terça-feira, 1 de setembro de 2026

O Princípio das Ideias: um pequeno blog com vocação internacional

O Princípio das Ideias (principiodasideias.blogspot.com) apresenta um caso interessante de longevidade na blogosfera: são mais de dez anos de existência, 309 postagens e cerca de 33.031 acessos, com uma característica particularmente relevante para um veículo especializado, pois a audiência não está concentrada apenas no Brasil. Há uma primeira conclusão que merece destaque: 33 mil acessos em pouco mais de uma década pode parecer um número modesto quando comparado aos grandes portais, mas é significativo para um blog especializado, de produção independente e com apenas 309 publicações. O mais importante, entretanto, não é simplesmente o número absoluto de acessos. É a qualidade e a distribuição geográfica dessa audiência. A distribuição informada é: País Acessos Participação aproximada Brasil 8.490 25,7% Hong Kong 6.090 18,4% Singapura 4.630 14,0% Estados Unidos 4.290 13,0% Alemanha 1.020 3,1% México 652 2,0% Portugal 634 1,9% Rússia 598 1,8% França 482 1,5% Outros 6.150 18,6% Isso significa que aproximadamente três quartos dos acessos vêm de fora do Brasil. É um dado extraordinário para um blog brasileiro escrito essencialmente em português. Mais do que indicar simplesmente uma audiência estrangeira, essa distribuição sugere que o conteúdo cinematográfico possui qualidade e capacidade de circulação internacional, provavelmente favorecida pela natureza universal dos temas abordados: filmes, diretores, atores, obras clássicas e personagens que podem ser pesquisados mundialmente. Há ainda uma peculiaridade: Hong Kong e Singapura aparecem à frente dos Estados Unidos. Isso merece investigação antes de ser interpretado automaticamente como audiência humana. Portanto, o dado é valioso, mas precisa ser qualificado. Outro indicador particularmente interessante é o comportamento recente: além dos 33.031 acessos acumulados; estao registrados 1.736 acessos em julho; e cerca de 2.500 em agosto. Se esses números são comparáveis dentro da mesma métrica do Blogger, há um crescimento de aproximadamente 44% entre julho e agosto.Isso muda bastante a interpretação do blog. Não estamos diante apenas de um arquivo histórico de textos cinematográficos. Existe sinal de reativação ou aceleração da audiência. O blog teria saído de uma lógica de acervo para uma possibilidade de crescimento. E esse é provavelmente o aspecto mais importante para o futuro do projeto. e 309 textos representam um patrimônio editorial Eles constituem um acervo digital especializado em cinema. Se cada texto estiver associado a um filme, diretor, ator, gênero, período histórico ou tema cinematográfico, o blog possui algo que os algoritmos de busca valorizam: um conjunto temático relativamente coerente. Isso cria uma vantagem conhecida no ambiente digital como autoridade temática Vale lembrar que m blog que publica sobre tudo pode ter muitos textos, mas dificuldade para estabelecer identidade. O Princípio das Ideias fez o contrário: construiu uma espécie de biblioteca cinematográfica digital e o conjunto de textos permite estabelecer inúmeras conexões internas sobre filme → diretor → ator → gênero → período → movimento cinematográfico → crítica → outros filmes. Essa arquitetura pode ser transformada em uma importante estratégia de SEO. Conteúdo O blog provavelmente possui um estoque de conteúdo muito maior do que sua capacidade atual de distribuição. É um problema comum entre blogs jornalísticos e culturais antigos. O jornalista produz, o texto permanece publicado. Mas o mecanismo de descoberta mudou, hoje, publicar um texto e esperar que o leitor encontre o conteúdo é insuficiente, pois, conteúdo precisa ser recirculado permanentemente. Um artigo sobre um filme produzido há dez anos pode voltar a receber milhares de acessos se houver uma nova série, remake, morte de um ator, premiação, aniversário do diretor ou alguma discussão contemporânea relacionada à obra. Cinema é especialmente favorável a esse mecanismo porque os filmes nunca desaparecem completamente da cultura. Assim, o o blog poderia ser organizado como uma cinemateca crítica digital.e há espaço para parcerias nesse projeto.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Qual o preço da morte onde a vida não tem valor?

