domingo, 13 de agosto de 2017

Um super herói contracultural e intergalático genuinamente baiano




Considerado um dos marcos da contracultura no Brasil, o filme  Meteorango Kid – Herói Intergalático (1969), dirigido por André Luiz Oliveira é um cult movie, mas ainda é pouco conhecido e tem sido mostrado raras exibições para cinéfilos, a última delas no Festival de Cinema de Invenção realizado no primeiro semestre deste ano pelo Canal Brasil, resgatando algumas das mais relevantes obras cinematográficas dos anos 60. O filme, que tem como destaque a fotografia e o enredo, foi proibido para menores de 18 anos e para veiculação na TV, mas conquistou no ano da sua estreia  o Prêmio Especial do Júri, o Prêmio da Opinião Pública e a Margarida de Prata da CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil no Festival de Brasília.
A história, que começa com chegada de um alienígena nos coqueirais baianos e se transforma em Lula, rapaz de classe média alta,  que sonhar ser um super herói e o astro principal do filme "Tarzan e as Bananas de Ouro", uma sátira ao modelo de Edgar Rice Burroughs, que criou o rei das selvas, quando sua empregada o acorda. Antes de sair de casa ao som de "É Proibido Proibir", Lula recebe um bilhete contando que Duda, um amigo, morrera e ao invés de se emocionar, ele ri da tragédia.
Na faculdade, ele destoa de um grupo de alunos divididos entre direitistas e esquerdistas e assim, procura não  se envolver com as discussões tão em voga no movimento estudantil num tempo de repressão e medo. Ao mesmo tempo, enquanto seus colegas  participam de discussões acaloradas e às sem sentido como uma metáfora para driblar a censura, Lula opta por ler uma revista uma em quadrinhos e depois em tirar sarro dos colegas.
Na sequência seguinte, ele entre  numa produtora cinematográfica e imagina ser o personagem principal de "Tarzan e as Bananas de Ouro". Ali, o produtor, que o conhece desde a mais tenra infância, propõe a sua inserção no  papel  central do seu próximo filme, desde que o pai de Lula, que é capitalista, invista no custeio da produção. O produtor também fala das regras do jogo do mercado cinemagráfico que para dar lucro exige cenas de sexo, mulheres bonitas e violência.
Ao sair  da produtora, Lula encontra com seus amigos Caveira e Zé Veneno, os três vão à casa de Caveira fumar maconha e sob os efeitos da erva, ele  se propõe a oferecer o produto aos seus pais que se escandalizariam. Em sua "viagem", Lula pensa estar em seu quarto e imagina se transformar num super-herói batmaniano, que comete parricídio. Numa outra sequência, Lula, Caveira e Zé discutem e ele pega uma arma e dá um tiro Caveira, porque matar o não matar é diferenciado apenas pelo ato de efetuar o disparo, o que lhe confere uma visão nietzscheana da vida e dos fatos.
Ao voltar para a rua, o herói intergalático encontra uma amiga jornalista e a acompanha até a Ilha de Bananal, onde pescadores garantem ter visto discos-voadores. O filme faz uma critica à desnacionalização e americanização da cultura brasileira com a influencia dos brasilianistas que estudavam a nossa cultura e a sociedade. Num outro corte, ele imagina fazer parte de um filme de ação, desta vez enfrentando piratas armados de metralhadoras e fuzis, usando lanchas no interior da Bahia de Todos os Santos.
Depois, ele vai ao velório de Duda, que se suicidara em uma poça d'água rasa no meio da rua, e se lembra, sem mostrar nenhum arrependimento, que o havia humilhado por ser homossexual. O pai de Duda pede que ele acompanhe sua filha até a casa da avó para dar um telefonema. Ao chegar, Lula dá um susto na velha, que desmaia, e ainda seduz e fatura a irmã do suicida. Ao voltar ao velório, ele diz jogando as cinzas de um cigarro no morto: "papei sua irmã".
Ao retornar para  sua casa depois de um dia cheio de aventura e desventuras, ele é surpreendido pela família e amigos que prepararam uma festa surpresa de aniversário. O filme também mostra uma sequência no Teatro Castro Alves, onde para assistir a uma peça, ele se apresenta montado num burro e faz propaganda se sabão em pó e de produtos que se contrapõem aos valores à  cultura, porque quando “não se pode fazer nada a gente avacalha”, como diz o Lula numa das suas reflexões.
As sequencias das cenas se contrapõem também com a de um vampiro magro e subdesenvolvido, que segue mulheres indefesas nas ruas e acaba esbarrando num cara cabeludo que de costas se parecia com uma mulher. Ele se vinga de tudo comendo uma maça. No mais o filme termina com o alienígena descendo da sua cruz e subindo anum coqueiro para um retorno  dialético ao hiperespaço.
Entre legendas de procurado viva ou morto para o personagem central, fica na tela um questionamento válido para o período da contracultura e para os tumultuados dias atuais: “o que será de mim e da minha vida ? E o que importa?” Afinal o filme termina com outra frase simbólica do tempo do desbunde: “curti adoiado...” 
Há quem acredite que o filme traça o perfil  de uma geração oprimida pela ditadura e pela moral de uma sociedade hipócrita, num período de mudanças radicais do paz e amor livre, bem como com a subversão da cultura e dos valores éticos e morais, mas que não resultou na construção de uma nova sociedade e nem de uma nova ordem mundial.(Kleber Torres)


