sábado, 13 de julho de 2019

O Síndico tem participação de Carlos Betão e atores regionais



Depois de atuar em  Segundo Sol, onde interpretou o delegado Viana e de papeis destacados em novelas globais como Velho Chico e em Marcas da Paixão, exibida pela Record, bem como no remake cinematográfico de Gabriela, em O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro e Aos Ventos que Virão, de Hermano Pena ou ainda de participação no ultimo filme de Gustavo Bonafé,  o ator Global, Carlos Betão,  voltou a Itabuna onde integrou ao elenco da série O Sindico, dirigida por Betsi de Paula. A série, de cinco capítulos, em fase de montagem e  pós produção, será exibida pela TVI em data a ser anunciada proximamente.
Bacharel em artes cênicas pela Universidade Federal da Bahia -UFBa – e com quase  quatro décadas  de  estrada. Betão lembra que começou sua carreira nos palcos e praças de Itabuna e Ilhéus, “Comecei no Teatro da AFI, com Pluft,o Fantasminha e a Bruxinha que era boa, com Leila Chalupp”.
Hoje, com a trajetória consolidada e considerado um profissional respeitado pelo seu currículo, ele contabiliza a participação em mais de 14 filmes, 40 peças e diversas novelas na Globo e na Record. Também destaca que essa volta mesmo temporária a Itabuna, onde nasceu, “foi uma oportunidade de rever amigos e encontrar pessoas com quem convivi, uma revisita que estava para fazer e que só foi possível agora, com a filmagem da série”.
Vencedor do prêmio Brasken de melhor ator com o monólogo Sargento Getúlio, dirigido por Gil Vicente), Betão interpreta em O Sindico, inteiramente filmado no condomínio Torres da Primavera, com 200 apartamentos, próximo ao CAIC ,na Urbis IV, um morador politicamente incorreto, homofóbico e machão.
Ele destaca que o barato da série não é o fato de ser uma série televisiva, mas o possibilidade “de voltar à minha cidade e ter um contato direto com artistas da região Sul da Bahia, muitos deles jovens e com excelente potencial e que vão dar continuidade ao trabalho que iniciamos e precisa de uma sequência.”
Salienta ainda a oportunidade de contracenar com atores como o experiente Luís Sérgio Ramos e Jailton Alves, que interpreta o Sindico, os quais junto com Clara Melo e Betse de Paula também participaram da elaboração do roteiro. O elenco inclui ainda as participações de Eva Lima, Maria Sofia, Raquel Rocha, Rogério Thomas, Lila Azevedo e Priscila Coutinho, entre outros nomes.
Betão observa ainda que além da integração com outros atores, a filmagem da série possibilitou trabalhar coma diretora Betsi de Paula, uma artista conhecida nacionalmente e que filmou em Itabuna uma série a ser exibida através da TVI e “é a capitã deste barco, que comanda de forma generosa”,
Nos cinco episódios, ele contracena antagonisticamente com um casal homossexual interpretado pelo experiente ator  Luís Sérgio Ramos (Darci), que atuou nos palcos do  Rio, são Paulo e Salvador, onde integrou o núcleo do Teatro Castro Alves   e Rogério Thomas (Wagner), que tem uma filha Cleo.  O elenco reúne um total de 16 atores de Itabuna, Itororó, Salvador e Rio de Janeiro, além de dezenas de extras, muitos deles moradores do Torres da Primnavera. O Sindico é interpretado por Jailton Alves, que já foi síndico do edifício onde morava e que também teve participações na novela Renascer, da Globo, com locações no eixo Itabuna-Ilhéus.
Para Carlos Betão é elogiável a existência de uma série produzida para uma emissora do interior como a TVI, sem os recursos das grandes redes, “o que possibilita à equipe de produção e atores uma experiência inovadora e ao mesmo tempo lúdica, criativa e minimalista. A criatividade se manifesta ao tornar visível o invisível, um processo em que cada um se vira nos 30, 40 e 50 ou mais, mas o que importa é o resultado final do projeto e a proposta de uma equipe profissional que participa do processo da produção da série de forma integral e com competência.”(Kleber Torres)