“Onde a vida não tinha valor, a morte às vezes tinha o seu preço. Eis porque surgiram os caçadores de recompensa”, essa informação considerada emblemática na história do cinema marca a abertura de Por uns dólares a mais (A Fistful of Dollars), de Sérgio Leoni, considerado um remake de Yojimbo (1961), de Akira Koroswa, que chegou às telas quatro anos depois da obra-prima japonesa. Ambos os filmes partilham do mesmo núcleo narrativo de uma trama em que um homem sem nome manipula duas facções rivais, mas ambos diferem em tom, contexto cultural e ênfase temática. Apesar da rivalidade na disputa da recompensa, os dois caçadores decidem unir forças e se infiltrar no bando de El Indio para conseguirem seu intento. Tudo começa quando o caçador de recompensa Mortimer desce na estação de trem de uma pequena vila no deserto, onde pega o cartaz de um bandido procurado e em seguida, vai ao bar onde abate com um tiro um pistoleiro. Mortimer vê o cartaz de outro elemento da quadrilha de El Indio, ‘Baby’ Red Cavanaugh (José Marco), que também vinha sendo coincidentemente procurado por Manco. A convergência está na estrutura dramática e nas cenas onde ocorre uma mudança de comportamento, de ação, revelação ou até mesmo numa pausa dos diálogos. Ambientado no Novo México e Texas, o filme foi rodado na região desértica de Almeria, na Espanha, cujos cenários tornaram-se uma atração turística para visitantes de vários países. A narrativa envolve dois caçadores de recompensas, Manco (Clint Eastwood) e o coronel Douglas Mortimer (LeeVan Cleff, que disputam o mesmo prêmio, a cabeça El Indio (Gian Maria Volonté), que fugiu de uma prisão e cuja captura vivo ou morto foi fixada em dez mil dólares e planejava com sua gang assaltar o banco de El Paso. A história também envolve uma vingaça a ser esclarecida no final do filme. Em termos comparativos, “Yojimbo”, de Kurosawa, é um drama de ética que tem como ambientação uma vila feudal japonesa, retratando a época pré-moderna do Japão, com seu contexto social e hierárquico. Já “Por um punhado de dólares” tem como cenário uma cidade fronteiriça do velho oeste, sem lei e sem ordem, onde o vencedor é sempe aquele que saca primeiro. No caso do filme japonês o protagonista Kuwabatake Sanjuro (Toshirô Mifune), é um ronin, personagem que se impõe pela gestualidade e marcado pela ambiguidade moral como um homem acima do bem e do mal, o que lhe confere uma aura nietzcheana. Já a versão spaghetti de 1965 tem como um dos personagens centrais um caçador de recompensas Clint Eastwood, o Manco, que num jogo de poquer responde laconicamente a um dos jogadores que diz não ter ouvido a sua aposta: “sua vida”, para em seguida sacar sua arma eexecutar os três dos envolvidos na disputa de cartas. Em paralelo El Indio escapa da cadeia depois de matar com ajuda do seu bando quase todos os guardas do presídio, numa fuga planejada e o governo estabelece uma recompensa de US$ 10 mil pela sua recompensa, aguçando a caçada de Monco e Mortimer. Na fuga, El Indio se vinga matando um dos seus delatores que o havia entregue à polícia e retoma um relógio musical roubado por ele anos antes de uma mulher, que se suicidou ao ser estuprada após assistir o assasinato do seu marido. Nas investigações para sua localização, Mortimer é informado que o facínora planejava o assalto a um banco de primeira classe e seguro, possivelmente em El Paso, a maior e mais importante cidade da região. Também para tentar localizá-lo, ele se associa a Manco, que tenta entrar para o bando do assaltante libertando um dos parceiros do vilão da prisão, para, num assalto a um banco em Santa Cruz, liquidar três integrantes da quadrilha que foram em sua companhia. Manco também envia um telegrama ao xerife de El Paso informando dos planos do assalto ao banco local, mesmo assim usando explosivos, o bando explode a parede dos fundos do banco e leva o cofre, mas não consegue abri-lo. Enquanto isso, em Agua Caliente, um pequeno povoado numa área montanhosa, Mortimer liquida um dos integrantes da gang do El Indio que o reconheceu, e em seguida, oferece seus seus serviços ao grupo para a abertura do cofre roubado. El Indio guarda o dinheiro prometendo dividi-lo em um mês. Manco e Mortimesr abrem o cofre, escondem o dinheiro, mas acabam sendo encontrados e torturados. Os dois conseguem escapar e fazem valer a vingança. Além de ganharem a recompensa pela morte dos bandidos mortos num confronto final, receberão uma recompensa pela recuperação do dinheiro roubado do banco. No final, é esclarecido o mistério do relógio musical, o que é uma outra história acrescentada ao enredo do remake que se tornou um clássico, ganhou vida própria e resultou numa ação judicial patrocinada por Kurosawa. Em termos cronológicos, “Por Uns Dólares a Mais” é o segundo filme da Trilogia dos Dólares de Sergio Leone, sendo considerado um dos maiores spaghetti westerns já produzidos. Ele segue a linha de westerns italianos iniciada por “Por um Punhado de Dólares” e antecede “O Bom, o Mau e o Feio” e consolidou o western como gênero legítimo, influenciando outros cineastas como Quentin Tarantino. que unem violência, humor negro e ação nas suas narrativas cinematográficas. A obra reúne no elenco Clint Eastwood e Lee Van Cleef como caçadores de recompensas que enfrentam o vilão El Indio, num elenco que reuniu nomes como os de Gian Maria Volonté e Klaus Kinski. Leone intensifica o uso de close-ups, planos longos e ritmo cadenciado, criando tensão quase operística e a trilha sonora assinada por Ennio Morricone eleva o filme com composições que se tornaram referência mundial. A trama tem em comum a história de um estranho chega numa cidade em crise, percebe duas facções em disputa pelo poder, oferece serviços a ambas e as faz colidir, esse esqueleto é idêntico nas duas obras. O enredo replica a entrada do herói; jogo de favores e traições; escalada violenta; confronto final que aniquila as facções. Tanto em por “Uns dólares” a mais como em “Iojimbo”,há também em comum a economia minimalista de ação, marcada por cenas curtas e cortes secos que mantêm ritmo e suspense; mas explorando o silêncio e olhar como linguagem, mesmo quando no princípio era o verbo.