segunda-feira, 26 de agosto de 2019

O plano frustrado dos cães azedos de aluguel




O planejamento e o resultado fracassado de um roubo de diamantes, mas sem mostrar a sequência do assalto frustrado, formam o enredo  de  Reservoir Dogs (Cães de Aluguel), um filme estadunidense de 1992, escrito e dirigido por Quentin Tarantino, uma obra que desenha os contornos de uma estética de violência mantida em Pulp Fiction (1994) e Kill Bill I e II (2003 e 2004). O filme é marcado por uma escalada de ações violentas, que culminam com uma série de mortes e numa grande interrogação.
A obra  reúne um elenco integrado por Harvey Keitel (Mr.White), Steve Buscemi (Mr.Pink), Michael Madsen (Mr. Blonde), Tim Roth (Mr. Orage), Edward Bunkr (Mr. e próprio Tarantino  (Mr. Brown), homens que teoricamente não se conheciam e que  para evitar uma possível identificação durante o assalto usam codinomes de cores nos diálogos entre si.
Tudo começa com um grupo homens tomando café em um restaurante. Seis deles vestindo ternos escuros, parecendo executivos ou mafiosos. Eles se tratam formalmente pelos codinomes de Mr. Blonde, Mr. Blue, Mr. Brown, Mr. Orange, Mr. Pink e Mr. White. Os outros dois personagens no café são Joe Cabot (Lawrence Tierney) um conhecido mafioso de  Los Angeles, que esta acompanhado do filho o Cara Legal Eddie Cabot  (Chris Penn).
Aparentemente, o grupo não faz referências ao planejamento do roubo. No café,  Mr. Brown faz  a sua análise da música Like a Virgin, sucesso de Madonna, enquanto Joe se irrita com ele, após discutirem sobre sua agenda de endereços. Já o Mr. Pink se manifesta contra o pagamento  de gorjetas para garçonetes até  o Joe obrigá-lo  a deixar a quota da jovem que o atendeu.
Em essência Cães de Aluguel é um filme inovador  em termos de linguagem, com uma narrativa não linear, mesclada de palavrões em profusão, incorporando ao mesmo tempo as marcas registradas de Tarantino, com referências à cultura pop, aos filmes B, mostrando crimes violentos e uma trilha sonora tendo com referência a música contemporânea ao período da produção, considerada posteriormente um clássico do cinema independente.
A sequência seguinte registra o interior de um carro fugindo em velocidade. Nesse interim, Mr. White, dirige o veículo e ao mesmo tenta apoiar ao Mr. Orange, baleado no abdômen, com uma forte hemorragia e gritando de dor. Os dois chegam a um depósito abandonado, que seria o ponto de encontro do grupo após o roubo e  que passa a ser o cenário central da trama.
Mr. Pink suspeita que o assalto à  joalheria, organizado por Joe Cabot, foi uma armação. Uma evidencia seria a pronta reação dos policiais após o disparo do alarme. Mr. White revela ao Mr. Pink que Mr. Brown foi baleado pela polícia. Já os rumos de Mr. Blonde e Mr.Blue ainda são desconhecidos, ao tempo em que se desenvolve nas ruas da cidade  uma caçada policial aos ladrões.
Após cuidarem de um Mr. Orange, que parece inconsciente, Mr. White e Mr. Pink questionam as ações Mr. Blonde, um  psicopata que matou diversos civis depois que o alarme foi acionado. Mr. Pink informa que deixou os diamantes protegidos e em um local seguro. Os dois divergem sobre levar ou não Mr. Orange, que está em estado muito grave, a um hospital, o que colocaria em risco aos demais participantes do assalto.
White questiona Blonde pela violência empregada no assalto à joalheria, enquanto ele rejeita a sua crítica. Blonde diz à White e Pink para não abandonarem o ponto de encontro, uma vez que "Cara Legal" Eddie, de quem é amigo pessoal, está a caminho para socorrê-los. A sequência de violência aquece ainda mais quando Mr. Blonde apresenta um policial capturado Marvin Nash (Kirk Baltz), que colocou na mala do carro e a quem começa a torturar para que ele diga quem é o informante infiltrado na quadrilha.
O policial diz não saber e a tortura prossegue, com Blonde dançando "Stuck in the Middle With You", antes de decepar a orelha do policial com uma navalha. Quando Blonde  ameaça tocar fogo em Marvin Nash, ele acaba abatido a tiros por Mr. Orange –o policial infiltrado na quadrilha e que vinha participado de várias ações para a captura de Joe e Mr.White -, justp quando este tentava acender um isqueiro sobre um rastilho de gasolina.
A ação cresce de intensidade com uma série de flashbacks e depois, Joe atira em Mr. Orange, ferindo-o novamente. Numa reação instantânea, Mr. White atira em Joe, matando-o e, o Cara Legal Eddie atinge a Mr. White, que revida eliminando o oponente. Aproveitando o conflito, Mr. Pink, que se escondera sob as escadas para tentar se proteger do tiroteio, pega os diamantes e foge do depósito, quando a polícia chega e  entra no local. Como uma obra assinada pelo estilo de Tarantino, o filme termina com o som de um tiro, o qual poderia ter sido de  Mr. White em Mr. Orange, o policial infiltrado no bando ou mesmo se Mr. White foi executado pela polícia que atirou antecipando-se a um crime. Mas, por certo, nenhum espectador de bom senso duvida que naquele momento até as duas mortes simultâneas aconteceram fechando o ciclo de um mistério e violência tarantineanos.(Kleber Torres)
FICHA TÉCNICA

