domingo, 12 de fevereiro de 2017

Canibalismo no vale tudo da luta pela sobrevivência




A verdadeira história que serviu de inspiração para  clássico  Moby Dick, do genial  Herman Melville, considerado uma das obras de referência na literatura universal e que também serviu de base para o roteiro do filme “No Coração do Mar (In the Heart of the Sea)” lançado em 2015, com excelentes efeitos especiais,  é o livro No Coração do Mar cujo titulo original em inglês é  “In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex”  do historiador americano Nathaniel Philbrick.  Ele retoma a história real a partir de uma série de levantamentos de dados sobre os  detalhes da tragédia do navio baleeiro Essex,  afundado  em 1820 depois de  abalroado por uma baleia  no Oceano Pacifico.
O filme resgata a trágica  viagem da baleeira e os seus  desdobramentos, especialmente no que diz respeito ao destino dos tripulantes, que tentaram sobreviver ao naufrágio da embarcação em botes com poucos mantimentos e quase sem água, chegando a praticar canibalismo, Tudo isso ocorreu depois que uma baleia branca de grande porte, com alabastro e mais de 30 metros de comprimento, não apenas afundou a embarcação como perseguiu  os sobreviventes numa espécie de vingança, que seria comum aos seres considerados  ‘inteligentes’ como os humanos.
 "No Coração do Mar"  começa com o escritor Melville, que acaba virando personagem da historiam,  buscando entrevistar um dos sobreviventes do Essex, Thomas Nickerson (Brendan Gleeson)  que evita falar sobre a tragédia marítima. Ele guarda  um segredo dos sobreviventes sobre a prática do canibalismo durante os 90 dias em que ficaram à deriva no mar, sem mantimentos.
Os náufragos enfrentam o que seria uma tempestade perfeita, com condições climáticas adversas, fome, medo e desespero, fatores associados que os  levaram a rever valores e as condições da própria existência humana e os conceitos do mundo civilizado. Thomas que vive bêbado diz no primeiro momento que só vai falar quando for preciso.
Em seguida, Melville, para quebrar a resistência do entrevistado, conta que também embarcou uma vez em uma baleeira e acaba dobrando o marujo,   um homem idoso, que considera que a história do Essex é a história de dois homens antagônicos entre si: o capitão George Pollard (Benjamin Walker), sem experiência no mar e que descende de uma estirpe de marinheiros e o seu primeiro imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), um marujo experiente,que  almeja ser capitão e quer  superar a meta traçada por seu empregador processando dois mil barris de óleo na sua volta a Nantucket, seu porto de origem.
Com uma tripulação que composta por marujos experientes e muitos marinheiros de primeira viagem, que têm dificuldades para içar velas, o imediato   coloca em dúvida a competência dos tripulantes, inclusive Henry Coffin (Frank Dillane) embarcado  por ser  primo do capitão George Pollard, como a do próprio capitão que manda içar velas durante uma tempestade. Vale lembrar que superstições à parte, Coffins, em inglês significa caixão de defunto.
Eles navegam por 12 meses na caça de baleias e o relacionamento antagônico entre o capitão e o  imediato piora cada vez mais. Num porto do pacifico, ele descobrem um marujo maltrapilho Clemente de Palaez, que fala do afundamento do navio Santa Maria por uma baleia, mas tudo muda quando se deparam com uma ameaça imprevista:  uma gigantesca baleia branca que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio Essex e acaba perseguindo de forma sanguinolenta à sua tripulação.
À deriva em três pequenos botes os sobreviventes da tragédia se abrigam numa ilha deserta. Ali, encontram restos de náufragos mortos e que não conseguiram sair por falta de socorro. O capitão filosofa sobre o privilégio de saber sobre a própria morte futura sem chances de sobrevivência e é desafiado pelo imediato para um acerto de contas, acreditando que o que estavam passando em condições adversas era por ter ofendido a Deus com a sua arrogância.
A tripulação volta ao mar e deixa três homens mais fracos na ilha para um futuro resgate, depois de 40 dias à deriva. Em seguida um dos três  barcos que retoma a viagem desaparece. Nas duas embarcações restantes,  com a morte de um dos tripulantes que seria jogado ao mar, o imediato lembra: “nenhum marinheiro em são consciência descarta o que poderia salvá-lo”.
Thomas Nickerson, que vive em companhia da mulher em uma casa modesta, conta com detalhes que os tripulantes prepararam o corpo do morto separando as partes moles (órgãos), depois desossaram os mesmos e  separaram braços e pernas, fechando o corpo e jogando os restos mortais no mar. Primeiro, eles comiam o coração dos mortos e depois fígado, rins e por fim a carne.
Ele confessa que guardou este segredo macabro por décadas e não teria coragem nem mesmo de contar à mulher, “que por certo não me amaria sabendo das abominações que cometi”. A mulher nega e diz que a força do jovem que o alimentou ainda  vive em Thomas na sua velhice. 
No mar, ele conta que os sobreviventes sorteavam quem iria viver ou morrer para a continuidade da viagem macabra e assim, um dos marujos se suicida para não matar o capitão.
O grupo acaba encontrando um porto depois de 90 dias à deriva. Eles chegam à Más Afuera, no Chile, onde recebem roupas, água e alimentos, que têm dificuldade de digerir e só três meses depois chegam em casa, no Nantucket Harbor, onde desembarcam em 21 de junho de 1921. Ali foram recebidos como assombrações, mas ninguém nada questionou sobre a prática de canibalismo, embora parecesse que todos sabiam do enredo desta história trágica.
O capitão e o imediato foram ouvidos pelas autoridades náuticas, que engendraram uma outra história que não a de um navio afundado por uma baleia, mas de uma nau que encalhou no vasto oceano, para tentar receber com facilidade o seguro com uma estória pelo menos verossímil, no que foram contestados pelos dois oficiais que mantiveram a versão real dos fatos.
No fim, o capitão George Pollard voltou ao mar e tentou se vingar da baleia branca como o capitão Ahab, de Moby Dicjk, com sua perna de pau, mas acabou duas vezes amaldiçoado, desta vez com o navio encalhado num oceano longínquo. Já o imediato Owen volta ao mar, não mais numa baleeira, mas como capitão da marinha mercante.
No fim fica a lição do velho Hermann Melville no filme ao falar  “da coragem para ir  onde você não quer ir”, numa obra de ficção e ao mesmo tempo numa história com base na realidade e que as vezes é mais áspera e pior que a ficção.(Kleber Torres) 