(KLEBER TORRES) Ficha técnica: Título :Por uns Dólares a Mais (A Fistful of Dollars ou Per qualche dollaro in più ) Direção:Sergio Leone Roteiro: Sergio Leone, Luciano Vincenzoni e Fulvio Morsella Trilha sonora : Ennio Moriconi Montagem: Giorgio Serrallonga Duração : 132 minutos Origem : Itália, Alemanha Ocidental e Espanha Genero : Western, Drama 1965

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Quando a velhice desafia a polícia, o tempo e a própria ideia de crime

Há uma ironia poderosa no ponto de partida do filme “O Grande Roubo” (2016), de Terry Lee Cooker, que também dirigiu “O Guarda de Auschwitz”, “O Tatuador” e “Hooligan Legacy”, os homens cujas idades somadas superam 400 anos e que protagonizam o assalto não têm o perfil convencional dos criminosos cinematográficos. Não são jovens, atléticos, violentos ou movidos pela adrenalina, mas homens envelhecidos, alquebrados, alguns já próximos dos 70 anos, carregando consigo uma longa experiência no mundo do crime. É justamente essa condição que transforma o filme em algo mais interessante do que um simples filme sobre assalto. Baseado no caso real do roubo à Hatton Garden, em Londres, o filme acompanha um grupo de criminosos veteranos liderados por Brian Reader ( Sidney Livingstone) que associado a Basil (Michael McKell), especialista em alarmes e a um grupo de amigos para realizar aquilo que parece ser o golpe definitivo de suas vidas. A operação, executada em 2015, resultou em dezenas de milhões de libras em joias, dinheiro e outros valores roubados, mas, na maior parte não recuperados. O que interessa ao cinema, porém, não é apenas a dimensão financeira ou jornalística do roubo, mas a inversão de expectativas. O primeiro mérito da história está justamente na idade provecta dos protagonistas. Enquanto o cinema policial construiu durante décadas uma mitologia em torno do criminoso jovem, associado com velocidade, força, armas, carros e fuga. O Grande Roubo substitui tudo isso por outra coisa, ou seja, a experiência desses homens que conhecem os bastidores e regras do mundo do crime porque passaram boa parte da vida dentro dele, por isso sabem planejar, esperar, observar e desconfiar. O assalto, portanto, não nasce de uma explosão de violência, mas de uma espécie de artesanato criminoso com o estudo de cada detalhe do golpe até a sua implementação num final de semana. Essa característica aproxima o filme de uma tradição do cinema britânico de personagens marginais que envelheceram sem abandonar completamente o passado. Assim, o crime deixa de ser apenas uma atividade marginal e passa a funcionar como identidade, ele também deixa no ar uma questão fundamental, ou seja, o que acontece quando um homem envelhece, mas sua identidade continua presa ao passado? O grande roubo seria, então, uma espécie de última aventura rumo ao caminho da aposentadoria, da cadeia ou mesmo da morte. Os personagens sabem que estão envelhecendo e o golpe pode ser interpretado como uma tentativa de transformar uma vida inteira de criminalidade em uma última grande vitória, portanto, não se trata apenas de roubar dinheiro, mas trata-se de deixar uma marca como um grande golpe de mestre. O título original, Hatton Garden: The Heist (O assalto de Hatton Garden), é mais objetivo, pois título brasileiro, O Grande Roubo, enfatiza a dimensão épica do acontecimento, e de fato, existe realmente algo de épico na ideia de um grupo de criminosos veteranos desafiar um sistema de segurança moderno e sofisticado para conseguir penetrar no coração financeiro de Londres. Nesse sentido, o cofre representa mais do que dinheiro: representa a fortaleza do sistema e os velhos criminosos querem provar que ainda conseguem derrotá-lo. O elemento mais interessante da história talvez seja justamente o cofre, como metáfora de uma promessa de segurança absoluta, afinal, ele existe para dizer que determinados objetos estão protegidos contra o mundo exterior. O grupo, entretanto, demonstra que nenhuma segurança é absoluta e essa é uma das grandes ironias do filme revelando uma espécie de paradoxo, pois, quanto mais sofisticado é o sistema, maior parece ser o prazer de derrotá-lo. A operação transforma a invasão do cofre em uma espécie de duelo entre inteligência criminosa e tecnologia numa batalha entre duas gerações contra o próprio sistema inexpugnável. De um lado, homens envelhecidos, aparentemente ultrapassados; do outro, alarmes, câmeras, sistemas eletrônicos e mecanismos de segurança e os velhos ainda vencem. Mas o filme ganha outra camada quando o roubo deixa de ser uma aventura e começa a produzir suas consequências, pois o grupo consegue realizar o golpe, mas não consegue administrar perfeitamente aquilo que vem depois e é aí que a narrativa desmonta a fantasia do crime perfeito, pois, problema nunca é apenas entrar é