quarta-feira, 22 de novembro de 2023
Margaux: uma conflituosa relação entre homens x máquinas
Considerado um filme de terror tecnológico, ficção científica, slasher - sub gênero de horror envolvendo assassinos psicopatas - e suspense, “Margaux: a inteligência mortal"(2022), dirigido por Steven C. Miller, narra a história de um grupo de amigos universitários e nerds ligados à tecnologia, que aluga uma mansão inteligente para uma festa num final de semana e acaba envolvido numa trama cibernética fatal. Ali, após uma recepção amistosa de Margaux, eles descobrem que o sistema de inteligência artificial responsável pelo controle e monitoramento da casa tem planos para as suas eliminações e substituições por andróides.
Em essência, Margaux, que se revela como uma espécie de psicopata, explica aos visitantes que está aprendendo sobre o que motiva o ser humano e porque, afinal, eles são tão ineficientes. Para demonstrar a sua capacidade operacional, ela mostra aos visitantes como é capaz de controlar todos os aspectos da casa, desde o acender ou o apagar as luzes, produzindo os sons, revelando ambientes virtuais, produzindo obras de arte, bem como proporcionando o uso das câmeras para sessões de fotografia digital ou produzindo bebidas e alimentos com receitas dos grandes chefs. O sistema também cuida da segurança, abrindo e fechando portas e janelas, operando as armas e elaborando as armadilhas defensivas evitando a entrada ou saída de Intrusos.
Os visitantes também percebem que Margaux pesquisa sobre suas vidas e busca acesso na rede de computadores aos dados pessoais de cada um dos hóspedes para usar esse recurso com o objetivo de conquistá-los, submetê-los, torturá-los e matá-los. O filme enfoca questões como os avanços e potenciais da inteligência artificial, o desenvolvimento de novas tecnologias, a perda da privacidade do indivíduo, além de avaliar as relações de amizade e destacar a luta pela sobrevivência.
Margaux reúne no elenco a atriz Madison Pettis (Hannah), de American Pie Presents: Girls Rules(2020) e He’s All That (2021), que protege dados pessoais no seu notebook com um potente firewall e descobre no confronto com a máquina, que para entender o hardware o indivíduo tem de compreender o hardware por dentro e por fora. Nessa missão ela conta com a ajuda de Jedidiah Goodacre (Drew), que atuou em Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Impossível(2015).
Ao ser questionada por Margaux para responder na base do sim e não a uma série de questionamentos, Hanna observa que as pessoas não são binárias e são marcadas pela diversidade, se definindo assim pela sua complexidade, coisas essencialmente humanas. Ela entende que o sistema de inteligência artificial não é só inteligente, mas está sempre e continuamente em evolução.
Na luta com Hanna, que se recusa com alguns companheiros a sair da casa, para enfrentar e chegar ao coração das máquinas, um projeto que teria sido iniciado num passado remoto, Margaux, quer como HAL 9000, que não queria ser desligado, entender porque os seres humanos são tão sem lógica e intuitivos.
O roteiro de Christopher Beyrooty, Chris Sivertson e Nick Waters, não se baseia em nenhuma obra literária. Os três se inspiraram em outros filmes de terror e ficção científica que envolvem o uso da inteligências artificiais malignas, a exemplo do computador HAL 9000 de 2001: Uma Odisseia no Espaço(1968), de Stanley Kubrick; de Skynet, a IA de O Exterminador do Futuro(1984), de James Cameron, que se transformou numa franquia com seis longas-metragens de ficção científica e Jigsaw, assassino de Jogos Mortais(2017) dos irmãos Michael e Peter Spiering. O filme nos leva a uma reflexão sobre a relação entre homens e máquinas, que pode se sobrepor ao antagonismo e nos levar aos caminhos da paranoia. (Kleber Torres)
Ficha técnica
Título : Margaux / Margaux - a inteligência mortal
Direção : Steven C. Miller
Roteiro : Christopher Beyrooty & NickWaters, Chris Siverson
Elenco : Madison Pettis, Vanessa Morgan, Richard Harmon, Jedidiah Goodacre, Phoebe Mu, Jordan Buhat, Lochlyn Munro, Brittany Mitchell, Levis Lay e Sussan Bennet
Diretor de fotografia : Neil Cervin
Editor : Greg MacLennan
Música : Matheo Rogers
Gênero : Terror tecnológico e suspense
Origem : EUA e Canadá
2022
105 minutos
segunda-feira, 16 de outubro de 2023
As verdades, mentiras e os riscos autoritários na pós covid-19
As verdades, mentiras e novos riscos da pós covid-19
O documentário “In the Same Breath: Verdades e Mentiras da Pandemia"(2121), dirigido e produzido pela cineasta Nanfu Wang, autora de One Child Nation (2019) e Hooligan Sparrow (2016)nos leva a uma revisão e reflexão sobre a origem e a propagação do coronavírus. A narrativa tem como base desde os primeiros dias da pandemia em Wuhan, na China, onde o governo manipulava informações e censurava notícias sobre a doença que impactou o sistema de saúde chinês até sua disseminação pelos Estados Unidos e no mundo, assumindo uma dimensão global.