Ficha Técnica:
Título: Meteorango Kid - Herói Intergalático
Direção e roteiro: André Luiz Oliveira
Elenco: Nilda Spencer, Antonio Luiz Martins, Sônia Dias, Carlos Bastos e Milton Gaúcho
Música : Luiz Galvão
Direção de fotografia:  Vito Diniz,
Fotografia de cena: Cravo Neto, Mário
Produção: André Luiz Oliveira, Marcio Curi, Milton Oliveira
Data de lançamento: 1969
Brasil
P & B

Duração: 85 minutos

segunda-feira, 24 de julho de 2017

O que há entre a vida, a morte e o nada absoluto





O  Longo Caminho da Morte é um  drama que se propõe a uma reflexão sobre a vida, a morte, o capitalismo  e a loucura, sendo considerado um filme underground, produto do cinema marginal, filmado em 1971 com roteiro e direção de Júlio Calasso Júnior. A obra  fala vida e a morte do Coronel Orestes (Othon Bastos), fazendeiro de café decadente e perpassa três gerações de sua família entre o desespero, os sonhos, as alucinações e o envolvimento de três mulheres distintas na sua vida, além de uma pitada alegórica de  sexo numa árvore gigantesca e cenas de sadomasoquimo.

Marcado por monólogos alongados por digressões filosóficas confusas além  de uma profusão de planos gerais, deixando num segundo lugar  a  interpretação dos atores, o filme narra o drama de um oligarca rural envolvido com a política e que tem como pano de fundo e contraponto a cidade, com seu cenário urbano.

Neste contexto do conflito entre rural e o urbano, cidade aparece como síntese da modernização do país e de suas contradições sociais, enterrando  definitivamente o coronelismo substituído pelos empresários, industriais e  construtores de prédios que nascem sobre espaço agrícola, o mesmo que no passado fizera o prestígio e a riqueza do personagem central da trama.

Influenciado pelo Cinema Novo e pela contracultura, o Longo Caminho da Morte não tem uma narrativa linear e se  perde em cenas rurais e na casa grande da fazenda sem maior signfiicação. O filme é também o único longa de metragem ficção dirigido por Julio Calasso Júnior, uma obra marcada pelo  experimentalismo narrativo e pela aproximação com a contracultura, na busca de uma ambiciosa estética própria e de uma linguagem.

A obra trata em essência a decadência da oligarquia rural paulista enriquecida pela cultura do café – e falha ao tentar buscar raízes críticas na ironia, no deboche e se perde na excessiva monotonia das cenas que transitam do real ao surreal sem os limites necessários para entendimento da interface entre a sanidade, que tem limites não definidos e a própria loucura. Ele se perde no  ritmo essencialmente irregular e por isso transcende os parâmetros físicos entre a vida e da morte para se aproximar da essência do nada, com um discurso de vanguarda.

O filme começa com um velório  e num longo plano panorâmico –uma das suas marcas narrativas - mostra partes de pessoas sentadas, vestidas de negro velando um cadáver, cuja imagem é revelada de forma lenta e gradual. Ao fundo, o som de uma pá escavando a terra fazendo evidenciando o contraste entre os vivos e o morto, que será enterrado com o seu passado pretérito e ressurge na tela  em imagens como personagem de uma tragédia pessoal e da sua classe social em extinção, revelando uma outra disputa  entre as imagens e um discurso sobre a inevitabilidade da morte e da finitude da vida, sem vencidos e vencedores.

domingo, 23 de julho de 2017

Armazém Secos e molhados: A mercantilização da informação um problema reconhecido desde o século XVII