Ficha técnica

Título: No Coração do Mar (In the Heart of the Sea)
Direção: Ron Howard
Roteiro: Charles Leavitt, Rick Jaffa e Amanda Silver, baseado em No Coração do Mar, de Nathaniel Philbrick
Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphym Tom Holland, Ben Whishaw, Brendan Gleeson e Michelle Fairley
Gênero: Drama
Música : Roque Baños
Direção de arte: Neal Callow, Dean Clegg, Nick Gottschalk, Christian Huband e Niall Moroney

Cinematografia: Anthony Dod Mantle

domingo, 8 de janeiro de 2017

Pedro Malasartes um hiato entre o jeitinho brasileiro e a corrupção





Pedro Malasartes um  hiato entre o jeitinho brasileiro e a corrupção


O filme “As aventuras de Pedro Malasartes” (1960) produzido e dirigido por Amácio Mazzaropi, resgata tradições da cultura oral popular brasileira e ao mesmo tempo revela aspectos culturais da nossa formação como o tradicional jeitinho brasileiro, a embromação ou a esperteza, que substituem o esforço do trabalho produtivo e torna a honestidade irrelevante ou coisa de otário. Este caldo se reflete nos problemas que vivemos hoje de corrupção e inépcia generalizadas, que afetam a todos os setores da vida nacional e numa profunda crise moral em que faltam referencias e padrões, resultando no aumento da violência que se generaliza, na falta de controle dos presídios abandonados pelo governo  e no registro ano passado de 58 mil homicídios, o que equivale a 158 mortes desnecessárias por dia ou a queda de um avião de grande porte a cada 24 horas.
Tudo começa quando o personagem Pedro Malazartes (Mazzaropi), ao chegar em sua casa na fazenda, recebe a notícia de que seu pai havia falecido.  Como um caipira humilde, analfabeto  e ingênuo, ele  acaba enganado e lesado espertamente pelos seus irmãos. Assim, enquanto um toma posse de todo o gado e dinheiro do falecido pai,  o outro assume de forma plenipotenciária o comando da fazenda numa partilha leonina e que deixa o terceiro irmão desfavorecido, pobre e deserdado.
Assim, sem nada a que reclamar, Pedro Malasartes deixa a fazenda levando os teréns quem lhe couberam por herança:  um ganso, um tacho velho e umas poucas roupas. No caminho, acaba sendo acompanhado por uma namorada, a quem abandona e que o caça pelo sertão, bem como por porção de crianças abandonadas de quem se torna uma espécie de provedor.
Duro, sem dinheiro e sem saber como conseguir descolar uma grana para as despesas com os órfãos que passam a segui-lo, ele começa então a aplicar pequenos golpes para conseguir dinheiro. Assim, vende por 300 cruzeiros um tacho que cozinharia sozinho sem fogo – naturalmente funcionaria num fogão elétrico - a um homenzarrão; em seguida vende o ganso por mil cruzeiros dizendo que ele é mágico e capaz de se comunicar com as pessoas.
 Ele  ainda consegue com sua esperteza roubar uma charrete convencendo a dona do veículo a ficar segurando o seu  chapéu no chão onde, supostamente, estaria preso um pássaro raríssimo e do qual só existiam três espécies masculinas no Brasil.
A lista de trambiques aumenta, com a venda de porcos que não eram dele, uma forma de estelionato ou até mesmo de tentar vender uma árvore também rara, que produzia dinheiro em lugar das folhas e que estava só botando notas de dez, porque não fora adubada de forma adequada.
Assim, ele se vê metido numa série de confusões e acaba preso, fazendo uma confusão dos diabos no tribunal durante o seu julgamento, quebrando o martelo do juiz; questionando o promotor que o chama de individuo de alta periculosidade, alegando que não pode ser julgado por uma coisa que não conhece e contestando o próprio advogado de defesa. Ele termina absolvido, arruma um orfanato para os meninos abandonados que o acompanham e mais ainda consegue no local um emprego para ele e a namorada, com quem acaba se casando e que só sabia mesmo criar galinha e parecia inepta para o trabalho formal.
As pequenas trapaças de Pedro Malasartes são fichinha e coisas de sacristão de igreja diante da nossa realidade, num país em que os professores em grande parte não ensinam o suficiente; os médicos cuidam prioritariamente da saúde financeira de suas famílias e não do conjunto da população que padece nas filas do SUS e não encontra medicamentos nas farmácias das prefeituras ou dos hospitais aos quais têm de recorrer.
No país também temos os nossos engenheiros e arquitetos de pirâmides financeiras que se espelham pelos rincões da nação, enquanto servidores públicos reclamam de salários, mas prestam um serviço de qualidade inferior para os contribuintes.
O Brasil  também tem problemas de corrupção que se espraia na máquina policial, no sistema penal e isso sem falar nos juízes, promotores ou ministros com direito a férias normais e mais a um recesso de fim de ano ou ainda com magistrados punidos apenas com aposentadoria por envolvimento em delitos graves, além da rede de empresários e políticos processados e denunciados em grandes escândalos de corrupção a exemplo do Mensalão e Lava Jato, coisa para ninguém botar defeito e que torna as aventuras de Pedro Malasartes uma simples comédia diante da tragédia brasileira, mas que faz rir adultos e crianças de um outro tempo. (Kleber Torres)

Ficha Técnica
Título: Aventuras de Pedro Malasartes
Direção: Amácio Mazzaropi
Roteiro: Marcos César e Galileu Garcia
Elenco:  Amácio Mazzaropi, Geny Prado, Genésio Arruda e Dorinha Duval
Género: Comédia
Idioma: Português
Brasil 
1960

95 minutos 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Truman e uma opção voluntária pela vida ou pela morte