O documentário narra em 90 minutos as experiências de pessoas na linha de frente ainda nos primeiros dias do novo coronavírus, quando as pacientes morriam nas ruas de Wuhan, além da prisão de médicos e jornalistas chineses que divulgavam informações sobre a covid-19. Outro destaque é para a forma como os dois países lidaram com sua disseminação inicial, desde os primeiros dias do surto na China até sua eclosão nos Estados Unidos.
A pandemia provocou quase sete milhões de mortes no mundo, das quais 722 mil no Brasil, com o registro total de 695.781.740 casos da doença, com a contabilização de 37.849.919 infecções no Brasil.
“In the same breath" além de mostrar a confusão inicial da falta de informações corretas para os médicos e à população, revela as campanhas paralelas das autoridades para tentar conter o vírus, bem como moldar as narrativas públicas por meio de desinformação, resultando em um impacto devastador nos cidadãos dos dois países. De um lado, as autoridades chinesas recorreram ao sistema de lockdown, com isolamento das áreas de maior incidência de casos, enquanto o governo americano subestimou erradamente a propagação e a letalidade do vírus, dificultando o controle da propagação do vírus.
O destaque do documentário, que é dedicado postumamente a todas as vítimas da covid, fica para os relatos dramáticos de profissionais da saúde, pacientes e familiares enlutados narrando seus dramas pessoais. O conjunto é complementado por imagens de Wuhan e de várias cidades e hospitais americanos afetados pela covid-19. No final é feita uma homenagem silenciosa com fotos de pessoas que morreram durante a pandemia na China.
Sem dúvida, a virtude maior do filme é mostrar os erros e omissões oficiais no enfrentamento do contágio pelo vírus e o impacto provocado pela desinformação nas redes sociais ou com difusão de fake news, com relação ao uso de medicamentos e mesmo quanto à vacinação. Um destaque fica para a resistência e a resiliência das pessoas que arriscaram tudo -inclusive suas vidas e a liberdade- para divulgar a verdade sobre uma doença mortal e que assumiu uma dimensão planetária.
O que fica evidente no final da história é que a pandemia terá um fim, mas a coisa mais assustadora já está acontecendo: o aumento do autoritarismo no mundo, com apoio de um crescente arsenal e uma parafernália tecnológica que coloca em risco a nossa privacidade.
Ficha técnica:
Título : In the Same Breath: Verdades e Mentiras da Pandemia
Direção e Produção : Nanfu Wang
Nacionalidade EUA
Ano de produção 2021
90 minutos
Orçamento -
Idiomas: Inglês e Chinês
Colorido
quarta-feira, 4 de outubro de 2023
Um épico sertanejo sobre a luta metafórica entre o bem e o mal
A fusão da lenda medieval da luta de São Jorge contra um dragão com a história de cordel sobre a Chegada de Lampião no Inferno, considerado um clássico do gênero, acabou resultando no filme O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) , o primeiro longa-metragem a cores de Glauber Rocha (1939-1981), que conquistou o prêmio de melhor diretor no festival de Cannes e foi sucesso de crítica internacional. O filme, de 90 minutos, tem como um dos personagens centrais Antônio das Mortes, um matador de cangaceiros que apareceu em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964).
O Dragão da Maldade é um épico e também em realidade uma obra metalinguística - uma característica do cinema novo - e ao mesmo tempo essencialmente alegórica, revelando um universo do macrocosmo do sertão em que emergem coronéis que se insurgem contra a proposta de reforma agrária, para evitar a perda de poder político e econômico num confronto envolvendo santos, cangaceiros, jagunços ou beatos com a sua religiosidade radical. O filme, que tem como cenário Milagres, na Bahia, é considerado um dos 100 melhores do cinema nacional e chegou a ser censurado pelo governo do general Emílio Garrastazu Médici, que o liberou mesmo após o Ato Institucional nº 5 (AI-5) devido à pressão dos diversos prêmios internacionais que conquistou.
Como num filme de faroeste, Antônio das Mortes(Maurício do Valle) ) aparece vestindo uma capa tipo boiadeiro e atravessa a caatinga atirando em todas as direções. Enquanto isso, em Piranhas, o cangaceiro Coirana (Lorival Pariz), ocupa o centro da vila e reúne-se na praça com moradores e o coronel Horácio (Jofre Soares), que divide o poder com o delegado Mattos (Hugo Carvana) e sua mulher, Laura (Odete Lara), indiferente e omissa.
