sábado, 16 de março de 2019

Um Rio muito além do medo e acima do bem ou do mal



Ao documentário Rio do Medo, exibido pela Globonews,  caberia outro título, porque ele não se refere apenas ao Rio de Janeiro, reconhecidamente um dos estados mais violentos do país, com o registro de uma média de 6.731 mortes em 2017, o que representa uma mortalidade de 40 pessoas para cada 100 mil habitantes. O filme tem como foco a Polícia Militar, considerada uma das forças que mais mata e a que mais morre no país, com um efetivo de 47 mil homens, um terço deste total afastado das ruas para tratamento de saúde, mas registrando  no mesmo período  134 mortes, o que representa uma média de 285 mortes violentas para cada 100 mil  pessoas, ou seja, uma letalidade sete vezes maior que a do conjunto da população, indicando que ser policial no Rio é uma profissão de risco, pois cada policial tem sete vezes mais chances de morrer do que o cidadão comum.
Dirigido e roteirizado por Ernesto Rodrigues, o filme reúne um conjunto de entrevistas com policiais da reserva e da ativa, inclusive oficiais de alta patente. A ideia partiu da notícia de um aniversário de uma criança que teve como motivo da festa infantil o Bope (Batalhão de Opreações Especiais), uma tropa de elite retratada no cinema em dois filmes (Tropa de Elite 1 e 2), que hoje concentra 1,08% do efetivo da PM e é considerada preparada para o combate com uso de armas pesadas.
Entre os depoimentos  estão os  coronéis da reserva e ex-comandantes gerais da PM, Ubiratan Angelo, que veio de uma família humilde da periferia, como dançarino de funk e com cabelo black power, mas chegou ao posto mais alto da corporação e Ibis Pereira, além do coronel Vinicius Cavalieri, fundador do Bope e que por segurança orientava os filhos para não dizerem que o pai era policial militar, mas professor de educação física. Ele também tinha um pessoal lema em operação de confronto: “se uma mãe tem que chorar, que não seja a minha”.
O elenco inclui ainda médicos e psicólogos da PM ,  além de policiais da reserva como Paulo Storani, hoje consultor na área de segurança,  que terminou um namoro porque entrou na PM e a moça era contra. A relação inclui os majores Gian Carlo Sanches, Bianca Neves e Rosana Cardoso, além de Ana Fucs, Juliana Lima e Weslei Allende, que falam de suas carreiras militares e dos problemas cotidianos enfrentados nas ruas e nos quarteis. O filme revela o que leva um jovem a ingressar na PM, que recebe pessoas de todas as categoriais sociais atraídas por um emprego estável e que lhes permite ascensão social e profissional.
Um policial fala dos rigores do treinamento, o que inclui até o tapa na cara, mas que aparece como uma forma de compreender e superar o absurdo das ruas onde há o risco de confrontos com quadrilhas armadas. Outro depoimento destaca que hoje, com traficantes turbinados com armas pesadas e de grosso calibre, “enfrentamos uma guerrilha urbana, bem diferente do que foi a guerrilha do Araguaia”. Ele observa que a polícia enfrenta hoje táticas de guerrilha e bondes organizados para o combate com o apoio de carros e motos, o que lhes dá maior mobilidade.
Em síntese, a questão básica do policial é a sua sobrevivência em áreas conflagradas,  afinal, como diz um dos entrevistados, a polícia não existe para estabelecer o paraíso, mas para evitar que o inferno se instale. O coronel Ibis Pereira considera que o grande problema do momento não é o enfrentamento do tráfico de drogas, mas do tráfico de armas. Ele também defende uma ação legalista da policia no que diz respeito aos direitos fundamentais  dos que estão na outra margem da lei.
O coronel Angelo observa que os índices de homicídio mais baixos na zona sul não tem nada a ver com a polícia ou sua ação, mas é uma questão de ordem antropológica e social, a mesma que condena as pessoas que vivem na pobreza na periferia a uma morte prematura e à exclusão social: “com isso fica definido quem vai ser preso e quem vai morrer, mas não é a polícia que define isso.”  Ele atribui este problema complexo ao conjunto de fatores de ordem econômica, cultural e social, o que leva o Rio a um dos piores cenários de violência no país e no mundo, que podem a ser associados ainda à impunidade e à corrupção.
Outro policial lembra que a policia leva desvantagem no confronto com o tráfico, porque “os caras estão com fuzis importados e os PMs nas ruas de 40”. Para outro policial o filme Tropa de Elite mostra o mal para chegar ao bem a partir de fatos reais. Também revela que duas escolas de samba já saíram nos carnavais cariocas com fardas do Bope. Outro PM revela que anda armado 24 horas por dia e não dispensa o seu revólver quando dorme, com a arma ao lado da cama sempre ao alcance da mão.
Além da elevada mortalidade em confrontos, a PM também registra um alta taxa de suicídios e é para um psicólogo da corporação, uma profissão socialmente invisível, que não é valorizada pela comunidade. A lição que fica é que   “PM é igual criança, longe dá saudade, perto incomoda”, como afirma um oficial linha dura em seu depoimento, o filme vale para uma reflexão sobre o tema e um debate sobre uma questão complexa, que envolve a segurança de todos nós, no momento em que se fala da desmilitarização da PM e de mudanças no sistema de relações com a polícia civil, que funciona como uma espécie de polícia judiciária.(Kleber Torres)

