teórica na Inglaterra.

O delegado da PF, identificado como Fernando Pires Branco, considero que a Chutehold foi estruturalmente o projeto de uma pirâmidade que começou a ruir e que era mantido por informações de  clientes nas redes sociais, um dos quais contando que em três meses de operação ganhou R$ 400 mil. O delegado também considera que o sistema era mantido artificialmente através de muita ostentação e  de uma vasta rede de contatos conseguidos pelo fraudador cujo aplicativo sumiu juntamente com a plataforma após a divulgação do golpe.

Em tempo: o golpista teve o nome incluído na lista vermelha da Interpol, que o tornou procurado em todo o mundo, mas acabou localizado em Dubai levando uma vida de milionário. Alias Dubai é também, por coincidência, o mesmo destino de um itabunense que aplicou um golpe financeiro também de R$ 200 milhões pelo poderoso sistema de pirâmidade em clientes incautos da  Bahia, Amapá, Pernambuco, Paraíba, Sergipe, Minas Gerais e São Paulo, que deveriam saber, pelo menos teoricamente, que dinheiro não dá em árvores e nem rende por um simples lance de mágica, mas quando um trouxa nasce, dizem, o sabido bate palmas.(Kleber Torres)

domingo, 29 de maio de 2022

Uma transição radical do terror até a pornochanchada


                              

 

José Mojica Marins não foi apenas o pai do terror no Brasil, que nos legou Zé do Caixão, o Joe Coffin, como é cultuado pelos seus admiradores nos Estados Unidos,  além de obras como  À Meia Noite  Levarei Sua Alma, Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, O Estranho Mundo de Zé do Caixão e Finis Hominis. entre outros filmes. Ele também  incursionou com sua criatividade e recursos limitadores  no faroeste, dramas, aventura e até no gênero da pornochanchada em A Virgem e o Machão, assinado com o pseudônimo de J,Avelar.

 

O roteiro de Georgina Duarte nos remete a dois médicos que chegam em uma pequena cidade para trabalhar num hospital do interior. Um deles, o machão (Aurélio Tomassini) começa por seduzir a bela camareira do hotel em que se hospedou. Ele também aceita o desafio e suscita apostas milionárias para conquistar e  acabar com a frigidez da prostituta mais famosa da cidade e que estava na casa da madame  Lola (Zélia Hofmann), a bela Maria Sorvete (Nadir Fernandes), que atraia com seu charme gelado aos clientes e indiferente a tudo, chupava picolés no palito (numa metáfora ao sexo oral) durante os seus encontros amorosos.

 

As atividades do  machão, que conseguiu acabar a frigidez de Maria Sorvete tomando ao lado dela sorvete de caixinha, resulta no desaparecimento da prostituta, que deixa a cidade envergonhada. A sequência, também metaforicamente sugestiva do encontro, termina com o picolé de coco da prostituta derretendo na cômoda e gotejando leitoso no chão do quarto, num presumível orgasmo.

 

Já o médico e machão também conquista a atenção das mulheres casadas  da elite da cidade, que resolvem se vingar das traições dos maridos pagando com  a mesma moeda e ao mesmo tempo também atrai as atenções de uma virgem  (Esperança Villanueva), com quem tem um caso, mas ao se recusar a tê-la como esposa num casamento formal, desperta  uma trama que vai desmascará-lo na comunidade.

 

A virgem arma, com o macaco  Tião, que também é personagem do filme, lê jornais e é cheio de esperteza, uma vingança contra o machão visando expor as suas conquistas. O filme marcou a estreia de José Mojica Marins na pornochanchada e foi uma forma do cineasta criativo driblar os rigores da censura, com humor e questionando os valores da sociedade, inclusive com relação à fidelidade conjugal e até mostrando a face atual do empoderamento feminino.(Kleber Torres)

Ficha técnica :

 

Título : A Virgem e o Machão

Diretor : J.Avelar (José Mojica Marins:

Roteiro: Georgina Duarte

 

Elenco : Aurélio Tomassini, Esperança Villanueva, Alex Delamote, Chaguinha, Geraldo Decourt,  Gracinda Fernandes, Lisa Negri, M. Augusto Cervantes, Nadir Fernandes,Rosalvo Caçador, Zélia Hofmann, Vosmarline Siqueira e Toni  Cardi

 

Cinematografista : Eliseo Fernandes

 

Gênero : Pornochanchada

 

Ano : 1974

 

90 minutos

 

Colorido

 

 


domingo, 22 de maio de 2022

Cibersegurança uma questão que afeta governos, empresas e a própria cidadania


 

 

Preso numa cadeia de segurança dos Estados Unidos, onde cumpria pena  por cometer crimes virtuais, o hacker Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth)  é retirado da prisão para identificar e localizar um ciberterrorista que roubou seu código e, depois de invadir um sistema de segurança digital, provocou um desastre nuclear na usina de Xiuan, na China. A ação criminosa resultou em sequência  numa série de eventos, inclusive ataques a sistemas bancários,  que impactaram o mercado global de ações, mobilizando os serviços de informação das duas maiores potências mundiais.

