sábado, 12 de fevereiro de 2022

Um cult movie de terror que saiu da periferia para o mundo



“É a vida o tudo  e a morte o nada ou a vida é o nada, e a morte, tudo”  com este pressuposto o cineasta José Mojica Marins concebeu junto com Adenora de Sá Porto o roteiro do filme Esta noite encarnarei o teu cadáver, considerado um cult movie reconhecido internacionalmente. A história foi construída  a partir de uma sinopse simples: o  coveiro Zé do Caixão, que buscava de forma obsessiva encontrar uma mulher ideal, capaz de gerar o filho perfeito, e tenta, com a ajuda do fiel criado conseguir este objetivo, para isso sequestra seis belas jovens, que acabam submetidas a sessões de tortura e flagelação concebíveis no mundo da ficção ou fora dos limites da razão.

Tudo começa quando Zé do Caixão (José Mojica Marins), dono de uma funerária, é preso e absolvido de dois crimes depois de encontrado junto a dois corpos em decomposição. E assim, em liberdade, ele volta à sua cidade com o projeto de achar a mulher ideal para consagrar a única verdade da vida: a imortalidade do sangue. Mas nem tudo é maldade no filme, pois Zé do Caixão salva um menino que brincava de cabra cega de ser atropelado  e ainda ameaça ao motorista desastrado, que poderia ter matado um inocente.

Para Zé do Caixão, “meu sangue precisa encontrar aquela que o imortalizará” e o importante neste processo que pairava na sua cachola é que só as crianças são inocentes, por isso sequestra seis mulheres para tentar gerar o homem puro e de uma raça imortal, isso num pais cujo povo continua a morrer ignorante, supersticioso,” uma verdade que precisa ser aceita mesmo que tenhamos de chorar lágrimas de sangue”, o que custou ao cineasta dissabores com a censura.

Ele oferece às mulheres a fortuna e a imortalidade, mas elas não sabem o que o destino reserva às que não forem escolhidas. No teste de fogo, ele coloca baratas e aranhas nos quatros em que as jovens dormem e ri sadicamente, quando elas se assustam: “um pequeno susto para medir a coragem de vocês”. Outra mulher, ele manda esperar no seu quarto e  fala da sua preocupação para que a beleza das mulheres seja ultrajada pelos rigores do tempo “por isso promete matá-las” de forma antecipada.

Uma das vitimas ele dá de presente para seu fiel escudeiro, Bruno (José Lobo), o corcunda, e decide ficar com apenas uma das mulheres, deixando as outras quatro entre cobras e serpentes que cuidariam do seu destino final. Zé do Caixão é amaldiçoado por uma da moças, mas para ele, a morte delas não é um sacrifício, porque o amor fragiliza o homem e corrompe a mente. Depois da decisão, manda Bruno, simplesmente limpar a sujeira fazendo a assepsia do lugar dos crimes.

Nesse interim, ele interrompe  a festa de noivado de Laura (Tina Wholers) filha de um coronel. Ela lhe diz que pretende ser de seu sequestrador e que quer ter com ele um filho perfeito, sendo considerada por Zé do Caixão como uma mulher superior. Na sua estratégia, ele também mata o filho do coronel, irmão  de Laura e joga a culpa no Truncador (Antônio Francari), que acaba conseguindo fugir da cadeia.

A Laura , Ze do Caixão confessa que matou o seu irmão e que ela, por ser uma mulher superior será a mãe do seu filho. Mas ele também descobre que entre uma das mulheres que sequestrou e matou, estava uma gestante e ele estaria amaldiçoado, pois provocou a morte de um inocente. O filme também mostra uma relação infernal de Zé do Caixão com o sem nome através de Josef(el) Zanatas com o nome escrito de trás para frente, numa cena psicodélica e experimental.

Zé do Caixão afirma categórico  que esteve no inferno e que mesmo não existe. Quando o Trucador chega com um grupo de jagunços para eliminá-lo, Laura conta que está grávida e ele diz que com isso seu sangue se eternizará. Destaca ainda, que a sua missão na terra está cumprida pois terá um filho que dará continuidade à sua descendência e constata: “não posso morrer, tenho de defender meu filho dos homens inferiores’, mas acaba dominado e na luta com seus captores, ele mata um deles num pântano, no meio da areia movediça.

Márcia (Nádia Freitas) outra das suas vitimas tenta suicídio e, antes de morrer conta ao que a encontraram, que Zé do cCaixão  matou as jovens sequestradas e também foi responsável pela morte do filho do coronel, o que deixa toda a população da pequena cidade contra o assassino que chama os seus perseguidores de desgraçados, malditos e escravos do nada. Na sua vingança, o coronel (Roque Rodrigues) coordena  uma mobilização para expulsar o diabo daquela terra , “pois a reencarnação não existe e apenas é fruto da imaginação”.

