sábado, 23 de novembro de 2019

A face da tragédia tem um nome de mulher em Lady Macbeth





Sem nenhuma relação direta com a tragédia shakespeareana,  o filme inglês Lady Macbeth tem como base uma adaptação da peça "Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk", do escritor russo Nikolai Leskov, cuja apresentação mesmo sem nenhuma relação com o campo da política, mas tendo como pano de fundo a luta de classes dicotômicas entre servos e senhores, homens e mulheres, foi proibida na Rússia durante o período negro do stalinismo. Leskov, se inspirou numa das personagens de William Shakespeare, ao incorporar elementos trágicos da peça, captando a falta de empatia e arrogância daqueles que desprezam os seus subalternos ou a própria vida.
O filme num cenário da era vitoriana, tem a direção  competente de William Oldroyd e o roteiro assinado por  Alice Birch, uma dupla de estreantes em longas-metragens, mas que ambientaram a obra nos idos de 1865, período em que o livro foi lançado na Inglaterra. Lady Macbeth resgata cenário de uma Inglaterra rural no século 19 e tem como referência o debate e o lugar da mulher numa sociedade patriarcal e conservadora.
Lady Macbeth nos mostra os conflitos entre a masculinidade e a feminilidade no mundo. Mostra também como uma mulher, Katherinne (Florence Pugh), com uma interpretação magistral, deixa de ser uma figura submissa, que não tinha relações sexuiais com o marido, Alexander (Paul Hilton),  que a mandava se despir, ficar de costas para ele e olhando para a parede, enquanto o mesmo se masturbava.
As coisas mudam quando o marido viaja a negócios e ela começa a ter um caso com um dos agregados da fazenda, Sebastian (Cosmo Janis), que tinha uma relação sadomasoquista com uma das criadas da família. Katherinne também bebe todo o vinho do sogro Boris (Christhopher Fairbanks) e que estava na adega, e quando este a interpela lembrando o seu fracasso enm todas as missões, inclusive em dar um herdeiro, mas acaba morto pela nora.
Katherinne considera que o marido odiava o pai e a ela e que talvez não volte mais. Mas ele retorna, observando que ela ficou mais gorda e fedorenta, se tornando uma vagabunda na sua ausencia. Alexander acaba morrendo num confronto com o rival e a mulher. Para não deixar pistas de sua presença, os dois enterram o homem e o seu cavalo.
A coisa se complica com o aparecimento de um herdeiro de Alexander, que também acaba morto numa sequência de crimes sucessivos capitaneados por Katherinne, que joga sem nenhum pudor a culpa no amante e na criada com quem deixara de falar após se relacionar com Serbastian, que a acusou pela sequencia de crimes dizendo que "ela me sufocou, me perseguiu e é uma doença." Katherinne se defendeu dizendo que tudo era uma mentira deslavada e que "o menino era como um filho para mim e eu, simplesmente, não fiz nada".
Como a corda arrebenta do lado mais fraco, o amante a a criada acabam presos, e a herdeira da Lady Macbeth assume impune o comando dos bens e do patrimônio de uma rica família de latifundiários. Ela não foi julgada e nem condenada sequer numa primeira instância, mas continuou tendo o gosto e o sabor da liberdade dos justos pairando sempre acima dos limites imprecisos do bem ou do mal.(Kleber Torres)

Ficha técnica:
Direção: William Oldroyd
Roteiro: Alice Birch
Elenco: Florence Pugh, Cosmo Jarvis, Naomi Ackie, Paul Hilton, Christhopher Fairbanks,  Bill Fellows, Joseph Teague, Ian Conningham e Fleur Houdjik
Cinematografia : Ami Wegner
Gênero: Drama
Nacionalidade: Reino Unido
1h 29min
2016

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Os magnificos caminhos de Crown e a arte de roubar