A transformação da notícia numa ‘commoditie’ e num produto comercial é o tema de  “O Mercado de Notícias”, um documentário de 2014, que tem como base a peça homônima do dramaturgo inglês Ben Jonson (1572- 1637), “The staple of news”, encenada pela primeira vez em Londres, nos idos de1626, e que foi traduzida a quatro mãos pelo cineasta Jorge Furtado, diretor e roteirista do filme e pela professora Liziane Kugland. A peça é uma sátira a uma profissão nova no século XVII: o  jornalismo e antevê a revolução da multiplicação de informações.
Já o filme O Mercado de Notícias, intercala trechos da peça – que tem um sabor de comédia – e ao mesmo tempo reúne de forma complementar uma série de entrevistas  construindo  um painel sobre mídia e democracia, mostrando que ao jornalista cabe ver, escutar, relatar e analisar os fatos observados no dia a dia. O filme também resgata ao mesmo tempo para o leigo  uma breve história da imprensa, desde o seu surgimento até os dias atuais, mostrando seu papel na construção da opinião pública, bem como analisando os interesses políticos ou econômicos por trás de cada noticia.
O próprio cineasta destaca no site sobre o documentário, que ele enfatiza dois aspectos destacados na peça de Ben Jonson: “o debate sobre a credibilidade da notícia, que inevitavelmente contraria e favorece interesses; o segundo é a necessidade constante e crescente de informações, a demanda por notícias que acaba por se tornar entretenimento”. No filme, fica evidenciado que cada reportagem responde a uma pergunta e que as fontes de informações têm seus interesses pessoais, corporativos ou querem simplesmente ferrar alguém, utilizando para este fim o jornalista que deve de forma criteriosa, ouvir as diversas versões sobre um mesmo fato mostrando-o na sua amplitude.
O filme reúne entrevistas com José Roberto Toledo, Bob Fernandes, Mino Carta, Renata Lo Pretti, Jânio Freitas, Luis Nassif, Geneton Moraes Neto, Raimundo Pereira, Cristiana Lobo, Fernando Rodrigues, e outros profissionais que falam das suas experiências e das perspectivas com relação ao futuro da profissão com o surgimento da internet e a concorrência dos blogs, que são individualizados e nem sempre têm sua fonte de recursos reconhecida.
 O documentário  analisa diversos casos como o quadro falso de um Picasso do INSS, que foi recebido no século passado como parte do pagamento de uma divida. Também são citados o caso da Escola Parque, da receita da Caipirinha e até mesmo da bolinha de papel que foi jogada no candidato José Serra, na campanha eleitoral de 2010 e que foi transformado num incidente de proporções com repercussão na mídia e na própria campanha eleitoral.
A peça tem como fundamento o caso de um herdeiro que recebe a noticia da morte do pai através de um andarilho e acaba herdando 60 milhões de libras. Ele discute com amigos a aplicação dos recursos e financia um amigo para ser escrivão de uma agência de notícias. A peça é narrada por um apresentador de prólogos e tem a participação de um grupo de mulheres como a comadre Tagarela, Expectativa, Censura e Prazeres filha do Natal e do Carnaval.
“O Mercado de Notícias” revela que no passado as noticias eram transmitidas por viajantes e retransmitidas por barbeiros. A anunciada agência dirigida pelo senhor Trombone, trabalha com quatro repórteres, homens que trabalham nas ruas e bão a qualquer lugar em busca da mercadoria, a notícia, sua fonte de renda e de sobrevivência, como também das empresas de comunicação. Entre as fontes de informação estariam a corte, a igreja, os bancos e os tribunais e fica nas entrelinhas a evidencia de que a boa reputação da verdade se perdeu desde que o dinheiro passou a ser o único valor.

Um dos entrevistados diz que a informação de um incêndio num supermercado do bairro em si não é notícia, e que ela seria considerada como tal produzida por jornalistas. Nos depoimentos fica a proposta de um jornalismo coletivo, além da eclosão das fakenews  -noticias falsas- e a necessidade do posicionamento do jornalista como profissional da informação, que deve ter honestidade intelectual e buscar as varias versões para os fatos, até porque, como dizia Millor Fernandes, “jornalismo é oposição, o resto é um armazém de secos e molhados”.(Kleber Torres)     