Título : Cães de Aluguel (Reservoir Dogs )
Direção: Quentin Tarantino
Roteiro : Quentin Tarantino e Roger Awary
Elenco : Harvey Keitel (Mr. White/Larry); Tim Roth (Mr. Orange/Freddy); MIchael Madsen (Mr.Blonde/Vic Vega); Chris Penn (Nice Guy Eddie), Steve Buscemi (Mr. Pink); Lawrence Tierney (Joe Cabot); Randy Brooks (Holdaway), Kirk Baltz (Mervi Nash); Edward Bunker (Mr.Blue/Eddie Bunker); Quentin Tarantino (Mr. Brown)
Cinematografia : Andrzej Sekula
Gênero : Policial
EUA
99 minutos

sábado, 24 de agosto de 2019

Um golpe de mestre com suspeitos incomuns



Inteligência e humor são os ingredientes fundamentais de Suspeitos Incomuns (Hunting Elephants), uma comédia israelense dirigida e roteirizada por Reshef Levi contando a história de YonathanGil Blank), um adolescente muito inteligente, gago de 12 anos, que se  cansou de buscar maneiras para se livrar do bullying e das agressões que sofria diariamente na escola.
Tudo muda depois da morte de seu pai, em consequência de um infarto no banco onde trabalhava e das dificuldades financeiras enfrentadas pela sua mãe, sem acesso ao seguro social, quando acabou indo morar com seu avô Eliyahu (Sasson Gobai), considerado um mentiroso e psicopata e o  seu tio lord Michel Simpson (Patrick Stewart), um milionário falido e um ator fracassado, que viviam em um asilo de idosos. Ali, eles se tornam amigos e passam a planejar com o jovem de Q.I. acima da média, um engenhoso roubo a banco.
Antes de deixar o filho com o avô, a mãe Dorit (Yaël Abicassis) telefona para o tio nobre na Inglaterra pedindo ajuda financeira sem sucesso, enquanto o lord fugia dos credores e migrava para Israel, onde a família tinha uma mansão, a qual havia sido vendida pelo cunhado Eliyahu para tratamento da sua mulher, que ficou em coma após sofrer um avc. Ex-assaltante de banco e estelionatário, o idoso fraudou a assinatura de mulher e do cunhado ator para vender o imóvel, ele também se recusava a assinar uma autorização de eutanásia para a paralisação do atendimento médico à sua companheira, com quem havia vivido nos últimos 60 anos.
No abrigo, os dois idosos  se juntam a Nick(Moni Moshonov) no planejamento do roubo, que fora idealizado por Yonatan, que é comparado pelo tio lord com o Hamlet, o personagem shakespereano cujo pai morreu assassinado – no caso do adolescente pelo trabalho excessivo – e que teve a mãe conquistada pelo gerente do banco, o qual a seduziu com uma série de propostas, inclusive acenando com a possibilidade de um casamento civil.
Eliyahu resolve o problema do bulling do neto intimidando ao principal agressor com uma possível retaliação à bala. Já o lord, que era um niilista, porque  se morresse não havia nada, pois não havia de deixar nenhum legado para ninguém,  participa dos preparativos do golpe para conseguir o suficiente para encenar sua última peça nos palcos da vida.
Depois de acertos e desacertos na simulação e execução do assalto, que foi planejado inicialmente na laje do asilo e clínica onde o grupo vivia. A estratégia era usar o lord Simpson como isca, em função da sua aparência de um rico executivo, assim, o grupo acaba lançando a sua grande cartada usando o cartão de acesso aos cofres do gerente do banco, que acaba preso e conta  a sua desdita num documentário sobre o caso.
O grupo consegue limpar o cofre e Yonathan saí do banco com a mochila de dinheiro nas costas, porque crianças e idosos são transparentes e por isso invisíveis para o sistema de repressão e para a segurança do banco. Também sem ser notado, o jovem volta ao banco onde o avô fora baleado na execução do assalto e na saída queima uma parte do dinheiro roubado diante de clientes, funcionários e do segurança da agência.
No fim da história,  o grupo comemora os resultados e o avô se recupera dos ferimentos. A adolescente acabou inocentado do crime, sob alegação de que vivera uma experiência traumática. Uma lição implícita no final do filme é de que o crime até certo ponto compensa e que um idoso com dinheiro pode atrair a atenção e o carinho de uma jovem cuidadora de idosos. (Kleber Torres)