Vinicius de Morais dizia em um dos seus poemas, que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro e isso fica evidente no filme argentino e espanhol Truman, ao mostrar que tudo o que importa na nossa estada no mundo são as relações, ou seja, o amor, a família e os amigos.  Tudo se começa quando dois amigos de infância, separados  decorrência de opções pessoais e de trabalho, se reencontram depois de muitos anos.
Os dois  passam quatro dias juntos, relembrando os velhos tempos  da infância e adolescência,  bem como as peraltices que formaram uma grande amizade e cumplicidade que se manteve com os anos, tornando-os inesquecíveis. O seu reencontro é também o último adeus, mas um adeus não piegas e encarado de frente diante não apenas de uma realidade  absurda e do insólito que cerca a cada um de nós, que muitas vezes é obrigado a fazer opções e a decidir às sobre a vida e a própria morte através da eutanásia, um tema polêmico e recorrente neste nosso tempo em que Thánatos passeia pelas ruas sem disfarce com atentados terroristas e chacinas sem fundamento racional.
O filme gira em torno de Julian (Ricardo Darin), um ator argentino radicado na Espanha, que se predispõe em função de um câncer,  a dar o seu velho cachorro Truman, com idade avançada, de forma que ele se sinta protegido e querido, porque os cachorros considerados os melhores amigos do homem não são como as plantas, seres vegetais e também sentem a separação dos seus donos.
O filme também fala  amizade e cumplicidade de dois homens que se conhecem desde a juventude, Julián  e  Tomás ( Javier Cámara), professor universitário radicado no Canadá, mas que retorna à Espanha para um reencontro com o amigo por conta da doença e dos problemas enfrentados pelo amigo, também em sérias dificuldades econômicas e existenciais.
A cumplicidade entre ambos pode ser percebida no reecontro dos dois,  quando Tomás diz: “vejo pelo seu pau duro que está feliz em me ver”, ao chegar na casa de Julián que parecia desperto e insone durante a madrugada. Ela também se evidencia no olhar e sorriso do amigo ao abrir a porta e reencontrar o outro  num momento de dificuldades pessoais.
Os dois  vão ao consultório de um oncologista que fala dos protocolos do tratamento à base que quimio e radioterapia, que é rejeitada por Julian dizendo que veio para dizer que não quer nenhum tipo de terapia e não pretende voltar ao consultório, porque não pretende perder o tempo que lhe resta entrando e saindo de um hospital sem chances de cura. Ele também diz que sabe que todos fazem o que podem, mas ninguém afinal tem culpa de nada.
Julian também filosofa dizendo que não sabia que precisava de um argumento para viver e comenta que já sonha com os mortos, como se estivesse se preparando para a viagem junto com a velha senhora. Ele também lembra que antes era muito ateu e não acreditava em nada, mas nem a doença mudou as suas perspectivas.
O filme tem como  título, o nome do cachorro de Julián, que encontra algumas pessoas interessadas no animal, a quem explica que iria viajar e não poderia levá-lo. A adoção enfrenta uma barrreira: pouca gente quer um cachorrro velho. Durante os quatro dias da visita de Tomás a Madrid, o diretor Cesc Gray construiu um rico painel sobre os hábitos e o caráter do ator argentino, que é confrontado por pessoas de seu em um restaurante e até mesmo pela sua ex-mulher.
O filme revela as várias facetas da luta do indivíduo pela vida e pela  morte com dignidade, o que se  revela no reencontro de poucas palasvras com o filho que vive em outro pais e a quem abraça num gesto de despedida em Amsterdã antes de uma prova e de um concerto . Julian também assume  pessoalmente o  momento de encarar a despedida da labuta nos palcos que lhe dá um dos poucos prazeres que lhe resta e uma renda insatisfatória para sobreviver sem depender da ajuda do amigo e quando tem de acertar  os preços para um enterro normal, para quem está sem grana.
Como um morituro, ele  age como um ser de  uma espécie rara e extinção com coragem para encarar a vida e morte de frente, afinal cada um morre como pode e no momento em que percebe que precisa deixar para trás seus amigos ou sonhos acalentados durante a vida. 
E é justamente isso que Julián se prepara para fazer ao tentar encontrar um lar para Truman e se propõe depois a ficar bêbado e a derramar suas lágrimas, uma decisão de um homem também cansado e desiludido que não pretende esperar o final e que pretende na morte encontrar uma paz não achada nos caminhos tortuosos da vida, porque cada homem é ele e o conjunto absurdo das suas circunstâncias, muitas delas adversas e desfavoráveis, mas como dia o poeta brasileiro Vinícius de Morais a vida também não é de brincadeira.(Kleber Torres)


Ficha Técnica
Titulo : Truman
Direção: Cesc Gay
Elenco :  Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi
Roteiro: Cesc Gay, Tomàs Aragay
Música: Toti Soler, Nico Cota
Prêmios: Prêmio Goya de Melhor Filme