sábado, 9 de março de 2019

Paprika uma viagem onírica além do universo real



Ninguém distingue o que é realidade ou ficção, nem o onírico ou o real em Paprika (Papurika), um filme japonês animado  policial e de ficção cientifica produzido em 2006 e dirigido pelo cineasta Satoshi Kon, já falecido em consequência de um câncer de pâncreas aos 46 anos, mas que nos legou cinco  filmes -um deles inacabado –  e uma série, sendo o mais famoso deles  Perfect Blue. Paprika teve  o roteiro  baseado no livro de mesmo nome  de Yasutaka Tsutsui, tendo como referência o roubo de um aparelho – DC Mini - que permite aos terapeutas entrarem nos sonhos dos pacientes para  ajudá-los na solução de problemas ou traumas psicológicos.
A trilha sonora foi assinada por Susumu Hirasawa e a  primeira a usar  Vocaloid, ou seja, o recurso de cantoras virtuais nipônicas, que fazem shows em hologramas. Paprika também é rico em referências a outros filmes como o Maior Espetáculo da Terra, Tarzan ou mesmo na discussão sobre a elaboração de planos e sequências, com reflexões sobre o cinema, a vida e a questão da privacidade, como a possibilidade até da invasão de sonhos dos personagens. Afinal o que é sonho ou real e o que seria o irreal
Tudo começa no futuro, com o desenvolvimento de uma nova terapia em que um dispositivo, o DC Mini, permite ao usuário visualizar e monitorar  os sonhos das pessoas. O trabalho coordenado pela médica  Atsuko Chiba, que  usa a máquina experimentalmente, mas sem autorização para ajudar aos pacientes psiquiátricos fora do centro de pesquisa, usando para isso Paprika, um espécie de alterego que navega e transita no mundo dos sonhos.
Paprika acompanha os sonhos  do detetive Toshimi Konakawa, atormentado por um pesadelo recorrente de um filme gravado em super oito na sua juventude e que culmina na investigação de um possivel homicídio. Um aliado de Chiba em suas pesquisas é o cientista Kosaku Tokita, o inventor do Mini DC, um projeto inacabado e em fase de desenvolvimento, mas o equipamento acaba desaparecendo gerando cobranças do chefe do departamento de pesquisas, Toratarō Shima, que é um deficiente físico e acaba como vilão da história.
No filme os sonhos e realidade se confundem. Assim, Paprika, torna-se uma entidade separada e independente de Chiba graças aos sonhos e fusão realidade. Em meio ao caos, Tokita, assume a forma de um robô gigante, come Chiba e se prepara para fazer o mesmo para Paprika. Enquanto isso, o presidente do instituto de pesquisa assume a forma de um pesadelo vivo, uma espécie de buraco negro que a tudo devora com seus sonhos  escatológicos de onipotência, ameaçando escurecer e dominar um mundo de sombras com seus delírios malignos, mas acaba detido por uma força antagônica muito além do equilíbrio entre o yin e yang, mas  inversamente proporcional à sua, acabando com o que seria um pesadelo ou talvez o fim do mundo.
O  filme instigante, difícil, desafiador, mas deveras interessante, inteligente e nos oferece uma oportunidade de releitura da cultura oriental com sua sabedoria e simbolismos próprios, o que nos aproxima através de um mundo cada vez mais globalizado e que continua redondo, girando em torno do sol e adormecido na sombra da noite com seus sonhos ou pesadelos. (Kleber Torres)