Inovador na linguagem, com o uso de telas divididas em multiplas imagens nas mais diversas sequências, o filme Crown, o Magnifico (The Thomas Crown Affair), dirigido em 1968 pelo cineasta Norman Jewinson, a partir de um roteiro assinado por Alan R.Trustman, mostra que o roubo pode ser uma arte e também pode compensar, ganhando inclusive um Oscar. O filme teve um remake em 1999, com o título no  Thomas Crown, a arte do crime, com Pierce Brosnan e Rene Russo
Crown também tem sequências antológicas como a dos seis minutos de um jogo de xadrez, marcado pela sensualidade numa disputa entre o hedonista Thomas Crown (Steve McQueen) e a detetive Vickie Anderson (Faye Dunaway) , que acaba num dos mais longos beijos da história do cinema e de um vôo num planador amarelo.
Thomas Crown é um próspero executivo que comanda um roubo audacioso a um banco, coordenando um grupo de quatro homens, de chapéu, óculos escuros e revólveres com silenciadores, que não se conheciam e que que rendeu dois milhões e seiscentos mil dólares. O dinhero é colocando  em um veículo e transportado pelo motorista, contratado por US$ 50 mil, que o deixa numa  lata de lixo de cemitério, junto a uma lápide que dizia: "abençoados os puros de coração", enquanto os outros ladrões escapavam separadamente pelas ruas centrais de Nova York.
Crown viaja para a Europa e  deposita parte dos recursos roubados num banco suíço, em uma conta com codinome e acesso através de uma senha. Enquanto a polícia realiza investigações sem sucesso sobre o roubo milionário, surge Vickie Anderson, uma investigadora de uma agência de seguros, que deverá receber 10% da quantia recuperada. Vale lembrar que um dos destaques do filme é também a canção original The Windmills of Your Mind, de Michel Legrand.
Depois de analisar uma relação de cinco possiveis suspeitos, que teriam viajado para a Suiça após o roubo,  Vickie considera que cada crime tem uma pesonalidade e uma marca de quem o praticou. Ela tem certeza absolutra de que Crown foi o autor intelectual do roubo e começa a segui-lo ostensivamente a partir de um jogo de polo. 
Entre os dois surge uma forte atração e, mesmo sabendo que ela espera uma falha sua para prendê-lo, Crown, que se preocupa com o que quer ser amanhã, continua a se encontrar a investigadora, numa espécie de jogo entre gato e rato. Nesse interim, a polícia identifica e localiza o motorista envolvido no roubo que é colocado na mesma sala de Crown, mas não o reconhece.
Vickie se aproxima ainda mais do antagonista e amante.  Após um jantar, ela acaba indo ao seu apartamento, onde os dois jogam uma sensual partida de xadrez e ao perceber que seria derrotado pela adversária, Crown joga duro  e a chama para jogar uma outra coisa, que emerge numa fusão de imagens sensuais.
Ele também a leva para a praia e mesmo sabendo que tudo o que ele gastar acima do seu patrimonio seria rastreado pelo fisco americano, Crown planeja um outro roubo igual e uma fuga para um pais tropical cheio de florestas, samba, carnaval e Pão de Açúcar, que coincidentemente é o preferido para fugitivos do cinema e pelos nossos corruptos de plantão. Com o crime consumado, ele deixa um bilhete e o seu Rolls Royce preto para a Vickie e parte em busca de novas aventuras, porque pelo menos no cinema e muitas vezes na vida, o crime também compensa. (Kleber Torres)


Ficha técnica:

Título :  The Thomas Crown Affair (Crown, o Magnífico)
Direção: Norman Jewison
Roteiro: Alan R.Trustman
Elenco: Steve McQueen, Faye Dunaway, Paul Burke, Jack Weston, Yaphet Kotto, Gordon Pinset, Addison Powel e Bruce Glover
Cinematografista : Heskel Wexler
Música : Michel Legrand
Gênero: Policial, Suspense, Romance
Nacionalidade: EUA
Ano de produção 1968
Cor Colorido

domingo, 3 de novembro de 2019

A arquitetura da morte na construção da casa de Jack




Ninguém sabe exatamente com quantos paus se faz uma canoa, mas o filme A Casa que Jack Construiu (The House That Jack Built) nos leva a uma construção edificada com dezenas de corpos das vítimas de Jack (Matt Dillon), um serial killer que divide o seu tempo entre assassinatos em profusão; o projeto da construção de uma casa e um mergulho abissal nos dez círculos do inferno de Dante em companhia de Virgílio (Bruno Ganz), com quem compartilha suas histórias de sangue e morte.

