sábado, 5 de junho de 2021

Uma história de pioneirismo e esquecimento no mundo do cinema



 

O documentário Alice Guy-Blaché – uma história não contada  resgata a trajetória de uma  cineasta pouco conhecida e quase nunca citada na história do cinema, em que pese a sua contribuição pioneira desde o final do século  XIX. O filme dirigido por Pamela B.Green e narrado por Jodie Foster reúne imagens de arquivo e entrevistas com familiares da cineasta, atores e  grandes nomes do cinema, além de mostrar  algumas obras da cineasta considerada uma grande artista, mas que acabou esquecida apesar da sua contribuição à história do cinema.

Alice Guy-Blaché nasceu na França, viveu sua juventude no Chile, retornou à Europa e depois viveu por longos anos em New Jersey (USA), onde produziu, dirigiu, roteirizou e atuou  em centenas de filmes, muitos deles preservados hoje na Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos e no museu Eastman. No documentário, a cineasta  conta que queria ser artista, mas o pai não deixou. A sua ligação com o cinema começou ao se empregar  como estenografa numa produtora francesa.

Ela destaca que não sabia nada de fotografia e teve de aprender tudo sobre cinema na prática do dia a dia. Seu primeiro filme foi A Fada do Repolho,  uma metáfora que combinava conto de fadas e o folclore, foi construído sem um roteiro definido e uma história que foi criada com a própria sequência das filmagens. Ela também dirigiu uma versão de O Corcunda de Notre Dame no Estúdio Esmeralda, de Gaumont, onde também trabalhou como chefe de produção.

Um fato observado em Alice Guy-Blaché – uma história não contada  é que os seus filmes eram sofisticados, experimentais  e poderiam ser considerados similares aos curtas exibidos nos dias atuais no youtube. Eram filmes que tinham sempre uma conclusão, num tempo em que também ocorriam problemas com os filmes, as câmeras e mesmo a revelação.

Nos Estados Unidos ela fundou a Solax, uma produtora cinematográfica que comandou como uma mulher de negócios astuta e que teria produzido filmes de cowboy e sobre a Guerra de Secessão. Os seus biógrafos acreditam que ela dirigiu mais de 200 filmes.

Como pioneira na história do cinema, a cineasta  também foi diretora da primeira comédia, O Colchão Epiléptico e teria influenciado inclusive  Serguei Eisenstein na direção de Outubro. Ela também foi pioneira em seriados, com a direção e produção de 25 episódios de A Paixão de Cristo, bem como no uso de efeitos especiais. Alice também teria influenciado Alfred Hitchcok, com o uso do espaço, ritmo das sequências  e movimentação de câmeras.

São do período americano filmes como Comédia de erros, Parsons Sue, Tramp Strategy, Hys mother hymn, Two little Rangers e Fight in the Dark, filmes que falam sobre fragmentos da vida e que de certa forma registraram a vida da sociedade americana no século XX. Em A full and his Money, narra a história de um cara idiota que acha uma carteira de dinheiro, compra um carro e passa a ser cortejado por todos que no passado ignoravam , quando era socialmente invisível. Os seus filmes também tratavam da condição da mulher na sociedade, inclusive como personagem central em filmes de faroeste, além de falar  da discriminação racial.O ciclo americano foi  encerrado com o final da primeira guerra mundial.

Alice Guy-Blaché  teve seus filmes exibidos na Universidade de Columbia e foi afetada pala perda de dinheiro na bolsa e pelo incêndio do seu estúdio, o que a deixou fora do mercado. Em  1918 com a eclosão da pandemia provocada pela gripe espanhola, ela voltou para a França com os filhos, tendo realizado seu último filme  em 1922.