Argentina 

domingo, 1 de janeiro de 2017

Humor escrachado que brinca com o sexo e a religião







Rodado há exatos 30 anos, Urubus e Papagaios é uma comédia picante, que foge aos padrões da chanchada e mergulha de certa forma até no realismo fantástico com gags e situações hilariantes. Tudo  começa quando aos 60 anos, o desembargador aposentado Fausto (Nelson Dantas) volta à pequena cidade natal, onde passa a viver em companhia da jovem esposa Inês (Louise Cardoso), com pouco mais de 20 anos e uma mulher considerada liberada, que começa a fazer seguidoras na comunidade, entre elas a concubina do prefeito.
O casal incomoda os padrões conservadores da população dividida entre governistas e seus opositores de esquerda, mas ao mesmo tempo provoca alterações no comportamento dos habitantes. O desembargador se aproxima de uma galera de jovens, que se sentem atraídos pela sua bela e sensual mulher, a qual passa a ser o objeto de desejo coletivo.
Em função do amor tórrido entre o desembargador e  Inês, o desempenho sexual do casal passa a ser seguido com atenção pelos moradores, que tem como termômetro os momentos de êxtase dos dois, quando as luzes do quarto ficam vermelhas e se refletem sobre os olhares dos moradores da pequena cidade.
Enquanto isso os maridos deixam as mulheres de lado e passam a frequentar a casa de Eni (Cláudia Jimenez), que tem como referência real o luxuoso da homônima na saída de Bauru, também muito famosa no século passado e que era em realidade frequentado por empresários e políticos de projeção nacional. O bordel acabou fechando por causa da concorrência das amadoras contra as prostitutas classe A;
A questão é que em função da idade e de problemas de saúde, o desembargador que havia deixado a pequena cidade há 30 anos, assume uma postura contestadora participando de bebedeiras com os jovens e com a sua morte, um dos rapazes de aproxima da viúva que  lhe concede alguns favores sexuais, o que provoca uma mudança radical na situação sexual da população.
Depois de uma tempestade, o túmulo do desembargador que foi pichado com palavras como corno e chifrudo, aparece com rachaduras e no seu epicentro emerge um mastro peniano, que atrai a atenção da população. Ao mesmo tempo as vaginas das mulheres da cidade ficaram impenetráveis, o que preocupou aos médicos e mobilizou até a igreja chamada para dar uma mãozinha na solução do problema.
O padre local realizou sem sucesso um exorcismo e depois de muita luta para derrubada do imenso mastro coberto com uma lona amarela, convocou a sua principal beata, uma mulher pia que pelas suas confissões sempre teve um comportamento exemplar para ajudar também sem sucesso na erradicação do mal. Ela não era tão pura quanto dizia nas suas confissões.
Mas as coisas só voltaram mesmo  ao normal depois de um encontro entre a viúva e o espírito do falecido, cujo mastro acaba recolhido e assim o mundo daquela população voltou ao normal. Um filme para quem gosta da rir e sabe que até a safanagem tem de ser bem administrada, mais ainda com muito humor para não virar esta esculhambação generalizada que conhecemos.(Kleber Torres)


Ficha técnica completa

Título: Urubus e Papagaios (Original)
Ano produção:        1987
Direção:       José Joffily
Roteiro: Joaquim Vaz de Carvalho, Jorge Durán e José Joffily
Elenco: Cláudia Jimenez, Dora Pellegrino, Felipe Camargo, Louise Cardoso, Maria Alice Vergueiro, Nelson Dantas
Duração:      90 minutos

