sábado, 13 de fevereiro de 2016

Na arte nada se cria e tudo se copia, afinal tudo é permitido nas asas da invenção





Considerado por muitos como um remake diferenciado de  Shane (Os Brutos também Amam), um clássico de 1953, dirigido por George Stevens, Pale Rider (O Cavaleiro Solitário) é muito mais. Ele aparece em realidade como uma releitura mais violenta e dinâmica do seu referencial cinematográfico, com uma série de coincidências e homenagens – com cenas apresentando uma grande similaridade inclusive no final do filme - a um roteiro premiado e que conquistou um Oscar e várias indicações há seis décadas, uma prova de que na arte nada se cria e tudo se copia, afinal tudo é permitido nas asas primorosas da invenção.
O Cavaleiro Solitário é um filme estadunidense de 1985, também do gênero western, dirigido e estrelado por Clint Eastwood. Cabe lembrar que nesta releitura e recriação, o título é uma referência escatológica ao quarto cavaleiro do Apocalipse, aquele que cavalga um cavalo pálido (Pale Rider) e se que chama Morte, fechando um ciclo e construindo uma nova metáfora que se ajusta ao universo dos filmes de cowboys, marcados pela violência e pela solidão dos seus protagonistas sempre mostrados como cavaleiros errantes, defendendo a justiça e a liberdade, combatendo em prol dos fracos e oprimidos.
Diferentemente de Shane, que foi baseado numa história real, a partir de um confronto entre grande latifundiários que enfrentaram  pequenos posseiros, Pale Rider tem como pano de fundo uma disputa entre mineiros que enfrentam um empresário poderoso, aético e sem nenhum escrúpulo. O Cavaleiro Solitário foi Filmado em Boulder Mountains e na área de recreação do Sawtooth National em Idaho.
A história neste caso é centrada no  conflito entre um grupo de mineiros pobres, que enfrentam um poderoso empresário urbano. O conflito se aguça com a chegada de um forasteiro que chega desarmado e vestido como um pregador religioso de poucas palavras, com uma batina surrada, que assume a defesa dos mineiros ameaçados por uma gangue de arruaceiros e pistoleiros de aluguel.
No filme as atitudes e emoções de Eastwood são reveladas em detalhes através gestos e olhares, a partir de uma série de closes  e a crise se agudiza com a chegada de um delegado contratado para reprimir o pregador e aos mineiros. O estranho pregador também divide as atenções e a paixão até certo ponto platônicas com a mulher e a filha de uma das lideranças dos mineiros, com quem passa a morar durante o período em que esteve na comunidade.
Alguns críticos consideram ainda que o pregador seria um vingador que teria ressurgido dos mortos, aparecendo como um personagem  sobrenatural que volta do túmulo para confrontar quem o assassinou – o delegado e seus pistoleiros vestindo pesadas capas-, daí a sua associação com um cavaleiro pálido (Pale Rider) que representa a morte e vem montado sobre ela, também numa metáfora já destacada.
Com roteiro de Michael Butler. o filme concorreu vários prêmios e indicações como a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1985 e competiu na premiação de jovens artistas dos Esrados Unidos pela performance excepcional de uma jovem atriz Sydney Penny, que no final a exemplo do menino de Shane, pede para que o pregador volte e na certeza que isso não iria acontecer, enquanto o cavaleiro se afasta, ela agradece, lembrando que todos – inclusive ela – o amavam. (Kleber Torres)

Ficha técnica
Pale Rider (O Cavaleiro Solitário)
Direção        Clint Eastwood
Roteiro:      Michael Butler.
Roteiro         Michael Butler
Elenco:         Clint Eastwood, Michael Moriarty, Carrie Snodgress
Género         western
Estados Unidos

1985 •  Cor •  116 min

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Shane uma referência para filmes, desenhos animados e quadrinhos