O roteiro valeria por uma confissão de um psicopata entremeada com reflexões sobre a transitoriedade da vida, a produção de vinhos e porque não, quanto às diferenças entre arquitetura e engenharia, para quem considera sem precisar da licença de Thomas de Quincey, o assassinato como a mais bela das artes.

O filme de 2 horas e 32 minutos, tem a direção  e roteiro do polêmico cineasta Lars Von Trier e chegou a ser comparado por alguns críticos em sua estruturação narrativa com Ninfomaníaca. O ponto em comum entre as duas obras está na rotina de compulsões dos personagens centrais, o do primeiro filme com foco no sexo e o segundo, nas dimensões da morte em toda a sua extensão. Já o Anticristo se insere neste circuito pela sua estética de violência e exacerbada pelos dramas existenciais.

No filme,  Jack se revela um criminoso nato, que cultiva a  morte desde a  mais tenra infância. Na idade adulta, ele se forma em arquitetura, cuidando de projetos como o da própria casa, com o mesmo detalhismo com que cuida das mortes de suas vítimas, executadas sempre com requintes de crueldade,  sem nenhuma empatia, o que o leva a matar os próprios filhos, a mulher e a outras vitimas escolhidas ao acaso, de forma aleatória.

O ciclo de mortes foi deflagrado  após uma carona a uma mulher (Uma Thurman), golpeada na face e no crânio por falar em demasia; outra vítima, por ser ignorante e interesseira –queria que o seguro de vida do marido fosse aumentado pelo psicopata arquiteto, o qual se passava por um agente de seguros- , e uma terceira, que acaba morrendo em função da  sua ingenuidade, quando Jack a informou que era um assassino em série responsável por uma sequência de 60 mortes. Os demais se inserem numa trilha de sangue que as vezes se dilui com a ajuda da chuva.

No  filme, o projeto da casa é similiar ao da sequência de mortes, que se estendem como um ciclo que nunca termina. Jack  o compara com o TOC, uma espécie de transtorno obsessivo-compulsivo voltado para a morte. Como metáfora, o roteiro o roteiro de Lars Von Trier insere comparações entre os atos de Jack e as obras de arte clássicas, comparando os crimes com a estética das catedrais, pinturas, filmes e livros,  o que se complementa com fotos tiradas dos cadáveres,  um fato comum durante a época vitoriana na Inglaterra, entre os anos 1837 e 1901, quando as pessoas utilizavam a fotografia para guardar recordações de gente morta. Afinal o que é arte e o que não o é ? 

O filme que tem uma narrativa lenta e complexa também trata a questão da violência exacerbada e sem sentido do nosso tempo com toques refinados de humor negro, revelando Jack como vítima de espécie de transtorno obsessivo-compulsivo, fato que o obriga a voltar repetitivamente ao  local do crime para limpar as marcas de sangue e como forma racional de apagar os vestígios do crime.

Uma outra sequência envolve um experimento de Jack para matar um grupo de pessoas com uma única bala como o faziam os nazistas para economizar munição no fim da guerra e a caminho da solução final, usando um projétil  full metal jacket. Tudo termina quando o serial killer acaba localizado e com a ajuda de Virgílio, resolve concluir suas obras com uma casa a partir dos corpos das vítimas.