sair, e, principalmente, desaparecer com aquilo que foi roubado. A polícia inglesa começa a reconstruir os movimentos dos envolvidos e gradativamente a investigação transforma pequenos erros em pistas que vão sendo exploradas pelos investigadores. Assim, a experiência acumulada pelos criminosos não é suficiente para neutralizar completamente a vigilância moderna e embora os homens que conseguiram derrotar um dos sistemas de segurança mais sofisticados de Londres acabam sendo derrotados por sua própria necessidade de continuar existindo depois do crime. A dimensão mais fascinante da história real está justamente no dinheiro que não foi recuperado, em que pese parte do grupo tenha admitido sua participação no crime e presa. O certo é que parte substancial do produto do roubo jamais voltou para seus proprietários e a investigação conseguiu recuperar apenas uma parcela dos valores, enquanto uma quantidade significativa permaneceu desaparecida. Isso acrescenta ao caso uma espécie de epílogo policial que o cinema dificilmente consegue encerrar completamente, a prisão dos criminosos não significa necessariamente a recuperação da fortuna, mas onde está o dinheiro? No final das contas O Grande Roubo adquire uma dimensão quase trágica, pois os homens vencem e perdem simultaneamente, vencem porque conseguem executar um dos assaltos mais espetaculares da história britânica, mas perdem porque terminam presos e identificados. Mas existe uma terceira possibilidade, pois, talvez tenham conseguido aquilo que realmente desejavam, ou seja, transformar suas próprias vidas em uma história, pois o crime passa a ser narrativa e a prisão não apaga o roubo, mas, pelo contrário, ajuda a transformá-lo em lenda. O filme O Homem que Matou o Facínora/ The man Who Shoot Liberty Valance(1962) de John Ford ensina que quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda. O espectador sabe desde o princípio que está diante de criminosos, mas o cinema cria uma curiosa ambiguidade, pois, acompanhamos a inteligência do plano, admiramos a ousadia da sua execução, observamos a implementação e, inevitavelmente, somos colocados na posição de torcer pelo sucesso da operação. Esse é um dos mecanismos clássicos do filme de assalto e espectador sabe que o personagem está errado, mas quer descobrir se ele conseguirá vencer. A interrogação aparece num estranho personagem jovem, de paletó e gravata que aparece no começo do filme e que deixa no final um anel de brilhante roubado nas mãos de um esmolé idoso, o que ele teria afinal com o roubo? (Kleber Torres) Ficha técnica: Título : Hatton Garden: The Heist O Grande Roubo Direção : Terry Lee Coker Roteiro : Ian Burnfield, Terry Lee Coker e Michael McKell Elenco : Michael McKell , Sidney Livingstone, Robert Putt, James Osborne, Sidney Kean, Ian Burfield, A.G. Longhurst, Richard Toone, Richard Duggins e Nicola Granada Fotografia : Terry Lee Coker Montagem : Terry Lee Coker Gênero: Drama, ação, suspense Música : Ian Wherry Ano: 2016 País : Reino Unido Idioma : Inglês Duração : 87 minutos

domingo, 5 de julho de 2026

O que faz um anti-herói numa terra dominada pela violência e corrupção

O filmeYojimbo (O guarda-costas),de Akira Korosawa, é um clássico do cinema de 1961 que combina humor negro, violência estilizada, crítica social e envolve um protagonista ambíguo. A sua estrutura narrativa relativamente simples conta a história de um ronin – samurai autônomo e errante que não servia a nenhum senhor – solitário, que acabou manipulando duas facções rivais, inspirando diretamente A Fistful of Dollars(Por uns dólares a mais), de SergioLeonie outro remake Last Man Standing (O último matador), de Walter Hill, gerando até uma disputa judicial sobre direitos autorais que culminou num acordo financeiro com Kurosawa. Tudo começa com a chegada de um ronin que se apresenta como Sanjuro Kuwabatake (Toshirô Mifune), numa vila quase deserta onde observa sinais de decadência e violência. Ele descobre que a cidade é controlada por duas facções rivais lideradas por Ushitora (Kyu Sazanka) e Seibei Iguchi (Seizaburô Kawazu), que comandavam seus capangas e concentravam toda uma estrutura corrupta de poder. Ao perceber a fraqueza estratégica das facções na disputa pelo poder, o ronin se oferece como guarda‑costas e começa a jogar as quadrilhas numa guerra, aceitando pagamento de ambos os senhores enquanto semeia desconfiança e provocações mútuas entre os rivais. O clima de tensão se acentua com a chegada de um jovem, Unosuke (Tatsuya Nakadai), armado com um revólver e altera o equilíbrio do jogo de poder. A partir daí há uma sucessão de sequestros, massacres e traições que tornam o conflito mais sangrento, resultando na aniquilação das gangues e na libertação da vila. Com a cidade em ruínas e o poder das facções eliminado, o ronin parte, deixando um final moralmente ambíguo sobre a questão da justiça e da violência, do poder e da ética. A obra é marcada por cenas curtas, com cortes precisos, e onde o uso do silêncio substitui longos diálogos revelando uma tensão contínua quanto aos enquadramentos numa cidade desolada e onde o espaço vazio reforça a sensação de caos social e isolamento do protagonista. Já o personagem central Janjuro Kuwabatake se revela um anti‑herói ambíguo sendo ao mesmo tempo carismático,cínico e imprevisível, mas cuja presença física e gestual, dita o ritmo e densidade ao filme. Kurosawa equilibra violência explícita com ironia moral servindo simultaneamente a dois grupos em conflito e em que a