Ficha técnica:

Título : Paprika (Papurika)
Direção: Satoshi Kon
Roteiro: Yasutaka Tsutsui
Elenco:  Megumi Hayashibara, Tōru Furuya, Tōru Emori. Seijirō Inui, Katsunosuke Hori,  Akio Ōtsuka e  Kōichi Yamadera
Trilha sonora: Susumu Hirasawa 

Ano : 2006

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Uma contribuição para o debate sobre a influência da publicidade






O filme Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Anúncios Para Um Crime) mostra como uma mulher irritada com a morosidade da polícia em identificar o culpado pelo brutal assassinato de sua filha Angélica, que foi estuprada e queimada viva há um ano, procurou uma solução para o problema. A empresária Mildred Hayes (Frances McDormand), proprietária de uma loja de artesanato, decide chamar atenção das autoridades e  da população da pequena cidade de Ebbing (Missouri), para o caso não solucionado alugando três outdoors desativados em uma estrada de pouco movimento.
Os anúncios foram divididos em três blocos formando uma mensagem única e questionadora: o primeiro dizia “Estuprada enquanto morria” (Raped while dying); o segundo  “E até agora ninguém foi preso?” (And still no arrests?) e terminava perguntando “Como pode,chefe Willougby (How come,  chief Willoughby?)
A ação repercute na pequena cidade, ganhando espaço no noticiário da televisão local e afetando a toda a comunidade – uma espécie de comunidade de cultura de folk em que as relações são muito diretas  e pessoais -, assim as suas consequências afetam várias pessoas, especialmente a própria Mildred e ao Delegado Willoughby (Woody Harrelson), responsável pela investigação, que está se tratando de um câncer no pâncreas, um segredo que todos sabiam na comunidade.
De modo direto, os policiais procuram pressionar ao publicitário autor das três peças de propaganda e questionaram as implicações legais da campanha, uma vez que não existe difamação em perguntas. Outro policial mais exaltado vai a agência e tenta agredir ao publicitário, enquanto o delegado recebe o apoio de setores da sociedade organizada, como o médico, o dentista – que se envolve num incidente com Mildred  Hayes na extração de um dente. O filho adolescente da empresária é questionado por colegas na escola onde estudava e até seu ex-marido e o padre da paróquia local vão à sua casa tentar dissuadi-la da campanha publicitária, com a colocação dos outdoors por um período de um ano.
No contra-ataque o delegado procura a empresária para informar o andamento no caso em função da falta de testemunhas e pista, até porque o DNA do suspeito não bate com o banco de dados local e nacional, “mas estou fazendo o que posso”, lamenta o policial. Por outro lado, a temperatura esquenta na comunidade com a perseguição indireta de pessoas ligadas à empresária, que também ganha adesões anônimas e isoladas como a de um mexicano que deixou US$ 5 mil na agência de propaganda para pagar mais um mês da conta do outdoor.
Num filme essencialmente existencialista, em que as pessoas como Mildred estão sós, sem ajuda e sem esperança na solução de seus problemas pessoais, o delegado, que alega numa carta deixada antes da sua morte para a família, que aquele foi o melhor dia da sua vida, em que bebeu e amou pela última vez a mulher. Ele  se suicida para evitar o padecimento e as dores atrozes da doença que o acometia.
Numa outra carta para Mildred, ele elogia a ideia da campanha e deixa até uma quantia para financiar mais um mês da campanha que o incomodara. Não há desespero na sua morte e nem na sua despedida planejada, ele pratica suicídio dando um tiro na cabeça e usando uma mascara ninja com um bilhete dizendo “não abra o saco. Ligue para a polícia”.
Abalado com a morte do chefe, o policial Jason Dixon (Sam Rockwell) invade a agência de propaganda e agride ao publicitário Red Welby(Caleb Landry Jones), que acaba hospitalizado depois de jogado da janela do primeiro andar do seu escritório. Os out-doors da campanha também são incendiados e Mildred tenta apagar o fogo sem sucesso.
Depois da agrassão, Dixon acaba demitido e o novo delegado retoma as investigações do caso de estupro e morte da filha da empresária. Mildred tenta incendiar a delegacia e acaba ferindo a Jason Dixon, que acaba no mesmo hospital e no quarto do publicitário a quem agrediu. Ao sair ele descobre uma pista de um suspeito, o mesmo homem que havia ameaçado anteriormente a Mildred em sua pequena loja de souvenir e juntamente com a empresária parte para sua localização e quiçá a sua eliminação. O DNA do suspeito não batia com o material coletado pela polícia na vítima do estupro que foi queimada viva.
O resto é mistério e suspense, o que pode indicar a continuação do filme e de uma história instigante a partir de um tema simples, que venceu em quatro categorias no 75º Golden Globe Awards  e teve quatro indicações para o Oscar, conquistando duas estatuetas, graças à competente direção o cineasta Martin McDonagh, que dirigiu e roteirizou a película, arrecadando US$ 158 milhões de dólares e foi produzido com um custo de apenas R$ 12 milhões. (Kleber Torres)

