terça-feira, 2 de setembro de 2014

Abraço corporativo ?






Considerado uma critica ao jornalismo e à forma produção de notícias requentadas de releases e de informações mal digeridas, o filme Abraço Corporativo, dirigido e roteirizado por  Ricardo Kauffman, um profissional da área de comunicação, revela os bastidores de rádios, jornais e revistas, bem como incursiona na picaretagem no mundo corporativo.
Tudo começou com a criação Confraria Britanica do Abraço Corporativo registrada em cartório, com endereço na internet e que culminou com um filme, com o personagem Ari Itnem (mentira de trás para frente) Whintaker (nome de fantasia para dar mais credibilidade ao personagem) interpretado pelo ator Leonardo Camillo, que também dizia ostentar títulos acadêmicos. 
O filme questiona a maneira como a mídia funciona submetida à lógica da velocidade da informação e em tempo de produção em escala industrial, obedecendo aos horários de fechamento das edições. Ele também propõe uma reflexão sobre a vulnerabilidade do jornalismo frente ao imenso aumento  dos canais de comunicação ao longo dos últimos anos, inclusive a proliferação de blogs e sites.  
 Vale observar que no contexto do fragmentarismo do espaço público  a mídia vive um cenário  em que as coisas são colocadas, mas não são debatidas e nem checadas. Além do mais como tudo é produzido na dimensão do espetáculo, as pessoas produzem para acontecer, mas não realizam, em síntese: há a canonização da mentira e do engodo, com a prevalência da mentira que acaba se institucionalizando no mundo empresarial e no político.
O documentário, de 75 minutos, conta a história do consultor de RH Ary Itnem Whintaker, e de "teoria do abraço" desenvolvida pela Confraria Britânica do Abraço Corporativo, ou CBAC, que seria uma franchising de um movimento similar na Inglaterra – o que não era verdade -  e de como ela pode combater uma séria doença que afeta as pessoas ou empresas pelo Brasil e pelo mundo: a "inércia do afastamento", talvez um subproduto da falta de comunicação provocada pelo uso excessivo das novas tecnologias nas corporações, problema responsável pelo cada vez menos frequente mas sempre saudável diálogo interpessoal.
No filme foi informado que  site da CBAC na internet, omitia a existência de possíveis clientes do consultor Ary Itnem e indicava aos  interessados em mais informações sobre a confraria e sua teoria do abraço que visitasse um cartório de registro de notas da capital paulista. O fato é que ninguém foi ao cartório, e apenas um repórter do jornal "O Estado de S. Paulo" chegou a desistir da matéria sobre o consultor quando não conseguiu do entrevistado o nome de qualquer cliente disposto a falar o assunto.
Neste projeto desenvolvido passo a passo  Ari Itnem bombou inicialmente em  2006,  na internet,  quando pediu  abraços em plena Avenida Paulista, recebendo muitas adesões de incautos. A façanha foi filmada e depois colocada no YouTube, num filmete assistido por mais de 650 mil pessoas. Por conta desse desempenho, ele virou figurinha carimbada na mídia nacional, dando entrevistas sobre relacionamento interpessoal nas empresas e sobre a teoria do abraço corporativo para praticamente todos os grandes veículos nacionais, numa delas fazendo jogging e abraçando até uma árvore.
Esse foi o passaporte para o acesso a entrevistas com Heródoto Barbeiro, da rádio CBN, e Gilberto Dimenstein, da "Folha de S. Paulo". O assunto também ganhou espaço em revistas e jornais. A experiência mostrou como os profissionais  de veículos de comunicação influentes, sem tempo ou paciência para checar dados e informações, simplesmente aceitam como fato tudo o que lhes é apresentado com aparência de verdade.
Vale salientar que rádios, jornais e revistas são sempre procurados por pessoas sérias e também por picaretas vendendo ideias e projetos os mais diversos, entre os quais cabe a proposta afetuosa do abraço corporativo num mundo mecanizado e robotizado.
O filme exigiu seis anos de trabalho de Ricardo Kaufmann e toda uma equipe  de voluntários, que reuniu outros amigos jornalistas e das duas empresas coprodutoras trabalhando. O Abraço Corporativo questiona  o chamado jornalismo de tese, ou seja, aquele em que a matéria já sai pronta e acabada da redação, cabendo a produtores de TV e repórteres apenas preencher a reportagem com um bom personagem, boas imagens ou frases de efeito ensaiadas.
Além de contar a farsa de Ary Itnem, o filme inclui  depoimentos de especialistas em comunicação entre os quais os jornalistas Juca Kfouri, Bob Fernandes e Eugênio Bucci, o psicanalista Contardo Calligaris, e o professor de Jornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Carlos Chaparro e até o ex-governador paulista Cláudio Lembo e Heródoto Barbeiro, este último admitindo que errou em não investigar a fonte das informações transmitidas numa entrevista ao vivo.