Em desvantagem diante da multidão, Zé do Caixão relembra que o homem verdadeiro é superior às fraquezas terrenas e que é essencialmente imortal: “pois nada existe, tudo é mentira e eu sou indestrutível”, mas acaba desabando depois de fulminado por um tiro e ao cair, acaba rogando a ajuda de Deus e pede uma cruz, o símbolo da fé e da redenção.

Rodado em 1967, o filme foi feito com um pequeno orçamento e recursos escassos, atores amadores em sua maioria, mas revela um cineasta criativo e que mesmo sem formação acadêmica ou como autodidata coloca em debate o terror pelo terror, com cenas de cobras, aranhas e baratas verdadeiras, animais e insetos que também eram usados nos testes das suas atrizes e em cenas de realismo não fantástico.

O fato é que José Mojica Marins não só construiu a figura imortalizada do personagem Zé do Caixão, como é hoje considerado um cineasta cult nos Estados Unidos, onde é conhecido como Joe Coffin. Ele nos contou histórias variadas,  saltando desde a pornochanchada até o terror, sendo conhecido como o pai deste segmento no Brasil e um dos inspiradores do movimento marginal, graças ao seu estilo underground.

O cineasta, que foi roteirista de cinema e televisão,  ator e produtor,   também teve um discurso critico que lhe valeu cortes frequentes da censura, mas,  como autodidata, ele  também colocou na sua obra temas filosóficos  e existenciais, transcendendo os limites indefinidos entre o bem e do mal, como tinha noção de Zaratustra e do superhomem do Nietzsche assimilando ao se modo a leitura e problemática de um dos filósofos mais complexos do nosso tempo e o incorporando à linguagem que influenciou o cinema, a literatura e a vida das pessoas.

 

Ficha técnica:

Título : Esta noite encarnarei no teu cadáver

Direção: José Mojica Marins

Argumento e Roteiro: José Mojica Marins e Adenora de Sá Porto

Elenco - José Mojica Marins, Tina Whollers, Nádua Freitas, Antonio Fracati, Esmeralda Rachel, Paulo Ramos, Tânia Mendonça,  Carmen Marins, Mina  Monte, Denise Maria e Palito

Fotografia : Giorgio Attili

Diretor de arte – José Vedovato

P & B

Lançamento : 13 de março de 1967

Brasil

 

 

 

 

 



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A história de uma entrevista que virou filme sobre o poder

 


 


 

No momento em que o ex-metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva, que esteve preso num processo de corrupção e tenta voltar pela terceira vez à presidência da República, um filme interessante e que serve de espelho para a sua trajetória política é Walesa, de 2012, dirigido por Andrzej Wajda. O filme tem como base narrativa entrevistas do ex-presidente polonês  Lech Walesa no período de 1990 a 1995, à jornalista italiana Oriana Fallacci  interpretada pela atriz Maria Rosaria Omaggio, famosa pela cobertura de guerras e revoluções, além de autora de entrevistas antológicas com vários líderes mundiais e que lhe deram projeção internacional. 

Lech Walesa (Robert Wieckiewicz) aparece como um político tarimbado, que começou a vida como eletricista e empregado de um estaleiro de  Gdansk, propõe à entrevistada uma série de perguntas para saber se  a entrevistas seria positiva ou negativa para a imagem da sua pessoa. O filme tem como cenário desde os anos 70 com a Polônia conflagrada em um clima de revolta da população irritada com o aumento de 30% no aumento dos preços da cesta básica e dos serviços públicos.

O filme também traça à trajetória de Walesa, que se tornou líder do partido Solidariedade e  ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Tudo começa quando ele sai da sua casa em 1971, para pegar um carro de bebê para o filho e acaba detido levando panfletos no meio de uma série de confrontos entre a população e a policia. O operário acaba detido e forçado a colaborar como informante com as forças de segurança.

Como eletricista ele acaba  se revelando como uma liderança entre os operários ao cobrar máscaras de proteção para os trabalhadores do porto e do estaleiro. Posteriormente, numa reunião do partido comunista que controlava o país, ele se  manifesta em defesa dos trabalhadores, depois promete ligar a eletricidade para um amigo que estava sem luz em casa, mas acabou demitido.

Ao ser questionado por Oriana Fallaci sobre quem o ensinou a agir, Walesa declarou: “sou um homem com muita raiva. E preciso viver com raiva.” O fato é que desempregado, ele acabou precisando procurar um novo emprego, arruma vários bicos  e recebe panfletos na rua,  que o levam ao comitê dos trabalhadores  onde criticou o estágio da luta por direitos da categoria por considerar em seu discurso que “as intenções são boas, mas o resto é lixo.”