sábado, 4 de março de 2017

O marketing no vale tudo dos bastidores da disputa política



Todos no Brasil e em Itabuna, em particular, sabem o que é a eleição de um poste e os resultados de uma empreitada de marketing  deste porte. Assim, baseado em fatos reais ocorridos na Bolívia no início deste terceiro milênio, ou seja, depois do ano 2000, “Especialista em Crise” mostra  a jornada de um grupo de assessores de marketing político norte-americanos em atividade durante uma eleição presidencial na Bolívia e que acabou num verdadeiro desastre, com o eleito renegando sua plataforma política nacionalista e aderindo à cartilha recessiva e antipopular imposta na época pelo FMI, gerando no país um clima de insatisfação e revolta ingredientes que depois levaram ao poder o populista Evo Morales alguns anos depois, que não entra nesta história.
Tudo começa num país em crise e com o candidato Pedro Castillo vendo naufragar o seu projeto político, patinhando  30 pontos atrás dos concorrentes nas pesquisas de opinião. Assim, para reverter a situação, a consultora política Jane Brodine (Sandra Bullock), também conhecida como Jane Calamidade (numa referência à uma aventureira americana do século XIX, pois ficou relegada a um segundo plano no mercado publicitário depois de uma fragorosa derrota numa eleição nos Estados Unidos) é convocada às pressas para tentar salvar uma candidatura considerada quase inviável.
Ao aceitar o convite, ela deixa a vida numa pacata comunidade rural americana,  longe da agitação dos centros urbanos, e descobre ao chegar na Bolívia, que terá que enfrentar novamente seu principal adversário, o inescrupuloso Pat Candy (Billy Bob Thornton), um especialista em armações ilimitadas  e ciladas mortais para os adversários políticos.
Jane começa a trabalhar a partir de um prisma: que a verdade é relativa em politica. Constata ainda, que Castillo não tem um perfil de um vencedor, pecando pela falta de carisma e porque nada funcionava na campanha, pois o candidato não era convincente, e ainda cobrava saídas da estretagista de campanha, que também não se ajustou à altitude boliviana, que provoca náuseas e um mal estar durante a fase de adaptação do organismo.
Ela também observou coisas meio estranhas na campanha. Para mudar o quadro desfavorável, ela foca a campanha em eixos proativos como trabalho e ações positivas do candidato, que recebe um ovo na cara de um manifestante contratado pelos adversários e ao revidar, desfere um soco na sua face. Como estratégia de resposta à agressão, ela constata que o candidato não é um bom ator, não é uma pessoa simpática e nem deve pedir desculpas pois foi vitima de uma armação.
O candidato tem uma reação positiva também num encontro com manifestantes que quebram o para-brisa do ônibus que viajava e Jane também identifica que a Bolivia vive a maior crise da sua história, apontando como saída Castillo uma ação proativa e um discurso nacionalista.
Num filme  que não explora a competência de seus atores principais, envolvidos num conflito permanente, tendo como pano de fundo uma disputa eleitoral, muito embora Sandra Bullock tenha sido cogitada para uma indicação ao Oscar de melhor atriz, o desenvolvimento das ações são relativamente lentos. O fato é que  o diretor David Gordon Green embora com um argumento bem definido e interessante não consegue explorar o cenário político ao redor do processo eleitoral e nem a sua essência dramática.
“Especialista em Crise” revela em essência  uma crise permanente desde o principio ao fim e mostra o crescimento gradual da candidatura de Castillo, revertendo a tendência para sua aniquilação. A própria Jane Bodine lembra que “isso não é uma eleição, mas uma crise e o que vendemos é uma crise”. E passa a vender uma imagem de um candidato paternal que tem de ser preocupado com a solução de problemas e ao mesmo tempo duro, inflexível, com os seus filhos.
Ela também parte do conceito maquiavélico de que se as forças inimigas estão juntas, a missão da campanha é separá-las e consegue reverter a situação da campanha colocando seu candidato num empate técnico nas pesquisas eleitorais. Ao acompanhar um debate dos candidatos, o seu conceito teórico, todos são marionetes e de que os fins justificam os meios.
No final. Castillo acaba vencendo uma  eleição com 23,5% dos votos, superando Rivera que ficou com 22,8% das opções e terceiro colocado com 21,9% dos votos. Com  a vitoria, ela constata que a campanha começa com grandes promessas., mas termina sem merda nenhuma. O seu candidato vai ao FMI para um acordo lesivo aos interesses do pais e na contramão do seu discurso, o que gera protestos e uma revolta da população, que entre em choque com a polícia.
Jane constata que numa campanha eleitoral e publicitária de vendas os resultados são similares, pois o estrategista convence as pessoas de adquirir coisas que não precisam, afinal as pessoas querem dinheiro, poder e o anel de latão, por isso acabam dando voltas sem fim e sem nenhum sentido. O filme termina com uma interrogação e abre um questionamento sobre a importância e o papel da propaganda num eleição, que pode ser de um poste ou de um candidato de carne e osso, coerente com a realidade de um projeto político e eleitoral com bases ideológicas ou não, mas quem sabe? (Kleber Torres)



