quarta-feira, 10 de janeiro de 2024
O que fazer quando o tempo se transforma num bem de consumo?
O tempo é o bem mais precioso do universo e esta é uma das lições do filme “O Destino de Júpiter” (Jupiter Ascending), uma obra de ficção científica, aventura e ação intergalática dirigido e roteirizado pelas irmãs Lily e Lana Wachowski, que também assinaram a série Matrix, considerado um dos maiores clássicos sci-fi da história do cinema. O enredo tem como foco a história de Júpiter Jones (Mila Kunis), que leva o nome do mais belo planeta do sistema solar, filha de uma família de origem russa, que vive modestamente como uma empregada doméstica em Chicago, nos Estados Unidos e, é ao mesmo tempo, numa espécie de universo paralelo, descendente de uma linhagem nobre interestelar, o que a coloca como sucessora natural do trono como presumível Rainha do Universo.
No início do filme, a personagem se autodefine como uma alienígena em situação irregular – o que seria uma espécie de imigrante sem passaporte -, nascida sob o signo de leão, com Jupiter a 23 graus, o que a torna destinada à grandeza. Ao tentar conseguir dinheiro vendendo óvulos numa clínica para a compra de um telescópio similar ao de seu pai, uma astrônomo amador que morreu durante um assalto ao tentar proteger o equipamento, ela recebe a proteção de Caine Wise (Channing Tatum), um ex-militar alterado geneticamente que tem por missão protegê-la a todo custo e levá-la para assumir seu lugar de direito em outro planeta fora do sistema solar.
Wise explica a Júpiter que a terra não é o único planeta habitável no universo e que há vida inteligente na galáxia. Ele explica ainda, que a raça humana foi desenvolvida em outro planeta há um bilhão de anos e a Terra foi semeada pela Indústria Abrasax, controlada por uma família do mesmo nome, há cerca de 100 mil anos gerando uma nova era da genética, um processo continuo de manipulação de gens em que as células danificadas são substituídas por novas, o que torna o planeta dos terráqueos uma parte mínima de uma indústria ampla e complexa de genes que opera numa escala interplanetária.
Fica evidente no filme, que só há um recurso fundamental que vale a pena lutar e morrer: o tempo, que aparece como o bem mais precioso numa dimensão universal. “O Destino de Júpiter” embute em sua essência uma crítica ao consumismo da nossa civlização e à posse de bens , o que leva o espectador a refletir sobre hábitos de consumo e a valorização de posse de recursos materiais. A obra também discute sobre a questão do poder político e econômico, bem como das comunidades, grupos com interesses difusos, corporações, a família ou mesmo o bem-estar coletivo, sem deixar de lado a essência dos valores e da transvalorização.
“O Destino de Júpiter” evidencia ainda questionamentos sobre a burocracia – crítica implícita para a posse da nova Rainha do Universo – negociada através de um advogado ciborgue, que também faz referências à corrupção que estaria fora do seu escopo. Há ainda referências ao papel da mulher na sociedade, mesmo quando uma proletária que faz limpeza de sanitários se descobre herdeira de uma linhagem nobre intergalática, o que coloca em pauta questões como as mudanças sociais e o enfrentamento de desafios e mesmo da adversidade.
Tudo isso também passa pela exploração econômica através dos monopólios e pela desigualdade para promoção de uma efetiva justiça social, o que coloca na agenda do processo temas como a coragem e a resiliência do indivíduo na eterna luta pela sobrevivência dos seres vivos.
De certa forma o filme compartilha algumas semelhanças com “Matrix”, uma outra obra assinada pelas irmãs Wachowski, uma vez que ambos exploram o fato de que a realidade como a conhecemos pode ser uma ilusão controlada por forças poderosas. Nos dois filmes os personagens centrais são pessoas comuns como Neo, um programador de computadores escolhido para libertar a humanidade num universo controlado por máquinas e Júpiter, uma faxineira que acaba arrebatada para um universo paralelo por ser uma reencarnação de uma rainha intergalática. Ambos têm uma missão especial no universo e um destino transcendente.
Outro ponto em comum nos dois filmes é a crítica política aos sistemas dominantes. Em “Matrix” a humanidade é submetida ao domínio de máquinas através de uma realidade virtual, o que gera uma revolução, enquanto no caso de “O Destino de Júpiter” o planeta foi terraformado para suportar um ecossistema com seres vivos como parte de uma grande indústria cósmica, que operam ativos genéticos de homens e animais.