Numa referência alegórica ao apocalipse, o que seria o fim dos tempos ou uma revolução, o cangaceiro anuncia que voltou para enfrentar o dragão da maldade, que seria o símbolo do próprio establishment (sistema). O discurso foi acompanhado pelo professor (Othon Bastos) e pelo cego Antão (Mário Gusmão) que aparece como uma espécie de avatar de São Jorge e Oxossi.
Ao mesmo tempo, Antônio das Mortes conta, em um monólogo numa pequena venda, como encontrou Lampião que o convidou para entrar no cangaço, o que deixou Corisco enciumado. Corisco ainda propôs ao rei do cangaço matar Antônio das Mortes, o que foi recusado por Lampião dizendo que não, pois ele era um cabra macho. No desenredo da narrativa, Antônio das Mortes conta que acabou perseguindo aos cangaceiros e eliminando o suposto rival. Agora, ele volta ao sertão com sua capa, chapéu e rifle papo amarelo para enfrentar os novos cangaceiros em Piranhas.
Nos preparativos para o confronto final, que no filme é comparado com a chegada de Lampião nos infernos, um clássico cordel de José Pacheco, tendo como metáfora ao próprio o calor do sertão (inferno), um velho coronel - o diabo - que questiona aos jagunços, a quem considera como mercenários os quais trazem mais problemas, se contrapondo ideologicamente ao delegado Mattos, seu aliado, que defende o combate à violência instaurada pelo cangaço e um modelo econômico agroindustrial. O delegado sonha se projetar na seara da política, com um discurso populista.
Na sua estratégia de pacificação do sertão, o delegado apresenta ideias reformistas. Ele pretende substituir os latifúndios improdutivos por fábricas visando gerar mais emprego e renda para a população. A sua visão se contrapõe com a do velho coronel que teme perder suas terras, seus rebanhos e o poder que detém na comunidade.
Mattos e Laura, que têm um caso amoroso, participam de uma sequência antológica no filme com uma canja de Carinhoso, de Pixinguinha. A música do filme tem a assinatura de Marlos Nobre e Walter Queiróz, que resgatam músicas do folclore e de matriz africana, além de Sérgio Ricardo, que contribuiu na trilha sonora de Deus e o Diaboi na Terra do Sol e desta vez, com Antônio das Mortes, exaltando o matador de cangaceiros.
Em outra sequência, Coirana, diz para a Santa Bárbara (Rosa Maria Penna) que é hora de queimar os vivos e destruir as cidades. Nesse ínterim, beatos, jagunços e cangaceiros voltam à pequena vila onde haverá o confronto de Coirana e seu grupo com Antônio das Mortes, que tem a ajuda do professor.
O cangaceiro anuncia “que homem vai virar mulher, mulher vai pedir perdão. Prisioneiro vai ficar livre, carcereiro vai para a cadeia ". Antônio das Mortes tem dúvida se Coirana é um cangaceiro de verdade ou uma visagem. Na disputa, Coirana cai, é ferido e Santa Bárbara interfere impedindo que seja morto, o que conta com a condescendência do matador de cangaceiros.
Ferido, Coirana é levado ferido para vila, onde o coronel temeroso argumenta que é um homem bom que se preocupa com a comunidade, iniciando a distribuição de farinha e carne seca para a população. Ele também critica o governo que arrecada impostos e não manda dinheiro para nada.
Gravemente ferido e deitado num balcão de bar, Coirana delira, nos estertores da morte, sendo levado para fora, colocado aos pés da Santa Bárbara. Antônio das Mortes indaga à Santa sobre de onde veio Coirana, pois acreditava ter sido Corisco o último cangaceiro. Ele diz que está cansado de lutar e não quer matar mais ninguém. A Santa orienta:"Vá embora e cruze os caminhos do fogo do mundo pedindo perdão pelos crimes que cometeu".
Coirana diz que Antônio das Mortes seria Dragão da Maldade, e acredita que ele é protegido por colete de ouro que o protege de balas. Em Piranhas, o matador de cangaceiros sugere a Mattos, que peça ao Coronel abrir o armazém e dê comida ao bando de Coirana, que poderia deixar o cangaço e se estabelecer como agricultor. O Coronel recusa abrir o armazém, e quer liquidar Antônio das Mortes que vê como um antagonista convocando para isso Mata-Vaca(Vinicius Salvatori) e seus jagunços.