sábado, 15 de junho de 2019

Uma visita à história do jazz e do rock





A história de Cadillac Records, filme de Daniel Martin, começa em 1947, quando  um imigrante polonês de origem judaica e proprietário de um bar, Leonard Chess (Adrien Brody) resolve mudar o foco do seu negócio e passa a contratar músicos para a sua gravadora, a Chess Records, até então um pequeno estúdio musical, em  Chicago, transformando-o numa marca de sucesso.
A gravadora revelou nomes expressivos do jazz como Muddy Waters (Jeffrey Wright) e até mesmo precursores do rock como Chuck Berry (Mos Def), que conseguia unir no mesmo ambiente fãs brancos e negros divididos até então numa sociedade marcada pela segregação, tornando-se ao mesmo tempo uma referência musical para os Beatles e os Rolling Stones.
De início Leonard Chess trabalha com nomes até então desconhecidos do público como Muddy Waters e Little Walter (Columbus Short), que teve uma vida acidentada e uma morte prematura. Outro nome saído do anonimato para o estrelato foi Chuck Berry com seu estilo pessoal e que teve a maioria de suas gravações de maior sucesso  lançadas pela gravadora Chesse Records, ao lado do pianista Johnnie Johnson, do baixista Willie Dixon e o baterista Fred Below. Ao ser preso em 1959, Leonard Chess decide apostar no talento de outra cantora: Etta James (Beyoncé Knowles), que enfrenta problemas com drogas como sua substituta no elenco da gravadora.
O sucesso de Chess era atribuído o seu ouvido refinado para identificar diferentes músicas e ao feeling de perceber entre os seus contratados talentos emergentes no meio musical, como o compositor Willie Dixon (Cedric the Entertainer) e Howlin' Wolf (Eamonn Walker). O empresário os tratava como se fossem parte de sua família, gastando dinheiro na compra de cadillacs o que dá o título do filme Cadillac Records, dirigido por Daniel Martin a partir de um roteiro com base numa história real, ou mesmo cuidando dos seus negócios e da preservação do seu patrimônio.
O filme vale em especial como um mergulho no mundo do jazz e na história do nascimento do rock’n’roll, com referências inclusive a Elvis Presley, cuja estrela passou a brilhar no universo do rock após a prisão de Chuck Barry. Vale também a seleção das músicas que foram hits de sucesso da Chess, que terminou com a morte do seu criador em consequência de um fulminante ataque cardíaco e com Muddy Waters voando para Londres, onde começa a sua carreira internacional.(Kleber Torres)

Ficha técnica:

Direção e Roteiro: Daniel MartinElenco : Adrien Brody, Beyoncé Knowles-Carter, Jeffrey Wright, Columbus Short, Emmanuelle Chriqui, Cedric The Entertainer, Tammy Blanchard, Gabrielle Union e Mos Def
Música: Terence Blanchard
Cenografista: Linda Burton
Ano 2008


