sábado, 19 de março de 2022

Uma crise letal que reflete um dos dramas da pós-modernidade


 

 

Tendo a epidemia de opióides,   que mata milhares de pessoas todos os anos em todo o mundo, como pano de fundo, Crisis é um filme  sobre uma droga ficcional Klaralon, um analgésico vendido  como muitos medicamentos liberados pelas agências de controle de alimentos e medicamentos por ser considerado eficiente no combate à dor e não viciante, o que nem sempre é verdade. Em Detroit, por exemplo, chegam a ser registradas por semana 40 mortes de overdose, um indicador revelador de que o vício ganhou a forma de uma epidemia na sociedade americana, enquanto que  com a venda deste tipo de droga muitos laboratórios faturam bilhões de dólares e investem inclusive no marketing de apoio às artes e à cultura.

Dirigido e roteirizado por Nicholas Jarecki, o filme envolve as três faces do problema: a produção de medicamentos à base de ópio, a sua distribuição legal através de farmácias ou por meio de traficantes no mercado negro, além do drama dos viciados no caminho inexorável da morte. Tudo começa com a apreensão de uma partida de drogas com envolvimento  de um agente infiltrado da DEA na fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos.

Em paralelo, o bem sucedido do professor e cientista Tyrone Brower (Gary Oldman), divide a sua carreira dando aulas numa instituição de ensino superior e validando com seu nome a pesquisa de drogas como Klaralon, produzido pelo laboratório Nortlight, como possível sucedâneo do Oxicodona, produto que existe no mercado e é considerado um potente opioide para tratamento de dores moderadas e severas, mas considerado viciante como todos os produtos derivados do ópio.

Brower tenta retardar o lançamento do Klaralon ao descobrir que a droga em desenvolvimento era viciante e que em dez dias, os ratos acabavam morrendo no laboratório pelo consumo crescente do produto. Ao constatar o problema, ele entra em rota de colisão com a direção do Northligth, que lhe acenou com uma bonificação de quase 800 mil dólares para novas pesquisas caso validasse o lançamento do produto já autorizado pela agência controladora do governo e depois forçaram sua demissão da universidade em que lecionava sob ameaça do corte de verbas e patrocínios.

Já o policial  Jake Kelly (Armie Hammer) trabalha infiltrado no desmonte de uma rede internacional de tráfico de drogas  e acaba encontrando Claire Reimann (Evangeline Lilly) uma arquiteta viciada e mãe enlutada, que perdeu o filho morto por overdose pelo consumo de opioides.

Crises tem como base a constatação de que todos os anos em escala global os opioides, cujo consumo cresce em média 20% ao ano,  matam cerca de 100 mil pessoas . As drogas deste tipo matam anualmente mais americanos do que a guerra do Vietnam, um problema que tem de ser enfrentado pelos governos e pela sociedade. O filme também serve como um alerta e mostra as múltiplas faces de um problema letal, que reflete os dramas da pós-modernidade com drogas que também são colocadas às vezes normalmente no mercado ou senão, por vias transversas e que são conhecidas de todos.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica

 

Título : Crisis

Diretor e roteiro : Nicholas Jarecki

Elenco : Gary Oldman, Armie Hammer,  Greg Kinnear, Evangeline Lilly, Michelle Rodriguez, Luke Evans, Guy Nadon,. Lily-Rose Depp, Veronica Ferres e Kid Cudi

Cinematografista : Nicholas Bolpuc

Música :

Gênero : Suspense

Duração : 118 minutos

Ano de lançamento : 2021

País : Canadá/Bélgica

domingo, 6 de março de 2022

O mago que uniu o tango ao jazz e a música clássica



 

 

Um retrato da vida tumultuada do lendário do compositor e bandeonista Astor Piazzolla, filho de Italianos e  que se vivo o fosse, hoje teria mais de 100 anos, é o resultado do filme Piazzolla: os anos do tubarão, dirigido por Daniel Rosenfeld, que também participou da elaboração do roteiro ao lado de  Fernando Regueira.  O documentário foi construído a partir de imagens e registros de áudio inéditos, descobertos pelo filho Daniel Piazzolla, o que permite uma visão da música e da sua arte revolucionária mudando em definitivo os rumos da história do tango ao incorporar referências do jazz e da música clássica, além de mostrar a intimidade do músico com a família, amigos e os seus projetos  pessoais.

 

Piazzolla aprendeu bandeon no Bronx, onde sua família passou a residir num bairro judeu depois de se mudar da Argentina para os Estados Unidos. Ali ele também começou a lutar box e aprendeu uma regra básica e que aplicou de certa forma na vida prática: “nunca espere ninguém bater primeiro”. Como musico, ele fez três apresentações num hospício, onde o conheceu  o poeta Jacobo Fijman, que  passou 24 anos internado e não queria sair porque não tinha ninguém lá fora, para quem tocou Balada para um louco fazendo com que os pacientes rissem e chorassem nas execuções do tango.

 

Ainda em formação, Piazzolla também estudou música clássica para aprender teoria e composição. Como exercício, fez adaptações da música de Bach para o bandeon com sucesso. Ele também conheceu Carlos Gardel, que na época precisava de um garoto entregador de jornal na filmagem do El dia em que me quieras, em 1935. Gardel ficou impressionado com o jovem e o convidou para  tocar em sua casa, elogiando o seu desempenho. Ele também o convidou para a mesma turnê em que Gardel acabou morrendo num acidente aéreo.