O filme revela que a policia vai à casa de Walesa no mesmo dia da visita do Papa João XXIII ao país, em 2 de junho de 1971, quando ele é novamente preso mais uma vez e declara aos seus interrogadores : “antes eu falava porque não tinha escolha” e se recusa a colaborar com os órgãos de segurança afirmando também que não iria abandonar a sua filiação ao sindicato. Na entrevista, ele declara à jornalista italiana que foi preso várias vezes e que a prisão era um bom lugar para pensar.

Pai de seis filhos, ele confessa à repórter que a sua mulher não apenas suportou as suas detenções, como o ajudou muito contirbuindo na sua escalada política e o apoiando nas demissões que teve de enfrentar, sempre procurando trabalhos alternativos, inclusive trabalhando no conserto de carros.  Contou ainda que em 18 de dezembro de 1979, participou de um comício onde falou da sua demissão, sendo preso mais uma vez pelo serviço secreto polonês, no momento em que o país vivia uma nova crise de desabastecimento.

Ao sair da prisão, ele emerge como um dos lideres do greve nos estaleiros, em 14 de agosto de 1980, que começou com uma grade mobilização, mas sem  a presença de Walesa, que chega após  a eclosão do movimento, depois de escapar a um cerco policial pulando um muro. Antes de sair da sua casa, ele havia entregue à mulher o relógio e aliança, com a recomendação para que os colocasse à venda caso ele não voltasse.

Nesta época, os grevistas reivindicavam aumento de salário para dois mil ztoty  e redmissão dos trabalhadores demitidos, além da construção de um monumento aos trabalhadores mortos na greve de 1970. Para Walesa, “eles aceitaram a nossas exigências. Mas depois alegaram que não mais aceitavam as negociações, nós estávamos em greve por solidariedade”.  Com a população da cidade aderindo à paralisação do estaleiro e do porto, os grevistas ampliaram a pauta de reivindicação propondo a realização de eleições livres e a lista passou a contar com nada menos que 21 exigências.

Num outro questionamento, Oriana Fallaci pergunta a Walesa o que significa ser líder  e ele destaca entre valores de liderança: “ser destemido e não se dobrar, além do mais, sei o que falar com as massas”. Ele desatacou que o sucesso do solidariedade estava no apoio de artistas e intelectuais, enquanto os russos pressionavam as autoridades polonesas para a repressão aos grevistas, no momento em que a paralidação ganhava adesões em todo o pais”

A greve termina em 31 de agosto de 1980 e o filme mostra Walesa sendo carregado nos braços pelos trabalhadores. Ele comemora a anistia e a soltura dos presos políticos e declara que “a vitória não foi minha, mas da união de todos.” Numa outra entrevista em sua casa, deitado na cama, o líder polonês diz à jornalista que “não me adapto á regras do jogo”, enquanto sua mulher colocava visitas e sindicalistas para fora de casa.

Walesa também confessa na entrevista que serviu para o roteiro do filme, que não lia livros, comprou até alguns, mas não lia mais que cinco páginas. Em 13 de dezmebro de 1981, o secretário do partido e o prefeito de Gdansk vão à casa de Lech Walesa informando que o governo havia decretado lei marcial. Assim, ele volta à militância sindical e diz num encontro com policiais que o abordaram com ameaças: “um dia vocês ainda vão me pedir trabalho”.

O líder do Solidariedade contou ainda na entrevista, que foi sequestrado pelos comunistas   e em 11 maio de 1982  condenado à 18 anos de prisão, mas acabou convidado a ir para a televisão para tentar encerrar  uma nova paralisação dos trabalhadores. Ele fala da repressão politica depois da ocupação da Polônia pela União Soviética,  da sua participação como colaborador do regime e  das mudanças com a  morte de Leonid Brejnev, ex-secretário geral do partido comunista soviético em 10 de novembro de 1982. Bem como da  festa com a soltura de Walesa, o qual declara a Oriana Fallaci que “o país está prestes a explodir e eu sei mudar isso com calma e paciência.”

No mais tudo culmina com as eleições que o levaram à presidência da Polônia em 1989 e no mesmo ano, em 9 de novembro. cai o muro de Berlim, num filme que revela uma história baseada em fatos reais, e como a voz e a ação de um homem ganharam repercussão num mundo globalizado e em constante mudança.(Kleber Torres)


domingo, 12 de dezembro de 2021

O homem que melhorou a música da igreja e inventou o jazz


 


Um show de Louis Armstrong (Reno Wilson) no Suburban Garden, em 1931, na primeira vez em que um negro tocava ao vivo na rádio  WSNB,  em New Orleans, na Louisiana, serve de contraponto para a narrativa de  Bolden - A Sensação do Jazz,  a cinebiografia do primeiro rei do  trompete,  Buddy Bolden (Gary Carr), que ouve a apresentação num dos cubículos do mesmo sanatório estadual onde veio a falecer em 4 de novembro do mesmo ano.  A história revela uma vida trágica, marcada pela pobreza, pela loucura e pelo abandono.