O documentário sobre ela a mostra como Alice Guy-Blaché como a mulher que ajudou a inventar o cinema, num roteiro assinado por    Pamela B. Green e Joan Simon, baseado no livro Alice Guy-Blaché lost visionary of the cinema, de Alison McMahan, uma obra que também merece ser lida. (Kleber Torres)

 

 

Ficha técnica

 

Título : Be natural: the untold story of Alice Guy-Blaché (Alice Guy-Blaché – uma história não contada)

Direção : Pamela B.Gree

Roteiro:  Pamela Green e Joan Simon

Narração : Jodie Foster

Documentário

103 min

 Estados Unidos

domingo, 23 de maio de 2021

Um drama humano que ultrapassa as fronteiras da loucura


 

A questão da loucura e da inclusão social dos pacientes com esquizofrenia  é o tema de Palavras Nas Paredes do Banheiro, que narra o drama de Adam (Charlie Plumer), um estudante que sofre alucinações, e participa do teste de uma nova droga inteligente capaz de atenuar os sintomas da doença facilitando a sua integração na escola, no trabalho e na vida familiar.

Em função dos efeitos colaterais, Adam, que pretende se especializar em gastronomia, interrompe por conta própria o uso do medicamento que joga nos jardins da sua casa e volta a ter alucinações recorrentes  com personagens imaginários que vivem ao seu redor, a exemplo do segurança interpretado por Lobo Serbastian e de Rebecca (Annasophia Robb).

No seu drama pessoal e existencial Adam discute suas dúvidas com o padre Patrick (Andy Garcia) e tem sua vida alterada quando entra em contato com  a colega de sala Maya Arnez (Taylor Russell), a quem contrata para um reforço em matemática e por quem acaba se apaixonando. A história é baseada no livro homônimo  de Julia Walton, que narra o drama de Adam, jovem que se preparava para a conclusão do ensino médio e acessar a uma universidade,

O filme tem direção competente de Thor Freudenthal, que assinou ‘Diário de um Banana’ e ‘Percy Jackson e o Mar de Monstros’. e mostra que além dos medicamentos, do apoio da família e da comunidade o amor é uma porta que se abre para a inclusão dos esquizofrênicos, que têm seus limites e suas possibilidades mesmo  disputando espaço num mundo cada vez mais competitivo, racional e tecnológico. Afinal quais os limites da sanidade e da loucura? (Kleber Torres)

 

Ficha Técnica:

Título : Words on the Bathroom (Palavras nas paredes do banheiro)

Direção: Thor Freudenthal

Roteiro : Nick Naveda

Elenco : Charles Plummer, Taylor Russel, Andy Garcia, Annasophia Robb,Beth Grant, Devon Bostik, Lobo Sebastian, Molly Parker

Cinematografista : Michael Goi

Gênero : Drama

Direção : 111 minutos

Origem : Estados Unidos

Ano 2020


sábado, 8 de maio de 2021

Quando a burocracia atravanca até a prisão de um serial killer



 

O filme Citizen X (Cidadão X) narra a história de  um serial killer Andrei Chikatilo, interpretado por Jeffrey De Munn, um pacato pai de família e integrante do Partido Comunista,  que durante 12 anos matou 52 pessoas, 35 delas ainda crianças e jovens com menos de 17 anos,  na antiga União Soviética. Ganhador de um Globo de Ouro e de um Emmy, o filme foi dirigido por Chris Gerolmo, que construiu o roteiro a partir do livro The Killer Departament, de Robert Cullen, sobre um psicopata que ficou conhecido como “Monstro de Rostov”, matando mais de cinco dezenas de vítimas entre 1978 a 1990, sendo preso somente após uma mobilização das forças de segurança atuando na identificação de suspeitos em estações ferroviárias.

 

Tudo começou no  início dos anos oitenta quando corpos de algumas crianças  violentadas foram encontradas na área rural. As vítimas eram mortas a facadas com requinte de crueldade, de abuso sexual em alguns casos e apresentavam ferimentos nos olhos.