domingo, 26 de maio de 2019

O sentido e a essência de uma vida transitória e finita






Uma profunda reflexão sobre a vida com toda a sua complexidade, o amor e a morte, assim pode ser compreendido o  filme O Sentido do Fim (The Sense of an Ending), dirigido pelo cineasta indiano Ritesh Batra, que nos conta de forma humana  a história de  Tony Webster (Jim Broadbent), um homem de mais de 60 anos, que se define como um cavalheiro geriátrico protegido pela sua armadura brilhante,  capaz de reconstruir a sua vida na tentativa de apagar as memórias nem sempre agradáveis do passado. Ele, acaba inexoravelmente envolvido por lembranças dos  antigos amigos, das paixões do passado e pelo diário e cartas sobre um amigo que já morreu.
O filme começa com a voz em off de Toni Webster, também interpretado por Billy Howle, na juventude, o protagonista da história dizendo que “não tenho interesse nos meus dias de escola, nem tenho saudade deles. Mas me lembro do sexto ano.”
Tony também vive uma rotina de diária de  acordar às sete da manhã, ouvir um CD de música erudita, enquanto prepara seu café, um ritual que complementa com a leitura de jornais, onde publicou uma carta criticando aos motoristas de Londres. Depois, se dirige à sua loja de venda e conserto de máquinas fotográficas antigas, resultado de uma paixão da juventude pela fotografia, onde atende clientes e recebe uma carta que não abre porque tem de atender um outro compromisso imediato
Neste dia, ele vai acompanhar afilha para reunião de um grupo de gestantes lésbicas, que se preparam para a chegada do primeiro filho. Para que não perca esse novo compromisso, a filha lhe dá um  smartphone, talvez a ultima  esperança para fazer ingressar no século XXI um homem não afeito à redes sociais, à internet e que vive o seu mundo particular.
Construído a partir de um roteiro de Nick Payne, baseado no romance homônimo de Julian Barnes, o filme O Sentido do Fim mostra a  vida de Tony, inclusive lembrando a antiga namorada na juventude Verônica Ford (Freya Mavor) estalando os dedos numa sequencia rápida.
Tudo muda quando ele recebe uma carta que é parte de um diário sobre fatos da juventude,  e que incluem um  colega Adrian Finn (Joe Alwyn), que morre tragicamente. A carta tem como referência os anos 60 do século passado, incorporando o período quando Tony conheceu a ex-mulher Margareth Webster (Harriet Walter), mãe de sua única filha.
A carta de Sarah Ford (Emily Mortimer), mãe de Verônica inicia lembrando a  Tony, que  “acho que o certo  que fique com você o anexo desta missiva. Adrian sempre falou bem de você, e talvez você ache que essa é uma lembrança interessante, embora dolorosa, de algo passado há muito tempo.” Ela conta na carta, que também deixou algum dinheiro para Tony, para  concluir desejando tudo de bom, mesmo do além do túmulo,  destacando  que embora possa parecer estranho, os últimos meses de vida de Adrian foram felizes. 
Tony se dirige ao escritório de advocacia que havia mandado as duas correspondências para ele, para reclamar que a carta deixada por Sarah Ford fazia menção a um item anexado e  não lhe foi entregue. A advogada é reticente e diz que o material está com Verônica, interpretada na idade madura por Charlotte Rampling, executora do testamento e filha de Sarah Ford.
Verõnica, que  juventude lhe deu a primeira câmera Leica, ao ser procurada por Tony sobre as cartas e o diário,  marca um encontro na Ponte do Milênio, onde revela que queimou o referido diário. E entrega mais uma carta dele falando da vingança do tempo e da expectativa que Verônica e Adrian tivessem um filho, depois,  é seguida por ele até a sua casa, onde diz a Tony que ele veio encerrar um ciclo, mas não está disponível para atendê-lo.
Ao ser procurada por Tony, que fala de sua relação com Sara e Verônica,  bem como sobre diário incinerado, sua ex-mulher Margareth  o acusa de tentar construir um altar para uma paixão da juventude e que agora as suas atenções deveriam estar e voltadas para a  filha grávida e o nascimento do neto. Ele pede desculpas e reconhece os erros cometidos.
O filme nos  ensina  que quando a vida passa, menos pessoas sobram ao nosso redor. A outra lição que fica é que entre os ganhos as perdas  inerentes da vida, resta a capacidade de sobrevivência e a resiliência, mas que nos comove quando tentamos às vezes inutilmente olhar pelo retrovisor.(Kleber Torres)
Ficha técnica: 

Título : O Sentido do Fim(The Sense of an Ending)
Direção :  Ritesh Batra
Roteiro : Nick Payne baseado no romance homônimo de Julian Barnes, Tony
Elenco : Jim Broadbent. Billy Howle, Charlotte Rampling, Freya Mavor Harriet Walter, Michelle Dockery, Emily Mortimer, Matthew Goode, James Wilby, Edward Holcroft, Joe Alwyn, Jack Loxton, Peter Wight, Timothy Innes, Hilton McRae, Andrew Buckley e Nick Mohammed
Fotografia ; Christopher Ross
Música ; Max Richter
Inglaterra
 2017
Cor, 108 minutos

domingo, 19 de maio de 2019

Um desejo com gosto de sangue e de morte




 

 