violência não é celebrada, mas mostrada como consequência e instrumento narrativo. Yojimbo condensou em 110 minutos uma combinação rara de invenção formal, associada com um personagem icônico e ampla ressonância cultural, nele Kurosawa reinventou o anti‑herói cinematográfico, criou imagens e ritmos que influenciaram o cinema ocidental e gerou debates sobre autoria que ampliaram sua fama como um dos cineastas mais influentes da história. Ele também substitui com maestria a épica por episódios precisos e cortes secos, criando tensão contínua e um ritmo moderno, que ainda hoje parece contemporâneo, mas também dialoga com o western e o noir, revelando segundo críticos inspirações em filmes policiais e faroestes americanos, criando um híbrido que facilitou sua transposição para o spaghetti western de Leone. O personagem central Janjuro antecipa figuras modernas do cinema e da TV que operam fora de códigos morais claros, servindo ao mesmo tempo a duas quadrilhas que disputam o domínio de uma cidade e serviu como de refência sobre como uma estrutura narrativa pode ser reescrita em contextos culturais distintos seja no Japão, na Itália e nos Estados Unidos, mantendo núcleo dramático, mas mudando tom e o cenário.Yojimbo é ao mesmo tempo uma obra‑prima perfeita em forma e execução, funcionando como um gerador de possibilidades estéticas, inspirando gêneros, criando um arquétipo de perssonagens e provocando debates sobre autoria que mantém o filme vivo ao longo do tempo. Historicamente, ele influenciou remakes como Por uns dólares a mais e O último pistoleiro porque ofereceu um modelo narrativo claro, com a história de um ronin/pistoleiro que manipula duas facções rivais numa cidade qualquer, aliado a soluções formais em termos de ritmo, espaço, sincronia e apresentando um personagem central icônico, gerando um modelo fácil de transpor para outros gêneros e mercados. (Kleber Torres) Ficha técnica Título: Yojimbo (用心棒) Direção: Akira Kurosawa Roteiro: Akira Kurosawa e Ryûzô Kikushima Elenco: Toshirô Mifune, Tatsuya Nakadai, Seizaburô Kawazu, Isuzu Yamada, Eijirō Tono, Kyu Sazanka e Hiroyuki Sanada Fotografia: Kazuo Miyagawa Trilha sonora: Masaru Sato Ano : 1961 Duração: 110 minutos Origem : Japão Cor: Preto e branco Gênero: drama/ samurai / ação / suspense

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Dalton Trumbo e a escrita como ato de resistência

A biografia Trumbo – A Vida do Roteirista Ganhador do Oscar que Derrubou a Lista Negra de Hollywood, do jornalista Bruce Cook, que serviu de inspiração de um filme protagonizado por Bryan Cranston e dirigido por Jay Roach em 2016, retrata com intensidade a relação entre criação artística, poder político e liberdade de expressão. Além de narrar a trajetória de um roteirista talentoso e polêmico, a obra apresenta a história de um homem que transformou a própria escrita em instrumento de resistência contra um dos períodos mais sombrios da cultura norte-americana e, ao se recusar a cooperar com o Comitê de Atividades Antiamericanas do congresso, acabou preso e impedido de trabalhar. O livro resgata a trajetória de Dalton Trumbo, um dos roteiristas mais brilhantes da chamada Era de Ouro de Hollywood e autor de roteiros para grandes produções e vencedor de dois Oscars, um deles atribuído ao desconhecido Robert Rich, que havia produzido o roteiro do filme Arenas Sangrentas, o qual lhe foi outorgado posteriormente em 1975, um ano antes da sua morte. Ele tornou-se símbolo da luta contra a perseguição ideológica promovida durante o macartismo, quando artistas, intelectuais e profissionais do cinema passaram a ser investigados e punidos por supostas ligações com o comunismo. O grande mérito da obra está em evitar tanto a hagiografia quanto a condenação simplista oferecendo versões e depoimentos inclusive de antagonistas do roteirista e escritor, que deixou sete livros publicados no Brasil. Trumbo emerge como uma figura complexa: brilhante, arrogante, combativa, polêmica, contraditória – um comunista que gostava de ganhar e viver confortavelmente em bairro de classe alta – e profundamente comprometida com suas convicções. O leitor encontra um personagem que não cabe facilmente nas categorias de herói ou mártir, pois a sua força reside justamente nessa humanidade imperfeita. Do ponto de vista literário, a narrativa se constrói como uma crônica da relação conflituosa entre arte e poder. A lista negra de Hollywood, que atingiu dez roteiristas - não aparece apenas como um mecanismo de censura, mas como um sistema destinado a produzir medo, isolamento e autocensura fechando as produtoras de cinema para cineastas, roteirsitas e atores, muitos dos quais se suicidaram. O livro demonstra como a perseguição política foi capaz de destruir carreiras, famílias e reputações, ao mesmo tempo em que revela a extraordinária capacidade de resistência daqueles que se recusaram a se submeter ao sistema. Um dos aspectos mais fascinantes da obra é mostrar a ironia histórica que marcou a vida de Trumbo, que mesmo proibido de trabalhar oficialmente, continuou escrevendo sob pseudônimos e testas de ferro, produzindo roteiros de enorme sucesso. O fato é que a máquina que tentava silenciá-lo acabou dependendo de seu talento e a escrita, nesse contexto, assume um caráter quase subversivo, pois funcionava invisível aos olhos do poder, mas impossível de ser eliminada. O livro também oferece uma reflexão atual sobre os limites da liberdade intelectual e embora trate dos Estados Unidos dos anos 1940 e 