 

As investigações começaram com  médico legista Viktor Burakov (Stephen Rea), recebe os corpos das primeiras vítimas no necrotério e apresenta um informe para as autoridades de segurança e burocratas do partido, os quais discordam da  teoria de que estavam enfrentando a ação de um serial killer, o que seria um problema apenas dos  países capitalistas com as suas contradições. Neste caso, a ajuda de peritos do FBI não podia nem ser cogitada.

 

Enfrentando as barreiras da burocracia, que limitava até os pedidos de apoio de mais investigadores ou mesmo de equipamentos, como computadores, Burakov acaba assumindo o comando das investigações, contando  com a ajuda do coronel Mikhail Fetsov (Donald Sutherland). A ajuda se fortalece com sua promoção a general, o que permitiu afastar da coordenação das investigações aos burocratas do partido.

 

Nos primeiros anos das investigações Burakov chega a deter Chikatilo, com uma faca e uma corda na bolsa que levava, mas tem de soltá-lo porque era trabalhador de uma fábrica e um camarada membro do partido. Os burocratas  também evitaram que o assunto chegasse aos jornais, para não alarmar a população sobre o desaparecimento e morte de pessoas, bem como colocaram um burocrata e promotor de Moscou, para, sem sucesso coordenar as investigações que eram direcionadas aos homossexuais da comunidade.

A prisão do serial killer esbarrou porém na sua estratégia para evitar uma confissão dos crimes, adiando a cada dia a confissão dos crimes, o que poderia implicar na necessidade de sua soltura por falta de provas para posterior condenação. A mudança no caso acontece, com a convocação do psiquiatra Alexander Bukhan (Max Von Sidow), que com análises acadêmicas traçou um perfil do sociopata, o Cidadão X e conseguiu quebrar a sua resistência, ajudando assim na condenação do assassino.(Kleber Torres_)

Ficha técnica

 

Título : Citizen X  (Cidadão X)

Diretor e roteirista – Chris Gerolmo

Elenco : Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey De Munn, John Wood, Imelda Stauton w Tusse Silbery

Cinematografista – Robert Fraisse

Gênero :  Suspense e Terror

EUA

1995

110 minutos


sexta-feira, 23 de abril de 2021

Quando a loucura vai muito além da contracultura



 

Considerado como  um dos  marcos referenciais da “Nouvelle Vague”, movimento de contestatório de cineastas franceses que produziam nos anos 50 e 60 do século passado filmes de baixo custo e de contracultura, o Pierrot le Fou (O Demônio das Onze Horas) é uma produção franco-italiana, de 1965, dirigida por Jean-Luc Goddard, que produziu o roteiro a partir do romance Obsession, de Lionel White. A obra é considerada um cult movie e foi exibida recentemente pelo Telecine como parte dos festejos dos 125 anos do cinema.

Tudo começa quando o professor Ferdinand Griffon (Jean-Paul Belmondo), que ensinava espanhol e era um leitor assíduo, daqueles que leem até na banheira, vivia desiludido e insatisfeito com a vida pequeno-burguesa que levava. Depois de perder o emprego num  canal de televisão, ele é convidado pela sua mulher italiana para uma festa com amigos e que poderia sinalizar para um novo emprego, com a volta ao mercado de trabalho.

O casal contrata uma babá, Marianne (Ana Karina) para cuidar dos seus filhos durante o evento. Mas, insatisfeito com a festa, Griffon toma um carro emprestado e volta sozinho para casa, onde a bela e jovem babá tenta seduzi-lo. Os dois deixam o local e vão para um apartamento inacabado, onde se envolvem num assassinato, depois e em fuga, eles roubam um carro que deixam mergulhado no Mediterrâneo, no sul da costa francesa.

A partir daí a dupla se envolve numa série de incidentes e ações muitas vezes surreais tendo algumas delas como referência textos de livros sobre arte e filosofia. Ele também escreve um poema concreto, que se intercala com os textos e cenas do filme. Os dois também se envolvem com guerrilheiros, terroristas e traficantes de armas, com Griffon sendo chamado por diversos codinomes pela amante.