Gênero: Comédia Nacional

domingo, 11 de dezembro de 2016

Uma história verdadeira de morte e manipulação






O filme A  História Verdadeira, rodado em 2015,  não nos oferece apenas a narrativa de um fato real, acontecido nos Estados Unidos, em que o marido mata a mulher e três filhos, com requintes de perversidade e premeditação, como também revela montagem de uma farsa, em que o assassino se passa por um repórter do New York Times, considerado o melhor jornal do mundo e procura escapar aos rigores da lei com histórias inverossímeis, que ele mesmo seria incapaz de acreditar. O filme também oferece como pano de fundo o debate sobre o jornalismo e da credibilidade da informação, neste tempo de hoaxes – boatos espalhados pela internet – e da fabricação em escala industrial de não notícias, privilegiando a mentira e a desinformação.
O filme começa com o repórter do NYT, Mike Finkel, interpretado por Jonah Hill, fazendo uma reportagem para a revista dominical do jornal americano sobre a exploração de escravos jovens nas plantações de cacau na África. O  jornalista acaba demitido quando o jornal descobre que ele manipulou informações,  trocou uma foto e transformou as cinco pessoas que entrevistou num único personagem, para produzir uma matéria em defesa de direitos humanos e do fim do trabalho forçado nas plantações africanas, um problema que não é novo e tem sido denunciado ao longo do tempo por jornais e até mesmo em filmes específicos. Cabe salientar que este trabalho escravo tem o amparo silencioso das indústrias moageiras, o que não foi abordado no filme.
Numa outra sequência, aparece Christian Longo (James Franco), que está foragido no México depois de matar a mulher com sinais de estrangulamento e os filhos por afogamento, conhece uma turista alemã, com quem tem uma relação casual e se apresenta como Mike Finkel, do NYT. Ele acaba preso, mas continua assumindo ser o jornalista, que em função de uma denúncia de um colega começa a se interessar pelo caso que pode trazê-lo de volta ao mercado de trabalho e à grande imprensa.
O Finkel de verdade encaminha uma carta ao assassino e consegue um contato com ele no presídio Lincoln, onde Longo aparece como um preso de comportamento exemplar. Ele mesmo se define como um homem digno de normal 98% do tempo e conta que durante a sua vida seguiu a carreira e o trabalho do jornalista, o qual aparecia sempre como uma espécie de paladino na defesa dos que não têm voz, complementando: “li tudo o que você escreveu”.  Ele também repassa ao repórter um texto extenso e desenhos  sombrios falando sobre o caso, narrado numa espécie de depoimento e romance autobiográfico.
Chris Longo admite ainda ao jornalista, que o período mais feliz durante muito tempo da sua vida foi quando estava sendo ele e fez um pacto para que Mike Finkel não revelasse  nada das conversas que tiveram até o julgamento,  mas cobrou que este o ensinasse a escrever. O assassino também fez uma lista dos erros que cometeu ao longo da vida e falou do seu casamento, da mulher que conheceu numa igreja evangélica e a quem matou esganada, colocando o seu corpo e de uma filha em duas malas, jogadas a 20 quilômetros do lugar onde morava, em uma cidade vizinha, em mais uma estratégia para dificultar as investigações policiais.