Ficha técnica

Título :  Three Billboards Outside Ebbing, Missouri (Três Anúncios Para Um Crime)
Direção: Martin McDonagh
Roteiro : Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage
Gênero: Drama policial
Música: Carter Burwell
Cinematografia: Ben Davis

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Uma caçada ou um sonho antológico que rendeu quatro Oscars




Ganhador de quatro Oscars em 2008 – melhor filme, melhor diretor, melhor ator coadjuvante e melhor roteiro adaptado -, Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men ), de Ethan e Joel Coen,  começa quando o caçador Llewelyn Moss (Josh Brolin), um veterano da guerra do Vietnã, encontra por acaso vários veículos estacionados num descampado e se depara com um cenário de guerra. O filme narra a partir daí uma caçada sem quartel empreendida por um psicopata -um dos mais sanguinários do cinema- , com muitas mortes e um banho de sangue, o  que lhe rendeu mais de 179 milhões de dólares nas bilheterias.
Ao aproximar-se do local, ele descobre como resultado de um possível conflito entre traficantes, inúmeros cadáveres com ferimentos à bala, alguns já em estado de decomposição. Ao abrir a porta de uma camionete, ele ainda se depara com um sobrevivente mexicano gravemente ferido, o qual lhe pede água. O caçador também encontra num dos veículos, uma grande quantidade de heroína e em outro, uma mala com dois milhões de dólares, que leva para casa e coloca num lugar supostamente seguro.
Ainda durante a noite, o caçador resolve retornar ao local do massacre, levando água ao homem baleado, mas acaba perseguido por pistoleiros armados em uma caminhonete que faziam uma varredura da área e efetuaram disparos em sua direção. Ao retornar para sua casa, Moss pega a mala com o dinheiro, dá uma pequena quantia sua mulher Carla Jean (Kelly MacDonald) , a quem manda para a casa da mãe, em Odessa e foge para a uma pequena cidade onde hospeda-se em um motel. Por precaução, ele esconde a mala no sistema de ventilação e muda de quarto.
A partir daí, ele passa a ser perseguido pelo pistoleiro Anton Chigurgh  (Javier Bardem), que faz a interpretação magistral de um sanguinário psicopta   - comparável à de Dennis Hopper em Velvet Blue - contratado para recuperar o dinheiro, e que inicia uma caçada sem quartel a Moss, usando um rastreador sintonizado com um transmissor na mala de dinheiro e uma estranha pistola de ar comprimido, que se parece um extintor de incêndio prateado.  A arma, é utilizada primeiro, para matar um motorista, de quem rouba o carro para continuar a perseguição.
Ao chegar no motel, o pistoleiro invade o quarto onde Moss deixou o dinheiro e ali, surpreende um grupo de mexicanos armados, que preparavam uma emboscada para o caçador, executando-os logo em seguida. Moss, que tinha também ocupado  um quarto vizinho ao invadido, percebe o tumulto, retira a mala de dinheiro nos dutos de ventilação e foge, mas sendo seguido implacavelmente pelo Chigurh até um hotel de uma cidade vizinha, onde arma uma emboscada para o seu perseguidor, a quem recebe a tiros depois que ele estoura com sua arma de ar comprimido a fechadura do seu quarto.