Ficha técnica

Título : Hunting Elephants (Suspeitos Incomuns)
Direção: Reshef Levi
Roteiro : Reshef Levi e Regev Levi
Elenco: Sasson Gabai, Moni Moshonov, Patrick Stewart, Gil Blank, Yaël Abicassis, Moshe Ivgy e Zvika Hadar
Música: Gilad Benamram
Gêneros: Comédia , Policial
Data de lançamento 2013 (1h 48min)
Nacionalidades EUA, Israel

sábado, 13 de julho de 2019

O Síndico tem participação de Carlos Betão e atores regionais



Depois de atuar em  Segundo Sol, onde interpretou o delegado Viana e de papeis destacados em novelas globais como Velho Chico e em Marcas da Paixão, exibida pela Record, bem como no remake cinematográfico de Gabriela, em O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro e Aos Ventos que Virão, de Hermano Pena ou ainda de participação no ultimo filme de Gustavo Bonafé,  o ator Global, Carlos Betão,  voltou a Itabuna onde integrou ao elenco da série O Sindico, dirigida por Betsi de Paula. A série, de cinco capítulos, em fase de montagem e  pós produção, será exibida pela TVI em data a ser anunciada proximamente.
Bacharel em artes cênicas pela Universidade Federal da Bahia -UFBa – e com quase  quatro décadas  de  estrada. Betão lembra que começou sua carreira nos palcos e praças de Itabuna e Ilhéus, “Comecei no Teatro da AFI, com Pluft,o Fantasminha e a Bruxinha que era boa, com Leila Chalupp”.
Hoje, com a trajetória consolidada e considerado um profissional respeitado pelo seu currículo, ele contabiliza a participação em mais de 14 filmes, 40 peças e diversas novelas na Globo e na Record. Também destaca que essa volta mesmo temporária a Itabuna, onde nasceu, “foi uma oportunidade de rever amigos e encontrar pessoas com quem convivi, uma revisita que estava para fazer e que só foi possível agora, com a filmagem da série”.
Vencedor do prêmio Brasken de melhor ator com o monólogo Sargento Getúlio, dirigido por Gil Vicente), Betão interpreta em O Sindico, inteiramente filmado no condomínio Torres da Primavera, com 200 apartamentos, próximo ao CAIC ,na Urbis IV, um morador politicamente incorreto, homofóbico e machão.
Ele destaca que o barato da série não é o fato de ser uma série televisiva, mas o possibilidade “de voltar à minha cidade e ter um contato direto com artistas da região Sul da Bahia, muitos deles jovens e com excelente potencial e que vão dar continuidade ao trabalho que iniciamos e precisa de uma sequência.”
Salienta ainda a oportunidade de contracenar com atores como o experiente Luís Sérgio Ramos e Jailton Alves, que interpreta o Sindico, os quais junto com Clara Melo e Betse de Paula também participaram da elaboração do roteiro. O elenco inclui ainda as participações de Eva Lima, Maria Sofia, Raquel Rocha, Rogério Thomas, Lila Azevedo e Priscila Coutinho, entre outros nomes.
Betão observa ainda que além da integração com outros atores, a filmagem da série possibilitou trabalhar coma diretora Betsi de Paula, uma artista conhecida nacionalmente e que filmou em Itabuna uma série a ser exibida através da TVI e “é a capitã deste barco, que comanda de forma generosa”,
Nos cinco episódios, ele contracena antagonisticamente com um casal homossexual interpretado pelo experiente ator  Luís Sérgio Ramos (Darci), que atuou nos palcos do  Rio, são Paulo e Salvador, onde integrou o núcleo do Teatro Castro Alves   e Rogério Thomas (Wagner), que tem uma filha Cleo.  O elenco reúne um total de 16 atores de Itabuna, Itororó, Salvador e Rio de Janeiro, além de dezenas de extras, muitos deles moradores do Torres da Primnavera. O Sindico é interpretado por Jailton Alves, que já foi síndico do edifício onde morava e que também teve participações na novela Renascer, da Globo, com locações no eixo Itabuna-Ilhéus.
Para Carlos Betão é elogiável a existência de uma série produzida para uma emissora do interior como a TVI, sem os recursos das grandes redes, “o que possibilita à equipe de produção e atores uma experiência inovadora e ao mesmo tempo lúdica, criativa e minimalista. A criatividade se manifesta ao tornar visível o invisível, um processo em que cada um se vira nos 30, 40 e 50 ou mais, mas o que importa é o resultado final do projeto e a proposta de uma equipe profissional que participa do processo da produção da série de forma integral e com competência.”(Kleber Torres)