Ninguém discute que Shane (Os Brutos Também Amam) é um clássico do faroeste e está classificado entre os 50 melhores filmes da história do cinema, servindo de referência para filmes como Pale Raider (Cavaleiro Solitário), séries de televisão, tiras de quadrinhos, desenhos animados e sequências de filmes como Por uns Dólares a Mais e Os Bons Companheiros.  O  produzido e dirigido por George Stevens, foi rodado em 1953, a partir de  roteiro é de A.B. Guthrie Jr., adaptado de uma novela homônima de 1949 escrita por Jack Schaefe, que se baseou numa história real.
Clint Eastwood dirigiu em 1985, uma releitura de Shane, ccom Pale Rider, que conta uma história similar e termina com a adolescente agradecendo ao cowboy e dizendo que “nós o amamos”, bem similar ao “volte Shane!” do garoto do filme homônimo. O ponto em comum entre as duas produções é que elas foram bem cuidadas, enquanto a versão de Clint Eastwood apresenta uma dinâmica mais acelerada e incorpora um maior número de cenas de violência.
Shane aparece ainda numa série de televisão de 1966, interpretado por David Carradine e serviu como referência para Sergio Leone no filme Per qualche dollaro in più (Por uns dolares a mais), em que presta  uma homenagem ao filme classico numa sequência em que Shane foi visto atirando pelo garoto, escondido no interior de um bar.
Há referencias ainda ao filme em uma tira de Snoopy, de Charles Schulz, numa história em que o cãozinho se veste de cowboy, dizendo Volte Shane!. Nos quadrinhos do X-Men Ultimate, Tempestade compara o nômade Wolverine com Shane, que andava de cidade em cidade, corrigindo erros.
Cabe lembrar ainda, que Shane foi mencionado como o melhor filme para Al Budy, no seriado de televisão Married with Children e há outra referência numa série de televisão do Batman, em que Cliff Robertson interpreta um vilão chamado "Shame" (Vergonha), um trocadilho que se parece Shane. Para completar a sutileza da crítica a sua indumentária  é uma cópia da de Shane, e um garoto diz: “Come back, Shame!”, quando Batman o leva para a prisão.
Sinopse
O filme de 1953 narra a história do cowboy chamado Shane (Allan Ladd), que chega a uma região de pequenos sitiantes que enfrentam grandes proprietários de terras num vale do Wyoming e logo se envolve no conflito fundiário com criadores de gado em áreas de pastagem  extensiva.
Shane,  aceita trabalhar na pequena fazenda de Starret (Van Helfin), que também atuava como uma liderança dos pequenos produtores e  é atraído pela esposa de Starret, a charmosa Marian (Jean Arthur). O filho do casal, Joey, passa a admirar Shane após descobrir um cinturão com duas pistolas, que o cowboy havia escondido e ao descobrir a  sua habilidade no uso  das armas.
O conflito aumenta de intensidade quando Ryker, contrata o pistoleiro Jack Wilson (Jack Palance) na tentativa de pressionar e intimidar os  pequenos agricultores, o que resulta na morte de um dos produtores. Joe Starrett tenta se vingar, mas é impedido por Shane, que o derrota numa luta e  vai para o duelo contra Wilson, seguido pelo garoto.
A história embora seja considerada uma obra de ficção, se baseia num episódio verdadeiro conhecido como a Guerra do Condado de Johnson, no Wyoming, onde foram realizadas partes das filmagens.  O filme conquistou o Oscar 1954 (EUA), na categoria de melhor fotografia colorida, mas foi também ondicado nas categorias de melhor ator coadjuvante (Brandon De Wilde – o garoto - e Jack Palance), melhor diretor, melhor filme e melhor roteiro adaptado. (Kleber Torres)

Ficha Técnica
Os Brutos Também Amam (Shane)
Direção George Stevens
Roteiro A.B. Guthrie Jr.
Elenco   Alan Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Jack Palance, Ben Johnson
Género:               faroeste
Estados Unidos
1953 •  cor •  118 min