A ação do serial killer é protegida ainda pela indiferença das pessoas ensimesmadas nos seus mundos e distanciadas em relação aos vizinhos ou ainda pelo comodismo da  polícia, que não tem  interesse em prevenir ou mesmo de solucionar certos casos. O projeto coloca o espectador involuntário e cúmplice de mortes em larga escala, similares aos crimes cotidianos que assistimos passivamente no noticiário da televisão.(Kleber Torres)


Ficha técnica
Título Original: A casa que Jack The House That Jack Built
Direção e Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Matt Dillon, Bruno Ganz, Uma Thurman
Ano:   2018
País:  Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Suécia
Duração:      2 Horas 32 Minutos

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Quando e como o goleiro tem medo diante do pênalti






Considerado uma metáfora do esporte e da própria  vida, o filme O Medo do Goleiro diante do Pênalti (Die Angst des Tormanns beim Elfmeter), de 1972, foi o primeiro longa-metragem do alemão Wim Wenders, que se notabilizou em filmes como Paris, Texas e O Sal da Terra, e assinou o roteiro a partir de um livro homônimo do escritor austríaco Peter Handke. Tudo tem como foco a história do goleiro Joseph Bloch interpretado por Arthur Brauss, que, se revolta com um juiz depois um pênalti durante um jogo de futebol, acaba expulso e depois, acaba se envolvendo num assassinato de uma mulher.
O filme sem cortes e de baixo custo, que foi remasterizado com uma revisão da trilha sonora, tem desdobramentos lentos e diálogos existenciais mesclado com muitas comparações entre o futebol, os sonhos que não têm sentido  e a vida dos personagens. Depois de expulso, o goleiro deixa o campo, leva um jornal e começa a vagar pela cidade.
Ele chega à cidade, aluga um quarto de hotel,  vai ao cinema, e depois do filme não consegue completar uma chamada telefônica, porque o telefone estava como defeito. Bloch voltar sozinho para o hotel barato onde está hospedado e vai dormir.
Praticamente repetindo o roteiro do dia anterior, ele volta ao cinema, pede uma poltrona espaçosa e acaba  marcando um encontro com a moça da bilheteria do cinema interpretada por Edda Köchl, com quem dorme e depois de tomar banho e café, a mata sem motivo aparente, num apartamento próximo ao aeroporto.
Depois do crime, ele foge de ônibus, se envolve numa série de incidentes e sempre procura acompanhar o caso do assassinato através da leitura de jornais.Numa cidade pequena, ele se aproxima de Glória (Erika Pluhar), que foi no passado sua companheira e que hoje, tem um restaurante e vive em companhia da filha de quatro anos.
Bloch ali se envolve em brigas, é assaltado,  e tem um comportamento errático, por fim, se depara, ao assistir um jogo de futebol, com um delegado que investiga o caso do homicídio em que está envolvido, o qual, segundo os jornais, já estaria elucidado. Como tudo é metafórico, faltou o árbitro encerrar a partida, que pode ser um retrato colorido ou em preto e branco da própria vida.(Kleber Torres)


Ficha Técnica :
Titulo: O Medo do Goleiro diante do Penalty(
Direção : Win Wenders
Roteiro: Wim Wenders e Peter Handke

Música : Jürgen Knieper

Elenco: Arthur Brauss, Bert Fortell,  Edda Köchl, Erika Pluhar e Ernst Meister
Alemanha