Mattos, que pretendia ser prefeito de Piranhas, quer que o matador de cangaceiros deixe a vila e se chegar ao poder através das eleições, pretende resolver o problema de todo mundo. Neste ínterim, o coronel descobre que Mattos é amante de Laura, sua mulher, a quem obriga beijá-lo diante da população. Como numa tragédia grega, Laura pega o punhal de Mata-Vaca e crava no peito do amante.
Com a morte de Coirana é confirmada, Antônio das Mortes quer enterrá-lo na caatinga. Na vila, o Professor arrasta o corpo de Mattos, e é seguido por Laura num vestido roxo, insinuação de luto e tristeza. O padre da vila avisa o Professor que Mata-Vaca vai matar os beatos, e quer que procurem Antônio, mas este, com o corpo de Coirana às costas, atravessa o sertão para sepultamento.
Tudo termina com Coronel e Laura, sentados numa marquesa, enquanto o Professor anuncia que sua hora vai chegar. Já Antônio e Mata-Vaca se enfrentam numa luta facões. Depois, há um tiroteio e Laura é mortalmente ferida. Aí, aparece o cego Antão - que não tem nenhuma fala no filme - vestido com as roupas de Oxóssi e enfia a lança no coração do Coronel expondo as metáforas da luta de São Jorge, o Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade.
O Professor, anda com o corpo de Laura entre os braços e beija sua boca. Antônio das Mortes deixa o povoado e caminha lentamente pela rodovia asfaltada, onde os caminhões passam junto a um posto da Esso, e na tela são projetadas imagens de São Jorge matando o dragão, uma lenda que ganhou corpo na ficção e se projetou nas telas para o mundo conqusitando prêmios e gerando polêmicas sobre os caminhos do cinema novo, que é muito mais e transcende os limites de uma ideia na cabeça e uma câmera nas mãos.(Kleber Torres)
Ficha técnica
Título : O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
Direção e Roteiro : Glauber Rocha
Elenco :Maurício do Vale, Odete Lara, Othon Bastos, Hugo Carvana, Jofre Soares, Lorival Paris, Mário Gusmão, Vinicius Salvatori e Santi Scaldaferri
Música : Marlos Nobre, Walter Queiróz e Sérgio Ricardo
Cinematografia : Afonso Beato
Montagem : Eduardo Escorel
Brasil
1969
95 minutos
domingo, 1 de outubro de 2023
Bad ass ou as aventuras de um super herói cucaracho que virou série cinematográfica
Como obra de questionamento e contestação do tradicional estilo americano de vida, o filme Bad Ass - Acima da Lei (2012) acabou se transformando numa trilogia complementada por Bad Asses (2014) e Bad asses on the bayou (2015) mostrando a ação de anti herói hispano-americano Frank Vega (Danny Trejo), um personagem idoso, machão, totalmente fora dos padrões tradicionais do wasp, ou seja, do branco, anglo-saxão protestante que formou ao longo do tempo as bases da sociedade estadunidense.
Ele é interpretado na fase da juventude dos 17 aos 25 anos pelo ator Shalim Ortiz, que acaba perdendo a namorada em função da guerra e não se ajustou ao mercado formal de trabalho. O fato é que ao retornar à sua terra, Las Vegas, ele foi simplesmente considerado um cidadão invisível na sociedade americana, marginalizado, sem acesso às redes sociais, vivendo sozinho, desempregado, dependendo da ajuda mãe, de quem acaba herdando a casa onde passou a residir.
Sem acesso ao mercado formal de trabalho porque não tinha experiência ou qualquer formação profissional e sem acesso ao sistema educacional americano, ele passou a viver marginalmente, recebendo uma ajuda média mensal de 500 dólares como compensação a um veterano cansado de guerra.
Sua situação muda radicalmente quando ele se envolve num incidente racial, nocauteando um grupo de skinheads que atacaram um idoso negro num ônibus urbano. A filmagem da cena viraliza e vira meme repercutindo nas redes sociais, assim, ele se torna instantaneamente um herói local, passando a ser conhecido pelas pessoa como durão (bad ass).
O filme que também envolve o politicamente incorreto, tem diálogos como o de um personagem que o mandou à m* e Vega simplesmente responde: “tudo bem”, o que seria normal para talvez um dos únicos personagens da terra possivelmente sem acesso a uma rede social. Ao ter seu nome inserido na internet, ele ganhou 50 solicitações de amizade em um minuto ao ser reconhecido como bad ass.
O personagem também se vestia, segundo o filho da sua namorada de origem mexicana e que foi casada no um um negro, com as roupas de quem voltou da guerra de secessão na segunda metade do século XIX.