Idioma  inglês

domingo, 24 de janeiro de 2016

O curto espaço entre a vida e a morte através da eutanásia



A questão da ética e da eutanásia é o tema central do filme You Don't Know Jack  (Você Não conhece o Jack), um telefilme norte-americano  de 2010, dirigido por Barry Levinson e exibido pelo canal HBO, que voltou a reprisá-lo nos últimos dias. O  filme, que conquistou vários prêmios,  mostra a luta de Jack Kevorkian, o Doctor Death (Doutor Morte), um profissional de origem armênia e da área da saúde, em defesa da eutanásia assistida por um médico, mas que acaba condenado por homicídio, um tema polêmico e que diz respeito a pacientes em estágio terminal que poderiam optar entre a continuação das dores de vida sofrida ou pela a morte como descanso ? .
Na vida real, o médico coordenou a morte assistida para mais de 130 pacientes que sofriam de extrema dor ou estavam em estado terminal, a quem ajudou de forma direta a cometer suicídio, por meio de metodologia engendrada por ele com o uso de medicações e gases provocando uma morte sem dor e sem traumas por parada respiratória e falência múltipla dos órgãos. As ações eram acompanhadas sempre por familiares das vítimas e documentadas criteriosamente pelo médico.
O filme que tem o sabor de um documentário,  não só revela os bastidores do embate judicial – como também a mobilização de grupos religiosos contra a eutanásia  e a  repercussão do caso na mídia,- com ênfase para as estratégias da acusação, que ao invés de tentar condená-lo por indução ao suicídio assistido, optou no final  pela acusação de assassinato, o que resultou na sua condenação a oito anos de prisão.
Também mostra o advogado do Doutor Morte, que ganha fama com o caso e se afasta do cliente movido por ambições políticas, deixando para o médico os cuidados da sua autodefesa numa luta contra o sistema, quando o mesmo  alegou que morrer não é crime, “dying is not a crime”.
Cabe lembrar ainda, que no Estado do Michigan,  onde  se desenrola a ação do filme, a indução ao suicídio não era enquadrado como crime, o que de certa forma facilitou a defesa de Kervorkian até o momento em que passou a ser acusado de homicídio e acabou sentenciado por uma juíza parcial, que impediu depoimentos de testemunhas.
 O próprio médico, que na época do julgamento tinha 70 anos e lamentava a perda da sua companheira, a irmã,  também errou na sua defesa ao não incluir no processo como co-autores do homicídio e possível crime os familiares das vitimas, que haviam acompanhado a morte de um dos pacientes por ele assistidos.
Al Pacino  foi  premiado por seu desempenho no papel de Kevorkian com um Emmy Award. O filme teve várias indicações inclusive para o diretor Barry Levinson, sendo indicado para quinze prêmios Emmy, vencendo em melhor ator (Al Pacino) e melhor roteiro (Adam Mazer). Pacino também foi premiado com o Globo de Ouro, SAG e Satellite Awards. Neste último, a atriz Brenda Vaccaro, que desempenhou o papel da sua irmã,  foi premiada como melhor atriz coadjuvante e tendo como outra protagonista Susan Sarandon, com um excelente desempenho dramático.
Cabe lembrar ainda que You Don't Know Jack  foi baseado em fatos reais, e que parte do roteiro foi extraída do livro “Between the Dying and the Dead: Dr. Jack Kevorkian's Life And The Battle To Legalize Euthanasia" de Neal Nicol, assistente de Kevorkian e que no filme foi interpretado por John Goodman. (Kleber Torres)


Ficha técnica
Título : You Don't Know Jack  (Você Não conhece o Jack),
Direção: Barry Levinson
Roteiro : roteiro (Adam Mazer
Elenco Al Pacino, John Goodman, Brenda Vaccaro,  Susan Sarandon, Danny Huston, Cotter Smith, David Wilson Barnes, Eric Lange e Rondi Reed
Origem : EUA