Mesmo ferido o pistoleiro continua sua perseguição a Moss, atingindo o seu clímax, com uma troca de tiros pelas  ruas da cidade em que  os dois homens acabam feridos. Ao atravessar a fronteira com o México, Moss desmaia devido aos ferimentos e acaba internado em um hospital mexicano, onde é procurado por outro pistoleiro contratado para sua localização, Carson Wells (Woody Harrelson), que em tom negociador lhe oferece um acordo garantindo a sua vida em troca da devolução do dinheiro para o cartel de traficantes que representava.
Chigurh, após tratar os seus ferimentos, localiza  Wells no hotel onde ele se hospedava e o executa para evitar concorrência -antes ele já havia matado o contratante do pistoleiro- , no momento em que Moss efetuava uma ligação telefônica. Chigurh pega o telefone evitando pisar nas manchas de sangue empoçadas do chão com as suas botas, o que deixaria possíveis pistas da sua presença, promete a Moss que não matará a sua mulher se o dinheiro lhe for devolvido. Mas, se irrita com Moss, que desdenha da proposta e tenta continuar a sua fuga.
A caçada tumultuada de Moss não para e tentando escapar da perseguição, ele combina com sua mulher um encontro num motel de El Paso, com o intuito de lhe entregar parte do dinheiro, o que  permitiria a ela escapar das possíveis ameaças do psicopata assassino que matava por motivo fútil. Carla Jean pede ao xerife Bell(Tommy Lee Jones) para salve a vida de seu marido. Ao chegar ao local combinado, o xerife vê um grupo de pistoleiros do cartel fugindo do motel em uma caminhonete e encontra o cadáver de Moss no chão do quarto que ocupava e que também fora visitado por Chigurh.
Depois de morte de Moss, Chigurh localiza a sua mulher que voltava do sepultamento da própria mãe. Ela conta que não sabe onde está o dinheiro e o pistoleiro faz um cara ou coroa, uma marca de suas execuções, deixando em seguida a sua  casa sozinho e observando cuidadosamente o solado de suas botas para se cientificar de que não estavam manchadas com o sangue da vitima.
Na fuga do local do crime, ele se envolve  num acidente automobilístico, imobiliza de forma improvisada o braço fraturado com a camisa comprada de um adolescente e foge discretamente a pé, como se nada tivesse acontecido, deixando nas ruas o veículo destruído na colisão.
O filme termina, o com xerife Bell já aposentado contando dois sonhos para a sua mulher (Tess Harper) e tendo como referência o seu pai. No primeiro sonho, Bell perdia uma grande quantia em dinheiro que lhe havia sido dada pelo genitor; no segundo, ele e o pai andavam a cavalo em uma montanha nevada, procurando um lugar apropriado para uma fogueira em meio ao frio e à escuridão, sabendo que, ao chegar, seu pai que seguia na frente estaria à sua espera. Assim, acordou do sonho. Seria o filme um sonho, um pesadelo ou resultado de um sistema bruto, onde a opção entre a vida e a morte seria uma questão de escolha e de decisão, Nietzche admitia que “o que está vivo é apenas uma variedade daquilo que está morto e uma variedade bastante rara”.(Kleber Torres)