O filme que intercala cenas da apresentação de Satchmo, uma alusão à boca grande de Armstrong, com flashbacks da vida de Bolden, também revela como pano de fundo o contexto social e político turbulento no início do século 20, inclusive as relações raciais conflituosas entre brancos e negros explorados numa sociedade com grandes desníveis sociais.

Bolden = A Sensação do Jazz começa com uma informação: “sabemos pouco sobre Buddy Bolden,  que nasceu em 1877 e foi o inventor do jazz”. No início do show em que o apresentador branco sai do palco para não anunciar negro nenhum, Armstrong dedica a apresentação aos brancos que o assistem na casa noturna lotada e aos irmãos negros que estavam no lado de fora, formando uma verdadeira multidão para ouvir o programa transmitido ao vivo pela emissora de rádio.

Considerado como um rei do trompete, Bolden foi o  primeiro cornetista de Nova Orleans no tempo do ragtime, e um  precursor do jazz,  responsável por revolucionar o cenário musical nos estados Unidos e no mundo.  O filme mostra Bolden desde a infância deitado quieto no chão da fábrica têxtil onde sua mãe trabalhava, com o olhar perdido no vazio, o mesmo olhar do homem maduro deitado no catre do hospício onde findou os seus dias.

O filme também fala de Nora (Yaya da Costa), a  sua mulher e da sua mãe curiosa que perguntou sobre o que o músico fazia para viver e que teve como resposta: “eu melhoro a música da igreja”. Dono de um dom único e de uma genialidade no domínio do instrumento, Bolden tocava trompete mais alto que qualquer um outro músico do seu tempo e geração, mas acabou explorado pelo seu inescrupuloso empresário Bartley (Erik LaRay Harvey), que numa jogada de marketing, faz o músico saltar de paraquedas de um balão tocando alto sua corneta para chamar a atenção do público para um show da sua banda num parque público .

Bartley também fazia acordos com  empresários brancos na armação de embates entre lutadores de rua, com apostas e resultados combinados. Bolden, que tocava no Traseiro Fedido, uma casa de prostituição, onde Nora nunca foi, certa vez deixou o salão de dança e foi tocar no telhado visando chamar a atenção dos vizinhos e dos dançarinos que deixaram o salão e foram vê-lo da rua. O filme revela que apesar das poucas informações sobre a vida de uma lenda do jazz,  para quem na música o importante é que todos se comuniquem, formando um casamento entre o músico e o ouvinte, há uma história possível de ser contada ou imaginada.

Bolden que não sabia ler partituras e nem escrevia sua música, compunha sempre ao vivo, de improviso  no palco e como um criador, achava que as vezes é até melhor não tocar nada,  até que foi convidado a gravar numa espécie primitiva de cilindro metálico. Ele considerava que as pessoas ouviam a sua música, mas ele era invisível, assim, ele acaba envolvido com a venda e o consumo de drogas, que comprometem ainda mais a sua saúde mental, então, começa a faltar compromissos e é cada vez mais pressionado pelo empresário e pelos donos de casas noturnas que querem compensação dos prejuízos com as apresentações não realizadas. Também acaba tendo problemas com uma overdose e acha na sua loucura e paranoia, que tiraram as válvulas  e  botões do seu instrumento deixando-o impedido de tocar.

A sua internação ocorre quando ele provoca um incidente fora do salão onde apresentava, em que até policiais acabam feridos. No sanatório, quando não estava agitado, ele ficava deitado e indiferente a tudo, numa espécie de letargia, com a mesma expressão que tinha na infância. Como lunático indigente, Bolden  era considerado segundo um dos relatórios do manicômio como um perigo para si mesmo e outros.

Em tempo: o show de jazz de Armstrong e as apresentações antológicas do Buddy Bolden com a sua banda são um espetáculo à parte no filme e que pagam com juros o valor do ingresso, mas não atenuam o drama e nem  a tragédia pessoal de um gênio que lutava contra a pobreza, a discriminação e a loucura provocando a sua invisibilidade e até  morte antecipada aos 54 anos.   (Kleber Torres)

 

 

Ficha Técnica

Título: Bolden! / Bolden – A Sensação do Jazz

Direção : Dan Pritzker

Roteiro : Dan Pritzker e David Rothscild

Elenco : Gary Carr, Erik LaRay Harvey, Yaya da Costa, Reno Wilson, Karimah Westbrook, Jo Nell Kennedy, Robert Ri’chard, Serena Reeder

Trilha Sonora – Mark Ishan

108 minutos

sábado, 16 de outubro de 2021

Um alerta de ficção que poderia ter preparado o mundo para a covid-19


 

 