Ano : 2010

sábado, 16 de janeiro de 2016

Quando o crime compensa e pode ser até premiado









Sim, o crime compensa, pelo menos em Colour Me Kubrick (Totalmente Kubrick), um filme franco-britânico de 2006, estrelado pelo excelente  John Malkovich no papel de Alan Conway, aliás Eddie Alan Jablowsky, um estelionatário que se passava pelo cineasta Stanley Kubrick aplicando golpes continuados em pessoas incautas, que estavam em busca do sucesso e da fama. O fato em comum entre todas as vitimas é que ninguém se arriscava a denunciar ou admitir a fraude para não passar como otário, com medo da repercussão negativa do noticiário, o que  provocaria o seu descrédito diante do público, com danos à própria imagem pessoal.
Considerado uma  comédia dramática dirigida com competência por Brian  Cook, e assinada pelo roteirista Anthony Frewin, conta a história verdadeira de um homem que se passava pelo diretor Stanley Kubrick durante a produção  do seu último filme, De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), ocorridas em Londres no período de 1998 e 1999,  a despeito de saber muito pouco sobre o seu trabalho e não saber quase nada sobre a sua vida pessoal.
O fato é que Conway fingindo ser o recluso diretor Stanley Kubrick, entrava em festas, restaurantes e badalados clubes noturnos da capital inglesa, onde circulava com desenvoltura num crescendo de golpes sucessivos. O caso começou a ser investigado por um jornalista que tentava desmascarar o golpista e chegou a informar ao cinesta e à polícia, que começou a investigar o caso, mas esbarrava na barreira de silêncio das vitimas.
Alcoolatra e homossexual, Conway  conseguia ludibriar motoristas de taxi, integrantes de uma banda de hard-rock, pequenos e médios empresários a quem prometia aval e facilidades de investimentos, além de artistas a que se propunha a promover, mas sempre seguindo a lei máxima de Gérson para levar vantagem em tudo. O estelionatário descobre porém uma saída, alegando não saber quem era, buscando apoio nas asas da psiquiatria e da psicanálise, o que lhe vale citação num estudo em revista especializada de psiquiatria e até internação numa clinica para celebridades, que recebia ricos e famosos.
Cabe salientar ainda, que este foi o primeiro longa dirigido por Brian Cook, que foi diretor assistente de Kubrick em diversas produções, como "Barry Lyndon", "O Iluminado" e "De olhos bem fechados". No filme  ele faz propositadamente  uma série de referências à obra de seu mestre, incluindo trilha sonora de seus filmes mais conhecidos, fechando em chave de ouro  com um final compatível  de um filme com a assinatura de Kubrick.
Conway faleceu apenas poucos meses depois de Kubrick em 1999 e só não continuou a sua farsa porque foi desmascarado numa matéria com ampla repercussão da revista Vanity Fair. Na vida real, ele  assumiu as mentiras num programa de tv chamado The Lying Game, o jogo da mentira?  (Kleber Torres)


Ficha Técnica
Título : Colour Me Kubrick  / Totalmente Kubrick
Direção  - Brian W. Cook 
Roteiro : Anthony Frewin
Elenco -  John Malkovich, Jack Ryan, James Dreyfus, Leslie Phillips, Linda Bassett, Marisa Berenson, Robert Powell, Sam Redford, Tom Allen
Produção: Brian W. Cook, Michael Fitzgerald
Fotografia: Howard Atherton
Trilha Sonora: Bryan Adams
Duração: 86 min.