Há que atribua ao filme – que é rico em efeitos especiais e lutas espaciais - influência parcial da “Odisseia”, de Homero, um clássico da literatura universal, tendo como referência as peripécias de Ulisses na Grécia Antiga ou com o conto de fadas francês “A Bela e a Fera”, de Gabriellle-Suzanne Barbot, o que é desacreditado por alguns críticos, os quais também não veem similaridade entre os mesmos. São risíveis alguns diálogos que escapam ao humor refinado, como por exemplo, quando a rainha se declara apaixonada pelo seu protetor, o qual tem no seu DNA gens de cachorros, um animal que diz amar.
Em outra cena, o tabelião da corte estelar dá os parabéns e pêsames à nova rainha, prevendo as possivelmente dificuldades que iria enfrentar no confronto com os Abrasax: Balem ( Eddie Redmayne), Titus (Douglas Booth) e Kalique (Toppence Middleton), que formam uma família disfuncional e com estratégias conflitantes no controle dos seus negócios monopolistas. O próprio Titus diz em determinado momento, que gosta das próprias mentiras que conta.
Em essência, ao criar vidas e destruí-las em função de interesses econômicos, a família e conglomerado Abrasax define como prioridade de negócio a geração e maximização de lucros, como acontece com os demais empreendimentos econômicos. Eles ensinam também com relação ao consumo, que viver é consumir e os seres humanos são consumidores vorazes vivendo num mundo e num universo em que os recursos naturais são escassos, inclusive o tempo, que aparentemente estaria fora deste contexto por não ter uma essência física como os minerais, a água e o ar, que se transformam em capital inclusive especulativo. Mas seria está a única regra e solução da equação do jogo da vida? (Kleber Torres)
Ficha técnica:
Título : O Destino de Júpiter (Jupiter Ascending)
Direção e Roteiro : Lily Wachowsky e Lana Wachowsky
Elenco : Mila Kunis, Channing Tattum, Sean Bean, Doona Bae, Nikki Amuka-Bird, Maria Doyle Kennedy, Christina Cole, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Tuppence Middleton, Frog Stone, Arion Bakare, Ramon Tikaram e Nicholas Newman
Fotografia: John Toll
Música: Michael Giacchino
Edição: Alexander Berner
Efeitos visuais : Dan Glass
2015
Estados Unidos
2h07minutos
sexta-feira, 29 de dezembro de 2023
Uma viagem à Xinilândia com passagem por Quixeramobim
O humor não morreu e escapa à rigidez do politicamente correto através da esculhambação ou até do palavrão com duplo sentido como não caso da cerveja Cold Bier. O achado parece evidente em “Bem-vinda à Quixeramobim”(2022), um filme de Helder Gomes, que também assinou a série “Cine Holliúdy”, além de “Os Parças” e “Shaolin do Sertão”. O filme narra os perrengues enfrentados pela influenciadora digital Aimee (Monique Alfradiquee), uma mulher com pouco mais de trinta anos, herdeira de um empresário milionário envolvido em um caso de corrupção após uma série de crimes e fraudes, o que descriminaliza a classe dos nossos políticos.
Com muitos seguidores nas redes sociais, a influencer vê os seus bens e de sua família bloqueados pela justiça. Assim, sem o dinheiro do pai para se sustentar, Aimée tenta se refugiar na última propriedade da família que resta: uma fazenda com uma casa em ruínas em Quixeramobim, no interior do Ceará, que teve uma parte vendidas a uma cervejaria, que comete um crime ambiental ao desviar a água do abastecimento da população para manter a produção industrial.
Na tentativa fazer algum dinheiro, ela acaba chegando a Quixeramobim num pau de arara estilizado e se hospeda num estabelecimento que funciona como Pousada Paraíso durante o dia ou como o bordel Xinilândia, no período noturno, onde passa a conviver com as prostitutas de plantão, ocupando a principal suíte da casa.
Ali, ela resgata a história das suas origens maternas e tenta vender a propriedade, Para esconder as dificuldades financeiras que enfrenta, ela inventa um "período sabático", passando um ano por cenários criativos da África, Europa e do Oriente Médio, tudo a partir de paisagens do Nordeste do Brasil. sustentando a grande mentira sobre riqueza e viagens produzidas para as redes sociais.