Ao mesmo tempo em que levanta discretamente informações sobre a vida pessoal do jornalista nos diálogos que travam, Longo diz que ele fala bonito e domina tão bem as palavras, “que eu quero isso também”.  O assassino falava ainda do amor que sentia pela família e queria sempre o melhor para ela, “mas - alegou sem emoção -, não posso dizer o que aconteceu”. Ele também não conseguiu encaixar uma explicação convincente para o motivo pelo qual fugiu para o México e informa lacônico: “eu não os matei”, alegando uma suposta inocência.
O assassino falou ainda do empobrecimento da sua família e admitiu que isso o levou a pequenos roubos e fraudes, inclusive a falsificação da assinatura do sogro em cheques, o que o fazia sentir-se um fracassado. Chris definiu em uma das suas entrevistas com o jornalista, que a sua mulher era linda, solidária e uma ótima mãe e mais adiante diante do júri, alega mais uma vez  que é inocente.
No primeiro depoimento, o juiz o alerta que ele está enfrentando uma sentença de prisão perpétua e um policia que investigava o caso deduz que Longo é um assassino frio, calculista e psicopata,  que vai tentar confundir o júri e anular o julgamento: “é um homem perigoso, que matou e vai tentar matar de novo”. Neste ínterim, o assassino telefona para a casa de Mike e conversa com uma certa intimidade que não tinha com a sua mulher Jill (Felicity Jones), que percebe a sua capacidade de manipulação e a sua periculosidade.
De volta ao júri, testemunhas reconhecem e identificam o réu, que chegou a ir trabalhar no dia do crime, dizendo que a mulher o havia traído com um jornalista.  Uma parenta da vitima encontra com Finkel nos bastidores do julgamento e diz que Longo não o escolheu para fazer um livro sobre ele e o caso, mas o estava usando para escapar dos rigores da lei.
Tentando dar uma virada nas acusações, o assassino dizendo-se culpado de dois crimes e inocente em outros dois, alega que a mulher teria matado pelo menos dois filhos e ele, num acesso de raiva,  a teria enforcado com as próprias mãos. Em seguida,  pegou uma mala grande e outra pequena para colocar o os corpos de duas das vitimas, quando notou que a filha respirava, ele conta sem comoção, que apertou a sua garganta e sentiu a vida sair dela.
É durante o julgamento que o jornalista percebe que o assassino é um mentiroso contumaz e um grande manipulador. Posteriormente, sua mulher Jill também procura o réu no presídio e o desmascara como um narcisista e um cínico que não vai escapar do que é e deve ser condenado à morte.
Chris Longo acaba mesmo condenado à pena capital no Oregon e escreve uma carta ao jornalista dizendo que também pretende escrever um livro e até recebeu dois pedidos de casamento. Na tentativa de ter um novo julgamento, ele diz que chegou em casa e encontrou a mulher matando um dos filhos, mas daí em diante não se lembra de nada, ficando um branco e um grande vazio.
Mike considera que as histórias contadas pelo assassino não fazem sentido, não têm pé e nem cabeça, porque a verdade é única: ele matou a mulher e os filhos de forma premeditada. Ao que Longo responde que ele  foi a coisa mais importante que poderia acontecer com o jornalista  e “se eu abrir minha boca você vai ter de fugir”, diz em tom de intimidação e chantagem aparentes.
O fato é que Longo foi condenado e espera a execução no corredor da morte e o jornalista vive em Montana, com a mulher e os três filhos, conseguindo sucesso editorial com o livro  A História Verdadeira. Longo acabou admitindo que matou a família e o estranho é que até hoje, pelo menos uma vez por mês ele e o jornalista ainda  têm um contato regular. (Kleber Torres)
                                    