Origem – Inglaterra e França

A violência da Laranja Mecânica












 A violência sem limites envolvendo questões como a delinquência juvenil, gangues de rua e o poder do estado, com os seus problemas econômicos, sociais e políticos numa sociedade futurista, mas atuando através seus instrumentos de controle e repressão totalitários estão no cerne de Laranja Mecânica (Clockwork Orange),  um filme anglo-americano de 1971, escrito, produzido e dirigido pelo perfeccionista Stanley Kubrick, adaptado do romance distópico de Anthony Burgess, com o mesmo nome e publicado uma década antes. O filme também utiliza imagens violentas e perturbadoras  relacionadas com experiências comportamentalistas (behavioristas) e à lavagem cerebral.
Laranja Mecânica mostra a vida do sociopata Alex DeLarge, interpretado por Malcolm McDowell), como líder  carismático de uma quadrilha de delinqüentes juvenis, que não trabalha, mas tem entre as suas preferências ouvir música clássica, praticando em profusão os roubos, o estupro e violência pela violência, com o uso de um taco de beisebol ou da sua inseparável bengala. A gang é integrada por Pete (Michael Tarn), Georgie (James Marcus) e Dim (Warren Clarke) a quem ele chama de drugues como  resultado da fusão da palavra russa друг, que é equivalente a amigo, brother ou camarada.
A história começa mostrando uma sequência de crimes hediondos praticados pela quadrilha de Alex em uma Londres futurista e sombria. Os quatro amigos depois de se intoxicarem com "leite-com" (leite com drogas), se envolvem em mais uma noite de violência pela violência, ora espancando um sem-teto idoso ou depois brigando com uma gangue rival liderada por Billyboy.
Depois, o grupo rouba um carro, e vai até a  casa do escritor Frank Alexander (Patrick Magee), no fim de uma estrada vicinal, a quem agridem com violência deixando-o inválido e para sempre em numa cadeira do rodas. Alex em seguida estupra a sua mulher, que morre algum tempo depois em conseqüência da agressão, enquanto canta Singin' in the Rain, tema musical de Cantando na Chuva, com Genny Kelly.
Alex é depois visitado por seu conselheiro correcional, que o adverte sobre a sua saga de crimes e dos riscos de voltar à prisão. Logo depois, ele vai a uma loja de discos onde encontra duas garotas, Sonietta e Marty,  a quem convida para uma bacanal no apartamento da sua família. À noite, após  um desentendimento com os sócios descontentes com a sua liderança e cobrando uma maior participação na partilha dos crimes, Alex se impõe mais uma vez pela violência e o grupo parte para assaltar uma mansão.
Enquanto seus companheiros permanecem na porta da frente atraindo a atenção da vitima, Alex invade o imóvel por um acesso lateral e mata a mulher com uma estátua fálica, numa cena de apelo sexual e de violência exacerbada. Ao pressentir a chegada  da polícia, Alex ainda tenta fugir, mas um dos parceiros o fere com garrafa de leite jogada no seu rosto, o que o deixa atordoado e sangrando. Ao ser julgado ele foi condenado a 14 anos de prisão.
A história é narrada em Nadsat, um calão que reúne um conjunto de gírias dos adolescentes formadas por corruptelas de idiomas eslavos, em especial do russo, misturado com o  inglês e o cockney, um dialeto dos moradores da zona leste de Londres. Assim, a expressão Clockwork Orange, não implica apenas na tradução literal  Laranja Mecânica, mas de um homem mecânico um robô, uma vez que no Nadsat, orange significa duplamente laranja e homem.
Outro destaque do filme antológico e que concorreu a quatro Oscars em 1972, ficando com o de melhor diretor para Stanley Kubrick e conquistando dois Globos de Ouro do mesmo ano, sendo um para o diretor inglês e o de melhor ator para Malcolm McDowell, fica para a rica  trilha sonora, considerada um dos pontos altos da Laranja Mecânica, reunindo uma ampla seleção de músicas clássicas e composições com sintetizador Moog produzidas por  Wendy Carlos.
Durante o  cumprimento de sua sentença, Alex encontra com o Ministro do Interior vai  à prisão em busca de cobaias para uma terapia experimental visando a reabilitação de criminosos contumazes dentro de duas semanas, através do tratamento não hortodoxo do Ludovico. Na tentativa de reduzir a pena e ganhar as ruas Alex  se candidata a um  processo de lavagem cerebral com o uso de drogas sensibilizantes, enquanto o paciente ficava amarrado em uma cadeira, com os olhos abertos – o equipamento é similar aos usados nas cirurgias oftálmicas-,  assistindo a sessões continuas e intermináveis de cenas de violência em campos de concentração, nos campos de batalha, em revoluções, ou meso através de homicídios e estupros isolados, mas tendo como fundo musicas selecionadas entre as preferidas do paciente.
Ao ser solto após o tratamento Ludovico, ele descobre que seus bens foram confiscados pela polícia para ajudar a pagar a indenização das suas vítimas, e que até seus pais tinham alugado o seu quarto visando melhorar a sua renda familiar. A partir de então  Alex acaba tendo um encontro como todas as suas vitimas, que se aproveitam para uma possível vingança depois de reconhecê-lo formalmente.
Assim, sem teto e sem rumo, ele vagueia pelo campo e chega à casa do escritor Frank Alexander, que não o reconhece e o vê  como uma vitima de um sistema autoritário e como uma arma política para atacar o governo  ao qual se opõe. Ao ouvir Alex cantando no banheiro Singin' in the Rain ele acaba reconhecendo o algoz, de quem se vinga  tocando  Nona Sinfonia de Beethoven. Desesperado com a música que passou a odiar e que ao ouvir se sentia mal, Alex  acaba se jogando pela janela do primeiro andar e acaba ferido, ao ser removido para um hospital do governo, onde recebe um tratamento cinco estrelas, para recuperação das fraturas e sendo submetido a um tratamento de reversão, que o deixa  completamente curado fechando o ciclo dialético do  filme.
Em sua essência, Laranja Mecânica aparece como uma critica social e ao mesmo tempo como um alerta para a questão da violência, seja na sua dimensão institucional ou não, exigindo mecanismos de controle social e uma ação efetiva do estado. A história tem ainda como pano de fundo as disputas entre  conservadores e liberais, que  são iguais quando utilizam as pessoas para os fins meramente políticos, embora nem sempre os meios justifiquem tais ações ou propósitos.
O filme revela ainda ou fato preocupante: a própria imoralidade e a amoralidade de Alex, um personagem acima do bem e do mal, indiferente ao convívio social e à realidade do outro, como  reflexos  de uma sociedade doente e em crise, que aceita  a corrupção, o jeitinho, a impunidade e o uso do próprio sistema com objetivos eleitorais ou demagógicos para preservação do poder e do status quo. O filme, assim como o próprio livro, também é distópico  no seu alerta contra o totalitarismo e as facetas invisíveis de um estado gigantesco e que emerge como um Leviatã hobbesiano. (Kleber Torres)