sábado, 15 de junho de 2019

Uma visita à história do jazz e do rock





A história de Cadillac Records, filme de Daniel Martin, começa em 1947, quando  um imigrante polonês de origem judaica e proprietário de um bar, Leonard Chess (Adrien Brody) resolve mudar o foco do seu negócio e passa a contratar músicos para a sua gravadora, a Chess Records, até então um pequeno estúdio musical, em  Chicago, transformando-o numa marca de sucesso.
A gravadora revelou nomes expressivos do jazz como Muddy Waters (Jeffrey Wright) e até mesmo precursores do rock como Chuck Berry (Mos Def), que conseguia unir no mesmo ambiente fãs brancos e negros divididos até então numa sociedade marcada pela segregação, tornando-se ao mesmo tempo uma referência musical para os Beatles e os Rolling Stones.
De início Leonard Chess trabalha com nomes até então desconhecidos do público como Muddy Waters e Little Walter (Columbus Short), que teve uma vida acidentada e uma morte prematura. Outro nome saído do anonimato para o estrelato foi Chuck Berry com seu estilo pessoal e que teve a maioria de suas gravações de maior sucesso  lançadas pela gravadora Chesse Records, ao lado do pianista Johnnie Johnson, do baixista Willie Dixon e o baterista Fred Below. Ao ser preso em 1959, Leonard Chess decide apostar no talento de outra cantora: Etta James (Beyoncé Knowles), que enfrenta problemas com drogas como sua substituta no elenco da gravadora.
O sucesso de Chess era atribuído o seu ouvido refinado para identificar diferentes músicas e ao feeling de perceber entre os seus contratados talentos emergentes no meio musical, como o compositor Willie Dixon (Cedric the Entertainer) e Howlin' Wolf (Eamonn Walker). O empresário os tratava como se fossem parte de sua família, gastando dinheiro na compra de cadillacs o que dá o título do filme Cadillac Records, dirigido por Daniel Martin a partir de um roteiro com base numa história real, ou mesmo cuidando dos seus negócios e da preservação do seu patrimônio.
O filme vale em especial como um mergulho no mundo do jazz e na história do nascimento do rock’n’roll, com referências inclusive a Elvis Presley, cuja estrela passou a brilhar no universo do rock após a prisão de Chuck Barry. Vale também a seleção das músicas que foram hits de sucesso da Chess, que terminou com a morte do seu criador em consequência de um fulminante ataque cardíaco e com Muddy Waters voando para Londres, onde começa a sua carreira internacional.(Kleber Torres)