Ficha técnica:
Título: O Abraço Corporativo
Diretor: Ricardo Kauffman
Roteiro: Ricardo Kauffman
Elenco: Leonardo Camillo, Heródoto Barbeiro, Prof. Dr. Manuel Chaparro, Prof. Dr. Mauro Wilton, Juca Kfouri, Bob Fernandes, entre outros
Ano: 2009

País: Brasil

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Howl / Uivo




Uma obra-prima Uivo (Howl) é colocada em julgamento polêmico por ser considerada pornográfica por moralistas de plantão em São Francisco, 1957, dois anos após a sua publicação. O filme  reconta este momento a partir de quatro perspectivas diferentes: a do próprio texto do poema, que fala de sexo, drogas, homossexualismo e da vida sem perspectivas dos marginalizados; dos tumultuados eventos da vida que levaram o jovem Allen Ginsberg, um filho do pós guerra a descobrir sua verdadeira voz como um artista; mostra  a reação da sociedade conservadora em relação à sua obra, e uma animação que reflete a originalidade do poema Howl em si mesmo.
Em síntese as  histórias se entrelaçam para contar o nascimento de um dos marcos da contracultura americana dos anos 50, que ficou conhecida como Beat Generation. Tudo começa em 1957, quando Allen Ginsberg, interpretado por James Franco, fala em estilo documental  sobre a sua obra, e o controle total da poesia que conseguiu em algumas partes de Uivo, que começa com força expressiva: “eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus, arrastando-se pelas ruas do bairro negro de madrugada, em busca de uma dose violenta de qualquer coisa”...
O filme volta então num flashback  a 1955 para numa animação com música e poesia ao iniciar a introdução do polemico poema e retorna em seguida ao cenário do julgamento, com o editor Lawrence Ferlinghetti preso e julgado pela venda de material obsceno: o livro por ele publicado numa pequena editora.
Em seguida, Mary-Louise Parker  intrepretando Gail Potter se apresenta como testemunha e diz que não vê no Uivo nenhum mérito literário, mas um trabalho em linguagem vulgar. Ela quer aparecer e é dispensada pelo advogado de defesa. Em contraponto, na sua entrevista documental, o personagem que interpreta Allan Ginsberg diz que a geração beat não existe e que o livro é resultado da sua paixão literária por Jack Kerouack, também como ele integrante da geração beat, com quem aprendeu a linguagem livre e confessional e diz que escreveu o Uivo para Jack, numa linguagem franca e coloquial como a de uma conversa ao pé do ouvido.
Um outro depoente Treat Williams  (Mark Schorer) é questionado sobre o mérito literário da obra. Ele  diz que a entende uma obra contemporânea,   em linguagem poética e por isso metafórica  sobre uma variedade de experiências sexuais e drogas, comparando-a com um uivo de dor e um grito de angústia. Ele também fala que entende as palavras e o contexto geral em que o poema se situa, alertando que o julgamento vai servir para divulgar o livro, que até hoje no século XXI continua entre os mais vendidos daquela editora.
No documentário inserido no filme, Ginsberg fala da sua mãe louca e de sua internação por oito meses de um hospício, de onde escapa se comprometendo a assumir uma postura heterosexual. Ali ele conheceu um dos personagens a quem dedica o poema Carl Salomon, e complementa: “escrevi poesias sobre as pessoas que amava e com quem convivi”.
O poeta também faz reflexões sobre a composição do livro que visou atingir uma área do que considera a verdade absoluta. Fala também como conheceu Peter Orlovsky, interpretado por Aaron Tveit, com quem vive até o final da sua vida em 1997, quando morre aos 70 anos. Orlovsky morre 13 anos depois.
Outro depoimento importante em defesa da obra é a do David Kirk interpretado por Jeff Daniels,  que o compara a Folhas da Relva, uma obra prima de Walt Whitman, celebrando a vida infeliz de Carl Salomon, que não sabe se um personagem real ou de ficção. Para ele, o livro revela a angústia e de que tudo é criado para desespero do homem, levando em conta os três fatores da sua composição: a forma, o tema e a oportunidade. 
O advogado de defesa Jake Ehrlich (Jon Hamm), alerta para o julgamento jogar mais lenha na fogueira da ignorância e questiona o que é lascivo e para quem. Já o juiz Clayton Horn (Bob Balaban), mesmo considertado conservador, considera que o livro é escrito em palavras vulgares  e lembra de que o mal está nos olhos de quem vêm, concluindo que a obra tem um valor cultural importante e não é obseceno, derrubando a argumentação da acusação.
Para Ginsberg, o poema é mal interpretado como uma promoção e divulgação do homossexualismo,e termina citando a quarta parte final do poema: “O mundo é sagrado! A alma é sagrada! A pele é sagrada! O nariz é sagrado! ...Tudo é sagrado! toda a gente é sagrada! todo o lado é sagrado! todo o dia está na eternidade! Todo o homem é um anjo! O vadio é tão santo como o serafim! o louco é tão santo como tu minha alma é santa! A máquina de escrever é santa o poema é santo a voz é santa os ouvintes são santos a êxtase é santa! Sagrado Pedro sagrado Allen sagrado Solomon sagrado Lucien sagrado Kerouac sagrado Huncke santo Burroughs sagrado Cassady sagrado o desconhecido cansado e o pedinte sofredor sagrados os repugnantes anjos humanos! Sagrada minha mãe no asilo insane! Sagrados os c. dos antepassados do Kansas! Sangrado o saxofone que geme! O apocalipse bop! Sagradas as bandas de jazz gementes marijuana hipsters paz peyote cachimbos & tambores!” (Kleber Torres)