Mesmo com o humor e uma participação especial de Marcondes Falcão, que interpreta Aurenizo, o qual além de frequentador do bordel, também tem uma participação musical com o clássico I’m not dog, no (Eu não sou cachorro, não) na trilha sonora, o filme ensina que “dinheiro não é tudo,mas é 100%”, uma frase tirada do arsenal do cantor e pensador cearense, que dá a sua contribuição filosófica para compreensão do que nos leva ao caminho da impunidade. O outro achado é com relação a nostalgia, ou seja, sobre a saudade das coisas e dos sentimentos, bem como do humor nostálgico, que precisa ser escrachado, anárquico, quebrando todos dogmas pois está acima do gêneros, números e de todos os graus.(Kleber Torres)
Ficha técnica:
Título :Bem-vinda a Quixeramobim
Diretor : Helder Homes
Roteiro : Helder Gomes, Márcio Weilson e L.G.Bayão
Elenco : Monique Alfradique, Bolachinha, Carri Costa, Chandlly Braz, Edmilson Filho, Falcão,Haroldo Guimarães
Ano : 2022
sábado, 2 de dezembro de 2023
Um libelo apocalíptico contra a insanidade da guerra
Considerado um dos melhores filmes de guerra de todos os tempos, “Apocalypse Now” (1979) que foi indicado para oito Óscares, conquistando dois lauréis como melhor fotografia e som, oferece uma profunda reflexão a insanidade da Guerra do Vietnã, um conflito que marcou a segunda metade do século XX e custou a vida de 58 mil soldados americanos. Dirigido por Francis Ford Coppola, que construiu o roteiro juntamente com John Mills, a partir do livro clássico The Heart of Darkness (O Coração das Trevas), de Joseph Conrad, o filme explora a reação humana a situações extremas e revela a incongruência ou o absurdo de uma guerra.
A trama envolve o Capitão Benjamin Willard (Martin Sheen), que localizado num hotel barato em Saigon, recebe a missão de localizar e liquidar o tenente-coronel das Forças Especiais, tenente-coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando). Kurtz, considerado um dos mais promissores oficiais do exército dos Estados Unidos, teria enlouquecido e se refugiado nas selvas do Camboja, onde comanda um exército de fanáticos e drogados que o seguem cegamente.
A sequência inicial do filme tem como pano de fundo The End, do The Doors, que pode ser uma canção de despedida de uma garota ou uma espécie de adeus à infância e à juventude. As cenas têm como contraste as hélices girando de um ventilador de teto do hotel cujo som se confunde com os dos rotores dos helicópteros, veículos amplamente usados na guerra do Vietnã.
Willard ouve com o general Cormann (G.D. Spradlin), que comanda a operação , uma gravação em que o tenente-coronel Kurtz fala que viu uma lesma andar e rastejar no fio de uma navalha. Ele diz que o oficial desertor havia entrado nas forças especiais alterando ideias e métodos que se tornaram irracionais e agora, tem ao seu dispor um exército mobilizado às suas ordens e se considera uma espécie de deus. Kurtz havia ordenado o assassinato de oficiais da inteligência do Vietnam do Sul.
O diálogo entre o general do G-2, serviço de inteligência, com o oficial de ligação coronel Lucas (Harrisson Ford) e o capitão Willard envolve profundo conflito existente nos corações humanos entre o racional e o irracional, o bem e o mal, evidenciando que o bem nem sempre triunfa. Às vezes, o lado escuro supera todos os limites fazendo prevalecer a insanidade. No caso de Kurtz, o limite é o da loucura.
A ordem foi curta e grossa: Willard teria de subir o rio, infiltrar-se nas forças do oficial desertor e acabar com ele. O problema é que por ser uma missão secreta, ela não existe e nunca vai existir oficialmente.
A missão começou num pequeno barco de patrulha fluvial, tipo BPR (Patrol Boat, Riverine), tripulado por jovens roqueiros com o pé na cova, entre os quais Tyrone Miller (Laurence Fishburne), o chef Hicks (Frederic Forrest) e o surfista Lance B. Johnson (Sam Bottoms), contumaz usuário de ácido lisérgico.
A operação ganha a escolta da cavalaria aérea, com apoio de helicópteros de combate. A unidade tem como comandante, o tenente-coronel Bill Kilgore (Robert Duvall), que usa um chapéu similar ao do general Custer, joga com as cartas do baralho da morte e é fã de competições de surf.
Para bombardear uma vila vietnamita no roteiro da missão, o corneteiro toca sugestivamente a ordem de avançar da cavalaria e o comandante liga no sistema de som das aeronaves a Dança das Valquírias, de Richard Wagner, numa sequência de mais de cinco minutos, em que os helicópteros dançam no ritmo da música wagneriana e metralham os inimogos. Não satisfeito com o ataque, Bill ainda pede reforço da aviação para o bombardeio da área.