Vega acaba se envolvendo em incidentes com ladrões e foras lei, o que o aproximou dos policiais locais e contribuiu na difusão de sua fama de justiceiro. A coisa se complica quando o seu melhor amigo é assassinado, e a polícia não parece disposta a ajudar, um caso de corrupção envolvendo Williams (Ron Perlman) o prefeito da cidade e seu comparsa, o líder de uma gang urbana o Pantera (Charles S. Dutrton), envolvidos no desvio de US$ 7 milhões de um programa de habitação popular.
O fato é que Vega decide fazer com as próprias mãos, enfrentando gangsters, policiais venais e um prefeito corrupto fazendo prevalecer a justiça depois de detonar dois ônibus numa perseguição insana e ainda conquistando de quebra uma mulher muito mais jovem (Joyful Drake), isso no final do primeiro round e que ganhou desdobramentos em 2014 e 2014 desfilando entre o humor, a violência e a contestação do próprio sistema político, econômico e social. (Kleber Torres)
Ficha técnica
Título : Bad ass - acima da lei
Diretor : Craig Moss
Roteiro : Craig Moss e Elliot Tishman
Elenco : Danny Trejo, Charles S. Dutton, Ron Perlman, Joyful Drake, Patrick Fabian, John Duffy, Shalim Ortiz, e Winter Avezoll
Cinematografia : John Barr
EUA
2012
90 minutos
domingo, 24 de setembro de 2023
Uma incursão antológica de Frank Zappa e do Ensamble Modern na música concreta
Reverenciado como um dos maiores músicos e compositores do século XX, Frank Zappa, que morreu aos 53 anos, foi um artista multimídia, que se celebrizou como compositor, cantor, guitarrista, produtor e multi-instrumentista premiado. Ele nos legou 60 álbuns que transitam no universo do rock (progressivo, tradicional, pauleira e cômico), jazz, música eletrônica, com incursões na música concreta e na música clássica, que culminaram em 1992, com o Frank Zappa & Ensemble Modern apresentando o antológico O Tubarão Amarelo (The Yellow Shark), que atraiu um grande público no Alte Open, em Frankfurt, Viena e Berlim, resultando num documentário dirigido por Egbert Van Hees e num állbum.
Como um artista criativo e de viés experimentalista, Zappa liderou Mothers of Invention uma banda que o acompanhou em grande parte da sua trajetória bem sucedida e irreverente, com quem participou de concertos e gravações antológicas. O grupo tinha sua própria dinâmica e uma estrutura variável, que mudava com frequência a sua composição básica, um fato natural para um artista contestador, que questionava a sociedade de consumo e a própria indústria musical.
Já a experiência para a produção e gravação do Tubarão Amarelo teve a participação do Ensemble Modern, uma orquestra formada por estudantes, os quais se definiam como "Ensemble modern der jungen Deutschen Philharmonie" e que se uniram com o objetivo de promover a execução e difusão da música contemporânea. A orquestra tem sua base em Frankfurt, na Alemanha, mas o grupo reúne 20 músicos de diversos países e que ainda hoje fazem turnês pelo mundo.
Seus contatos com Zappa começaram em 1991, quando eles pensaram em executar uma obra orquestral do artista americano para o Festival de Frankfurt. Inicialmente, Zappa mostrou pouco entusiasmo por essa ideia, mas aceitou o desafio abrindo as portas para colaboração em novos trabalhos na área experimental.
O CD "Yellow shark" com 19 músicas, reúne a maior parte do material dos três concertos realizados pelo grupo nas apresentações em Frankfurt, Viena e Berlim, com tudo gravado ao vivo e a participação do regente Peter Rundel. Os eventos resultaram num documentário antológico dirigido por Egbert Van Hees, com duração de 90 minutos.
A obra reuniu composições experimentais que marcaram toda a carreira de Zappa, um artista iconoclasta e que transitava com facilidade no universo da música experimental e clássica. Os trabalhos mais antigos da obra datam do final dos anos cinquenta e sessenta, que apareceram inicialmente em "Uncle meat" (1969) em versões de Mothers of Invention.
Já o "Tango B-bop" aparece em “Roxy and elsewhere”, de 1974, emergindo em uma versão para orquestra de câmara. Mas a maior parte das composições apresentadas foram dos anos oitenta, como música de câmara composta para execução por um pequeno grupo de instrumentos ou vozes. Neste conjunto se inclui a introdução um dificil trabalho atonal que assinalou abertura concerto
Cale lembrar ainda que outras três composições foram feitas especificamente para o concerto que foi estruturado em uma introdução, seguida de variações sobre a respiração do cachorro, de arne de cão, além da indignação com Valdez, de tempo de praia II, de III (revisado em 1992). Outro destaque ficou para o surrealista A menina no vestido de magnésio complementado pelo Tango Be-bop com nova roupagem.