Ficha Técnica

Título: Onde os Fracos Não Têm Vez (No Country for Old Men )
Direção: Ethan Coen e Joel Coen
Roteiro : Cormac McCarthy(Romance), Ethan Coen e Joel Coen
Elenco ; Tommy Lee Jones, Javier Bardem, Josh Brolin, Woody Harrelson,
Música: composta por: Carter Burwell
Cinematografia: Keely MacDonald, Tess Harper, Roger Deakins
Género: Drama Suspense
Ano : 2007
122 minutos

sábado, 9 de fevereiro de 2019

O sonho finito das estrelas cadentes




O filme “The Wonders - O Sonho Não Acabou” mostra os rumos que podem levar qualquer grupo musical ao estrelato  ou ao fracasso mais redundante, o que pode ser exemplificado por diversas bandas que se desestruturaram em consequência do consumo de drogas, das vaidades pessoais dos seus integrantes ou pelo conflito de interesses aguçando a rivalidade entre as estrelas candentesm que às vezes se precipitam para o ocaso ou se reinventam como astros numa carreira solo, como foi o caso de John Lennon, Paul McCarteney e George Harrison depois do fim dos Beatles.
A história  começa em 1964, logo após a invasão dos Estados Unidos pelo fenômeno musical dos Beatles,  quando surge em uma pequena cidade da Pensilvânia os Oneders, mais tarde rebatizado pelo empresário Mr. White, interpretado por Tom Hanks, que também dirige o filme com competência,   como The Wonders.
Os Wonders decolaram graças a uma intervenção do acaso, pois, às vésperas de uma apresentação musical num concurso de calouros, o baterista do grupo quebra o braço, o que faz com que, em de última hora, Guy 'Skitch Shades' Patterson (Tom Everett Scott) seja convidado para substituí-lo. Ele era um jovem um aficionado de jazz e que trabalhava na loja de eletrodomésticos da família, onde a noite fazia plantão para ouvir música e treinar na sua bateria.
No grupo, o novo baterista imprime seu estilo e inova durante a apresentação, ao impor  uma batida mais acelerada no que deveria ser uma balada, provocando  o descontentamento do vocalista, compositor e líder do grupo Jimmy Mattingly (Johnathon Schaech). A partir desta apresentação, aparece um empresário que os contrata para shows em casas noturnas, levando o grupo a gravar um single, que é vendido aos montes durante as apresentações nos bares e começa a tocar nas emissoras locais.
Como o grupo tinha personalidade e uma batida próprias, o primeiro empresário o transfere  para o comando do experiente Mr. White, que os lança através de uma gravadora e os coloca no circuito nacional numa movimentada turnê, quando em paralelo  as suas musicas entram no ranking top 100 da Bilboard Chart   alcançando  os primeiros lugares das paradas de sucesso o primeiro caminho ao estrelato com acesso a entrevistas em rádios e televisões.
Mas tensões internas provocam a queda do grupo, que se divide com a saída de Jimmy Mattingly, que faz a opção por uma carreira solo e ainda perde a namorada  Tina Powers (Chalize Theron), que acaba se unindo a  Guy 'Skitch' 'Shades' Patterson, com quem dirige nos dias atuais um conservatório de música. O filme  também faz o resgate de músicas da banda como I need you / That Thing You Do, Little Wild One, All My  Only Dreams e Dance With Me Tonithg, que sempre valem a pena ver de novo. (KleberTorres)



Ficha técnica:

Título : The Wonders - O Sonho Não Acabou/The thing you do
Direção: Tom Hanks
Roteiro: Tom Hanks
Elenco: Tom Everett Scott (Guy 'Skitch' 'Shades' Patterson); Johnathon Schaech (Jimmy Mattingly);  Steve Zahn (Leonard "Lenny" Haise); Ethan Embry (T. B. Player). Tom Hanks (Mr. White); Liv Tyler (Faye Dolan); Chalize Theron (Tina Powers); Bill Cobbs (Del Paxton) e Obba Babatundé (Lamarr)
Música: Howard Shore
Gênero : Drama/Comédia dramática
Duração  :  2h 29m
Data de lançamento: 1996 (EUA)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A morte e as muitas mortes anunciadas de Wladyslaw Strzeminski