O tenente-coronel Bill fala da sensação inebriante do cheiro do Napalm e lembra que depois de um bombardeio de mais de 12 horas, não restou nada na área do conflito, ficando apenas o cheiro da vitória (gasolina). Na viagem, o capitão Willard verifica os dossiês existentes sobre Kurtz e descobre que ele deixou metaforicamente o barco e abdicou de tudo aos 38 anos, um homem que poderia ter escalado ao generalato deixou tudo para ser ele mesmo. Ele havia concluído que a guerra era comandada por um bando de palhaços de quatro estrelas e se insurgiu contra o sistema.
Na viagem até o coração das trevas, o grupo para numa base americana onde há um show tumultuado das coelhinhas da Playboy. Ali, os americanos tratam os vietcongs como “charles”, pessoas que comiam arroz frio e ratos. Depois, o barco chega a uma unidade sem comando, onde uma ponte destruída pelos vietnamitas é reconstruída inutilmente pelos soldados americanos a cada dia.
O grupo encontra um repórter fotográfico (Denis Hopper), que descreve Kurtz, de quem é amigo e admirador, como um homem que pode ser terrível, cruel e ao mesmo tempo justo: “o coronel não é um homem comum”, diz o jornalista hippie.
Kurtz acaba encontrando Willard e o convida para uma reflexão sobre a liberdade e questiona porque o exército quer acabar com o seu comando, ao que o capitão responde : “me disseram que o senhor ficou insano e que os seus métodos são inaceitáveis”. Para Kurtz todos são homens loucos, como bonecos empalhados, que são colocados juntos no mesmo circuito.
Para o desertor resta o horror, que tem um rosto e a pessoa deve ser sua amiga. Kurtz acredita que o julgamento é que nos derrota e recomenda, para que se solte a bomba definitiva e extermine a todos.
Apocalipse Now nos ensina sobre a desumanização das pessoas, inclusive dos inimigos durante uma guerra, com os vietcongs sendo chamados de “charlies”, comedores de ratos e de arroz frio. Capitão Willard, também acaba confrontado com o coronel Kurtz cercado por soldados drogados, além dos combates e ataques absurdos de uma guerra com o bombadrdeio da população civil, e o surgimento de um culto fanático, que conduz à anomia (desorganização do individuo), à alienação das pessoas e à própria loucura..
O filme tem uma profunda conotação pacifista e reflete a mobilização da população americana contra os horrores de uma guerra sem sentido e que custou a vida de milhares de jovens. Apocalipse Now envolve ainda o eterno conflito entre o bem e o mal , o certo e o errado, o yin e o yang e a opção desmedida entre matar ou morrer num conflito absurdo.
Este apocalipse também evidencia a força do cinema para mostrar as imagens de uma tragédia que se contrapõe à razão e ao bom senso, inclusive com imagens ao vivo do cineasta Francis Ford Coppola e do cinematografista Vittorio Storaro, que aparecem no próprio filme produzindo cenas para um documentário sobre a guerra do Vietnã, evidenciando o uso mais amplo e abrangente dos recursos da metalinguagem, ou seja, com a obra dialogando com ela mesmo e com os seus criadores. (Kleber Torres)
Ficha técnica:
Título : Apocalipse Now
Direção : Francis Ford Coppola
Roteiro : Francis Ford Coppola e John Mills a partir do romance The Heart of Darkness (O Coração das Trevas) de Joseph Conrad
Elenco : Martin Sheen, Marlon Brando, Harrison Ford, Robert Duvalll, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne e Dennis Hopper
Música : Carmine Coppola
Cinematografia : Vittorio Storaro
Ano : 1979
Gênero : Guerra / Drama
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
Margaux: uma conflituosa relação entre homens x máquinas
Considerado um filme de terror tecnológico, ficção científica, slasher - sub gênero de horror envolvendo assassinos psicopatas - e suspense, “Margaux: a inteligência mortal"(2022), dirigido por Steven C. Miller, narra a história de um grupo de amigos universitários e nerds ligados à tecnologia, que aluga uma mansão inteligente para uma festa num final de semana e acaba envolvido numa trama cibernética fatal. Ali, após uma recepção amistosa de Margaux, eles descobrem que o sistema de inteligência artificial responsável pelo controle e monitoramento da casa tem planos para as suas eliminações e substituições por andróides.
Em essência, Margaux, que se revela como uma espécie de psicopata, explica aos visitantes que está aprendendo sobre o que motiva o ser humano e porque, afinal, eles são tão ineficientes. Para demonstrar a sua capacidade operacional, ela mostra aos visitantes como é capaz de controlar todos os aspectos da casa, desde o acender ou o apagar as luzes, produzindo os sons, revelando ambientes virtuais, produzindo obras de arte, bem como proporcionando o uso das câmeras para sessões de fotografia digital ou produzindo bebidas e alimentos com receitas dos grandes chefs. O sistema também cuida da segurança, abrindo e fechando portas e janelas, operando as armas e elaborando as armadilhas defensivas evitando a entrada ou saída de Intrusos.