FICHA TÉCNICA
Título Original: OurBrand is Crisis // Especialista em crise
Direção: David Gordon Green
Roteiro: Peter Straughan
Elenco: Sandra Bullock, Billy Bob Thornton, Joaquim de Almeida, Scoot McNairy, Anthony Mackie
Gênero: Comedia
Duração: 1h 48min
Ano: 2016

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Canibalismo no vale tudo da luta pela sobrevivência




A verdadeira história que serviu de inspiração para  clássico  Moby Dick, do genial  Herman Melville, considerado uma das obras de referência na literatura universal e que também serviu de base para o roteiro do filme “No Coração do Mar (In the Heart of the Sea)” lançado em 2015, com excelentes efeitos especiais,  é o livro No Coração do Mar cujo titulo original em inglês é  “In the Heart of the Sea: The Tragedy of the Whaleship Essex”  do historiador americano Nathaniel Philbrick.  Ele retoma a história real a partir de uma série de levantamentos de dados sobre os  detalhes da tragédia do navio baleeiro Essex,  afundado  em 1820 depois de  abalroado por uma baleia  no Oceano Pacifico.
O filme resgata a trágica  viagem da baleeira e os seus  desdobramentos, especialmente no que diz respeito ao destino dos tripulantes, que tentaram sobreviver ao naufrágio da embarcação em botes com poucos mantimentos e quase sem água, chegando a praticar canibalismo, Tudo isso ocorreu depois que uma baleia branca de grande porte, com alabastro e mais de 30 metros de comprimento, não apenas afundou a embarcação como perseguiu  os sobreviventes numa espécie de vingança, que seria comum aos seres considerados  ‘inteligentes’ como os humanos.
 "No Coração do Mar"  começa com o escritor Melville, que acaba virando personagem da historiam,  buscando entrevistar um dos sobreviventes do Essex, Thomas Nickerson (Brendan Gleeson)  que evita falar sobre a tragédia marítima. Ele guarda  um segredo dos sobreviventes sobre a prática do canibalismo durante os 90 dias em que ficaram à deriva no mar, sem mantimentos.
Os náufragos enfrentam o que seria uma tempestade perfeita, com condições climáticas adversas, fome, medo e desespero, fatores associados que os  levaram a rever valores e as condições da própria existência humana e os conceitos do mundo civilizado. Thomas que vive bêbado diz no primeiro momento que só vai falar quando for preciso.
Em seguida, Melville, para quebrar a resistência do entrevistado, conta que também embarcou uma vez em uma baleeira e acaba dobrando o marujo,   um homem idoso, que considera que a história do Essex é a história de dois homens antagônicos entre si: o capitão George Pollard (Benjamin Walker), sem experiência no mar e que descende de uma estirpe de marinheiros e o seu primeiro imediato Owen Chase (Chris Hemsworth), um marujo experiente,que  almeja ser capitão e quer  superar a meta traçada por seu empregador processando dois mil barris de óleo na sua volta a Nantucket, seu porto de origem.
Com uma tripulação que composta por marujos experientes e muitos marinheiros de primeira viagem, que têm dificuldades para içar velas, o imediato   coloca em dúvida a competência dos tripulantes, inclusive Henry Coffin (Frank Dillane) embarcado  por ser  primo do capitão George Pollard, como a do próprio capitão que manda içar velas durante uma tempestade. Vale lembrar que superstições à parte, Coffins, em inglês significa caixão de defunto.