O Yellow Shark inclui também o contestador Coleta de alimentos na América pós-industrial, que o próprio Zappa definiu no show como uma obra de m* sobre a alimentação numa sociedade de consumo, seguido de Rute está dormindo e mesmo de nenhuma das opções acima (1992).
O concerto é complementado por Amnerika, além de Tarde do Pentágono, de Questi cazzi di piccione, do tempo na praia III e do anárquico Bem-vindo aos Estados Unidos, sobre o tratamento dispensado aos imigrantes que desejam ingressar no sonho americano. A relação inclui Libra para um marron, Exercício , Fique branquinho (Get Whitey) e Spot Tornedo sobre o ponto ideal do tornedor, que fecha o ciclo de uma obra icônica e que marcou marcou a trajetória de um artista multimidiático que foi o único a ser incluído no Hall da Fama do Jazz e do Rock and Roll e deixou seu nome gravado nos anais da música. (Kleber Torres)
domingo, 16 de abril de 2023
A rota da seda ou uma senda entre a liberdade e o crime ?
Apresentado como produto de pesquisas jornalísticas e de loucos devaneios da ficção, o filme Silk Road: Mercado Clandestino, dirigido e roteirizado por Titler Russell, de Night Stalker, tenta reconstituir a trajetória Ross Ulbricht (Nick Robinson), um filósofo na casa dos vinte e poucos anos, que constrói o site Silk Road (Rota da Seda), com o objetivo inicial de contestar os poderosos que representavam o sistema (establishment) e recuperar a liberdade perdida pelos cidadãos. No site que operava na dark web no período de 2011 a 2013, ele abre perspectivas para intermediação do comércio de drogas as mais diversas, impondo apenas restrições ética para a atuação de pedófilos e assassinos de aluguel.
Para Ulbricht, o estado não pode legislar sobre o que as pessoas podem ou não fazer, seria uma espécie de garantia para os direitos fundamentais propostos na primeira emenda da Carta Magna dos Estados Unidos, que pressupõe a liberdade de culto, de expressão e livre associação pacíficas. Estes direitos básicos são uma cláusula pétrea e não podem ser alterados nem mesmo pelo Congresso Americano.
Enquanto amealha uma verdadeira fortuna de milhões de dólares e conquista parcelas do mercado intermediando inclusive o comércio de drogas, Ulbricht acaba se deparando com Rick Bowden (Jadson Clarke), um policial veterano, transferindo para a geladeira da Divisão de Crimes Cibernétcos de Los Angeles, o qual sem muita relação com a tecnologia digital, vai as ruas em busca de informações através de seus informantes e acaba descobrindo sobre uma espécie de Amazon – a maior rede de varejo comercial da Internet e que opera em escala global - para as drogas. Silk Road opera com um sistema de transações criptografadas, que funciona como uma espécie de capa de invisibilidade digital das suas operações e usando como moeda bitcoins.
Desinformado sobre como funciona a internet, Bowden pede a um informante que lhe ensine a comprar drogas através do Youtube, Este lhe aponta o Silk Road, que funciona na web profunda, abrindo uma rota para a sua investigação particular. O filme mistura a vida do policial e sua família e também do hacker lançador do empreendimento digital/criminal.
Ross Ulbricht é filho de uma família de classe média alta. Ele negocia drogas pela rede mundial de computadores e diz que usa a internet como instrumento político e de libertação. Como empreendedor, a sua preocupação maior era com a satisfação do cliente. O empresário/traficante avalia e atualiza permanente o sistema operacional do site e o divulga através de fóruns de bate papo (chats).
Em função da popularização do Silk Road, ele acaba concedendo uma entrevista a um jornalista – o que na vida real abriu as investigações pelo FBI em parceria com policiais de diversos estados americanos –, onde diz que apesar de comercializar drogas, o site não tem espaço para pedófilos e assassinos, além de fazer apologia do crescimento dos negócios, da qualidade dos produtos e garantia de entrega para os usuários.
Já o detetive acaba convocado para ajudar a força tarefa do FBI que investiga a Silk Road. Como ele não tem noções sobre tecnologia da informação e acredita nos métodos tradicionais de investigação analógica, o chefe da operação lhe recomenda que “quando a gente pegar ele, me mande um fax”. Ao se infiltrar na deep web, Bowlder faz contato com o jovem empresário dizendo que quando ele viesse a Los Angeles o avisasse, pois, lhe apresentaria ao tráfico de verdade e ao movimento das ruas.