Um drama humano sobre isolamento, solidão, perseguição e exclusão social é a essência do filme polonês Afterimage (Powidoki), o último dirigido pelo cineasta Andrzej Wajda, que morreu em outubro de 2016. Ele narra a trágica vida do artista plástico, teórico, pintor, desenhista, pioneiro da vanguarda construtivista e criador da teoria do Unísmo,  Wladyslaw Strzeminski, considerado um dos mais artistas mais expressivos  do século 20 e que acabou seus dias tuberculoso e faminto, após uma perseguição insana do partido comunista em função da imposição do realismo socialista como padrão da arte nos países da cortina de ferro que viviam sob o signo negro do stalinismo. 
O filme foi exibido no Toronto International Film Festival 2016 e chegou a ser selecionado pela Polônia para o Melhor Filme Estrangeiro, no 89º Oscar, mas não logrou a merecida indicação. A tragédia começa em 1948, quando Strzemiński trabalhava como um influente professor na Escola de Artes Visuais, em Lodz. O artista se recusa a renunciar ao abstracionismo e ao experimentalismo, entrando num confronto direto com os burocratas do regime stalinista que faziam valer a imposição do realismo socialista no campo das artes plásticas, da literatura, do cinema, do teatro e da música.
Como consequência, ele acabou destituído demitido da universidade e seus trabalhos passaram a ser sistematicamente censurados, o que incluiu um quebra-quebra e depois o literal fechamento  Salão Neoplástico,  que funcionava como um anexo ao Muzeum Sztuki, em Łódź. Wladyslaw Strzeminski também era monitorado pelos serviços de informações do governo que tentavam cooptar o artista com propostas para que aderisse aos ditames do realismo socialista imposto pelo regime.
Como o artista – que era deficiente, perdera uma parte de um braço e de uma perna na primeira guerra mundial, mas continuava produzindo em casa, onde era procurado por raros amigos e  por um grupo de alunos, que lhe levavam cigarros e café -   mesmo sem emprego e pressionado pelo sistema continuava resistindo à pressão dos burocratas,  foi lhe negada sua competência até mesmo como pintor de placas, o que impedia que ele comprasse tinta para os seus quadros e tivesse acesso aos cartões de racionamento para a compra de alimentos básicos, o que comprometeria a sua subsistência e acabou resultando na sua morte. Numa das cenas do filme, uma criteriosa funcionária a serviço da burocracia alegou que no comunismo quem trabalha não tem direito à comida para justificar o cancelamento do equivalente ao seu tíquete alimentação.
O próprio título do filme, afterimage tem como referência a Teoria da Visão, de Wladyslaw Strzeminski, que trabalhava com   o conceito da imagem residual que fica na retina do observador de qualquer objeto e que tem aplicação nas artes plásticas, até mesmo em termos da cor inexistente teorizada pelo brasileiro Israel Pedrosa. Strzeminski acreditava que em cada composição – o que envolve formas e cores -, cada parte tem uma consciência e se integra ao conjunto de forma integral.
O fato é que na perseguição que lhe foi imposta, até mesmo um painel sobre colonialismo e que deveria ficar exposto no Café Exótico, foi destruído por uma comissão de representantes da Associação de Artistas Plásticos e Designers da Polônia, que o questionaram sobre de que lado estava, ao que o artista respondeu: “do meu!”.
Como sua casa passou a ser dividida com um soldado polonês designado pelo partido, sua única filha teve de voltar ao internato do governo, o Lar das Meninas, destinado a jovens sem referência familiar e sem teto, que passavam a ser protegidas pelo estado, leia-se o partido, o que fez Wladyslaw Strzeminski lamentar: “é, ela vai ter uma vida difícil”.  Ele também sabia que os jovens sempre são contra o mundo existente.
Diante das pressões, os amigos foram se afastando, restando apenas o poeta Julien cujas obras acabavam engavetadas pelos censores, que as consideravam vagas e fora dos parâmetros do realismo vigente. Também uma aluna muito mais jovem se diz apaixonada por ele e se propõe a datilografar a sua obra sobre a Teoria da Visão. Para Strzeminski, que estava reduzido a uma condição de não pessoa e de paira social, embora os elogios sejam adequados aos puxa-sacos, não faltam artistas de verdade.
Faminto, o artista acaba desmaiando na neve e acaba hospitalizado num hospital que não possuía os medicamentos para tratamento de uma tuberculose avançada. Tudo termina em 26 de dezembro de 1952, com a morte de um artista que havia sido assassinado em vida. O seu nome persiste na história da arte como um contemporâneo de Kandinsky e um artista criativo, apesar da fragmentação da sua obra imposta pelos burocratas comunistas, já os nomes dos seus algozes acabaram esquecidos e apagados do muro da história, que esquece os áulicos, os incompetentes e  não tem espaço para os bajuladores ou subalternos  de qualquer governo.(Kleber Torres)