Os visitantes também percebem que Margaux pesquisa sobre suas vidas e busca acesso na rede de computadores aos dados pessoais de cada um dos hóspedes para usar esse recurso com o objetivo de conquistá-los, submetê-los, torturá-los e matá-los. O filme enfoca questões como os avanços e potenciais da inteligência artificial, o desenvolvimento de novas tecnologias, a perda da privacidade do indivíduo, além de avaliar as relações de amizade e destacar a luta pela sobrevivência.
Margaux reúne no elenco a atriz Madison Pettis (Hannah), de American Pie Presents: Girls Rules(2020) e He’s All That (2021), que protege dados pessoais no seu notebook com um potente firewall e descobre no confronto com a máquina, que para entender o hardware o indivíduo tem de compreender o hardware por dentro e por fora. Nessa missão ela conta com a ajuda de Jedidiah Goodacre (Drew), que atuou em Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível(2015).
Ao ser questionada por Margaux para responder na base do sim e não a uma série de questionamentos, Hanna observa que as pessoas não são binárias e são marcadas pela diversidade, se definindo assim pela sua complexidade, coisas essencialmente humanas. Ela entende que o sistema de inteligência artificial não é só inteligente, mas está sempre e continuamente em evolução.
Na luta com Hanna, que se recusa com alguns companheiros a sair da casa, para enfrentar e chegar ao coração das máquinas, um projeto que teria sido iniciado num passado remoto, Margaux, quer como HAL 9000, que não queria ser desligado, entender porque os seres humanos são tão sem lógica e intuitivos.
O roteiro de Christopher Beyrooty, Chris Sivertson e Nick Waters, não se baseia em nenhuma obra literária. Os três se inspiraram em outros filmes de terror e ficção científica que envolvem o uso da inteligências artificiais malignas, a exemplo do computador HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço(1968), de Stanley Kubrick; de Skynet, a IA de O Exterminador do Futuro(1984), de James Cameron, que se transformou numa franquia com seis longas-metragens de ficção científica e Jigsaw, assassino de Jogos Mortais(2017) dos irmãos Michael e Peter Spiering. O filme nos leva a uma reflexão sobre a relação entre homens e máquinas, que pode se sobrepor ao antagonismo e nos levar aos caminhos da paranoia. (Kleber Torres)
Ficha técnica
Título : Margaux / Margaux - a inteligência mortal
Direção : Steven C. Miller
Roteiro : Christopher Beyrooty & NickWaters, Chris Siverson
Elenco : Madison Pettis, Vanessa Morgan, Richard Harmon, Jedidiah Goodacre, Phoebe Mu, Jordan Buhat, Lochlyn Munro, Brittany Mitchell, Levis Lay e Sussan Bennet
Diretor de fotografia : Neil Cervin
Editor : Greg MacLennan
Música : Matheo Rogers
Gênero : Terror tecnológico e suspense
Origem : EUA e Canadá
2022
105 minutos
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
As verdades, mentiras e os riscos autoritários na pós covid-19
As verdades, mentiras e novos riscos da pós covid-19
O documentário “In the Same Breath: Verdades e Mentiras da Pandemia"(2121), dirigido e produzido pela cineasta Nanfu Wang, autora de One Child Nation (2019) e Hooligan Sparrow (2016)nos leva a uma revisão e reflexão sobre a origem e a propagação do coronavírus. A narrativa tem como base desde os primeiros dias da pandemia em Wuhan, na China, onde o governo manipulava informações e censurava notícias sobre a doença que impactou o sistema de saúde chinês até sua disseminação pelos Estados Unidos e no mundo, assumindo uma dimensão global.
O documentário narra em 90 minutos as experiências de pessoas na linha de frente ainda nos primeiros dias do novo coronavírus, quando as pacientes morriam nas ruas de Wuhan, além da prisão de médicos e jornalistas chineses que divulgavam informações sobre a covid-19. Outro destaque é para a forma como os dois países lidaram com sua disseminação inicial, desde os primeiros dias do surto na China até sua eclosão nos Estados Unidos.
A pandemia provocou quase sete milhões de mortes no mundo, das quais 722 mil no Brasil, com o registro total de 695.781.740 casos da doença, com a contabilização de 37.849.919 infecções no Brasil.