O filme, que tem a ver com a proposta glauberiana de uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, termina de forma bizarra e até inesperada como uma explosão de metáforas, o que permite várias releituras, ilações e análises mais diversas para o espectador.(Kleber Torres(

 

Ficha técnica:

Título : O Diabo das Onze Horas (Pierrot le Fou)

Direção e roteiro:  Jean-Luc Goddard

Elenco : Jean-Paul Belmond,  Anna Karina, Graziella Galvani,

Gênero : Drama

Música : Antoine Duhame e Boris Bassiak

Direção de fotografia : Raoul Coutard

Origem : França-Itália

1965

115 minutos


sábado, 10 de abril de 2021

O vinculo nem sempre sutil entre o poder e o crime organizado



 

Il Divo – la spettacolare vita de Giulio Andreotti  é um filme biográfico que traça a trajetória  política do primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti, interpretado por Toni Servillo, um dos líderes da Democracia Cristã, indicado sete vezes para a presidência do conselho de ministros e outras 25 para integrar o ministério. Tudo começa partir de sua última eleição em 1992 e revela as ligações de Andreotti com o crime organizado inclusive promovendo assassinatos políticos, como o que resultou na morte do jornalista Mino Pecorelli, em 1979 um dos seus críticos mais ferozes.

Ele manteve um grupo de seguidores fieis e sua vinculação com a máfia foi revelada através de depoimentos e denúncias  de diversos mafiosos presos como Tommaso Buscetta (Gaetano Balisteri),  que foi preso no Brasil em 1983 e cujas informações causaram prejuízos para a Cosa Nostra na Itália e nos Estados Unidos, onde morreu 17 anos depois.

O filme que tem uma narrativa lenta também revela  um suposto encontro de Andreotti, que era chamado pelos seus críticos de O Divo, Primeira Letra do Alfabeto, Corcunda, Raposo, Salamandra, Moloch, Papa Negro, Homem das Trevas e Belzebu, com o chefe Totó Riina citado nos vários processos do ex-primeiro ministro italiano, que chegou a ser absolvido em alguns deles por falta de provas.

A história relata o período compreendido desde a restauração da democracia italiana  no pós-guerra, entre 1946 e 1992,  com sua indicação por sete vezes para a chefia do governo italiano e para composições ministeriais. Giulio Andreotti aparece como um político hábil, articulado e de comportamento heterodoxo, indo sempre à Igreja, mas usando práticas escusas para se manter no poder a qualquer preço até mesmo com o custo de vidas humanas.

Il Divo revela a ação da loja maçônica P2, que atuava nos bastidores do poder em conjunto com a Democracia Crista, que teve entre as suas peças chaves Amintore Fanfani, Giulio Andreotti e Aldo Moro, executado depois de permanecer 55 dias em poder da Brigada Vermelha   e que em cartas escritas no cativeiro, denunciava as práticas heterodoxas da DC.

Para exemplificar a sua capacidade de sobrevivência Andreotti conta no filme, que um médico lhe deu seis meses de vida e ao retornar para nova consulta, quem tinha falecido foi o médico. No filme, ele sai à noite andando em companhia de seguranças pelas ruas de Roma para verificar in loco pichações que o denunciavam por massacres e conspirações. Ele também ia a igreja regularmente durante a madrugada e foi comparado pelo pároco que o recebeu, com o primeiro ministro Alcide de Gasperi. “que falava com Deus, enquanto ele falava com os padres,” justificando ironicamente que fazia assim porque os padres votam.

Ele também dizia que não acreditava no acaso, mas na vontade de Deus e não se queixava dos críticos, porque considerava que tinha um senso de humor, mas tinha também em seu poder um grade arquivo dos aliados e desafetos. Andreotti destacava ainda que “a ironia é a melhor forma de cura para não morrer, mas as curas para os que vão morrer são atrozes”.  