Antecipando os cenários da pandemia provocada pela covid-19,  que registrou até agora em outubro de 2021 um total de 220 milhões de casos e mais de 4,55 milhões de mortes no mundo, das quais 601 mil no Brasil, o filme Vírus Fatal ( Fatal Contac : Bird Flu in América), dirigido em 2006 pelo experimentado  cineasta Richard Pearce, trata de uma mutação do vírus H5N1  da gripe aviária transmissível entre humanos. A  obra de ficção  começou, coincidentemente, na China e  atingiu à população em escala planetária, com a capacidade de matar até 300 milhões de pessoas, ou seja, um potencial cinco vezes mais mortal que o da gripe espanhola, que há mais de um século dizimou 50 milhões de seres humanos, espalhando o pânico  e deixando cidades inteiras  em lockdown.

Tudo começa com um executivo americano Ed Collins (John Atkinson) visitando as instalações de uma empresa fornecedora na China, onde aparece um empregado tossindo e espalhando no ar o virus H5N1, o mesmo que na vida real provocou um surto epidêmico em 1997,  a partir de Hong Kong.  O filme também mostra de forma didática, o processo de transmissão do vírus de pessoa a pessoa o que ocorre no bar, num hotel, num avião quando o paciente zero dos Estados Unidos voltou ao seu país de origem daí a necessidade de cuidados como o uso de mascaras e higienização,  hoje enriquecida com o recurso do álcool em gel.

Em Vírus Fatal,  40 a 60% dos pacientes com a Sindrome Respiratória Aguda Grave morrem com dores no corpo inteiro, com dificuldades de respirar e tossindo tanto que rompem as cartilagens internas, se afogando em seu próprio sangue. O filme revela também que nem todas as pessoas expostas ao vírus adoecem, como ocorre nos dias hodiernos com a covid-19.

A reação dos governos não foi imediata e marcada por indecisões, além de  entraves burocráticos. Já governos que evitaram falar de pandemia para não assustar à população, tiveram como primeira preocupação assegurar a continuidade das lideranças e de comando para evitar o caos social, estabelecendo medidas de isolamento social e de quarentena. Um problema agravado por problemas logísticos que criaram dificuldades na produção e distribuição de alimentos, produtos de limpeza e de medicamentos.

Numa cena dramática uma mulher morre e o marido se suicida ao seu lado, deixando o filho pequeno abandonado. Há também especulação generalizada, como uma elevação de preços de mercadorias como o café sendo vendido a 17 dólares nos Estados Unidos e com o estabelecimento de um comércio paralelo com a instauração de um mercado negro, além de saques de mercados, o que não chegou a aconter no caso da covid-19, o qual paralisou as economias em escala planetária, mas não impactou à população com o desabastecimento de alimentos, um problema que afetou ao setor de veículos e de eletroeletrônicos.

Outra preocupação dos governos e cientistas em Vírus Fatal foi com as mutações no vírus, bem como problemas com os antivírus que não funcionavam contra o H5N1, daí a necessidade de investimentos em vacinas e definição de prioridades na imunização para o pessoal da área da saúde e para as pessoas consideradas de risco.

Collin Reed (Stacy Keach), um dos gestores durante a pandemia provocada pelo H5N1, declarou num dos diálogos do filme, que nunca pensou que uma gripe fosse algo tão importante, isso em tempos que considerou tenebrosos. Virus Fatal mostra hospitais lotados e cadáveres sem sepultura sendo cremados a céu aberto igual ao cenário escatológico observado durante os picos da covid-19 dos nossos dias.

O filme evidencia que não há uma resposta perfeita durante uma pandemia e que a melhor alternativa seria a articulação de esforços entre instituições internacionais com os governos nacionais, os quais devem atuar de forma integrada inclusive com a iniciativa privada no enfrentamento de uma tragédia distópica e que marcou também os nossos dias, quando as pessoas perderam o chão sob os deus pés e conheceram uma sensação de vazio tendo de se reinventar diante do isolamento social, da falência do sistema de saúde e de uma inevitável crise econômica com desemprego e uma escalada inflacionária.

No filme, nenhum herói falou de uma gripezinha e nem de remédios milagrosos ou chás para sua prevenção, terminando com o registro de mais de 25 milhões de mortes ainda com o contador girando na tela, mas também sem nenhuma CPI ou relatório final, mostrando que a arte nem sempre antecipa a realidade, mas serve para prevenir. O problema é que mesmo depois desta distópica covid-19, muitos cientistas ainda esperam uma outra pandemia inevitável no futuro, o que exige que se não aprendemos nenhuma lição com uma obra de ficção premonitória, melhor seria aprendermos com este choque oferecido pela realidade, num mundo onde o que é ruim pode ainda, segundo alguns escatologistas de plantão, piorar (Kleber Torres)

 

 

Ficha técnica

 