domingo, 20 de outubro de 2019

O pesadelo da ressurreição do fascismo




O velho Karl Marx considerava que a história se repete, a primeira vez como tragédia e na segunda, como farsa. Mas o filme Estou de Volta (Sono Tornato), uma produção italiana de 2018, dirigida por Luca Miniero, nocauteia esta tese e mostra concretamente,  que ela pode se repetir como comédia até de humor negro, como a da ideia de ressurreição do fascismo que ainda tem os seus adoradores e viúvas.
Tudo começa  após 70 anos da morte de Benito Amilcare  Andrea Mussolini, interpretado por Massimo Popolizio, que  ressurge em Roma, depois de passar através  de um portal que interligava magicamente o mundo dos vivos e dos mortos. O Duce, que se considerava o aeronauta do pensamento –os filósofos que se cuidem -, fica confuso e horrorizado ao ver a decadência do país que governou e se propõe a viajar pela Itália de hoje, onde nada funciona, nem mesmo os correios e nem os hospitais.
Mussolini também critica a miscigenação racial, a migração dos africanos e de gente de outros países europeus, o que o faz acreditar na necessidade de uma revolução e para isto, propõe  como lema para as mudanças: “vamos salvar a Itália juntos’. Também questiona os valores democráticos por considerar que o voto  não tem  nenhuma utilidade se o eleitor não sabe o que fazem de concreto os políticos eleitos.
Um repórter acredita que o misterioso personagem é um sósia do ex-ditador fascista e mesmo assim, o ajuda a começar na televisão como um comediante, que fazia questão de afirmar que era o verdadeiro Mussolini e que suas práticas e propostas  continuavam iguais às do tempo do fascismo.
A produtora Katia Bellini (Stefania Rocca) se entusiasma e pensa num show para este novo ator, o Mussolini Show e cria até uma conta de e-mail para o novo astro, que ganha pontos crescentes de audiência. Teatral, Mussolini faz caras e bocas na telinha, onde impõe silêncio e pausas planejadas, lembrando que: “todos vocês têm medo do silêncio. Se um rato entra em sua casa, você não chama um humorista, mas um dedetizador. Quando falo isto, vocês querem rir, por isso que em 1940 nós só produzíamos comédias. Depois de 70 anos, eu volto aqui e descubro que vocês continuam um povo analfabeto, conversando nas redes de sociais. Você estão sós, invejosos e cheios de rancor.”
Mussolini  faz duras criticas à sociedade de consumo, considerando que,  “estamos perdendo a batalha antes de começarmos a luta contra a pobreza entre jovens e idosos. Nós precisamos mais do que o whatsapp para nos dizer que estamos afundando .” O programa faz sucesso e consegue 33 pontos de audiência, alcançando 60% entre os jovens, o que leva Mussolini a todos os programas da emissora.
Dizendo que encontrou a Itália transformada numa Rodésia Setentrional, num Congo ou numa Nigéria, ele fala entre os planos para o futuro e defende a construção de um império: “voltei para ajustar o tiro! Pou!!!”. A tarefa para ele, é reconquistar a Itália e a memória nacional, desafiando os radicais de direita condescendentes com os guetos: “os políticos de direita têm medo de ser chamados direitistas e os de esquerda, de dizer coisas verdadeiras”, complementou.
Na sua metralhadora giratória, Mussolini se recusou até a falar do globalizado futebol italiano, onde os dirigentes são de Pequim, a bola indiana e os jogadores africanos. Quanto à política, ele sugere aos governantes que primeiro escutem os desejos do povo e depois façam obras e ações que atendam às suas expectativas.
A popularidade do fascista ressuscitado começa a ser questionada quando  ele é mostrado matando  um cão a tiros em um vídeo. Mussolini se defende dizendo que atirou, porque foi atacado e mordido pelo animal, mas não escapa uma agressão de defensores mascarados  dos animais. Outro golpe fatal na desconstrução deste personagem, foi Ariella Reggio (Nonna Lea), uma idosa com lapsos de memória, mas que reconheceu como o ditador assassino, que provocou a morte de seus pais, expulsando-o de sua casa.
Tudo termina quando o Duce, depois de um atentado, acaba reabilitado pelos italianos após ser perdoado pela dona do cachorro que matou, o que abre a porta para que avance com o seu carisma pelos caminhos, nem sempre retilíneos e para uma indefectível escalada ao poder, que às vezes corrompe absolutamente e por nos levar a muitos descaminhos. (Kleber Torres)