1950, suas questões ecoam no presente em função da agudização da polarização política nos dias atuais. Em uma época marcada por divisões políticas entre direita x esquerda, campanhas de difamação e disputas em torno da liberdade de expressão, a história de Trumbo recorda que a censura raramente se apresenta como censura; geralmente surge revestida de discursos sobre segurança, patriotismo ou moralidade. Como documento histórico, a obra ilumina um capítulo decisivo da indústria cinematográfica. Como biografia, revela os bastidores de Hollywood e as engrenagens do poder cultural. Como literatura, oferece um retrato vigoroso de um indivíduo que compreendeu que a escrita não é apenas uma profissão, mas uma forma de afirmar a própria liberdade e uma forma de resistência. Ao final da leitura, permanece a impressão de que a verdadeira vitória de Dalton Trumbo não foi conquistar estatuetas douradas ou recuperar seu nome nos créditos dos filmes. Sua maior conquista foi demonstrar que nenhuma lista negra consegue derrotar definitivamente uma ideia quando ela encontra um escritor disposto a defendê-la, com isso, o livro transforma essa trajetória em uma poderosa meditação sobre coragem intelectual, dignidade e o preço da independência de pensamento o que fez se escudando na própria constituição americana. Em última análise, o autor de Spartacus e Exodus, filmes que lhe devolveram os créditos de seu nome aos respectivos roteiros, é menos a história de um roteirista e mais a história da permanente tensão entre a criatividade humana e as tentativas de controlá-la. É também um retrato de um personagem complexo, de orirgem humilde, que tinha obsessão, por ganhar dinheiro a ponto de fazer tudo o que bem quisesse e viver com luxo, mas teve uma vida fabulosa e que será lembrado por essa história, ma obra que interessa não apenas aos amantes do cinema, mas a todos que acreditam que a liberdade de criar e pensar continua sendo uma das mais importantes conquistas da cultura moderna, por isso mesmo deve ser defendida e preservada. (Kleber Torres)

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Uma crítica da modernidade através de uma visão alegórica e surrealista

Uma crítica da modernidade através de uma visão alegórica e surrealista Considerado como uma espécie de ‘cult movie’ por sua estética surrealista e pela crítica alegórica ao conformismo, à alienação, à repetição mecânica do cotidiano e até à falta de sentido da vida na modernidade, Vivarium (2019), que no Brasil recebeu o título de Viveiro, envolve também uma das experiências mais inquietantes do cinema de ficção científica e terror contemporâneo ao questionar sobre a própria essência da realidade ou mesmo do ser e estar transitoriamente no mundo hodierno. Dirigido por Lorcan Finnegan, que também participou da elaboração do roteiro ao lado de Garret Shanley e estrelado por Jesse Eisenberg (Tom) e Imogen Poots (Gemma), o filme parte de uma premissa aparentemente simples de um jovem casal que procura uma casa para morar, para construir uma alegoria sufocante sobre viver a dois, reprodução social e aprisionamento existencial. A força de Viveiro está justamente na sua capacidade de transformar o banal em pesadelo transfigurando a própria realidade objetiva. O conjunto habitacional Yonder, numa periferia qualquer, com suas casas idênticas, jardins perfeitamente aparados e céu artificialmente azul com algumas nuvens, funciona como uma caricatura grotesca do sonho suburbano contemporâneo. Assim, o que deveria representar estabilidade e conforto torna-se um labirinto sem saída, funcionando como uma espécie de prisão cromaticamente pasteurizada onde o tempo perde significado. O filme dialoga claramente com tradições do horror psicológico europeu e da ficção científica existencialista. Nele há ecos do filme The Truman Show, Cube e até da arquitetura opressiva de Playtime, dá a Viveiro encontra identidade particular ao abordar a mecanização da vida adulta moderna e à alienação das pessoas. Assim, comprar uma casa, criar um filho, trabalhar até a exaustão emergem num roteiro que trata esses marcos sociais como engrenagens de um experimento biológico cruel com a adoção de uma criança estranha deixada para o casal. A interpretação de Imogen Poots é especialmente eficiente ao traduzir o desgaste psicológico progressivo da personagem Gemma com seus questionamentos existenciais. Enquanto isso, Jesse Eisenberg explora novamente sua conhecida persona ansiosa e neurótica, o que o leva a um colapso físico e mental na busca de uma saída para tentar sair do viveiro e do isolamento social. Ambos sao como cobaias humanas dentro de um ecossistema indiferente, com a missão de criar uma criança de crescimento vertiginoso para serem libertados. Mas é na figura da criança, que é ao mesmo tempo humana e alienígena, onde o filme alcança seu aspecto mais perturbador. O menino sem identidade própria, que imita vozes, emite gritos estranhos e comportamentos mecânicos, simboliza tanto os temores da parentalidade compulsória quanto a reprodução automática dos modelos sociais de comincação e controle O horror do filme não nasce de monstros tradicionais, mas da ideia de que a vida moderna pode transformar indivíduos em organismos condicionados à repetição infinita como numa espécie de beco sem saída. Viveiro aposta numa estética artificial que provoca no espectador uma espécie de desconforto contínuo, uma vez que as cores excessivamente limpas, os enquadramentos geométricos das casas e das nuvens