Eles navegam por 12 meses na caça de baleias e o relacionamento antagônico entre o capitão e o  imediato piora cada vez mais. Num porto do pacifico, ele descobrem um marujo maltrapilho Clemente de Palaez, que fala do afundamento do navio Santa Maria por uma baleia, mas tudo muda quando se deparam com uma ameaça imprevista:  uma gigantesca baleia branca que irá lutar por sua sobrevivência e acabará atacando o navio Essex e acaba perseguindo de forma sanguinolenta à sua tripulação.
À deriva em três pequenos botes os sobreviventes da tragédia se abrigam numa ilha deserta. Ali, encontram restos de náufragos mortos e que não conseguiram sair por falta de socorro. O capitão filosofa sobre o privilégio de saber sobre a própria morte futura sem chances de sobrevivência e é desafiado pelo imediato para um acerto de contas, acreditando que o que estavam passando em condições adversas era por ter ofendido a Deus com a sua arrogância.
A tripulação volta ao mar e deixa três homens mais fracos na ilha para um futuro resgate, depois de 40 dias à deriva. Em seguida um dos três  barcos que retoma a viagem desaparece. Nas duas embarcações restantes,  com a morte de um dos tripulantes que seria jogado ao mar, o imediato lembra: “nenhum marinheiro em são consciência descarta o que poderia salvá-lo”.
Thomas Nickerson, que vive em companhia da mulher em uma casa modesta, conta com detalhes que os tripulantes prepararam o corpo do morto separando as partes moles (órgãos), depois desossaram os mesmos e  separaram braços e pernas, fechando o corpo e jogando os restos mortais no mar. Primeiro, eles comiam o coração dos mortos e depois fígado, rins e por fim a carne.
Ele confessa que guardou este segredo macabro por décadas e não teria coragem nem mesmo de contar à mulher, “que por certo não me amaria sabendo das abominações que cometi”. A mulher nega e diz que a força do jovem que o alimentou ainda  vive em Thomas na sua velhice. 
No mar, ele conta que os sobreviventes sorteavam quem iria viver ou morrer para a continuidade da viagem macabra e assim, um dos marujos se suicida para não matar o capitão.
O grupo acaba encontrando um porto depois de 90 dias à deriva. Eles chegam à Más Afuera, no Chile, onde recebem roupas, água e alimentos, que têm dificuldade de digerir e só três meses depois chegam em casa, no Nantucket Harbor, onde desembarcam em 21 de junho de 1921. Ali foram recebidos como assombrações, mas ninguém nada questionou sobre a prática de canibalismo, embora parecesse que todos sabiam do enredo desta história trágica.
O capitão e o imediato foram ouvidos pelas autoridades náuticas, que engendraram uma outra história que não a de um navio afundado por uma baleia, mas de uma nau que encalhou no vasto oceano, para tentar receber com facilidade o seguro com uma estória pelo menos verossímil, no que foram contestados pelos dois oficiais que mantiveram a versão real dos fatos.
No fim, o capitão George Pollard voltou ao mar e tentou se vingar da baleia branca como o capitão Ahab, de Moby Dicjk, com sua perna de pau, mas acabou duas vezes amaldiçoado, desta vez com o navio encalhado num oceano longínquo. Já o imediato Owen volta ao mar, não mais numa baleeira, mas como capitão da marinha mercante.
No fim fica a lição do velho Hermann Melville no filme ao falar  “da coragem para ir  onde você não quer ir”, numa obra de ficção e ao mesmo tempo numa história com base na realidade e que as vezes é mais áspera e pior que a ficção.(Kleber Torres) 