Com nova roupagem e os mesmos ingredientes de sangue e violência, Dead Wish (Desejo de Matar) surge com um remake 44 anos após o lançamento do  primeiro de uma série com sequência de outros quatro filmes: Dead Wish 2, Dead WishIII, Dead Wish IV – Crackdolmes e Dead Wish V – the Face of Death,  que atraíram um público cativo durante um período de duas décadas, estrelados por Charles Bronson, dirigido por Michael Winner, no papel de Paul  Kersey, um arquiteto que se transforma num justiceiro   depois do assassinato de sua mulher  e do estupro da sua filha por assaltantes.
Na nova versão de 2017, depois de ter sua casa invadida por ladrões e a sua mulher Lucy (Elisabeth Shue) assassinada por bandidos, além da filha Jordan (Camila Morrone) gravemente ferida, o cirurgião Paul Kersey, um profissional de saúde bem sucedido, agora interpretado por Bruce Willis, passa a acompanhar a polícia nas investigações infrutíferas para tentar capturar os criminosos, o que o leva a pensar numa forma de vingança devido à lentidão da ação policial.
Ao  perceber que a polícia jamais encontraria os assassinos e que os casos de roubos e assassinatos faziam parte de uma extensa lista de casos insolúveis em Chicago, uma cidade muito violenta segundo os comentários recorrentes na imprensa local referenciada no filme, ele começa a traçar uma estratégia de vingança. Primeiro, indo a uma casa de armas e munições, depois, surrupiando a Glock de um marginal ferido. Assim, ele passa a usar a arma  para  combater a assaltos no bairro onde reside, passando ser reconhecido como justiceiro encapuzado que age como um ceifador de almas.
Posteriormente, ao atender a um dos ladrões mortalmente ferido no hospital onde trabalhava, ele recupera o seu relógio roubado durante o assalto e usando o seu celular,  passa a caçar cada um dos integrantes da quadrilha e no final monta um álibi para escapar das suspeitas dos policiais que o investigavam como um justiceiro em ação numa das maiores e violentas cidades americanas.
O remake dirigido por Eli Roth, que assinou O Albergue e trabalhou com Quentin Tarantino em Bastardos Inglórios (2009), é  atualizado agora a partir de várias sequências com os  registros dos atos de violência que viralizaram via smartphone nas redes sociais, em paralelo ao uso de imagens estáticas que se transformam em memes. Também recupera diálogos do grupo no Whatzapp.
Primando pela ação e pela violência, Dead Wish inclui uma gama de cenas  de ação marcadas pelos tiros em profusão, cirurgias a seco e sem anestesia ou até com o uso de óleo de freio nos ferimentos provocados pelo cirurgião na tentativa de chegar aos integrantes da quadrilha que matou a sua mulher e feriu a sua filha, tudo complementado com o esmagamento de um dos assassinos que acaba  transformado  em uma massa informe de miolos e sangue espalhados no chão de uma oficina mecânica, o que explica o título e irrita os críticos da estética da violência pela violência cada vez mais banalizada e globalizada.(Kleber Torres)



Ficha técnica


Título:  Desejo de Matar (Dead Wish)
Direção : Eli Roth
Roteiro: Scott Alexander, Michael Ferris e Larry Karaszewski

Elenco :  Bruce Willis, Vincent D'Onofrio, Elisabeth Shue,  Camila Morrone, Jack Kesy, Beau Knapp, Kirby Bliss Blanton, Mike Epps, Len Cariou, Kimberly Elise, Ronnie Gene Blevins, Ian Matthews e Nathaly Thibault.