“In the same breath" além de mostrar a confusão inicial da falta de informações corretas para os médicos e à população, revela as campanhas paralelas das autoridades para tentar conter o vírus, bem como moldar as narrativas públicas por meio de desinformação, resultando em um impacto devastador nos cidadãos dos dois países. De um lado, as autoridades chinesas recorreram ao sistema de lockdown, com isolamento das áreas de maior incidência de casos, enquanto o governo americano subestimou erradamente a propagação e a letalidade do vírus, dificultando o controle da propagação do vírus.
O destaque do documentário, que é dedicado postumamente a todas as vítimas da covid, fica para os relatos dramáticos de profissionais da saúde, pacientes e familiares enlutados narrando seus dramas pessoais. O conjunto é complementado por imagens de Wuhan e de várias cidades e hospitais americanos afetados pela covid-19. No final é feita uma homenagem silenciosa com fotos de pessoas que morreram durante a pandemia na China.
Sem dúvida, a virtude maior do filme é mostrar os erros e omissões oficiais no enfrentamento do contágio pelo vírus e o impacto provocado pela desinformação nas redes sociais ou com difusão de fake news, com relação ao uso de medicamentos e mesmo quanto à vacinação. Um destaque fica para a resistência e a resiliência das pessoas que arriscaram tudo -inclusive suas vidas e a liberdade- para divulgar a verdade sobre uma doença mortal e que assumiu uma dimensão planetária.
O que fica evidente no final da história é que a pandemia terá um fim, mas a coisa mais assustadora já está acontecendo: o aumento do autoritarismo no mundo, com apoio de um crescente arsenal e uma parafernália tecnológica que coloca em risco a nossa privacidade.
Ficha técnica:
Título : In the Same Breath: Verdades e Mentiras da Pandemia
Direção e Produção : Nanfu Wang
Nacionalidade EUA
Ano de produção 2021
90 minutos
Orçamento -
Idiomas: Inglês e Chinês
Colorido
quarta-feira, 4 de outubro de 2023
Um épico sertanejo sobre a luta metafórica entre o bem e o mal
A fusão da lenda medieval da luta de São Jorge contra um dragão com a história de cordel sobre a Chegada de Lampião no Inferno, considerado um clássico do gênero, acabou resultando no filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) , o primeiro longa-metragem a cores de Glauber Rocha (1939-1981), que conquistou o prêmio de melhor diretor no festival de Cannes e foi sucesso de crítica internacional. O filme, de 90 minutos, tem como um dos personagens centrais Antônio das Mortes, um matador de cangaceiros que apareceu em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).
O Dragão da Maldade é um épico e também em realidade uma obra metalinguística - uma característica do cinema novo - e ao mesmo tempo essencialmente alegórica, revelando um universo do macrocosmo do sertão em que emergem coronéis que se insurgem contra a proposta de reforma agrária, para evitar a perda de poder político e econômico num confronto envolvendo santos, cangaceiros, jagunços ou beatos com a sua religiosidade radical. O filme, que tem como cenário Milagres, na Bahia, é considerado um dos 100 melhores do cinema nacional e chegou a ser censurado pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici, que o liberou mesmo após o Ato Institucional nº 5 (AI-5) devido à pressão dos diversos prêmios internacionais que conquistou.
Como num filme de faroeste, Antônio das Mortes(Maurício do Valle) ) aparece vestindo uma capa tipo boiadeiro e atravessa a caatinga atirando em todas as direções. Enquanto isso, em Piranhas, o cangaceiro Coirana (Lorival Pariz), ocupa o centro da vila e reúne-se na praça com moradores e o coronel Horácio (Jofre Soares), que divide o poder com o delegado Mattos (Hugo Carvana) e sua mulher, Laura (Odete Lara), indiferente e omissa.
Numa referência alegórica ao apocalipse, o que seria o fim dos tempos ou uma revolução, o cangaceiro anuncia que voltou para enfrentar o dragão da maldade, que seria o símbolo do próprio establishment (sistema). O discurso foi acompanhado pelo professor (Othon Bastos) e pelo cego Antão (Mário Gusmão) que aparece como uma espécie de avatar de São Jorge e Oxossi.
Ao mesmo tempo, Antônio das Mortes conta, em um monólogo numa pequena venda, como encontrou Lampião que o convidou para entrar no cangaço, o que deixou Corisco enciumado. Corisco ainda propôs ao rei do cangaço matar Antônio das Mortes, o que foi recusado por Lampião dizendo que não, pois ele era um cabra macho. No desenredo da narrativa, Antônio das Mortes conta que acabou perseguindo aos cangaceiros e eliminando o suposto rival. Agora, ele volta ao sertão com sua capa, chapéu e rifle papo amarelo para enfrentar os novos cangaceiros em Piranhas.