Ficha técnica:

Direção e Roteiro: Daniel MartinElenco : Adrien Brody, Beyoncé Knowles-Carter, Jeffrey Wright, Columbus Short, Emmanuelle Chriqui, Cedric The Entertainer, Tammy Blanchard, Gabrielle Union e Mos Def
Música: Terence Blanchard
Cenografista: Linda Burton
Ano 2008


domingo, 26 de maio de 2019

O sentido e a essência de uma vida transitória e finita






Uma profunda reflexão sobre a vida com toda a sua complexidade, o amor e a morte, assim pode ser compreendido o  filme O Sentido do Fim (The Sense of an Ending), dirigido pelo cineasta indiano Ritesh Batra, que nos conta de forma humana  a história de  Tony Webster (Jim Broadbent), um homem de mais de 60 anos, que se define como um cavalheiro geriátrico protegido pela sua armadura brilhante,  capaz de reconstruir a sua vida na tentativa de apagar as memórias nem sempre agradáveis do passado. Ele, acaba inexoravelmente envolvido por lembranças dos  antigos amigos, das paixões do passado e pelo diário e cartas sobre um amigo que já morreu.
O filme começa com a voz em off de Toni Webster, também interpretado por Billy Howle, na juventude, o protagonista da história dizendo que “não tenho interesse nos meus dias de escola, nem tenho saudade deles. Mas me lembro do sexto ano.”
Tony também vive uma rotina de diária de  acordar às sete da manhã, ouvir um CD de música erudita, enquanto prepara seu café, um ritual que complementa com a leitura de jornais, onde publicou uma carta criticando aos motoristas de Londres. Depois, se dirige à sua loja de venda e conserto de máquinas fotográficas antigas, resultado de uma paixão da juventude pela fotografia, onde atende clientes e recebe uma carta que não abre porque tem de atender um outro compromisso imediato
Neste dia, ele vai acompanhar afilha para reunião de um grupo de gestantes lésbicas, que se preparam para a chegada do primeiro filho. Para que não perca esse novo compromisso, a filha lhe dá um  smartphone, talvez a ultima  esperança para fazer ingressar no século XXI um homem não afeito à redes sociais, à internet e que vive o seu mundo particular.
Construído a partir de um roteiro de Nick Payne, baseado no romance homônimo de Julian Barnes, o filme O Sentido do Fim mostra a  vida de Tony, inclusive lembrando a antiga namorada na juventude Verônica Ford (Freya Mavor) estalando os dedos numa sequencia rápida.
Tudo muda quando ele recebe uma carta que é parte de um diário sobre fatos da juventude,  e que incluem um  colega Adrian Finn (Joe Alwyn), que morre tragicamente. A carta tem como referência os anos 60 do século passado, incorporando o período quando Tony conheceu a ex-mulher Margareth Webster (Harriet Walter), mãe de sua única filha.
A carta de Sarah Ford (Emily Mortimer), mãe de Verônica inicia lembrando a  Tony, que  “acho que o certo  que fique com você o anexo desta missiva. Adrian sempre falou bem de você, e talvez você ache que essa é uma lembrança interessante, embora dolorosa, de algo passado há muito tempo.” Ela conta na carta, que também deixou algum dinheiro para Tony, para  concluir desejando tudo de bom, mesmo do além do túmulo,  destacando  que embora possa parecer estranho, os últimos meses de vida de Adrian foram felizes. 
Tony se dirige ao escritório de advocacia que havia mandado as duas correspondências para ele, para reclamar que a carta deixada por Sarah Ford fazia menção a um item anexado e  não lhe foi entregue. A advogada é reticente e diz que o material está com Verônica, interpretada na idade madura por Charlotte Rampling, executora do testamento e filha de Sarah Ford.
Verõnica, que  juventude lhe deu a primeira câmera Leica, ao ser procurada por Tony sobre as cartas e o diário,  marca um encontro na Ponte do Milênio, onde revela que queimou o referido diário. E entrega mais uma carta dele falando da vingança do tempo e da expectativa que Verônica e Adrian tivessem um filho, depois,  é seguida por ele até a sua casa, onde diz a Tony que ele veio encerrar um ciclo, mas não está disponível para atendê-lo.
Ao ser procurada por Tony, que fala de sua relação com Sara e Verônica,  bem como sobre diário incinerado, sua ex-mulher Margareth  o acusa de tentar construir um altar para uma paixão da juventude e que agora as suas atenções deveriam estar e voltadas para a  filha grávida e o nascimento do neto. Ele pede desculpas e reconhece os erros cometidos.
O filme nos  ensina  que quando a vida passa, menos pessoas sobram ao nosso redor. A outra lição que fica é que entre os ganhos as perdas  inerentes da vida, resta a capacidade de sobrevivência e a resiliência, mas que nos comove quando tentamos às vezes inutilmente olhar pelo retrovisor.(Kleber Torres)
Ficha técnica: 