Música: Ludwig Göransson
118 minutos
EUA

sábado, 18 de maio de 2019

Uma tragédia muito além da dimensão do terror




A HBO está exibindo a série Chernobyl, com cinco episódios sobre o grave acidente com uma usina nuclear na Ucrânia,  em 1986 e de impacto global em função da emissão de partículas  radioativas na atmosfera, que além da transmissão na TV, também ficarão disponíveis no aplicativo de streaming HBO Go. A série é comandada pelo diretor sueco Johan Renck, que dirigiu anteriormente três episódios de Breaking Bad, um episódio de Walking Dead   e outro de Halt and Catch Fire.
O ator Jared Harris (Mad MenThe Terror) interpreta Valery Legasov, cientista indicado para investigar  a causa do acidente logo após o desastre, considerado um segredo de estado pelo governo russo, que tentou abafar o caso evitando inicialmente fazer a retirada da população da área do incidente e até mesmo controlando o fluxo de informações, inclusive cortando os canais de telefonia na comunidade afetada pelo superaquecimento e explosão do reator nuclear, provocando a morte de vários técnicos que trabalhavam na usina nuclear e afetando desde socorristas, bombeiros, militares e  até a própria população atraída pela visão dantesca das imagens multicoloridas da explosão de energia atômica. 
Vale ainda o papel de Paul Ritter (Anatoly Dyatlov), o responsável pela usina, que se recusava a aceitar que houve uma explosão do núcleo, porque achava que isso seria impossível em função da segurança do sistema de geração de energia atômica. O elenco é integrado ainda por Stellan Skarsgård (Thor) interpretando Boris Shcherbina, membro de alto escalão do conselho de energia da União Soviética e apontado como chefe da comissão de Chernobyl pouco depois do acidente, quando o governo ainda não sabia da explosão do reator e procurava encobrir a dimensão real do acidente. 
Emily Watson é na série a física nuclear Ulana Khomyuk, a quem cabe resolver o mistério de como o desastre aconteceu em função de falhas do sistema e de erros humanos no que seria uma aparente operação de rotina e ao mesmo tempo criar protocolos de segurança prevenindo assim para que uma tragédia como esta não se repita.
A série que começa com uma reflexão sobre a questão da verdade e a manipulação política da informação, mas também revela o que seria o pior desastre do gênero na história, com milhares de pessoas expostas à nuvem radioativa, que contaminou parte da Europa, além de resultar no nascimento de crianças deformadas e mutantes.
Segundo dados iniciais,  31 pessoas morreram nos primeiros três meses após o acidente, mas milhares de vítimas pereceram nos anos  seguintes de doenças relacionadas à exposição e aos efeitos nocivos da radiação, que são sentidos até hoje pelos sobreviventes, enquanto as áreas vizinhas à usina continuam desabitadas e sob monitoramento.
Chernobyl tem como foco as mentiras e fake-news divulgadas pelo governo da União Soviética, liderado por Mikhail Gorbachev, que tentou sustentar -apesar das evidências contrárias - por algum tempo que tudo não passava de um simples incêndio, que colocou bombeiros e técnicos da usina nuclear diretamente em contato com o material radioativo. A série com cores sombrias mistura drama, com ingredientes de um thriller político e de horror com a dimensão de uma tragédia global, que ganhou dimensão em escala planetária. Vale a pena conferir. (Kleber Torres)

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Um argumento da crítica e da inteligência




Estruturado como uma espécie de concerto em que a música seria as próprias palavras emergindo na tela, o documentário O Argumento de 50 Anos (The 50 Year Argument)  sobre a  história do The New York Review of Books, uma revista de crítica literária considerada uma referência em todo o mundo e que influenciou escritores, intelectuais e leitores ao longo dos últimos anos,  foi  composto a quatro mãos pelo cineasta Martin Scorsese e David Tedeschi,  lançando mão de entrevistas e imagens de arquivo para transmitir a emoção desejada na construção de sua memória histórica.
A New York Review of Books nasceu em 1963, como uma revista e hoje tem também um blog, e como o próprio nome define, com o foco em resenhas literárias. Ela surgiu a partir de uma greve geral nos jornais de Nova York, bem como pela insatisfação sobre o modo como os livros costumavam ser resenhados.
Em pouco tempo, The New York Review of Books  se tornou uma das principais referências para autores de todo o mundo, não apenas publicando artigos, contos e ensaios, como se engajando politicamente em debates sobre questões como por exemplo: a Guerra do Vietnã, da invasão do Iraque, do occupy Wall Street e o controle da mídia.
A ideia do projeto editorial da publicação foi gestada pelo poeta Robert Lowell e sua mulher, a crítica literária e escritora Elizabeth Hardwick, que discutiram a proposta com o editor Jason Epstein e sua mulher, Barbara, e depois convidaram o amigo Robert Silvers para ser editor da publicação ao lado de Barbara Epstein, que morreu em 2006. Todos concordavam em dois  pontos básicos: os livros eram editados e não havia espaço para a sua divulgação e,  como dizia, o poeta Thomas Stern Elliot, a função da crítica é ser a mais inteligente possível.
O próprio Silvers, então com 84 anos durante as filmagens do documentário O Argumento de 50 Anos, conta no filme que a ideia era tornar a publicação uma  parte do sistema (establishment), analisando-o criticamente a partir do seu interior, o que sem dúvida a  tornou uma instituição reconhecida cobrindo arte, política e grandes temas atuais. Entre as análises divulgadas na publicação estão artigos de Elizabeth Hardwick, sobre Selma; de Joseph Krafts, sobre quem eram os vietcongs ou de Hanna Arendt, que se celebrizou com a tese sobre a banalização do mal, com um ensaio sobre o Papa João XXIII.
Já o filme tem como base uma premissa básica de que a única verdade é a verdade narrativa, a memória das experiências diretas como também do intercâmbio de mentes, como admite Oliver Sacks em seu depoimento, que aparece como um dos entrevistados ao lado de Robert Silvers em seu gabinete abarrotado de livros; do linguista Noam Chomsky, destacando sobre a responsabilidade dos intelectuais: “falar a verdade e expor as mentiras” ou o dramaturgo irlandês Colm Toibin. O documentário recorre a imagens de arquivo filmadas por escritores como Susan Sontag, James Baldwin, declarando que “nós não  inventamos os negros, os brancos inventaram”, além Norman Mailler e outros nomes célebres como Andy Warhol.(Kleber Torres)