Ficha Técnica:  
Titulo : A História Verdadeira / A True History
Direção : Rupert Goold
Roteiro : David Kajganish e Rupert Gold
Elenco : Jonah Hill, James Franco, Felicity Jones, Maria Dizzia
Trilha Sonora : Marc Beltrami
Gênero : Suspense
EUA

2015

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Um mergulho no estranho universo felliniano





Em “Que estranho chamar-se Federico / Che strano chiamarsi Federico – Scola racconta Fellini” o cineasta Ettore Scola, que também se consagrou como autor de “Nós que nos amávamos tanto”, de 1974; “Um dia muito especial”, de 1977 e “O Baile”, de 1983,  retrata a vida e obra de Federico Fellini, num filme que transita além do mero documentário e que faz um mergulho no estranho universo felliniano além de explorar as afinidades e similaridades entre os dois cineastas italiano.
O filme produzido em 2012, coincide com o vigésimo aniversário da morte de Federico Fellini, marca uma das justas homenagens no 70º Festival de Veneza para o grande mestre italiano de cinema, que deixou o seu nome na cinematografia mundial. Ele reúne imagens de arquivo dos filmes de Fellini e faz uma retrospectiva da sua obra desde a estreia do cineasta em 1939, como jovem  cartunista da revista satítica Marc’ Aurélio, onde também conheceu Scola,  até seu quinto Oscar em 1993, o filme é feito de fragmentos, impressões e momentos reconstruídos através da imagem.
O “Que estranho chamar-se Federico”, tem o roteiro assinado por Ettore, Paola e Silvia Scola, começando por uma sequencia inteiramente felliniana em que desfilam à noite diante da cadeira do diretor de cinema na beira da praia uma mulher dançando, um mágico, um palhaço tocando trompete, um engolidor de fogo e um personagem onírico fazendo bolas de sabão para um menino, aparecendo por fim o próprio Fellini jovem descendo numa estação de trem romana nos idos de 1939.
Em Roma, o cineasta, então com 20 anos, passa a trabalhar numa revista de humor onde aprende com o editor que as palavras voam, mas as escritas ficam e permanecem. Numa outra cena, um oficial fascista visita a redação do Marc’ Aurélio, o que se contrapõe a cenas de filmes fillinianos como Satyricon e Amarcord e se complementa depois com a chegada de Ettore Scola à redação e seus projetos comuns para o teatro, rádio e para o cinema.
Outra referência do filme é o Estúdio 5 da Cinecittà onde o cineasta comandava todos os seus projetos. Mostra também um Fellini boêmio, que dormia tarde  e lia todas as criticas que saiam sobre o seu trabalho. També deixa evidente a relação entre Federico e Scola que gostavam de desenhar, não chutavam bola de futebol e nem sabiam nadar, mas ligados por uma afinidade e respeito intelectual. Scola convocou Fellini como ator de um dos seus filmes,  Nós que nos amávamos tanto.
O filme também nos permite conhecer o pensamento de Fellini que considerava as mulheres um planeta desconhecido e a vida como uma festa que traduzia nas imagens oníricas dos seus filmes. Como artista, ele era considerado um mentiroso diferente, que transformava tudo em fantasia e cores através das sequências de 24 fotogramas por minuto.
Como filho de um pai que o queria médico e uma mãe que sonhava em ter na família um cardeal,  ele se tornou um artista irônico e criativo, que retratou a repressão da sua juventude sobre o signo e as sombras do fascismo e ao mesmo tempo revelou um mestre que resgatou no cinema a beleza da memória em imagens, porque ela (a memória) nos devolve a vida. O filme inclui ainda cenas da morte e do velório de Fellini, que neste ano de 2016  ganhou em janeiro, a companhia do amigo e discípulo Ettore Scola para uma outra festa no céu. (Kleber Torres)