Ficha técnica:
Direção: Rob Epstein e Jeffrey Friedman
Roteiro: Jeffrey Friedman e Rob Epstein
Elenco:  James Franco  (Allen Ginsberg),  Mary-Louise Parker  (Gail Potter), Jon Hamm  (Jake Ehrlich),  Jeff Daniels ( David Kirk),  David Strathairn  (Ralph McIntosh), Alessandro Nivola  (Luther Nichols),  Treat Williams  (Mark Schorer),  Bob Balaban  (Juiz Clayton Horn),  Aaron Tveit (Peter Orlovsky) e Allen Ginsberg          em imagens de arquivo.
 Gênero: Drama

 Duração: 84 minutos

sábado, 30 de agosto de 2014

Alien, o Oitavo Passageiro





Considerado um filme do gênero da ficção cientifica, Alien, o Oitavo Passageiro,  lançado em 1979, e que alcançou um lugar destaque entre os filmes de maior bilheteria da história do cinema, como um verdadeiro blockbuster, tem a seu favor excelentes sequências de efeitos especiais sob a supervisão de Dennis Skotak.
O filme dirigido por Ridley Scott também se constitui num magnífico  trabalho do gênero de ficção cientifica de horror explorando um tema enfocado no livro de Allan Dean Foster, do mesmo nome e que também foi alçado à condição de best-seller, narrando a história trágica de sete tripulantes de uma nave espacial – cinco homens e duas mulheres - , que embarcam para o que seria uma viagem tranqüila até que alguém traz para o interior da espaçonave – um cargueiro comercial – um misterioso e mutável oitavo passageiro.
Toda a trama da história se desenvolve tendo como pano de fundo o cenário fantástico de uma nave futurista e de um planeta desolado com vestígios de uma possível civilização extraterrestre, envolvendo uma trama que mistura simultaneamente  suspense, terror e até espionagem.
O elenco reúne John Hurt, Verônica Cartwright, Tom Skerrit, Harry Dean Stanton, Ian Holm e Yaphet Kotto e Sigourney Weaver, no papel de Ripley, personagem central da trama,  e que seis anos depois reaparece na telinha na versão de Alliens, o Resgate, desta vez dirigido por James Cameron, que foi co-autor de Rambo II a Missão e do Exterminador do Futuro e seqüenciado depois com Alien 3 (1992) e Alien Resurrection (1997).
Já título do filme refere-se ao antagonista primário: uma criatura alienígena altamente agressiva que persegue e mata a tripulação de uma nave espacial mudando mimeticamente de forma. O Alien e seus elementos acompanhantes foram criados pelo pintor surrealista H. R. Giger, enquanto os artistas conceituais Ron Cobb e Chris Foss criaram os aspectos humanos do filme.