Ficha Técnica

Título: O argumento de 50 anos (The New York Review of Books: A 50 Year Argument)
Direção e roteiro:   David Tedeschi e  Martin Scorsese
Elenco: Robert Silvers, Oliver Sacks, Joan Didion, Michael Chabon, Noam Chomsky, Norman Mailer
Estreia: 2014
Gênero: Documentário

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Os sonhos e pesadelos de Akira Kurosawa




Num clima inteiramente onírico, mas tendo como tema transversal o meio ambiente e as perspectivas sombrias de uma hecatombe nuclear ou mesmo antevendo de forma premonitória em 1990 a tragédia de Fukushima 21 anos depois, o filme Yume (Sonhos), de Akira Kurosawa,  reúne uma série de curtas-metragens tendo como referências imagens do folclore japonês e os sonhos e os pesadelos do cineasta em diferentes momentos da sua vida, num ambiente em que as imagens se sobrepõem as palavras, com questionamentos sobre a transitoriedade da vida e a inevitabilidade da morte. O filme, dividido em oito segmentos, também embute uma mensagem de esperança, mostrando que, afinal de contas, nem tudo está perdido.

O primeiro segmento, "Raio de Sol Através da Chuva”, tem como referência uma lenda japonesa que diz quando o sol brilha através da chuva formando um arco-íris, as raposas se casam – no Brasil nós temos um ditado similar-, uma criança é alertada pela mãe que não deveria ir à floresta quando há chuva e sol, pois é a época do acasalamento das raposas, que não gostam de serem observadas por estranhos.

A criança desobedece aos conselhos maternos, entra na floresta e passa a observar o acasalamento as raposas, atrás de uma árvore. Ao ser descoberto pelas raposas, ele foge e retornar para casa sua mãe o impede de entrar e lhe entrega um pequeno punhal, para que se mate. Como nada na vida é definitivo, ela também sugere uma alternativa que pode remediar a situação. A criança retorna à floresta e descobre um mundo mágico com um arco-íris.

Em "O Pomar dos Pessegueiros", no segundo segmento, tudo começa quando o filho mais novo de uma família vai servir chá para as cinco irmãs e se depara com uma moça misteriosa que foge em direção à floresta. Ele vai ao seu encalço, então descobre que ela é uma boneca e observa os pessegueiros cortados, restando só tocos num campo devastado e morto.

Num átimo e em cores, os espíritos dos pessegueiros surgem para ele e, em uma dança sincrônica, falam que as bonecas são para enfeitar e festejar a florada dos pessegueiros, mas como eles não mais existem naquela área, não havia sentido a presença das bonecas, o que deixa o menino solitário e desolado.

No episódio "A Nevasca", um grupo de homens se vê perdido no meio de uma nevasca. Eles tentam escalar uma montanha, mas acabam vencidos pelo frio e pela fadiga, de repente aparece uma mulher misteriosa que cobre o líder com um manto de prata. O homem nota que a mulher é a própria morte, que se transforma em um monstro, então percebe que o grupo está próximo do acampamento,  tenta acordar os companheiros, mas não consegue, quando ecoa o som de uma corneta, indicando que o acampamento está cada vez mais próximo.