 

Isolado e abandonado por aliados que também respondiam a processos por corrupção, ele se defende no julgamento dizendo que os seus acusadores “não fazem ideia sobre os delitos que tive cometer para garantir o bem-estar e o desenvolvimento do país durante muitos anos. Eu fui o poder e vivi a monstruosa invisível contradição de perpetrar o mal para garantir o bem estar coletivo”, com um custo de 236 mortos e 817 feridos em diversos incidentes numa estratégia de tensão a  de sobrevivência com o uso da força, da violência e da intimidação. (Kleber Torres)

 

Ficha técnica

Título : Il Divo – la spettacolare vita de Giulio Andreotti  / O Divo

Diretor e Roteirista : Paolo Sorrentino

Elenco : Toni Servillo, Ana Bonaiuto, Flávio Bucci, Carlo Bucciroso, Piera Degli Esposti, Paolo Graziosi, Giulio Bosetti, Massimo Popolizio, Giorgio Colangeli,  Alberto Cracco, Lorenzo Gioielli e Gaetano Balistreri

Música : Teho Teardo

Cinematografia : Luca Bigazzi

120 minutos

sábado, 3 de abril de 2021

Uma biografia em P & B do pior cineasta do mundo

  

 

 


  

Rodado em preto e branco, o filme Ed Wood,  dirigido por Tim Burton faz uma biografia de Edward Davis Wood Júnior, ator, diretor e produtor de Glen or Glenda, Jailbait, Bride of Monster (A Noiva do Monstro) e Plano 9 do Espaço Sideral, considerado pela crítica o pior diretor de todos os tempos, um título que lhe foi outorgado oficialmente após a sua morte. O filme teve o roteiro  baseado no livro Nightmare of Ecstasy : Life and arte of Edward D. Wood Jr, de Rudolph Grey e que foi um fracasso de bilheteria, com um custo em 1994 de US$ 18 milhões de dólares, mas rendendo aos produtores menos de um terço do valor investido no projeto.

No filme Ed Wood é um produtor e diretor de filmes eróticos, de terror e de ficção científica, nem sempre nesta ordem, interpretado por Johnny Depp, numa excelente reconstrução de um complexo personagem,  que também se travestia vestindo roupas femininas e usava a criatividade e o jeitinho para enfrentar as eternas limitações financeiras na produção de seus filmes, bem como no uso de efeitos especiais. Wood usava os recursos mais heterodoxos e que acabavam com resultados risíveis para os espectadores.

Wood reuniu, nos anos 50, um grupo de artistas como a Vampira (Lisa Marie) e o vidente Criswell (Jeffrey Jones) que o seguiam e participavam dos seus filmes ao lado de Bela Lugosi (Martin Landau), ator de mais de uma centena de filmes, que havia interpretado o conde Drácula,  já em final de carreira, viciado em morfina e em decadência.

O filme faz um cruzamento entre a trajetória de Ed Wood, que morreu pobre, com problemas de depressão e alcoolismo em 1978. A biografia cinematográfica  conquistou dois Óscares com Martin Landau como melhor ator coadjuvante pela sua interpretação  de Bela Lugosi e com Rick Baker com a sua equipe na categoria melhor maquiagem em 1995.

O filme além de narrar as trajetórias de Ed Wood e de Bela Lugosi nos últimos anos de sua vida,  também faz um contraponto entre o pior cineasta que se compara sempre e acaba tendo um encontro casual em um bar com Orson Wells (Vincent D’Onofrio), autor do antológico Cidadão Kane, com quem dialoga sobre os dramas de um diretor sempre em confronto com os produtores, que cobram resultados pelos seus investimentos.