e a repetição obsessiva das habitações criam uma sensação de irrealidade permanente. O subúrbio aparece como uma simulação defeituosa do mundo humano, produzindo mais desconforto do que entretenimento ao aprisionar o espectador dentro de uma ansiedade contemporânea reconhecível, com a suspeita de que a vida moderna está organizada em rotinas pré-estabelecidas, de consumo, reprodução e conformismo. O fato é que após levar Tom e Gemma até a casa número nove de uma das ruas do conjunto, o estranho corretor Martin ( Jonathan Aris) simplesmente desaparece e o casal acaba descobrindo que está preso num labirinto e sem possibilidade de fuga. Os dois recebem com frequência caixas de suprimentos e um bebê estranho com um recado para que cuidem dele até para sua libertação. A criança cresce rápido e apresenta um comportamento muito estranho e sem lógica andando ao crescer pelas ruas do bairro. O núcleo habitacional criado uma uma espécie de viveiro humano, não tem moradores aparentes e nem espaços de convivência, funcionando como uma metáfora do isolamento, da alienação e monotonia num ambiente em que caracteriza uma perda da individualidade das pessoas. Já a criança de características alienígenas com seus comportamento representa a manipulação e as pressões sociais sobre a paternidade, enquanto os adultos são presos a escolhas impostas. O filme também, incoprora metáforas como o da escavação de um buraco na tentativa de escapar do isolamento social e acaba se transformando num tútmulo, isso no sentido literal impedindo os personagens de fugir das imposições do isolamento social e uma vida transitória e previsível, o que envolve uma reflexão sobre as escolhas de cada um, a liberdade e as condicionantes de cada um para além das suas circunstâncias, o que envolve o ciclo nem sempre lógico da resistência humana e que se prolonga de forma dialética, quando a criança (Senan Jennings) cresce e se torna adulta ( Éanna Hardwicke) para assumir o papel do corretor Martin e prospectar novos clientes para o viveiro. (Kleber Torres) Ficha técnica Título original: Viveiro / Vivarium Direção: Lorcan Finnegan Roteiro: Garret Shanley e Lorcan Finnegan Elenco: Imogen Poots , Jesse Eisenberg, Jonathan Aris, Éanna Hardwicke, Senan Jennings, Danielle Ryan Olga Wehrly — Mulher Chorando Fotografia: MacGregor Montagem: Tony Cranstoun Trilha sonora: Kristian Eidnes Andersen Direção de arte: Philip Murphy Gênero: Ficção científica, suspense psicológico, horror Duração: 97 minutos Países de produção: Irlanda, Bélgica e Dinamarca Idioma: Inglês Ano de lançamento: 2019

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Um clássico sobre o poder e a loucura que entrou na história do cinema

Considerado o pai do horror psicológico, o clássico O Gabinete do Dr. Caligari(Das Cabinet des Dr. Caligari) de 1920, dirigido por Robert Wiene a partir de um roteiro assinado por Hans Janovits e Carl Mayer, é também um marco do expressionismo alemão e um exercício de cinema que transforma em 71 minutos cenários em estados de alma, questionando o poder, loucura e a própria confiabilidade da trama narrativa exposta com todas as suas contradições. O filme é também uma metáfora estética do olhar deformado, a partir de ruas estreitas e entrecortadas, telhados góticos e cubistas complementados por prédios e objetos disformes, que compõem o eixo visual uma das obras primas do início da história do cinema e se constitui até hoje numa referência estética para os cineastas e cinéfilos. Numa comparação dos atributos essenciais do filme, o Gabinete do Dr. Caligari tem sua força nos cenários angulosos e distorcidos, que deixam no espectador uma sensação constante de inquietação, definindo o tom expressionista da obra cinematográfica, cuja estrutura narrativa em quadro (frame history) gera questionamentos sobre a verdade, colocando ao mesmo tempo em dúvida o poder da autoridade e mesmo a questão da sanidade mental dos personagens. Tudo começa quando dois personagens sentados num local difuso e pouco iluminado conversam e um deles diz que os fantasmas existem, estão em toda parte e o afastam do lar, da mulher e da criança. Em termos temáticos o foco central do filme está no questionamento da autoridade, da manipulação da informação e a questão da sanidade mental, o que revela a perturbação moral e intelectual dos personagens, um problema que continua atual e ressonante nos dias atuais na sociedade do século XXI. A narrativa envolve o momento em que um estranho personagem, que se apresenta como Dr.Caligari (Werner Krauss), anuncia numa feira comercial internacional o espetáculo do sonânbulo Cesare (Conrad Veidt) , que está adormecido há 23 anos. Na mesma noite da primeira apresentação ocorre estranhamente um assassinato misterioso. O filme de Wiene, não é apenas um conto de horror; é uma demonstração de como o cinema pode traduzir estados mentais em um espaço físico qualquer e a cenografia acentuada com ruas tortas, sombras cortantes e interiores que parecem respirar, transformando o cenário em personagem, uma escolha estética que o coloca como um dos exemplos mais puros do expressionismo cinematográfico. Essa estética não é meramente cosmética ou decorativa, mas incorpora a própria linguagem dramática que comunica ansiedade, opressão e desorientação, refletindo o estado psicológico dos personagens e uma sociedade em crise. A estrutura narrativa emoldurada, revela uma história através de um narrador que pode ser instável, e esse é um artifício que desloca o espectador