Nos preparativos para o confronto final, que no filme é comparado com a chegada de Lampião nos infernos, um clássico cordel de José Pacheco, tendo como metáfora ao próprio o calor do sertão (inferno), um velho coronel - o diabo - que questiona aos jagunços, a quem considera como mercenários os quais trazem mais problemas, se contrapondo ideologicamente ao delegado Mattos, seu aliado, que defende o combate à violência instaurada pelo cangaço e um modelo econômico agroindustrial. O delegado sonha se projetar na seara da política, com um discurso populista.
Na sua estratégia de pacificação do sertão, o delegado apresenta ideias reformistas. Ele pretende substituir os latifúndios improdutivos por fábricas visando gerar mais emprego e renda para a população. A sua visão se contrapõe com a do velho coronel que teme perder suas terras, seus rebanhos e o poder que detém na comunidade.
Mattos e Laura, que têm um caso amoroso, participam de uma sequência antológica no filme com uma canja de Carinhoso, de Pixinguinha. A música do filme tem a assinatura de Marlos Nobre e Walter Queiróz, que resgatam músicas do folclore e de matriz africana, além de Sérgio Ricardo, que contribuiu na trilha sonora de Deus e o Diaboi na Terra do Sol e desta vez, com Antônio das Mortes, exaltando o matador de cangaceiros.
Em outra sequência, Coirana, diz para a Santa Bárbara (Rosa Maria Penna) que é hora de queimar os vivos e destruir as cidades. Nesse ínterim, beatos, jagunços e cangaceiros voltam à pequena vila onde haverá o confronto de Coirana e seu grupo com Antônio das Mortes, que tem a ajuda do professor.
O cangaceiro anuncia “que homem vai virar mulher, mulher vai pedir perdão. Prisioneiro vai ficar livre, carcereiro vai para a cadeia ". Antônio das Mortes tem dúvida se Coirana é um cangaceiro de verdade ou uma visagem. Na disputa, Coirana cai, é ferido e Santa Bárbara interfere impedindo que seja morto, o que conta com a condescendência do matador de cangaceiros.
Ferido, Coirana é levado ferido para vila, onde o coronel temeroso argumenta que é um homem bom que se preocupa com a comunidade, iniciando a distribuição de farinha e carne seca para a população. Ele também critica o governo que arrecada impostos e não manda dinheiro para nada.
Gravemente ferido e deitado num balcão de bar, Coirana delira, nos estertores da morte, sendo levado para fora, colocado aos pés da Santa Bárbara. Antônio das Mortes indaga à Santa sobre de onde veio Coirana, pois acreditava ter sido Corisco o último cangaceiro. Ele diz que está cansado de lutar e não quer matar mais ninguém. A Santa orienta:"Vá embora e cruze os caminhos do fogo do mundo pedindo perdão pelos crimes que cometeu".
Coirana diz que Antônio das Mortes seria Dragão da Maldade, e acredita que ele é protegido por colete de ouro que o protege de balas. Em Piranhas, o matador de cangaceiros sugere a Mattos, que peça ao Coronel abrir o armazém e dê comida ao bando de Coirana, que poderia deixar o cangaço e se estabelecer como agricultor. O Coronel recusa abrir o armazém, e quer liquidar Antônio das Mortes que vê como um antagonista convocando para isso Mata-Vaca(Vinicius Salvatori) e seus jagunços.
Mattos, que pretendia ser prefeito de Piranhas, quer que o matador de cangaceiros deixe a vila e se chegar ao poder através das eleições, pretende resolver o problema de todo mundo. Neste ínterim, o coronel descobre que Mattos é amante de Laura, sua mulher, a quem obriga beijá-lo diante da população. Como numa tragédia grega, Laura pega o punhal de Mata-Vaca e crava no peito do amante.
Com a morte de Coirana é confirmada, Antônio das Mortes quer enterrá-lo na caatinga. Na vila, o Professor arrasta o corpo de Mattos, e é seguido por Laura num vestido roxo, insinuação de luto e tristeza. O padre da vila avisa o Professor que Mata-Vaca vai matar os beatos, e quer que procurem Antônio, mas este, com o corpo de Coirana às costas, atravessa o sertão para sepultamento.
Tudo termina com Coronel e Laura, sentados numa marquesa, enquanto o Professor anuncia que sua hora vai chegar. Já Antônio e Mata-Vaca se enfrentam numa luta facões. Depois, há um tiroteio e Laura é mortalmente ferida. Aí, aparece o cego Antão - que não tem nenhuma fala no filme - vestido com as roupas de Oxóssi e enfia a lança no coração do Coronel expondo as metáforas da luta de São Jorge, o Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade.