Ficha técnica

Título : Estou de volta (Sono tornato)
Direção: Luca Miniero
Roteiro: Luca Miniero e Nicola Guaglianone
Elenco: Massimo Popolizio , Ariella Reggio, Gioele Dix (Daniele Leonardi), Guglielmo Favilla (diretor de TV), Luca Avagliano (Gianni), Massimo De Lorenzo (Giorgio), Stefania Rocca (Katia Bellini), Frank Matano, Elenora Belcamino e Alessandro Cattelan
lançamento: 1 de fevereiro de 2018
Itália

sábado, 19 de outubro de 2019

O Favorito perde no jogo político e ganha no amor





Há um adágio brasileiro que considera a política como as nuvens, mudando constantemente em função do vento e do tempo, o que se aplica ao caso de Gary Hart, interpretado por  Hugh Jackman, em O Favorito (The Front Runner). O filme é  um drama biográfico sobre um carismático político do Colorado, por onde foi senador por dez anos e se torna o grande candidato do partido Democrata, liderando com folga  a disputa das eleições presidenciais de 1988.
O filme dirigido por Jason Reitman, de Obrigado por fumar, Juno, Tully e Amor em escalas, que assina o roteiro juntamente com Matt Bai e Jay Carson, conta a história real do mais jovem candidato, que aos 46 anos tenta chegar  à presidência dos Estados Unidos.  
A maré começa a mudar quando eclode o escândalo de seu envolvimento com uma jovem modelo, o que põe em risco não apenas a sua candidatura, mas o destino de todos ao seu redor, inclusive a mulher  Lee Hart (Vera Farmiga) e a  filha Andrea (Keitlyn Dever) .
Ao ser questionado por jornalistas, Hart sugere: “é só me seguir, fiquem na minha cola, vocês ficarão entediados”. Os repórteres aceitam o desafio, o seguem, e descobrem o seu relacionamento com uma jovem modelo Kansas, Donna Rice (Sara Pakston). A princípio, ele admite que ela não faz parte da sua campanha.
Mas a investigação jornalística não cessa, e numa entrevista sobre sucessão presidencial, ao invés de tentar focar o  debate sobre economia, política externa e outros temas recorrentes a uma candidatura presidencial, os jornalistas optaram por indagar se ele  fez sexo com ela ou se vai manter a sua candidatura à presidência?
Hart, ao perceber o clima hostil de uma imprensa  que reflete  as ideias de uma sociedade conservadora como a americana, telefona para a mulher informando sobre uma reportagem sobre o seu relacionamento  com uma mulher na casa de do casal, em Washington. A mulher o lembra de que havia pedido ao senador é que não a envergonhasse.
Procurada por jornalistas, Donna Rice, informou que pretendia trabalhar na campanha e simpatizava com as ideias do candidato. Gary Hart contra ataca à denúncias defendo sua privacidade. Mas os rumores se aquecem com o aparecimento de um envelope amarelo com mais fotos comprometedoras do candidato com outras mulheres, evidenciando que ele seria um mulherengo incorrigível e mentiroso contumaz
Ele ainda viaja pelo interior e tenta traçar estratégias para reassumir o comando  do discurso daquela campanha inicialmente fácil e vitoriosa, mas que, acaba sucumbido diante de uma avalanche de denúncias. Para assessores, Hart compara metaforicamente os jornalistas com os caçadores e aos candidatos como a caça, lembrando: “eu envergo, mas não quebro. Cometi alguns  erros, mas sou um idealista que sonha e quer servir ao povo”. Como azar no jogo pode  dar sorte no amor, ele continuou casado com Lee Hart pelo menos até o final das filmagens de O Favorito, que traz lições sobre marketing político e erros que não se pode conviver numa campanha qualquer.(Kleber Torres)