O filme  foi aclamado pela crítica e se tornou um sucesso de bilheteria, recebendo o Oscar de melhores efeitos visuais, os Saturn Awards de melhor filme de ficção científica. Ele foi escolhido para preservação em 2002 pelo National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, sendo considerado um filme culturalmente, historicamente, ou esteticamente significante.(Kleber Torres)



Ficha técnica:
Titulo : Alien, o Oitavo Passageiro
Dirigido por   Ridley Scott
Com   Sigourney Weaver, Tom Skerritt, Veronica Cartwright mais
Gênero         Ficção científica , Terror , Suspense
Nacionalidade         Reino Unido , EUA
Ano : 1979

Duração : 1h56minutos

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O quarteto





O Quarteto marca a estreia exitosa de Dustin Hoffman, famoso por seus papeis antológicos em filmes como A Primeira Noite de um Homem, Perdidos na Noite,  O Pequeno Grande Homem, Todos os Homens do Presidente. Kramer versus Kramer e Rain Man, na direção de um longa-metragem. O filme é adaptação da peça de Ronald Harwood, que também assina o roteiro, contando a  história de um grupo de músicos eruditos aposentados e que vivem num asilo de luxo. O filme fala do amor, da velhice, da maturidade profissional, da arte, da solidão, da própria vida  e é permeado pelo humor  refinado e inteligente.
Os  personagens refletem sobre os acertos e erros do passado, mas buscam ao mesmo tempo  motivação para continuar com suas vidas, apesar da idade e dos dissabores limitantes da velhice, talvez o caminho de uma segunda infância.
O quarteto lírico do filme é formado por Reggie (Tom Courtenay), Wilfred (Billy Connolly), Cissy (Pauline Collins) e Jean (Maggie Smith), que  se reúnem depois de uma série de marchas e contramarchas para uma apresentação visando arrecadar fundos e salvar a luxuosa casa de repouso onde vivem, com dignidade e assistidos por uma equipe de profissionais.
O obstáculo deste reencontro está nas relações pessoais mal resolvidas, como a separação de Tom e Jean, bem na própria senilidade e na consciência da decadência dos envolvidos, pois, quando a voz que não corresponde mais timbre de outrora se pode compensar com a sabedoria e a experiência adquirida ao longo do tempo.
Numa cena dramática, Cissy (Pauline Collins) evidenciando sinais de demência senil ou de Alzheimer, sai sem rumo em busca dos pais e de uma viagem não programada momentos antes da apresentação do quarteto, que iria interpretar o Rigoletto de Verdi revivendo um sucesso passado, mas atuava agora para um pequeno público do asilo onde viviam visando angariar fundos para a instituição.
A câmera se fixa não apenas nos planos gerais dos salões e da paisagem, mas e também nos detalhes dos rostos vincados pelo tempo, nas mãos marcadas, nos olhos cansados bem como no contraste com a juventude da médica que administra a casa (Sheridan Smith) ou dos jovens que visitam o local para aprender sobre ópera e discutir sobre música ou mesmo sobre o rap.
O filme tem como pano de fundo a música, que marca a sua abertura e se insere em todos os momentos, culminando com a apresentação do quarteto e com uma justa e reconhecida homenagem a cada um dos personagens reunidos para o filme que foram celebridades na música, uns tocando com Frank Sinatra, outros como virtuoses e até mesmo com integrantes de orquestras sinfônicas ou como concertistas.
O filme consegue  mostrar com competência que existe futuro mesmo na velhice e que a arte é um caminho para a realização pessoal. Ele também nos lembra Seneca ao considerar que a vida é longa se for vivida na sua plenitude e alerta que o que importa não é viver muito, mas viver com qualidade, afinal, quem decide a duração da vida é o destino.

  
Ficha Técnica:
Direção: Dustin Hoffman
Elenco: Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Connolly, Pauline Collins,
Gênero: Comédia , Drama
Duração : 98 minutos