do conforto da verdade objetiva para a incerteza interpretativa. Essa ambiguidade formal faz do filme um estudo sobre a construção da verdade e sobre como instituições representadas por figuras de autoridade como o doutor, que é psicanalista, e mesmo o diretor de um manicômio, que podem manipular percepções e memórias. Dr. Caligari anuncia Cesare como conhecedor de todos os segredos e sugere aos espectadores que lhe dirijam perguntas as mais diversas. Um dos personagens questiona quanto tempo vai viver e Cesare responde na tampa: “até o amanhecer,” sinalizando para novos assassinatos, cometidos nas sombras da noite e com facas. Seria a profecia do sonâmbulo ou ele é uma projeção do mal, exigindo das autoridades policiais uma rigorosa investigação? A polícia chega a prender um homem com uma faca, mas ele nega participações nos assassinatos misteriosos. No plano temático, Dr. Caligari trabalha com medos dopós‑guerra, ou seja, a desconfiança nas instituições, o trauma coletivo de um país derrotado militarmente e obrigado a indenizar aos vencedores, além da fragilidade do bom senso e da razão numa sociedade em crise econômica e moral. A figura do sonâmbulo Cesare e do próprio Dr. Caligari funciona como metáfora para manipulação política, social e psicológica, leituras que explicam por que o filme continua a ressoar em contextos contemporâneos de pânico e crise. A influência do filme é palpável seja em sua sua estética e suas estratégias narrativas alimentaram gerações de cineastas e ajudaram a moldar o vocabulário dos filmes de horror e do cinema psicológico ao longo do século XX se projetando até os dias atuais. Mesmo para espectadores acostumados ao cinema moderno, a obra mantém força visual e intelectual, exigindo uma recepção ativa e atenção para a compreensão da trama narrativa do enredo na sua complexidade. Mas existem mesmo assim algumas barreiras de acesso ao expectador de hoje, uma vez que a versão atual foi recuperada através de registros de várias cópias e fragmentos disponíveis. A restauração realizada pela Fundação F.W.Murnau, que recuperou filmes expressionistas influenciam esta experiência, pois nem todas as cópias preservam a colorização ou trilha original. Há ainda nesse interirm, o distanciamento temporal de mais de um século entre a produção e os espectadores contemporâneos, que podem achar o ritmo lento e a mímica exagerados, evidenciando que é preciso ajustar expectativas críticas para absorção e compreensão da obra a partir do seu contexto histórico. No enredo, enquanto Dr. Caligari e Cesar enganam a polícia, uma mulher os descobre e denuncia que viu os dois juntos. À noite, ela é atacada, luta para se defender, mas desfalecida, acaba sequestrada por Cesare que, perseguido durante a fuga, acaba abandonando a vítima, caindo em seguida um pouco adiante como um zumbi. Na sequência seguinte os dois personagens que conversavam na parte inicial do filme, são visitados por uma mulher e um deles, o mais joverm, a pede em casamento. A outra mulher narra em outra cena, que foi sequestrada por Cesare, o qual fora substituído no seu caixão por um boneco, enquanto Dr. Caligari empreende uma nova fuga. Mais adiante, num hospício, o investigador procura pelo paciente Dr. Caligari, mas, pelo contrário, ele é o diretor do manicômio e se descobre que ele vinha atuando há longo tempo com Cesare, cometendo crimes circuntanciais idênticos, indicando que o mesmo havia subjugado o sonâmbulo. Ali também é descoberto um documento revelando uma espécie de teoria e protocolo de dominação e poder sobre o sonâmbulo para o cometimento de crimes, como uma espécie de obsessão. O corpo do sonâmbulo é encontrado no local onde caiu durante o sequestro fracassado e ele é levado para o hospício, onde reage, recupera os sentidos, ataca médicos e enfermeiros, mas acaba dominado e colocado numa camisa de força. Tudo volta ao cenário do início do filme e um dos personagens comenta que daquele dia em diante o louco não mais conseguiu sair da cela. Fica também a recomendação implícita para que não se deixe Cesare prever o futuro para que não ocorram novos assassinatos. Ainda hoje, O Gabinete do Dr. Caligari permanece essencial e como um filme que não só assusta, mas ensina o que o cinema como arte pode fazer quando decide tornar a forma tão significativa quanto o conteúdo. Para quem estuda cinema, ele é leitura obrigatória e para o público geral, uma experiência que desafia e recompensa, como um filme piscológico sobre a loucura ou sobre o misticismo que deixou como legado a influência do horror no cinema moderno. A obra inspiranda em termos estéticos e narrativos inovadores para a sua época, reúne fatores que a tornam uma referência obrigatória sobretudo como um filme psicológico sobre a loucura e a construção da verdade, usando como pano de fundo elementos místicos como a hipnose e sonambulismo dispositivos narrativos e simbólicos para explorar essa relação com a psicologia. O fato é que a ambiguidade entre delírio e realidade é a intenção central do filme o que lhe deu uma dimensão.(Kleber Torres) Ficha técnica : Título: Das Cabinet des Dr. Caligari/O Gabinete do Dr. Caligari Direção: Robert Wiene Roteiro: Hans Janowitz e Carl Mayer Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Lil Dagover e Friedrich Fehér Direção de fotografia : Willy Hameister Direção de arte: Hermann Warm; Walter Reimann; Walter Röhrig Música :Giuseppe Becce País: Alemanha Duração : 71 minutos Gênero: Terror, suspense, expressinismo Cor :P&B