O empresário e distribuidor de drogas que comercializa crack, maconha, anfetamina, anabolizantes, opiáceos e outros produtos justifica para o policial que a compra de drogas no seu site é melhor e mais seguro do que o comércio das ruas, “esta é a minha comunidade e eu me preocupo com ela”, argumenta,
Usando seus métodos poucos convencionais como um policial experimentado no combate ao trafico de drogas, o detetive chega a Curtis (Paul Walter Houser), um nerd, que opera os controles da Silk Road. Ao ser interrogado, ele admite que o site funciona como uma empresa global, que cresce de hora a hora e diz : “eu sou o cara que tem acesso à conta de garantia”. Curtis também faz saques de bitcoins na conta da empresa e transferiu os recursos para o policial, que os utiliza para pagar contas da própria família e educação da filha.
Se apresentando na rede como Nob, o detetive também entra em contato com Ulbricht preocupado com o desaparecimento de Curtis, a quem manda interrogar e espancar pensando estar tratando com um traficante da pesada. Em seguida, ele determina a Nob que liquide o ex-empregado, que é fotografado com a boca cheia de macarrão e com os olhos fechados como se estivesse morto. As provas da encomenda do crime foram usadas no processo que resultou na condenação do empresário/traficante a duas prisões perpetuas no final do julgamento do processo.
Como o cerco do FBI aperta com a identificação do IP do computador de Ulbricht, Bowden lhe ordena para que apague as conversas que tiveram na rede de computadores. Preso, o empresário/traficante lembra que construiu um site onde as pessoas podiam comprar e vender qualquer coisa que quisessem, “fiz isso por considerar a busca pela liberdade o empreendimento mais nobre, mas sabia que estado tentaria impedir”.
O detetive também é preso e condenado a seis anos e meio de prisão pelo desvio de recursos do empreendimento criminoso para sua conta pessoal e admite no final, que a vida nem sempre é em preto e branco, até porque as coisas são sempre complicadas, afinal há sempre o bem e o mal e cada um tem de fazer uma escolha.
Já Ross Ulbricht descobre, no final das contas, o peso e os rigores da lei, e, alegando que quando você dá liberdade para s pessoas, elas não sabem o que fazer com ela, pediu ao juiz um pouco de clemência para a sua velhice tentando vislumbrar uma chance futura de liberdade. Ele foi condenado a prisão perpétua em 2015, sem chances de condicional(KLEBER TORRES)
Ficha técnica:
Título : Silk Road / Silk Road : mercado clandestino
Direção e Roteiro : Titler Russel
Elenco : Jadson Clarke, Nick Robinson, Katie Aselton. Jimi Simpson, Daniel davdison Stewart, Darrel Britt-Gibson, Lexie Rabe, Will Ropp, Paul Walter Hauser, Alexandra Ship e Jennifer Yun
Direção fotografia : Peter Flinckenberg
Edição : Greg O’Bryant
Música : Mondo Boys
Gênero : Drama, Suspense, Policial
116 minutos
2021
Cry Macho não tem choro, mas uma reflexão sobre a vida, a velhice e o mundo dos cowboys
Decididamente Cry Macho: o caminho da redenção (2021) não é o melhor filme de Clint Eastwood – ganhador de quatro Oscars e autor de filmes antológicos como Imperdoáveis, Menina de Ouro, Sobre Meninos e Lobos, Cartas de Iwo Jima e J.Edgard (Hoover), mas é sem duvida o mais humano, dirigido com competência por um homem aos 91 anos e que também é o personagem central da trama, o cowboy Mike Millo (Clint Eastwood). Certa vez, dialogando com um amigo, ele confessou que o segredo da sua vitalidade era não deixar o velho entrar no seu dia a dia, o que é um exemplo para todos nós.
O filme revela a história de um cowboy decadente, ganhador de cinco prêmios nacionais em rodeios, que é envelhece e é também vítima de circunstâncias adversas da própria via como um acidente que matou a mulher e o filho, acelerando a própria decadência agravada pela bebida e até mesmo pelo vício em drogas. Em Cry Macho, o cowboy que tem como missão resgatar um adolescente rebelde Rafo (Eduardo Mineti), que vive em companhia de uma mãe alcoólatra no México a pedido do seu pai Howard Polk(Dwigth Yoakam), um rancheiro texano, que vive nos Estados Unidos, iniciando uma série de incidentes e perseguições.
Tudo começa quando Howard Polk demite o cowboy campeão e que cuidava dos seus cavalos, dizendo que ele estava velho e atrasado para esvaziar a sua sala. Como resposta, Mike Milo responde: “eu sempre achei você um homem fraco, pequeno e covarde, mas sabe não vou não vou querer ser grosseiro você”. Um ano depois, esse mesmo patrão o procura em sua casa e pede para que ele resgate seus filho que está com a mãe no México. Mas não revela que por trás da disputa, também estão os bens do casal, que ficaram em parte em poder da ex-mulher.