Lançamento : 2013

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O universo dos clichês



O filme pornô obedece a uma série de clichês e fórmulas prontas, conceitos e critérios, bem como de toda estrutura cenográfica e de marketing, chegando mesmo a criar alguns estereótipos, os quais são aceitos pelo seu público aficionado que não faz questionamentos e nem procura fazer uma análise crítica sobre o que seria conceitualmente erótico ou pornográfico.
No nível pornográfico ocorre o que seria uma perda da preocupação estética e uma mera vulgarização do sexo ou do próprio ato sexual nas suas mais diversas formas e posições como recomendava o Kama Sutra. Em síntese,  haveria uma coisificação e banalização do sexo em detrimento do artístico e da fruição da beleza em sua essência. Aqui vamos falar de dois filmes que marcaram época: Objetos do Desejo e Rambone.
Considerado um dos melhores filmes da safra de 1983, Objetos do Desejo – Objects os Desire – dirigido por Ji Bourg Jime,  aparece como um dos clássicos do gênero.  O roteiro chega a incluir uma história com aparente começo, meio e fim de acordo com o princípio aristotélico,  sobre um bordel que recebe uma virgem verdadeira  para descobrir os seus segredos e o vasto universo do sexo até mesmo pelos caminhos tortuosos do sadomasoquismo.
O elenco reúne Ron Heremy, Juliet Anderson, Mai Lin, Hershel Savag, Marilin DePire e Bridget Danke, com fotografia de Percy Young, que utiliza com abundância clichês e planos de detalhes  para acompanhar as várias linhas de ação consideradas importantes dentro de uma história com aparente sequência lógica  e racional.
O roteiro é narrado por uma terceira pessoa, ou seja,  uma prostituta que conta a história de Giovana e Baduque, um empresário que fez a sua opção epicurista pelo prazer, através do sexo geral e irrestrito, sem fixações em uma mulher específica e que opta pelos casos ligeiros e sem comprometimento, mas que acaba se transformando no iniciador  de uma virgem nos meandros e segredos do sexo e do sofrimento.
Assim,  a curra,  o estupro, sexo grupal, homossexual e todos os demais ingredientes são inseridos no roteiro do filme, que obedece a uma estrutura não linear, mas se desenha numa narração de atos sexuais sequenciados, com  uma estrutura de ação similar e ao mesmo tempo  comum aos demais filmes do gênero. Tudo isso torna Objetos do Desejo  uma verdadeira maratona sexual cujo objetivo seria o de manter ligado e atento ao espectador. O filme previlegia a ação em detrimento do diálogo e da razão.
Outro exemplar desta safra foi Rambone, o Destruidor considerado um clássico no gênero e que tem como espelho Rambo, um filme de violência e aventura no sentido bélico. No caso de Rambone, the Destroyer, dirigido por William Wet, o filme conta as aventuras de um exemplar raro de um super-bem-dotado  Dick Rambone, que se destaca pela performance  com suas 15,5 polegadas de instrumental, que lhe valeram o codinome de Destruidor.
Tudo se desenrola em 75 minutos de ação num vale tudo de sexo em geral no atacado e no varejo. O filme começa quando a namorada de Rambone se envolve emocionalmente com outra mulher, com quem partilha uma série de experiências entre si ou em encontros com homens e mulheres. No filme há uma predominância do sexo anal e das penetrações duplas, além dos clichês amplamente usados nos filmes do gênero, que se repetem infinitamente.
Rambone se revolta ao saber que era traído e se esforça ao tentar fazer como que a sua namorada insaciável abandone o sexo grupal, mas acaba neutralizado no seu esforço e embarca nessa onda passando a participar da orgias, mas desta vez como um vingador que usa uma arma destruidora e descomunal.

O verbal de Rambone e do elenco cede espaço para a ação pela ação, ou seja, o sexo pelo sexo, mas tanto ele como Objetos do Desejo podem ser vistos como metáforas e até mesmo como uma espécie de metalinguagem em que o sexo fala de sexo, de forma inesgotável e até insaciável, mas o resultado de tudo pode ser avaliado pelo espectador que tanto pode se deliciar com os filmes do gênero, como fazer uma profunda reflexão critica para distinguir os tênues caminhos que separam o erótico, com seu conteúdo estético, do pornográfico ou distinguir até quando o sexo vira mercadoria e um produto descartável. (Kleber Torres)