A biografia cinematográfica de Ed Wood também revela sua ligação com o cross-dressing, ou seja, o hábito de vestir roupas femininas como a drag  Shirley, que foi seu alter ego nos seus últimos anos de vida e segundo o próprio, sem nenhuma conotação homossexual pois sentia atração pelas pessoas do sexo oposto ao seu. O filme merece ser visto e enriquece o acervo de informações e conhecimento para os cinéfilos, que vão conhecer os bastidores do cinema que nem sempre é colorido e muito menos glamuroso. (Kleber Torres)  

 

 

 

Ficha técnica :

Título : Ed Wood

Diretor : Tim Burton

Roteiro : Tim Burton, Scott Alexander e Larry Karaszewski

Elenco : Johnny Deep, Martin Landau, Sara Jessica Parker, Patrícia Artquette, Jeffrey Jones, E.D. Spradlin, Vincent D’Onofrio, Lisa Mariue e Bill Murray

Música : Howatrd Shore

Cinematografista :Stefan Czapsky

Gênero : Drama e biografia

EUA

1994

127 minutos


domingo, 21 de fevereiro de 2021

Um duelo entre a inteligência e os adoradores da morte



Enquanto durar a Guerra (Mientras dure la guerra) dirigido e roteirizado por Alejandro Amenábar, que  também assinou "De Olhos Abertos", "Os Outros” e "Mar Adentro", ganhador do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, envolve duas narrativas que se sobrepõem  e se complementam ao mostrar as trajetórias do reitor da universidade de Salamanca, o pensador cristão e existencialista Miguel Unamuno (Kara Elejalde) e a ascensão do generalíssimo Francisco Franco (Santi Prego)  ao poder num rastro de 200 mil mortos. Franco governo a Espanha por 40 anos.

O drama começa em 18 de Julho de 1936, quando um grupo de militares liderados pelos generais Emilio Mola e Francisco Franco perpetra um golpe de Estado contra o Governo da Segunda República, formado por uma frente popular. Isso  recrudesce a guerra civil espanhola, num pais dividido entre republicanos, de esquerda e os monarquistas, de direita, liderados por militares apoiados pelos nazistas e fascistas, que testaram no conflito espanhol suas armas de guerras com uso de tanques, blindados e aviões de combate de ultima geração usados na II Guerra Mundial.

Por temer uma vitória dos comunistas que eram aliados dos republicanos, Miguel Unamuno, que cunhou o conceito da preservação da civilização cristã ocidental, assume publicamente o seu apoio à rebelião militar, que tinha como discurso a promessa reestabelecer a ordem ao país imerso no caos. Essa tomada de posição contra o Governo Republicano fez com que Unamuno fosse exonerado da sua função de reitor da Universidade de Salamanca, cargo que lhe foi outorgado com a chegada das tropas do general Franco, que liderava uma coalisão de forças unindo as tropas  para uma campanha vitoriosa, assumindo o controle do país.

Um personagem que ganha destaque no desenrolar da trama, que envolve os dois personagens centrais de Enquanto Durar a Guerra, é o general Millán-Astray (Eduard Fernández), um estropiado herói de guerra ferido em combate e que liderava a franja ideológica radical do franquismo, defendendo a prevalência da morte no embate com a cultura e a inteligência, comandando o expurgo e a eliminação de comunistas, maçons, homossexuais, artistas e  intelectuais. Uma das vitimas foi condenada à morte porque foi acusada de não ir à missa.

Enquanto Durar a Guerra tem o seu clímax em um incidente na Universidade de Salamanca, em 12 de outubro de 1936, ou seja, no terceiro mês desde o início da guerra civil, durante uma aula magna de abertura do ano letivo presidida por Unamuno, como reitor da instituição. O filósofo reagiu quando um dos oradores Francisco Maldonado de Guevara, lançou um candente ataque contra a Catalunha e aos Bascos, etnia de origem de Miguel Unamuno, qualificando-os de anti-Espanha e de tumores no sadio corpo da nação e que seriam erradicados cirurgicamente.