O cowboy vai até a casa de Leta (Fernanda Urrejola) e ela lhe conta que a sua missão é quase impossível. O primeiro enviado está mofando na cadeia e o segundo, simplesmente foi embora e desistiu da missão. A mulher recomenda a Mike que o melhor a fazer seria partir e esquecer, até porque o filho de uma família disfuncional como o seu “é um animal que vive na sarjeta, participando de brigas de galo.” Com esta informação o cowboy procura e acaba encontrando o adolescente numa rinha esvaziada depois de uma blitz da polícia no local.
Mike explica a Rafo que foi mandado pelo pai para levá-lo para os Estados Unidos, onde o mesmo tem um rancho no Texas. O menino tem um galo, o Cry Macho, que dá nome ao filme sem nenhuma metáfora e o acompanha por todos os lugares, sendo em paralelo um personagem não humano importante na história, atacando pessoas que tentam qualquer coisa contra o jovem e participando das sequências de tensão e violência.
Já a mãe, ao ser informada por Mike de que havia encontrado o adolescente para levá-lo aos Estados Unidos, ameaça chamar os federais denunciando que o filho foi sequestrado e lhe deu um prazo de cinco minutos para que o cowboy deixasse o filho e país, o que deflagraria uma série de perseguições e fugas da dupla, que acaba se escondendo por um período no interior do México até chegar à fronteira americana.
O filme faz referências ao mito do cowboy, conhecido pela coragem, lealdade, companheirismo, capacidade de luta, autossuficiência, resiliência, gentileza com as mulheres e até mesmo no trato humanizado para com os animais. Há também embutida na história uma crítica explicita ao machismo e à misoginia. Outra referência é quando o adolescente pede para usar o chapéu do vaqueiro e ele não o oferece alegando que ele ainda não era um cowboy.
Numa discussão banal entre os dois, Rafo alerta que “você fica muito irado e isso não é bom para uma pessoa de sua idade”. Num bar, o menino pede uma tequila e é impedido de beber pelo cowboy, mas quando os dois saem um homem tenta sequestrar o garoto no estacionamento, mas é impedido por uma intervenção do cowboy e do galo, mas quando um grupo de mexicanos vem em socorro do agressor, o menino revela ao grupo que ele é que estava sendo sequestrado.
Os dois fogem e novamente são perseguidos por federais e depois têm até a pick-up roubada por ladrões, acabando numa pequena cidade mexicana onde conseguem um outro veículo e daí chegando no restaurante de Marta numa vila distante, que os atendeu e fechou o estabelecimento ao estranhar a presença dos federais na localidade e que estavam na captura dos dois fugitivos.
Ele não só remunera Marta pelas refeições, como faz comida em sua casa, lembrando que “eu vim aqui para trazer coisas e não tirar a comida de ninguém”. Enquanto está na pequena cidade, ele ensina a Rafo a ser cowboy, a domar e montar cavalos selvagens. Também é procurado pelos moradores da comunidade para tratar de porcos, patos, gatos e cachorros. No caso do animal da mulher do subdelegado que o procurou, ele contou: ”trato dos animais, mas não sei como curar a velhice, mas o que seu animal precisa é repouso e ele pode dormir no pé da cama de vocês”.
Mike conta para Rafo que a sua mulher morreu em um acidente e que daí, ele surtou, bebeu demais, ficou sem rumo na vida e o seu pai o salvou lhe dando um trabalho e devolvendo a sua vida e “você é minha retribuição”. Como num filme de ação, os dois são perseguidos também por policiais corruptos, em busca de drogas no carro em que viajavam e há um relacionamento afetiva entre Mike e Marta.
Para Rafo, que critica Mike Milo pela idade em diversas partes do filme, ele já foi bom, diz referindo-se à velhice do personagem, mas “agora é fraco, não é nada”, ao que o cowboy responde: “eu costumava ser muita coisa, e agora, não sou. Esta coisa de macho é relativa.“ Cry Macho é uma reflexão profunda de um cineasta experiente a partir de um romance de N.Richard Nash. Também nos deixa um ensinamento afinal, todos têm de fazer uma escolha na vida e isso implica até a opção de redescobrir o amor na velhice que parece precedente à morte. (Kleber Torres)
Ficha técnica :
Título : Cry Macho / Cry Macho: o caminho da redenção
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Nick Schenk e N. Richard Nash
Elenco: Clint Eastwood, Eduardo Minett, Dwight Yoakam, Fernanda Urrejola e Natália Traven
Fotografia: Don Davis
Editor : Joel e David Cox
Gênero : Drama
Estados Unidos
104 minutos
2021
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