Ficha técnica
Titulo – Laranja Mecânica / Clokwork Orange
Direção : Stanley Kubric
Música : Wendy Carlos
Elenco: Malcolm McDowell — Alex DeLarge, Patrick Magee — Sr. Alexander,
Warren Clarke — Dim, Adrienne Corri — Sra. Mary Alexander, Miriam Karlin — Mulher-Gato, James Marcus — Georgie, Sheila Raynor — Mãe,  Anthony Sharp — Ministro do Interior, Philip Stone — Pai, Pauline Taylor — a psiquiatra Dra. Taylor, Michael Tarn — Pete, Richard Connaught — Billyboy, Líder de gangue
Ano : 1971

Origem : EUA – Inglaterra

Quando o crime compensa e é até premiado







Sim, o crime compensa, pelo menos em Colour Me Kubrick (Totalmente Kubrick), um filme franco-britânico de 2006, estrelado pelo excelente  John Malkovich no papel de Alan Conway, aliás Eddie Alan Jablowsky, um estelionatário que se passava pelo cineasta Stanley Kubrick aplicando golpes continuados em pessoas incautas, que estavam em busca do sucesso e da fama. O fato em comum entre todas as vitimas é que ninguém se arriscava a denunciar ou admitir a fraude para não passar como otário, com medo da repercussão negativa do noticiário, o que  provocaria o seu descrédito diante do público, com danos à própria imagem pessoal.
Considerado uma  comédia dramática dirigida com competência por Brian  Cook, e assinada pelo roteirista Anthony Frewin, conta a história verdadeira de um homem que se passava pelo diretor Stanley Kubrick durante a produção  do seu último filme, De Olhos Bem Fechados (Eyes Wide Shut), ocorridas em Londres no período de 1998 e 1999,  a despeito de saber muito pouco sobre o seu trabalho e não saber quase nada sobre a sua vida pessoal.
O fato é que Conway fingindo ser o recluso diretor Stanley Kubrick, entrava em festas, restaurantes e badalados clubes noturnos da capital inglesa, onde circulava com desenvoltura num crescendo de golpes sucessivos. O caso começou a ser investigado por um jornalista que tentava desmascarar o golpista e chegou a informar ao cinesta e à polícia, que começou a investigar o caso, mas esbarrava na barreira de silêncio das vitimas.
Alcoolatra e homossexual, Conway  conseguia ludibriar motoristas de taxi, integrantes de uma banda de hard-rock, pequenos e médios empresários a quem prometia aval e facilidades de investimentos, além de artistas a que se propunha a promover, mas sempre seguindo a lei máxima de Gérson para levar vantagem em tudo. O estelionatário descobre porém uma saída, alegando não saber quem era, buscando apoio nas asas da psiquiatria e da psicanálise, o que lhe vale citação num estudo em revista especializada de psiquiatria e até internação numa clinica para celebridades, que recebia ricos e famosos.
Cabe salientar ainda, que este foi o primeiro longa dirigido por Brian Cook, que foi diretor assistente de Kubrick em diversas produções, como "Barry Lyndon", "O Iluminado" e "De olhos bem fechados". No filme  ele faz propositadamente  uma série de referências à obra de seu mestre, incluindo trilha sonora de seus filmes mais conhecidos, fechando em chave de ouro  com um final compatível  de um filme com a assinatura de Kubrick.
Conway faleceu apenas poucos meses depois de Kubrick em 1999 e só não continuou a sua farsa porque foi desmascarado numa matéria com ampla repercussão da revista Vanity Fair. Na vida real, ele  assumiu as mentiras num programa de tv chamado The Lying Game, o jogo da mentira?  (Kleber Torres)