Título : O Sentido do Fim(The Sense of an Ending)
Direção :  Ritesh Batra
Roteiro : Nick Payne baseado no romance homônimo de Julian Barnes, Tony
Elenco : Jim Broadbent. Billy Howle, Charlotte Rampling, Freya Mavor Harriet Walter, Michelle Dockery, Emily Mortimer, Matthew Goode, James Wilby, Edward Holcroft, Joe Alwyn, Jack Loxton, Peter Wight, Timothy Innes, Hilton McRae, Andrew Buckley e Nick Mohammed
Fotografia ; Christopher Ross
Música ; Max Richter
Inglaterra
 2017
Cor, 108 minutos

domingo, 19 de maio de 2019

Um desejo com gosto de sangue e de morte




 

 

Com nova roupagem e os mesmos ingredientes de sangue e violência, Dead Wish (Desejo de Matar) surge com um remake 44 anos após o lançamento do  primeiro de uma série com sequência de outros quatro filmes: Dead Wish 2, Dead WishIII, Dead Wish IV – Crackdolmes e Dead Wish V – the Face of Death,  que atraíram um público cativo durante um período de duas décadas, estrelados por Charles Bronson, dirigido por Michael Winner, no papel de Paul  Kersey, um arquiteto que se transforma num justiceiro   depois do assassinato de sua mulher  e do estupro da sua filha por assaltantes.
Na nova versão de 2017, depois de ter sua casa invadida por ladrões e a sua mulher Lucy (Elisabeth Shue) assassinada por bandidos, além da filha Jordan (Camila Morrone) gravemente ferida, o cirurgião Paul Kersey, um profissional de saúde bem sucedido, agora interpretado por Bruce Willis, passa a acompanhar a polícia nas investigações infrutíferas para tentar capturar os criminosos, o que o leva a pensar numa forma de vingança devido à lentidão da ação policial.
Ao  perceber que a polícia jamais encontraria os assassinos e que os casos de roubos e assassinatos faziam parte de uma extensa lista de casos insolúveis em Chicago, uma cidade muito violenta segundo os comentários recorrentes na imprensa local referenciada no filme, ele começa a traçar uma estratégia de vingança. Primeiro, indo a uma casa de armas e munições, depois, surrupiando a Glock de um marginal ferido. Assim, ele passa a usar a arma  para  combater a assaltos no bairro onde reside, passando ser reconhecido como justiceiro encapuzado que age como um ceifador de almas.
Posteriormente, ao atender a um dos ladrões mortalmente ferido no hospital onde trabalhava, ele recupera o seu relógio roubado durante o assalto e usando o seu celular,  passa a caçar cada um dos integrantes da quadrilha e no final monta um álibi para escapar das suspeitas dos policiais que o investigavam como um justiceiro em ação numa das maiores e violentas cidades americanas.
O remake dirigido por Eli Roth, que assinou O Albergue e trabalhou com Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios (2009), é  atualizado agora a partir de várias sequências com os  registros dos atos de violência que viralizaram via smartphone nas redes sociais, em paralelo ao uso de imagens estáticas que se transformam em memes. Também recupera diálogos do grupo no Whatzapp.
Primando pela ação e pela violência, Dead Wish inclui uma gama de cenas  de ação marcadas pelos tiros em profusão, cirurgias a seco e sem anestesia ou até com o uso de óleo de freio nos ferimentos provocados pelo cirurgião na tentativa de chegar aos integrantes da quadrilha que matou a sua mulher e feriu a sua filha, tudo complementado com o esmagamento de um dos assassinos que acaba  transformado  em uma massa informe de miolos e sangue espalhados no chão de uma oficina mecânica, o que explica o título e irrita os críticos da estética da violência pela violência cada vez mais banalizada e globalizada.(Kleber Torres)