Título : Vírus Fatal ( Fatal Contac : Bird Flu in América)

Direção : Richard Pearce

Roteiro: Ron McGee

Elenco: Joely Richardson. Stacy Keach, Ann Cusak, Justina Machado, Scott Cohen. David Ramsey, John Atkinson e Kodi Smit-Mcphee

Cinematografia : Ian Strasburgg=

Music : Mark Adler

Colorido

2006

90 minutos


domingo, 10 de outubro de 2021

Um ícone do expressionismo alemão e da história do cinema


                                                                                                     

Considerado como um ícone do expressionismo alemão e um marco na história do cinema, o filme  Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (Nosferatu, uma Sinfonia do Horror), dirigido em 1922 por  Friedrich Wilhelm Murnau, tem como referência a história de Drácula, romance de Bram Stoker, o que gerou nos anos 20 uma disputa judicial com os herdeiros do escritor, culminando com uma decisão judicial para destruição dos negativos e cópias do filme na Alemanha e na Europa. A decisão não evitou que cópias do filme, considerado uma obra prima, fossem comercializadas a partir dos Estados Unidos, onde os direitos autorais já haviam expirado anteriormente.

A história tem como base o  drama do corretor de imóveis Thomas Hutter interpretado pelo ator Gustav von Wangenheim,  que  negocia a venda de um castelo abandonado e em decadência para o estranho conde Graf Orlock (Max Schreck). O complicador é que o conde de hábitos noturnos,  vive num castelo em Bremen, na Alemanha e  é na verdade um vampiro milenar, que espalha o terror na região e é temido pela população da vizinhança.

O corretor passa alguns dias no castelo de Bremem, onde ao ter acesso de uma foto de mulher de Hutter,  Ellen (Greta Schroeder), o conde  passa a se interessar por ela e a influencia mesmo à distância com seus poderes sobrenaturais. O filme inclui efeitos especiais elaborados para a época da filmagem e revela para a mudança do conde, que os vampiros só podem manter a sua força se mantidos durante o dia em caixões com a terra amaldiçoada em que foram enterrados.

O fato é que o filme com 105 minutos e um enredo elaborado, tem na única coisa que o diferenciava do Drácula, o nome do conde rebatizado como Graf Orlock e os dos personagens centrais da história. Outra diferença foi encontrada para a morte do vampiro, que morre ao ser atingido pela luz solar, além de inspirar diversas outras caracterizações de chupadores de sangues, ganhando inclusive um remake em 1979, batizado como Nosferato – o vampiro da noite, assinado por outro cineasta alemão Werner Herzog e com a participação do ator Klaus Kinski e a bela Isabelle Adjani.

Nas vésperas de comemorar o seu histórico centenário, Nosferatu  foi inteiramente restaurado em 2006, com base em uma cópia de 1922 da Cinemateca Francesa, bem como de uma outra encontrada no arquivo de cinema alemão e  de outra película encontrada na Tchecoeslováquia, onde o filme foi rebatizado com outro nome para escapar da disputa judicial dos produtores do filme com a viúva do escritor Florence Stoker.(Kleber Torres)

 

 

Ficha técnica

Título : Nosferatu, eine Symphonie des Grauens / Nosferatu, uma Sinfonia do Horror Diretor  

Diretor : Friedrich Wilhelm Murnau

Roteiro : Henrik Galeen / Bram Stoker

Elenco : Max  Schreck, Alexander Granach, Gustav von Wangenheim, Greta Schroeder,G.H.Schnell, Ruth Landshoff, John Gottovut, Gustav Botz, Max Nemetz e Wolfgang Heinz

Cinematografista : Gunther Kampft e Fritz Arno Wagner

Diretor de arte – Albin Grau                

P & B

1922

105 minutos


sábado, 2 de outubro de 2021

O fake por trás do mundo robotizado dos influenciadores digitais


  

Considerado como um experimento social inovador com a participação de influenciadores digitais, o filme Fake Famous: influência e fama na era digital, dirigido por Nick Bilton e exibido pela HBO, tem como referenciais o fato de que em todo o mundo 40 milhões de pessoas têm mais de um milhão de seguidores nas redes sociais e que outros 100 milhões têm em média mais de 100 mil seguidores, sendo considerados celebridades no complexo e disputado universo digital. O experimento envolve três jovens de Los Angeles, com o número de seguidores relativamente pequeno, que são turbinados com a  compra de seguidores falsos e apoio de um exército invisível de robots, conhecidos como bots.

A filme exibido este ano tem como pressuposto que a fama é uma coisa obscura e estranha, pois no passado as pessoas eram famosas em função da suas habilidades  artísticas ou esportivas,  hoje, pela sua capacidade de influenciar as pessoas através da redes sociais, tendência se acentuou a partir da pandemia provocada pela covid-19.  Ele também reúne depoimentos de Taylor Lorenz, que é  repórter de tecnologia do The New York Times); da influenciadora Liz Eswein; da jornalista Sarah Frier, do Bloomberg e da escritora Justine Bateman, autora do livro Fame: The Hijacking of Reality) e diversos especialistas em comunicação digital.