Em seguida, militantes na platéia reopetiam o lema da Falange: "Viva la muerte!", ao que Milán-Astray, general falangista também presente ao ato, respondeu com um costumeiro repto: "Espanha!".  Nesse momento um grupo uniformizado de camisas azuis da Falange invadiu o salão  e fez uma saudação oficial com braço direito para o alto, ao retrato de Franco em uma parede do salão nobre da universidade.

Unamuno,  levantou-se e pronunciou o discurso que lhe rendeu a exoneração do cargo de reitor e a uma prisão domiciliar:  “As vezes, permanecer calado equivale a mentir porque o silêncio pode ser interpretado como aquiescência. Quero fazer alguns comentários ao discurso - se posso chamá-lo assim - do professor Maldonado, que se encontra entre nós. Falou-se aqui da guerra internacional em defesa da civilização cristã; eu mesmo já fiz isso em outras oportunidades. Mas não, a nossa é tão somente uma guerra incivil. Vencer não é convencer, e há, sobretudo, que convencer.” ]

- O ódio, que não deixa lugar à compaixão, não pode convencer. Um dos oradores aqui presentes é catalão, nascido em Barcelona e está aqui para ensinar a doutrina cristã, que vós não quereis conhecer. Eu mesmo nasci em Bilbao e passei a minha vida ensinando a língua espanhola, a qual desconheceis [...],” complementou.

 “Deixarei de lado a ofensa pessoal que se deduz da repentina explosão contra bascos e catalães, chamando-os de anti-Espanha até porque com a mesma razão poderiam eles dizer o mesmo,» disse Unamuno, que naquele momento, era interpelado aos brados pelo general José Millán-Astray , que nutria um profundo ressentimento contra filósofo e professor, tentando interromper a sua fala enquanto seus seguidores gritavam o slogan da Falange: «Viva a morte!»

Ao que  Unamuno, replicou: «Acabo de ouvir o necrófilo e insensato grito de "Viva a morte!". Isto me parece o mesmo que "Morte à Vida". E eu, que passei minha vida compondo frases paradoxais que despertavam a ira dos que não as compreendiam, devo dizer, como especialista na matéria, que esta me parece ridícula e repelente. Como foi proclamada em homenagem ao último orador, entendo que a ele é dirigida, se bem que de forma excessiva e tortuosa, como testemunho de que ele mesmo é um símbolo da morte. O general Milan-Astray é um inválido. Não é necessário dizer isso com um acento pejorativo pois é, de fato, um inválido de guerra. Cervantes também o foi. Mas extremos não servem como norma. Desgraçadamente na Espanha atual há demasiados mutilados”....»

Millán-Astray responde irritado «Morra a intelectualidade traidora! Viva a morte!» e Unamuno, indiferente e sem intimidar-se,  concluiu: «Este é o templo da inteligência e eu sou seu sumo sacerdote! Vós estais profanando este sagrado recinto. Tenho sempre sido, digam o que digam, um profeta de meu próprio país. Vencereis porque tendes sobrada força bruta. Mas não convencereis porque para convencer há que persuadir. E para persuadir lhes falta algo que não tendes: razão e direito. Mas me parece inútil cogitar de que pensais na Espanha».

No filme Unamuno acaba escapando dos seus antagonistas devido a uma intervenção de Carmen Franco, mulher do caudilho espanhol, que o puxou pelo braço retirando-o do recinto conturbado. Unamuno morre dois meses depois em sua prisão domiciliar e seus dois maiores amigos também foram neste interim executados pelos falangistas, que também executaram o maior poeta espanhol do século XX, Federico Garcia Lorca citado de passagem no filme, mas isso é outra história.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica:

 

Título : Enquanto Durar a Guerra ( Mientras dure la guerra)

Direção e roteiro  :  Alejandro Amenábar

Elenco : Kara Elejalde, Eduard Fernández, Santi Prego, Inma Cuevas, Luis Bermejo Luis Zahera, Nathalie Poza, Patricia Lopes e Tito Valverde

Gênero: Drama histórico

2019

115 minutos