Ficha Técnica

Titulo : Afterimage ( Polonês : Powidoki )
Direção :Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Mularczyk
Elenco :  Bogusław Linda (Władysław Strzemiński); Aleksandra Justa (Katarzyna Kobro); Bronislawa Zamachowska (Nika Strzeminska); Zofia Wichłacz (Hania); Tomasz Włosok (Romano) e Paulina Gałązka (Wasińska)
Música: Andrzej Panufnik
Lançamento: 3 de março de 2017 (Polônia)
98 minutos
País:  Polônia

domingo, 21 de outubro de 2018

O humor como opção diante da polarização de uma eleição




Num ano de eleições polarizadas em que a  corrupção aparece como pano de  fundo para o debate eleitoral, se misturando com temas como homofobia, tortura,  fake news,  manipulação da informação nas redes  sociais, lava jato, além de uma série infinita de boatos e  até um atentado a faca contra um candidato à presidência da República, nada como uma comédia para esfriar os ânimos mais exaltados.  Neste caso, a opção seria O Candidato Honesto (2014), dirigido por Roberto Santuci, em que João Ernesto Praxedes, interpretado por  Leandro Hassum, vive um político corrupto, candidato à presidência da República e que faz mil e uma armações para se eleger.
O filme é inspirado em O Mentiroso, de Tom Shadyaco. Tudo começa quando o ex-sindicalista João Ernesto Praxedes, um ex-motorista de ônibus que perde um mamilo num acidente  rodoviário  - qualquer semelhança com pessoas conhecidas pode não ser mera coincidência – se tornando um  político demagogo e corrupto candidato à presidência.
Ele chega ao segundo turno  das eleições, liderando as pesquisas de opinião, quando sua avó, pouco antes de falecer, lhe faz um último pedido para que seja honesto e o homem mais  verdadeiro que puder, deixando de mentir: “vai ser  o homem mais honesto do Brasil, nem que eu tenha de falar com Deus” rogou a velha no seu leito de morte.
É aí que começam os problemas João Ernesto, que passa a criticar a mulher feia e de gosto duvidoso. Ele também tem coragem para romper o relacionamento com uma amante e se recusa a compor com um grupo de deputados religiosos que lhe oferecem dinheiro em troca de um possível ministério no novo governo de “coalisão”. Um dos seus interlocutores acha que ali tem coisa ruim, pois nunca vira político rejeitar dinheiro e começa a esboçar um exorcismo inútil.
Neste processo regenerativo João Ernesto encontra uma aliada, uma jornalista e o filme, apesar do humor escrachado e até certo ponto rasteiro, tem no final um cunho moralista, quando o candidato participa de um debate na televisão num apelo para a correção dos rumos na gestão dos recursos públicos.
Há quem considere também que o filme não se aprofunda na crítica aos políticos corruptos, mas, mesmo assim dá  mostras de uma realidade que conhecemos e que sempre permeou  ao longo do tempo a política brasileira em que imperou a teoria do rouba mas faz e do Robin Hood que tira do governo para dar uma migalha aos pobres e dividir parte do roubo com os seus apaniguados. O filme tem uma segunda edição que vale a pena assistir.(Kleber Torres)

FICHA TÉCNICA
O Candidato Honesto
Direção:       Roberto Santucci
Roteiro:        Paulo Cursino
Elenco:         Leandro Hassum, Flávia Garrafa, Luiza Valdetaro, Victor Leal,
Júlia Rabello e Flavio Galvão
Gênero:        Comédia
Cinematografia:      Nonato Estrela
Edição:         Leo Clark
Lançamento : 2014