Fake Famous tem como contraponto o novo coronavirus, pandemia que  forçou as pessoas ao isolamento e distanciamento ampliando o seu acesso às redes sociais, as quais extrapolaram a sua dimensão de meros aplicativos para postagem de fotos e mídias diversas, fomentando uma indústria que movimenta milhões de dólares em escala global através de negócios e campanhas de vendas.

Além de discutir o que é e qual a função de um influenciador digital, Fake Famous,  o filme mostra o desempenho de três personagens: Dominique Druckman, uma atriz de filmes sobre adolescentes rebeldes e que vivia na expectativa de sua grande chance  no cinema; Chris Bayley estilista e cantor que sonhava se impor no mundo da moda com peças únicas e aplicava sua arte em roupas de segunda mão.

O terceiro elemento no experimento foi Wylie Heiner, assistente  imobiliário, destacando no filme que a experiência como influenciador digital foi exaustiva  e competitiva o que acabou resultando na sua desistência do processo em que afinal todo o mundo conhece alguém famoso no Instagram. Em termo de expectativas, ele espera atuar em um outro filme e na vida real, prosseguir seus estudos para  trabalhar em projetos educacionais com outros grupos marginalizados.

Partindo do pressuposto de que os influenciadores digitais ganham seguidores por meio de curtidas, compartilhamentos e patrocínios, um processo que pode ser inflado com o suporte de um verdadeiro exército de bots – robôs - contratado  para gerar engajamento e motivar a participação de pessoas, elevando artificialmente os perfis e o status do influenciador digital. Hoje, a estimativa é de que 48% das atividades nas redes sejam realizadas através de pessoas e o restante por robôs, que aceleram as curtidas, gerando tráfego e retorno financeiro aos envolvidos neste negócio.

 

O projeto começou com uma produção e investimentos nos três personagens do experimento que ganharam novo corte de cabelo, um novo look no seu visual, além, naturalmente da compra de seguidores falsos, os mesmos que são usados através de robôs  para a criação de pessoas falsas e noticias idem. Depois destes preparativos, os três influenciadores passaram por uma bem cuidada sessão de fotos, como a de uma outra profissional desta área, que comodamente fez uma “viagem” a Bali, passando com sua equipe de produção apenas por uma sofisticada loja de departamentos.

 

O dado observado na pesquisa é que a compra de seguidores tem de ser feita de forma discreta com a aquisição gradual  de 7,5 mil adesões num dia para não alertar aos algoritmos das operadoras das redes sociais. As adesões, falsas ou verdadeiras  servem de padrão para a obtenção do patrocínio de produtos ou empresas que operam no mercado real.

 

A ideia da pesquisa foi forjar viagens, caminhadas, hospedagem em hotéis e mansões – alugadas por uma diária inferior a mil dólares – ou mesmo viagens de primeira classe em jatinhos fakes, cujas cabines são alugadas por menos de 100 dólares por hora, com excelentes resultados. Quem pretende um custo menor nestas viagens em jato executivo pode usar criativamente até uma tampa de vaso sanitário para imitar a janela de um avião, com custo de apenas  uma dezena de dólares.

 

Uma estatística apresentada no filme é que mais de 60% dos likes de pessoas famosas, consideradas celebridades nas redes sociais são movimentadas por bots falsos. Já a  socialite Kim Kardashian, uma celebridade no mundo  dos influenciadores digitais,  cobra, por exemplo,  500 mil dólares por uma postagem no Instagram e em média, um profissional posta em média três a quatro informações por dia.

O diretor Nick Bilton, um jornalista experimentado,  atinge o objetivo proposto pelo projeto do filme ao  questionar a fama e a influência na era digital, num  mundo em que as pessoas estão em busca do sucesso e do reconhecimento nas redes sociais. O processo envolve bilhões de seres humanos em escola planetária, num universo onde 140 milhões de pessoas, o equivalente a metade da população dos Estados Unidos têm mais 100 mil seguidores.

A aspirante a atriz Dominique Druckman começou a receber produtos e passou a ser  procurada por empresas quando superou a marca dos 100 mil seguidores. Também foi convidada para uma viagem com influenciadores para Las Vegas promovida por uma indústria de roupas, com direito a uma parada para fotos no deserto e até um parque aquático abandonado.

Ela conta no filme que a experiência de uma semana em tempo integral de dedicação à atividade de influenciadora digital serviu para definir  uma nova meta para chegar a 250 mil seguidores. Mas mesmo com a pandemia, ela continuou a receber presentes e produtos, inclusive de uma joalheria.