Ficha Técnica
Título : Colour Me Kubrick  / Totalmente Kubrick
Direção  - Brian W. Cook  
Roteiro : Anthony Frewin 
Elenco -  John Malkovich, Jack Ryan, James Dreyfus, Leslie Phillips, Linda Bassett, Marisa Berenson, Robert Powell, Sam Redford, Tom Allen
Produção: Brian W. Cook, Michael Fitzgerald
Fotografia: Howard Atherton
Trilha Sonora: Bryan Adams
Duração: 86 min.
Origem – Inglaterra e França

Ano - 2006

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Uma coleção visível da crise do cacau e seus desdobramentos






O impacto da vassoura de bruxa, praga que dizimou as plantações de cacau do sul da Bahia e desestruturou a cadeia produtiva é o pano de fundo do filme A Coleção Invisível (2012), conquistando vários prêmios no Brasil e no exterior.  A crise afetou 250 mil trabalhadores rurais que ficaram desempregados e se deslocaram para a periferia das cidades,  gerando problemas de desestruturação familiar, prostituição e aumento da violência urbana.
A doença – que segundo alguns teria sido introduzida criminosamente na região, o que não é evidenciado no filme - , também empobreceu 30 mil produtores, como Samir Luedy, interpretado por Walmor Chagas, que tem uma excelente  interpretação no seu último filme, sob a direção do cineasta franco-baiano Bernad Atal, antes de uma morte abrupta e brutal.
Tudo começa quando Beto (Vladmir Brichta), um jovem atravessa uma crise pessoal e financeira familiar que o leva a viajar pela região cacaueira, mais precisamente em Itajuípe, em busca de colecionadores de obras de arte para ampliar o faturamento da loja de antiguidades da família. A sua vida muda partir do encontro com um velho colecionador de arte, Samir Luedy, que vivia recluso na velha e decadente fazenda Mundo Novo, a qual vai se transformando num monte de ruínas,  mudando a sua visão da realidade.
Apesar das barreiras para chegar ao fazendeiro, criadas pela mulher e pela filha do colecionador Ludmila Rosa (Saada) acaba se desenvolvendo uma relação de amizade entre Beto e Samir, que vivem um intervalo de tempo entre duas gerações que se interpõem e se completam. Beto irá descobrir um segredo guardado no tempo e Samir, um cacauicultor empobrecido e que mantém uma fortuna preciosa de desenhos de grandes artistas, a exemplo de raridades de Cicero Dias, o que fará reencontrar-se com sua própria história familiar como vendedor de obras de arte e com o amor.
A crise do cacau é retratada numa fala de Saada ao lembrar que em função da praga tudo começou a desaparecer da fazenda, que foi ficando vazia, perdendo os lustres, as coisas da casa, bem como cristais e porcelanas, por certo vendidos para garantir o sustento da família e o pagamento dos trabalhadores que restaram. Já Samir, na sua decadência descobriu o óbvio: nunca fora um agricultor, mas um colecionador de gravuras e constata que o colecionador ainda é pior que os artistas, porque nunca estão satisfeitos e nem realizados.
O filme também trata do impacto ambiental mostrando o perígo do desmatamento na Mata Atlântica em conseqüência do avanço da praga e aponta a saída para a produção de cacau orgânico. O  roteiro da Coleção Invisível, é assinado Sergio Machado, Iriane Mascarenhas e pelo diretor Bernard Atal,  é inspirado no conto homônimo do Stefan Zweig, escritor que se refugiou no Brasil no final dos anos trinta, após o avanço do nazismo  e é autor de “Brasil, país do futuro”.
As sequências de  Coleção Invisível foram filmadas em Salvador, Itajuípe e em fazendas na região do cacau, que chegou a produzir 400 mil toneladas de cacau e a exportar nos anos 80 do século passado mais de US$ 1 bilhão. A decadência começa após a eclosão da vassoura de bruxa, uma praga devastadora que arruinou as  plantações e criou situações dramáticas na vida dos habitantes da região, gerando mortes, suicídios, perdas de fazendas para bancos e aumentando as invsões de terras, agravando os conflitos fundiários. (KLeber Torres)

Ficha técnica:
Titulo : A Coleção Invisível
Direção : Bernard Atal
Roteiro : Sergio Machado, Iriane Mascarenhas e Bernard Atal a partir de um conto de Stefan Zweig
Elenco : Vladmir Brichta (Beto),Walmor Chagas (Samir), Ludmila Rosa (Saada), Conceição Sena (Dona Iolanda), Clarissa Abujamra (Dona Clara), Paulo César Pereio (locutor de rádio)

Ano : 2011