Ficha Técnica

Titulo: O Favorito (The Front Runner)
Direção : Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, Matt Bai e Jay Carson
Elenco : Hugh Jackman, Vera Farmiga, J.K.Simmons,  Alfred Molina, Kaitlyn Dever, Ari Graynor, Molly Ephraim e Sara Paxton
Música: Rob Simonsen
Gênero : Drama, Biografia

domingo, 1 de setembro de 2019

O Holocausto sob a cáustica ótica de um sobrevivente




O drama do Holocausto a partir da ótica e das memórias de um sobrevivente, Sol Nazerman,  interpretado num desempenho antológico  por Rod Steiger, é o tema de The Pawnbroker (O Homem do Prego), um filme e estadunidense de 1965,  dirigido  com competência  por Sidney Lumet, sobre a solidão, o medo, a falta de perspectivas e a morte . A história tem como base  um roteiro de Morton Fine e David Friedkin, baseado no livro de Edward Lewis Wallant.
O filme registra dois marcos na história do cinema: foi o primeira produção americana  a mostrar o Holocausto do ponto de vista de um sobrevivente à sanha assassina dos nazistas nos campos de concentrações transformados em uma indústria do medo e da morte. E emerge como a primeira película a  romper as regras censoriais do código moralista Hays ao mostrar os seios da atriz Thelma Oliver.
O enredo narra em preto e branco os  dramas psicológicos e humanos que deixaram marcas  num sobrevivente de um campo de concentração nazista ,que se estabeleceu após a guerra numa  loja de penhores em uma  área decadente e sombria do Harlem ocupada por traficantes, viciados, desempregados, prostitutas e gigolôs .
Tudo começa na Alemanha dominada pelo nazismo, quando o professor universitário judeu Sol Nazerman é confinado com os pais, a mulher e dois filhos em um campo de concentração.  Como  único sobrevivente da família após a Guerra, ele embarca para os Estados Unidos, onde monta uma loja de penhores no Harlem.
Ali, ele tem uma rotina de trabalho sem lazer ou amigos numa espécie de bunker, onde passa os dias negociando com viciados em drogas, prostitutas, desempregados e pessoas empobrecidas a quem oferece preços 90% inferiores ao do produto o quinquilharias apresentadas sem valor para  penhora. Cada cliente tem uma expectativa de vantagem no penhor de um rádio quebrado, de uma joia falsa ou mesmo a busca de uma palavra amiga do dono do prego, que não tem tempo para conversa fiada.
Sol tem  como empregado o porto-riquenho,  Jesus Ortiz (Jaime  Sánchez ), que  sonha em ser rico de qualquer forma e explora sua amante. Ele respeita  o patrão, a quem  considera uma espécie   professor pela sua visão objetiva da vida e pragmatismo nos negócios, mas ao mesmo tempo luta contra desejo  de assaltar a loja junto amigos criminosos do bairro. Vivendo numa área dominada pelo tráfico, Nazerman também enfrenta o criminosos como Rodriguez(Brock Peters), que utiliza o seu negócio de penhores para lavagem de dinheiro oriundo do lenocínio e do tráfico de drogas.
Vivendo solitário e fugindo de compromissos afetivos , Sol Nazerman além de um niilista sem nenhuma esperanças na vida, começa a enfrentar o medo e passa a  ter  recordações cada vez mais frequentes da sua tragédia pessoal, dos momentos ásperos em que  estivera nas mãos dos nazistas.
Ele era assustado de um lado, pelos latidos de cães que  o fazem lembrar da morte de um amigo,  mordido por um animais ferozes ao tentar fugir da prisão.  O pesadelo sem fim o ameaça no metrô, onde reconstituia uma viagem de trem aterradora até o campo de concentração, em   que perdeu toda sua família e viu a mulher indefesa, ser violentada por oficiais nazistas. O terror ganha em escala  com a invasão da sua loja por gangsters e depois por ladrões, num assalto frustrado que resulta na morte de Jesus,  o que o deixa  mais solitário e perdido numa cidade indiferente.(Kleber Torres)

Ficha técnica:
Título :The Pawnbroker (O Homem do Prego)
Direção: Sidney Lumet
Roteiro: Morton Fine e David Friedkin, baseado no romanceThe Pawnbroker, de Edward Lewis Wallant
Elenco: Rod Steiger, Geraldine Fitzgerald, Jaime Sánchez, Thelma Oliver e Brock Peters
Música         Quincy Jones
Gênero: drama
Estados Unidos
1965 •  pb •  116 min