Ficha técnica

Título: No Coração do Mar (In the Heart of the Sea)
Direção: Ron Howard
Roteiro: Charles Leavitt, Rick Jaffa e Amanda Silver, baseado em No Coração do Mar, de Nathaniel Philbrick
Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Cillian Murphym Tom Holland, Ben Whishaw, Brendan Gleeson e Michelle Fairley
Gênero: Drama
Música : Roque Baños
Direção de arte: Neal Callow, Dean Clegg, Nick Gottschalk, Christian Huband e Niall Moroney

Cinematografia: Anthony Dod Mantle

domingo, 8 de janeiro de 2017

Pedro Malasartes um hiato entre o jeitinho brasileiro e a corrupção





Pedro Malasartes um  hiato entre o jeitinho brasileiro e a corrupção


O filme “As aventuras de Pedro Malasartes” (1960) produzido e dirigido por Amácio Mazzaropi, resgata tradições da cultura oral popular brasileira e ao mesmo tempo revela aspectos culturais da nossa formação como o tradicional jeitinho brasileiro, a embromação ou a esperteza, que substituem o esforço do trabalho produtivo e torna a honestidade irrelevante ou coisa de otário. Este caldo se reflete nos problemas que vivemos hoje de corrupção e inépcia generalizadas, que afetam a todos os setores da vida nacional e numa profunda crise moral em que faltam referencias e padrões, resultando no aumento da violência que se generaliza, na falta de controle dos presídios abandonados pelo governo  e no registro ano passado de 58 mil homicídios, o que equivale a 158 mortes desnecessárias por dia ou a queda de um avião de grande porte a cada 24 horas.
Tudo começa quando o personagem Pedro Malazartes (Mazzaropi), ao chegar em sua casa na fazenda, recebe a notícia de que seu pai havia falecido.  Como um caipira humilde, analfabeto  e ingênuo, ele  acaba enganado e lesado espertamente pelos seus irmãos. Assim, enquanto um toma posse de todo o gado e dinheiro do falecido pai,  o outro assume de forma plenipotenciária o comando da fazenda numa partilha leonina e que deixa o terceiro irmão desfavorecido, pobre e deserdado.
Assim, sem nada a que reclamar, Pedro Malasartes deixa a fazenda levando os teréns quem lhe couberam por herança:  um ganso, um tacho velho e umas poucas roupas. No caminho, acaba sendo acompanhado por uma namorada, a quem abandona e que o caça pelo sertão, bem como por porção de crianças abandonadas de quem se torna uma espécie de provedor.
Duro, sem dinheiro e sem saber como conseguir descolar uma grana para as despesas com os órfãos que passam a segui-lo, ele começa então a aplicar pequenos golpes para conseguir dinheiro. Assim, vende por 300 cruzeiros um tacho que cozinharia sozinho sem fogo – naturalmente funcionaria num fogão elétrico - a um homenzarrão; em seguida vende o ganso por mil cruzeiros dizendo que ele é mágico e capaz de se comunicar com as pessoas.
 Ele  ainda consegue com sua esperteza roubar uma charrete convencendo a dona do veículo a ficar segurando o seu  chapéu no chão onde, supostamente, estaria preso um pássaro raríssimo e do qual só existiam três espécies masculinas no Brasil.
A lista de trambiques aumenta, com a venda de porcos que não eram dele, uma forma de estelionato ou até mesmo de tentar vender uma árvore também rara, que produzia dinheiro em lugar das folhas e que estava só botando notas de dez, porque não fora adubada de forma adequada.
Assim, ele se vê metido numa série de confusões e acaba preso, fazendo uma confusão dos diabos no tribunal durante o seu julgamento, quebrando o martelo do juiz; questionando o promotor que o chama de individuo de alta periculosidade, alegando que não pode ser julgado por uma coisa que não conhece e contestando o próprio advogado de defesa. Ele termina absolvido, arruma um orfanato para os meninos abandonados que o acompanham e mais ainda consegue no local um emprego para ele e a namorada, com quem acaba se casando e que só sabia mesmo criar galinha e parecia inepta para o trabalho formal.
As pequenas trapaças de Pedro Malasartes são fichinha e coisas de sacristão de igreja diante da nossa realidade, num país em que os professores em grande parte não ensinam o suficiente; os médicos cuidam prioritariamente da saúde financeira de suas famílias e não do conjunto da população que padece nas filas do SUS e não encontra medicamentos nas farmácias das prefeituras ou dos hospitais aos quais têm de recorrer.
No país também temos os nossos engenheiros e arquitetos de pirâmides financeiras que se espelham pelos rincões da nação, enquanto servidores públicos reclamam de salários, mas prestam um serviço de qualidade inferior para os contribuintes.
O Brasil  também tem problemas de corrupção que se espraia na máquina policial, no sistema penal e isso sem falar nos juízes, promotores ou ministros com direito a férias normais e mais a um recesso de fim de ano ou ainda com magistrados punidos apenas com aposentadoria por envolvimento em delitos graves, além da rede de empresários e políticos processados e denunciados em grandes escândalos de corrupção a exemplo do Mensalão e Lava Jato, coisa para ninguém botar defeito e que torna as aventuras de Pedro Malasartes uma simples comédia diante da tragédia brasileira, mas que faz rir adultos e crianças de um outro tempo. (Kleber Torres)

Ficha Técnica
Título: Aventuras de Pedro Malasartes
Direção: Amácio Mazzaropi
Roteiro: Marcos César e Galileu Garcia
Elenco:  Amácio Mazzaropi, Geny Prado, Genésio Arruda e Dorinha Duval
Género: Comédia
Idioma: Português
Brasil 
1960

95 minutos 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Truman e uma opção voluntária pela vida ou pela morte