Wylie Heiner  teve uma experiência interessantes, com 165 curtidas e muitos comentários num curto espaço de tempo após uma postagem turbinada por bots. O fato é que cada um dos envolvidos na pesquisa  passa a ter experiências totalmente diferentes à medida que seus falsos seguidores construídos por hackers, com base em pessoas existentes na base de dados da rede mundial de computadores , crescem aos milhares a cada dia, quando a própria realidade se confronta com os sonhos.

O estilista Chris  Bayley, desiste do projeto por considerar que pretendia ser famoso por ser autêntico, mas sem a ajuda de bots e não como Dominique Druckman, que virou uma outra pessoa e ganhou até férias grátis e patrocinada, mas com a pandemia passou a perceber que tudo é falso, com influenciadores se exibindo em praias de biquíni num período de distanciamento social, enquanto cantores de ópera e artistas cantavam em varandas levando alegria para as pessoas em isolamento e afetadas por uma pandemia que custou a vida de mais de cinco milhões de pessoas em todo o mundo.

“No meu caso,eu não preciso ser repaginado”, destacou Chris  Bayley que optou por deixar o projeto junto com Wilei Heiner. Também foi constatado que apesar da pandemia os influenciadores digitais aumentaram o número de seguidores reais, uma provável consequência dos isolamento das pessoas.

Fake Famous revela por fim como o mundo online perpetua uma falsa sensação de glamour, mas que está cada vez mais distante da realidade das pessoas e mesmo de toda uma geração que sofre de depressão, ansiedade e vício nas mídias sociais, num contraponto a um período de crise agravado pela pandemia da covid-19, o que nos leva a refletir sobre a realidade e sobre a possibilidade de construção de um mundo inteiramente fake, onde tudo é falso,  como uma simples peça de ficção e de pronta reposição. (Kleber Torres)

 

Ficha técnica

 

Título: Fake Famous: influência e fama na era digital

 

Direção : Nick Bilton

 

Direção de fotografia : Barney Broomfield

 

Música : Michael Abels


quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Um retrato da desigualdade e do empobrecimento americano


 

Baseado no livro homônimo de Jessica Bruder, o filme ‘Nomadland – sobreviver na América’ é um road movie sobre os nômades modernos, que  ganhou o Leão de Ouro, prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Veneza de 2020 e conquistou em 2021, o Oscar de Melhor Filme, de Melhor Atriz, para Frances McDormand e de melhor diretor para a cineasta chinesa Chloe Zhao, mostrando a outra face da sociedade norte americana, marcado pela pobreza e desigualdade social.

 

O filme, que foi construído como a narrativa de um documentário, tem no seu enredo apenas dois atores profissionais Frandes McDormand (Fern) e David Strathairn (Dave) e mostra pessoas interpretando seus próprios papeis que vivendo como nômades modernos numa sociedade em crise.

 

Os personagens vivem fazendo bicos prestando serviços temporários a grandes empresas como a Amazon, fazendo limpeza em restaurantes ou até mesmo trabalhando na colheita em regiões agrícolas dos Estados Unidos, se locomovendo em suas vans, trailers ou motorhomes, em busca de oportunidades de  trabalho.

 

A história gira em torno de Fern, uma viúva sem-teto de  60 anos de idade, que depois da crise econômica do final da primeira década do século XXI,  decide deixar a cidade em que vivia no estado de Nevada, percorrendo com sua van diversos estados do país.  Nesta viagem, ela se depara com outros nômades, alguns aposentados com baixos salários ou trabalhadores precarizados como Linda May, Angela Rayes,  Swankie, Carl R. Hughes e Bob Wells que se tornam seus companheiros vagando pelo oeste americano.

 

Marcado pela lentidão, o filme revela não apenas a crise que afeta os sem –teto  despejados de seus lares com a crise econômica que  assumiu  uma dimensão global, forçando as pessoas a reinventarem suas vidas ou descobrirem  a opção da moradia móvel de baixo custo, mas que oferece riscos nos invernos rigorosos.

Os novos nômades redescobrem  o escambo, um sistema de trocas primitivo e que não envolve o uso de moeda corrente, bem como patrocinam debates sobre a importância da união de esforços para o enfrentamento político de dificuldades comuns ao grupo e valorização do referencial de amizades, que podem ser duradouras ou passageiras, sinais de um tempo de crise e instabilidade.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica

Título : Nomadland (Nomadland – sobreviver na América)

Diretora e roteiro: Chloé Zhao

 

Elenco : Frances McDormand, David Strathairn, Linda May, Swankie, Bob Wells, Angela Rayes, Carl R. Hughes, Douglas G. Soul,  Ryan Aquino.

 

Cinematografista : Joshua James Richard

 

Música: Ludovico Einaudi