Ficha técnica


Título:  Desejo de Matar (Dead Wish)
Direção : Eli Roth
Roteiro: Scott Alexander, Michael Ferris e Larry Karaszewski

Elenco :  Bruce Willis, Vincent D'Onofrio, Elisabeth Shue,  Camila Morrone, Jack Kesy, Beau Knapp, Kirby Bliss Blanton, Mike Epps, Len Cariou, Kimberly Elise, Ronnie Gene Blevins, Ian Matthews e Nathaly Thibault.

Música: Ludwig Göransson
118 minutos
EUA

sábado, 18 de maio de 2019

Uma tragédia muito além da dimensão do terror




A HBO está exibindo a série Chernobyl, com cinco episódios sobre o grave acidente com uma usina nuclear na Ucrânia,  em 1986 e de impacto global em função da emissão de partículas  radioativas na atmosfera, que além da transmissão na TV, também ficarão disponíveis no aplicativo de streaming HBO Go. A série é comandada pelo diretor sueco Johan Renck, que dirigiu anteriormente três episódios de Breaking Bad, um episódio de Walking Dead   e outro de Halt and Catch Fire.
O ator Jared Harris (Mad MenThe Terror) interpreta Valery Legasov, cientista indicado para investigar  a causa do acidente logo após o desastre, considerado um segredo de estado pelo governo russo, que tentou abafar o caso evitando inicialmente fazer a retirada da população da área do incidente e até mesmo controlando o fluxo de informações, inclusive cortando os canais de telefonia na comunidade afetada pelo superaquecimento e explosão do reator nuclear, provocando a morte de vários técnicos que trabalhavam na usina nuclear e afetando desde socorristas, bombeiros, militares e  até a própria população atraída pela visão dantesca das imagens multicoloridas da explosão de energia atômica. 
Vale ainda o papel de Paul Ritter (Anatoly Dyatlov), o responsável pela usina, que se recusava a aceitar que houve uma explosão do núcleo, porque achava que isso seria impossível em função da segurança do sistema de geração de energia atômica. O elenco é integrado ainda por Stellan Skarsgård (Thor) interpretando Boris Shcherbina, membro de alto escalão do conselho de energia da União Soviética e apontado como chefe da comissão de Chernobyl pouco depois do acidente, quando o governo ainda não sabia da explosão do reator e procurava encobrir a dimensão real do acidente. 
Emily Watson é na série a física nuclear Ulana Khomyuk, a quem cabe resolver o mistério de como o desastre aconteceu em função de falhas do sistema e de erros humanos no que seria uma aparente operação de rotina e ao mesmo tempo criar protocolos de segurança prevenindo assim para que uma tragédia como esta não se repita.
A série que começa com uma reflexão sobre a questão da verdade e a manipulação política da informação, mas também revela o que seria o pior desastre do gênero na história, com milhares de pessoas expostas à nuvem radioativa, que contaminou parte da Europa, além de resultar no nascimento de crianças deformadas e mutantes.
Segundo dados iniciais,  31 pessoas morreram nos primeiros três meses após o acidente, mas milhares de vítimas pereceram nos anos  seguintes de doenças relacionadas à exposição e aos efeitos nocivos da radiação, que são sentidos até hoje pelos sobreviventes, enquanto as áreas vizinhas à usina continuam desabitadas e sob monitoramento.
Chernobyl tem como foco as mentiras e fake-news divulgadas pelo governo da União Soviética, liderado por Mikhail Gorbachev, que tentou sustentar -apesar das evidências contrárias - por algum tempo que tudo não passava de um simples incêndio, que colocou bombeiros e técnicos da usina nuclear diretamente em contato com o material radioativo. A série com cores sombrias mistura drama, com ingredientes de um thriller político e de horror com a dimensão de uma tragédia global, que ganhou dimensão em escala planetária. Vale a pena conferir. (Kleber Torres)