O enredo  associa a ação do hacker colaborando com agentes de segurança americanos e chineses para investigar inclusive outros crimes cibernéticos com ampla repercussão de  Chicago a Los Angeles ou de  Hong Kong a Jacarta. À medida que as investigações avançam Hathaway descobre juntamente com Chen Line (Teng Wei) e Carol Barret (Viola Davis) que  as apostas se tornam pessoais e  o ataque a uma usina nuclear chinesa foi apenas o começo de uma série de ações criminosas, que incluiriam o projeto para rompimento de diques visando probocar inundações na Malásia, causando em contrapartida a escasses de estanho no mercado mundial.

O thriller de ação foi dirigido pelo experiente Michael Mann, considerado um dis cineastas americanos mais inovadores da sua geração e que tem a seu crédito filmes como Fogo contra Fogo (1995), O Informante (1999),  Colateral(2004), Miami Vice(2006) e Inimigos Públicos (2009), a partir de um roteiro instigante de Morgan Davis Foehl sobre uma questão que preocupa governos, empresas e os cidadãos: a cibersegurança. O filme rodado em 2015, recebeu o elogio de críticos e  espectadores, mas não rendeu o esperado, custou US$ 70 milhões e rendeu apenas US$ 20 milhões.(Agência Brasil)

 

Ficha técnica:

 

Título : Blackhat (Hacker)

Diretor : Michael Mann

Roteiro : Morgan Davis Foehl

Elenco : Chris Hemsworth, Teng Wei, Viola Davis, Ritchie Coster, Holt McCallang, John Ortiz, Yorick van Wageninger, Wang Leehom

Cinematografista – Stuart Drayburgh

Música : Harry Gregson-Williams, Atticus Ross e Leopold Ross

Gênero : Drama

2015


quinta-feira, 21 de abril de 2022

Os bastidores de uma tragédia com pessoas de classe média

 



 

Escrito e dirigido a quatro mãos por Rainer Waerner Fassbinder e Michel Fengler, o filme Por que Deu a Louca no Senhor R ? (Warun lauft herr R – Amok)  narra numa estética essencialmente fassibinderiana uma tragédia do nosso tempo. O caso de  um pacato trabalhador que acaba matando a mulher, o filho, uma visita e depois pratica suicídio, revelando os bastidores de uma tragédia existencial e que não pode ser evitada.

O filme conta a história de  um desenhista de classe média que vive uma vida monótona dividindo o seu tempo entre as preocupações com um trabalho repetitivo e um casamento marcado por um relacionamento distante, sem afeto, vivido por uma completa solidão a dois. A narrativa é montada por uma série de pistas que se desdobram: mostram o casal reunido com amigos, fumando, jogando conversa fora sobre fatos do cotidiano, bebendo ou indo a reuniões da escola onde o único filho é vítima de bullying.

Kurt Raab (senhor R) , com um excelente desempenho, representa o papel um homem tímido e que quase nunca participa dos diálogos com os amigos da família ou no trabalho e, como um personagem invisível, é tolhido até quando depois de beber com os colegas de trabalho, tenta expor suas opiniões ao seu chefe (Franz Maron), que ouve com enfado e a contragosto parte do discurso do bêbado, se retirando logo depois sem nenhuma discrição deixando R. falando de forma desconexa para a mulher irritada com a indiscreção do marido e mais uns dois colegas que ficaram no restaurante.

Além de mostrar a invisibilidade de R., o filme descreve as relações de um  casal vivendo de aparências até que  numa noite acontece o que não estava previsto pela lógica, e, depois de matar a mulher, o filho e uma visitante, a golpes de um candelabro, ele vai para o trabalho e faz a opção para evitar a prisão antes da chagada da polícia, que encontra o seu corpo no sanitário da empresa.

Os policiais também constatam que embora trabalhasse no escritório há algum tempo, ali ninguém conhecia bem o senhor R., cuja morte por certo se integrou às estatísticas de suicídio e fatalmente será esquecida, ficando o incidente registrado apenas nos anais das páginas policiais dos jornais e se fosse nos dias hodiernos, gravado na memória de uma unidade central de informações com fotos e dados relativos ao trágico incidente.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica

Título : Warun lauft herr R – Amok /Por que deu a louca no senhor R.

Diretor  e  Roteiro : Rainer Werner Fassbind e Michel Fenglee

Elenco :  Kurt Raab, Lilith Ungerer, Amadeus Fengler, Franz Maron, Hanna Schyggulla, Christian Anders e Irm Hermann

Cinematografista : Dietrich Lohmann

Musica : Peer Raben

Duração : 90 minutos

Ano – 1970