No quarto segmento, "O Túnel", um oficial do exército japonês anda sozinho em direção à entrada de um túnel onde é observado por um cão, que ladra e o ameaça. Mesmo assim, ele atravessa o túnel lentamente e  na saída, encontra com um soldado morto em combate, que o chama de comandante e bate continência para o seu superior. O comandante lembra que o soldado morreu em seus braços e que toda a tropa marchando em sua direção foi dizimada em combate. Ao grupo, ele conta que caiu prisioneiro dos inimigos e gostaria de ter morrido como os seus subordinados, em seguida, dá um comando de ordem unida e se afasta da tropa  depois de bater continência para os mortos.

Um sonho instigante está no quinto segmento, "Corvos", onde  um jovem pintor,  depois de observar os quadros de Van Gogh, adentra nos mesmos e se encontra com o pintor, interpretado por Martin Scorsese,  que o questiona  quanto ao motivo  pelo qual  não está pintando se a paisagem é um  um desafio e o estimula  a pintar de modo continuo. A sequência inclui o quadro Campo de Trigo com Corvos, uma obra do pintor concluída em julho de 1890, nas últimas semanas de vida de van Gogh que se suicidou.

O segmento "Monte Fuji em Vermelho" tem de certa forma um caráter premonitório, o vulcão do Fuji entra em erupção e ao mesmo tempo ocorre um incêndio em uma usina nuclear – na vida real o acidente nuclear de Fukushima Daiichi ocorreu  em 11 de março de 2011, causado pelo derretimento de três dos seis reatores nucleares da usina atingida por um tsunami provocado por um maremoto de magnitude 8,7 graus -  com seis reatores emitindo nuvens mortais com radiação de plutônio, estrôncio e césio. Ao considerar que a estupidez humana não tem limites e que a espera pela morte não é viver, um homem de terno afirma preferir a morte rápida por afogamento à uma lenta provocada pela radiação e as suas dolorosas consequências letais.

Na sétima parte, que tem como título "O Demônio Chorão", numa referência aos yokais,   uma uma classe de demônios e criaturas sobrenaturais do folclore japonês, que inclui o oni (ogro), a kitsune (“raposa) e a yuki-onna (“mulher da neve”) já referenciados em outros sonhos kurosawianos, tudo começa com um andarilho que encontra um demônio, que lamenta ter sido um homem ganancioso e, como muitos, transformou a terra num deserto com o uso de misseis e artefatos nucleares, que fizeramn nascer flores monstruosas e mutações geradas por uma humanidade idiota, o que resultou por fim numa crise com a falta de comida e de perspectivas de futuro para as pessoas.

Os sonhos e pesadelos terminam com uma mensagem de otimismo e de sustentabilidade em  "A Aldeia  dos Moinhos de Água", onde um vendedor de máquinas e equipamentos agrícolas  chega a uma pequena vila rural sem luz, cheia de moinhos de água,onde as pessoas usam velas e óleo de  linhaça, vivendo como no passado e seguindo o curso natural da própria vida.

Um idoso abordado pelo visitante diz que os inventos tornam as pessoas infelizes, porque os cientistas não entendem a essência da natureza e que o importante para se ter uma boa qualidade  vida é ter água limpa e ar puro.
A sequencia termina com um pomposo e antologico funeral  de uma mulher que viveu até os 99 anos na comunidade e o idoso morador do povoado, que foi seu namorado na juventude, considera que 100 anos é uma boa idade para parar de viver, lembrando que “alguns dizem que a vida é difícil, mas viver é bom e excitante.” No sonho de Kurosawa há otimismo e esperança apesar dos riscos inerentes da vida, que segundo o nosso Guimarães Rosa é sempre muito e deveras perigoso.(Kleber Torres)




Ficha técnica:


Título original:  Yume (Sonhos_
Direção e Roteiro: Akira Kurosawa
Elenco:  Akira Terao, Mitsuko Baisho, Toshie Negishi,  Hisashi Igawa, Chosuke Ikariva,   Chishu Ryu, Masayuki Yui e Martin Scorsese
Musica: Shin Ishiro Ikebe
Cinematografia : Takao Saito e Shoi Ueda
Ano: 1990
Custo:  US$12 000 000
Cor Colorido
1990