Vinicius de Morais dizia em um dos seus poemas, que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro e isso fica evidente no filme argentino e espanhol Truman, ao mostrar que tudo o que importa na nossa estada no mundo são as relações, ou seja, o amor, a família e os amigos.  Tudo se começa quando dois amigos de infância, separados  decorrência de opções pessoais e de trabalho, se reencontram depois de muitos anos.
Os dois  passam quatro dias juntos, relembrando os velhos tempos  da infância e adolescência,  bem como as peraltices que formaram uma grande amizade e cumplicidade que se manteve com os anos, tornando-os inesquecíveis. O seu reencontro é também o último adeus, mas um adeus não piegas e encarado de frente diante não apenas de uma realidade  absurda e do insólito que cerca a cada um de nós, que muitas vezes é obrigado a fazer opções e a decidir às sobre a vida e a própria morte através da eutanásia, um tema polêmico e recorrente neste nosso tempo em que Thánatos passeia pelas ruas sem disfarce com atentados terroristas e chacinas sem fundamento racional.
O filme gira em torno de Julian (Ricardo Darin), um ator argentino radicado na Espanha, que se predispõe em função de um câncer,  a dar o seu velho cachorro Truman, com idade avançada, de forma que ele se sinta protegido e querido, porque os cachorros considerados os melhores amigos do homem não são como as plantas, seres vegetais e também sentem a separação dos seus donos.
O filme também fala  amizade e cumplicidade de dois homens que se conhecem desde a juventude, Julián  e  Tomás ( Javier Cámara), professor universitário radicado no Canadá, mas que retorna à Espanha para um reencontro com o amigo por conta da doença e dos problemas enfrentados pelo amigo, também em sérias dificuldades econômicas e existenciais.
A cumplicidade entre ambos pode ser percebida no reecontro dos dois,  quando Tomás diz: “vejo pelo seu pau duro que está feliz em me ver”, ao chegar na casa de Julián que parecia desperto e insone durante a madrugada. Ela também se evidencia no olhar e sorriso do amigo ao abrir a porta e reencontrar o outro  num momento de dificuldades pessoais.
Os dois  vão ao consultório de um oncologista que fala dos protocolos do tratamento à base que quimio e radioterapia, que é rejeitada por Julian dizendo que veio para dizer que não quer nenhum tipo de terapia e não pretende voltar ao consultório, porque não pretende perder o tempo que lhe resta entrando e saindo de um hospital sem chances de cura. Ele também diz que sabe que todos fazem o que podem, mas ninguém afinal tem culpa de nada.
Julian também filosofa dizendo que não sabia que precisava de um argumento para viver e comenta que já sonha com os mortos, como se estivesse se preparando para a viagem junto com a velha senhora. Ele também lembra que antes era muito ateu e não acreditava em nada, mas nem a doença mudou as suas perspectivas.
O filme tem como  título, o nome do cachorro de Julián, que encontra algumas pessoas interessadas no animal, a quem explica que iria viajar e não poderia levá-lo. A adoção enfrenta uma barrreira: pouca gente quer um cachorrro velho. Durante os quatro dias da visita de Tomás a Madrid, o diretor Cesc Gray construiu um rico painel sobre os hábitos e o caráter do ator argentino, que é confrontado por pessoas de seu em um restaurante e até mesmo pela sua ex-mulher.
O filme revela as várias facetas da luta do indivíduo pela vida e pela  morte com dignidade, o que se  revela no reencontro de poucas palasvras com o filho que vive em outro pais e a quem abraça num gesto de despedida em Amsterdã antes de uma prova e de um concerto . Julian também assume  pessoalmente o  momento de encarar a despedida da labuta nos palcos que lhe dá um dos poucos prazeres que lhe resta e uma renda insatisfatória para sobreviver sem depender da ajuda do amigo e quando tem de acertar  os preços para um enterro normal, para quem está sem grana.
Como um morituro, ele  age como um ser de  uma espécie rara e extinção com coragem para encarar a vida e morte de frente, afinal cada um morre como pode e no momento em que percebe que precisa deixar para trás seus amigos ou sonhos acalentados durante a vida. 
E é justamente isso que Julián se prepara para fazer ao tentar encontrar um lar para Truman e se propõe depois a ficar bêbado e a derramar suas lágrimas, uma decisão de um homem também cansado e desiludido que não pretende esperar o final e que pretende na morte encontrar uma paz não achada nos caminhos tortuosos da vida, porque cada homem é ele e o conjunto absurdo das suas circunstâncias, muitas delas adversas e desfavoráveis, mas como dia o poeta brasileiro Vinícius de Morais a vida também não é de brincadeira.(Kleber Torres)


Ficha Técnica
Titulo : Truman
Direção: Cesc Gay
Elenco :  Ricardo Darín, Javier Cámara, Dolores Fonzi
Roteiro: Cesc Gay, Tomàs Aragay
Música: Toti Soler, Nico Cota
Prêmios: Prêmio Goya de Melhor Filme

Argentina