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

A viagem de Roger Corman





Reunindo Dennis Hopper e Henry Fonda, que atuaram no antológico Sem Destino (Easy rider), um marco da contracultura e uma das obras primas do cinema underground, o diretor independente  Roger Corman produziu The Trip (A viagem ao Mundo da Alucinação), uma incursão no mundo do LSD e psicodelismo. O filme, que tem o roteiro assinado por Jack Nicholson, não aprofunda o debate sobre a questão do uso de alucionógenos, fazendo apenas uma exposição do complexo e polêmico mundo psicodélico.
Formado em engenharia pela Universidade de Stanford e ex-aluno de Literatura Inglesa em Oxford, Corman entrou para a história do cinema como  um dos mais celebres autores independentes de Hollywood, com mais de 400 filmes, o que lhe valeu um Oscar pelo conjunto da obra  e que teve a seu crédito o lançamento  de diversos atores entre os quais Robert de Niro e Jack Nicholson.  Corman também conviveu com Francis Ford Coppola, Martin Scorsese, James Cameron, Tim Burton, Ron Howard, Joe Dante e Peter Bogdanovich entre outros diretores celebres, de quem era amigo pessoal.
O filme que tem o caráter aparente de uma reportagem ficcional e de um documentário, narra a história de Paul Groves, interpretado por Peter Fonda, um publicitário que atravessa uma crise conjugal e pessoal, o qual resolve com a ajuda de amigos fazer uma viagem psicodélica, com o uso de LSD, ácido lisérgico, um produto que no passado chegou a ser usado no tratamento da epilepsia, mas que produz alucinações fantásticas e é considerado uma droga potente.       
Em que pese a própria apresentação do filme  alertar para o risco implícito  do uso de drogas e os malefícios que elas podem causar, The Trip assume uma postura inteiramente neutra com relação ao lado bom ou negativo do uso do LSD, se limitando a mostrar um painel  da viagem psicodélica de Groves a partir de belas e calmas imagens coloridas, que progridem numa escalada turbulenta para um universo de paranóias e alucinações.
Também vale a pena no filme a sequência experimental de imagens e efeitos especiais com uso de cores e formas inusitadas tudo isso sem o suporte do uso de computadores e nem de tecnologia digital, dando ao espectador uma ideia sobre o que seria uma verdadeira viagem  com o potente LSD, que esteve em alta anos conturbados anos 70 do século passado e que tem hoje sua difusão relativamente em baixa  em função da difusão da maconha, da cocaína e mais recentemente avassaladora do crack entre usuários de drogas.(Kleber Torres) 

Ficha técnica
Título no Brasil       Viagem ao Mundo da Alucinação
Título Original         The Trip
Ano de Lançamento          1967
Gênero         Drama
País de Origem      EUA
Duração       85 minutos

Direção        Roger Corman

terça-feira, 26 de agosto de 2014

O leão do inverno







Reunindo um elenco de primeira grandeza com Peter O’Toole interpretando o rei Henrique II e Katherine Hepburn como a rainha Eleanor  - que recebeu o Oscar de melhor atriz  pelo seu desempenho no filme- , O Leão do Inverno é um épico sobre os bastidores da luta pelo poder. O filme dirigido por Anthony Harvey, baseado na peça homônima de James Goldman, que fez a  adaptação do seu próprio texto, o qual fez enorme sucesso na Broadway, em 1966.
Tudo começa no Natal de 1183, o Rei da Inglaterra, Henrique II, promove uma reunião de família com seus três filhos e até mesmo com a Rainha Eleanor da Aquitânia, de quem ele estva separado há vários anos e a mantém detida em um castelo distante, para impedir que ela interfira politicamente no seu reino.
Na agendo do encontro a decisão de quem  sucederá o rei no trono. Neste processo tenso e complexo a rainha Eleanora tenta se aliar com o rei da França  para assegurar ao seu filho mais velho a herança do trono, fazendo valer a lei primogenitura. Já o rei Henrique quer favorecer o filho mais novo e neste quadro se desenha um cenário de conspirações palacianas, prisões e ríspidos diálogos verbais, onde o risível se contrapõe ao sério e até ao besteirol.
O Leão do Inverno também reconstrói os cenários da Idade Média, com sua pobreza e suas nuances, num colorido sem contrastes e com alguns cortes de forma sincrônica. O filme compensa a sua lentidão – normal nas peças de teatro adaptadas para o cinema – e a pobreza dos cenários e da austeridade do interior de um castelo medieval, tendo como contraponto uma história humana rica e dramática, com homens rudes buscando parecer civilizados e nobres.
O filme descortina tabus de uma época ao colocar na agenda a questão do milenar homossexualismo entre os nobres e príncipes,  colocando em debate uma questão de todos os tempos e de todas as classes sociais. Mas o seu ponto mas forte está sem dúvida nos bastidores da renhida disputa e intrigas palacianas pelo poder, o que se desenrola de forma imprevisível no próprio cinema e na vida.
O Toole e Hepbrun premiam o publico com um desempenho antológico, dramático e coerente, mostrando num ambiente shakespereano a teatralidade dos gestos, na impostação da voz e  nos olhares, sem caras e bocas. (Kleber Torres)



Ficha técnica:
Direção:       Anthony Harvey
Com   Peter O'Toole, Katharine Hepburn, Anthony Hopkins mais
Gênero         Drama , Histórico
Ano : 1968

Duração: 134 minutos