Ficha Técnica:
Título :  “Que estranho chamar-se Federico / Che strano chiamarsi Federico – Scola racconta Fellini”
Direção : Ettore Scola
Roteiro : Ettore, Paola e Silvia Scola
Fotografia : Luciano Tivoli
Elenco: Sergio Rubini como Madonnaro,  Vittorio Viviani como Narrador e um personagem que interligava todas as cenas, Tommaso Lazotti como Fellini (jovem), Giacomo Lazotti como Scola (jovem), Emiliano De Martino como Maccari, Antonella Attili como Prostituta Wanda, Fabio Morici como Mosca, Andrea Salerno como Steno, Sergio Pierattini como De Bellis, Giovanni Candelari como Avô cego,  Carlo Luca De Ruggieri como De Torres, Pietro Scola Di Mambro como Attalo, Andrea Mautone como Metz, Ernesto D'Argenio como Barbara, Giulio Forges Davanzati como Scarpelli.
Música: Andrea Guerra
Itália

2013

domingo, 27 de novembro de 2016

Afinal onde começa o crime e termina a repressão política ?



O filme O Clã (2015), uma produção argentina e espanhola baseada na história real de uma das gangues mais conhecidas da Argentina, liderada por Arquimedes Puccio, interpretado Guillermo Francella, um empresário em ascensão e um zeloso pai de família,  narra as ações de uma quadrilha que ficou conhecida na década de 1980 por sequestrar, extorquir  e depois matar várias vítimas mantidas em cativeiro. A história envolve um ex-integrante da repressão política argentina, que passou usando a sua experiência policial passou a investir no comando do sequestro de pessoas ricas, simulando ações de supostos grupos terroristas.
O clã era comandado pelo pai da família, Arquímedes, além dos seus dois filhos, Maguila (Gatson Cocchiarale) e Alejandro (Peter Lanzani), juntamente com um militar aposentado Rodolfo Franco e mais dois amigos, Roberto Oscar Díaz e Guillermo Fernández Laborde, que integravam o sistema operacional da quadrilha. O grupo atuava nos estertores da ditadura militar na Argentina e aproveitava as brechas de um regime decadente para impor o terror e a morte às suas vitimas.
O filme, que alcançou recordes de bilheteria na Argentina, foi lançado no      Festival de Veneza de 2015, conquistando  o Leão de Prata e concorreu ao  Oscar de melhor filme estrangeiro em 2016, sem lograr nenhuma premiação, foi dirigido com competência e sem exageros. Arquimedes Puccio usava a sua casa em Buenos Aires como cativeiro e com isso envolveu a mulher e as filhas na sua rede de crimes e abusos.
O filme não revela Arquimedes, uma figura central da trama, apenas como um chefe de quadrilha que cuidava de todos os detalhes de cada sequestro, como também o negociador duro que intimidava os familiares das vitimas e fazia questão de acompanhar cada passo do pagamento dos resgates. Ele também era o pai amoroso e tirano, que cobrava dos filhos reciprocidade no crime e não media gastos para promovê-los no mundo empresarial e esportivo.
O filme revela ainda cenas em que ao mesmo tempo em que era cometida mais uma execução pelo grupo criminoso, eram mostradas sequencias intercaladas de sexo entre Alejandro e a namorada em um dos carros da família, que também eram usados nos sequestros. O final termina de forma trágica, com a prisão e esfacelamento do grupo e com a tentativa de suicídio de um dos filhos que se joga do quinto andar de uma repartição do judiciário. (Kleber Torres)

Ficha Técnica:
Título : El clan / O Clã  
 Direção:   Pablo Trapero
Roteiro: Pablo Trapero, Esteban Student e Julian Loyola
Produção:     Hugo Sigman, Pedro Almodóvar e Agustín Almodóvar
Elenco : Guillermo Francella, Peter Lanzani, Lili Popovich, Gastón Cocchiarale, Giselle Motta, Franco Masini, Antonia Bengoechea, Stefanía Koessl e Fernando Miró
Argentina/ Espanha
Ano 2015 •  cor   

106 minutos