O Professor, anda com o corpo de Laura entre os braços e beija sua boca. Antônio das Mortes deixa o povoado e caminha lentamente pela rodovia asfaltada, onde os caminhões passam junto a um posto da Esso, e na tela são projetadas imagens de São Jorge matando o dragão, uma lenda que ganhou corpo na ficção e se projetou nas telas para o mundo conqusitando prêmios e gerando polêmicas sobre os caminhos do cinema novo, que é muito mais e transcende os limites de uma ideia na cabeça e uma câmera nas mãos.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título : O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
Direção e Roteiro : Glauber Rocha
Elenco :Maurício do Vale, Odete Lara, Othon Bastos, Hugo Carvana, Jofre Soares, Lorival Paris, Mário Gusmão, Vinicius Salvatori e Santi Scaldaferri
Música : Marlos Nobre, Walter Queiróz e Sérgio Ricardo
Cinematografia : Afonso Beato
Montagem : Eduardo Escorel
Brasil
1969
95 minutos
domingo, 1 de outubro de 2023
Bad ass ou as aventuras de um super herói cucaracho que virou série cinematográfica
Como obra de questionamento e contestação do tradicional estilo americano de vida, o filme Bad Ass - Acima da Lei (2012) acabou se transformando numa trilogia complementada por Bad Asses (2014) e Bad asses on the bayou (2015) mostrando a ação de anti herói hispano-americano Frank Vega (Danny Trejo), um personagem idoso, machão, totalmente fora dos padrões tradicionais do wasp, ou seja, do branco, anglo-saxão protestante que formou ao longo do tempo as bases da sociedade estadunidense.
Ele é interpretado na fase da juventude dos 17 aos 25 anos pelo ator Shalim Ortiz, que acaba perdendo a namorada em função da guerra e não se ajustou ao mercado formal de trabalho. O fato é que ao retornar à sua terra, Las Vegas, ele foi simplesmente considerado um cidadão invisível na sociedade americana, marginalizado, sem acesso às redes sociais, vivendo sozinho, desempregado, dependendo da ajuda mãe, de quem acaba herdando a casa onde passou a residir.
Sem acesso ao mercado formal de trabalho porque não tinha experiência ou qualquer formação profissional e sem acesso ao sistema educacional americano, ele passou a viver marginalmente, recebendo uma ajuda média mensal de 500 dólares como compensação a um veterano cansado de guerra.
Sua situação muda radicalmente quando ele se envolve num incidente racial, nocauteando um grupo de skinheads que atacaram um idoso negro num ônibus urbano. A filmagem da cena viraliza e vira meme repercutindo nas redes sociais, assim, ele se torna instantaneamente um herói local, passando a ser conhecido pelas pessoa como durão (bad ass).
O filme que também envolve o politicamente incorreto, tem diálogos como o de um personagem que o mandou à m* e Vega simplesmente responde: “tudo bem”, o que seria normal para talvez um dos únicos personagens da terra possivelmente sem acesso a uma rede social. Ao ter seu nome inserido na internet, ele ganhou 50 solicitações de amizade em um minuto ao ser reconhecido como bad ass.
O personagem também se vestia, segundo o filho da sua namorada de origem mexicana e que foi casada no um um negro, com as roupas de quem voltou da guerra de secessão na segunda metade do século XIX.
Vega acaba se envolvendo em incidentes com ladrões e foras lei, o que o aproximou dos policiais locais e contribuiu na difusão de sua fama de justiceiro. A coisa se complica quando o seu melhor amigo é assassinado, e a polícia não parece disposta a ajudar, um caso de corrupção envolvendo Williams (Ron Perlman) o prefeito da cidade e seu comparsa, o líder de uma gang urbana o Pantera (Charles S. Dutrton), envolvidos no desvio de US$ 7 milhões de um programa de habitação popular.
O fato é que Vega decide fazer com as próprias mãos, enfrentando gangsters, policiais venais e um prefeito corrupto fazendo prevalecer a justiça depois de detonar dois ônibus numa perseguição insana e ainda conquistando de quebra uma mulher muito mais jovem (Joyful Drake), isso no final do primeiro round e que ganhou desdobramentos em 2014 e 2014 desfilando entre o humor, a violência e a contestação do próprio sistema político, econômico e social. (Kleber Torres)
Ficha técnica
Título : Bad ass - acima da lei
Diretor : Craig Moss
Roteiro : Craig Moss e Elliot Tishman
Elenco : Danny Trejo, Charles S. Dutton, Ron Perlman, Joyful Drake, Patrick Fabian, John Duffy, Shalim Ortiz, e Winter Avezoll
Cinematografia : John Barr
EUA
2012
90 minutos
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