 

Em 1936, Piazzolla começa a tocar numa orquestra de tango integrada por 13 músicos e começou a aprender piano com o compositor erudito argentino Alberto Ginastera. Esta experiência lhe permitiu incorporar os conhecimentos da música clássica e do jazz para o tango, fazendo uma música para as pessoas que pensam.

 

Ele se casa e monta a sua primeira orquestra própria em 1946, mas não atraia o público para as casas noturnas em que se apresentava. Então, ele decidiu não mais tocar num cabaré e compôs a Sinfonia de Buenos Aires – uma rapsódia portenha, que lhe valeu um prêmio internacional para estudar composição e orquestração com Nadine Boulanger, em Pris, levando seu bandeon e lá desenvolve um conceito do tango novo. Boulanger também orientou celebridades da música como Burt Bacarath, Egberto Gismonti, Igor Stravinsky e Quincey Jones.

 

Após o curso na Europa, ele volta para a Argentina onde foi lutar como um gladiador em busca do reconhecimento estético da sua música. Ele também assistiu ao mesmo tempo em Buenos Aires, a queda do ditador Juan Domingo Peron e a crise do tango, que perdia espaço para o rock, que conquistava os jovens portenhos.

 

Em 1955, desenvolve a proposta do tango para ouvir, com uma banda com oito instrumentistas, num período em que a música era o que mais lhe interessava na vida. Piazzolla também sentia que os jovens não mais queriam dançar o tango, que era complicado e desenvolveu uma teoria do tango progressivo, com o octeto de Buenos Aires associando-o ao jazz e ao clássico.

 

Sem apoio, ele decide deixar Buenos Aires na busca de novos rumos e em dificuldades financeiras aceitou um emprego de tradutor no Banco da Argentina, em Nova York, onde passou a viver. Neste período, compôs em 30 minutos Adeus Nonino, dedicado ao seu pai morto, o que considerou um momento especial na sua vida e passou a comandar um quinteto e a banda Nova Guarda, dando continuidade ao projeto para uma mudança harmônica e rítmica mais emocionante, mas sem perder a essência do tango, com uma música nova e que atraia a atenção dos amantes do jazz.

 

Nesse interim, ele se separa da mulher e começa a fazer sucesso com o quinteto, abocanhando na época um prêmio de US$ 2,5 mil em um concurso num festival de música  e dança com a Balada do Louco. Em seguida,  inicia uma parceria  exitosa com o saxofonista Jerry Mulligam, no período quando passou a ser conhecido internacionalmente e aplaudido pelo publico.

 

Em 1978, Piazzolla retorna para a Argentina e volta a tocar com o quinteto. A sua filha, que fazia oposição ao governo militar na Argentina, não perdoou o seu almoço com o general Vidella. Mas o músico continuou a sua trajetória de sucesso considerando que a sua música continuava em evolução e atual, “tem um pouco de tango, mas é o mundo de Piazzola, uma música romântica  e com muita ternura. Estou no período do tubarão: pesco um dia e no outro componho.”

 

Em 1988 , ele se apresenta no Teatro Cólon e depois foi operado do coração, sendo aconselhado a deixar os palcos se dedicando apenas a compor, mas obstinado,[ não obedeceu às ordens médicas e continuou se apresentando. No filme, ele confessa que foi o filho que Nonino  queria ter: “ele lutou muito por mim,” mas acaba doente e paralitico, e passa paralítico o último ano de sua vida sem pescar tubarões e sem compor, conhecendo a profundidade e os limites absolutos da solidão e da morte.(Kleber Torres)

 

Ficha técnica :

Título Piazolla: los años del tiburón (Piazolla : os anos do tubarão)

Direção: Daniel Rosenfeld

Roteiro : Daniel Rosenfeld/Fernando Regueira

Elenco : Astor Piazolla, Daniel Piazolla, Alejandro Varillo Penovi

Produção : Frabnçoise Grazi

Gênero : documentário

Duração : 90 minutos

Ano : 2018

País : Argentina / França

 

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Um cult movie de terror que saiu da periferia para o mundo



“É a vida o tudo  e a morte o nada ou a vida é o nada, e a morte, tudo”  com este pressuposto o cineasta José Mojica Marins concebeu junto com Adenora de Sá Porto o roteiro do filme Esta noite encarnarei o teu cadáver, considerado um cult movie reconhecido internacionalmente. A história foi construída  a partir de uma sinopse simples: o  coveiro Zé do Caixão, que buscava de forma obsessiva encontrar uma mulher ideal, capaz de gerar o filho perfeito, e tenta, com a ajuda do fiel criado conseguir este objetivo, para isso sequestra seis belas jovens, que acabam submetidas a sessões de tortura e flagelação concebíveis no mundo da ficção ou fora dos limites da razão.

Tudo começa quando Zé do Caixão (José Mojica Marins), dono de uma funerária, é preso e absolvido de dois crimes depois de encontrado junto a dois corpos em decomposição. E assim, em liberdade, ele volta à sua cidade com o projeto de achar a mulher ideal para consagrar a única verdade da vida: a imortalidade do sangue. Mas nem tudo é maldade no filme, pois Zé do Caixão salva um menino que brincava de cabra cega de ser atropelado  e ainda ameaça ao motorista desastrado, que poderia ter matado um inocente.

Para Zé do Caixão, “meu sangue precisa encontrar aquela que o imortalizará” e o importante neste processo que pairava na sua cachola é que só as crianças são inocentes, por isso sequestra seis mulheres para tentar gerar o homem puro e de uma raça imortal, isso num pais cujo povo continua a morrer ignorante, supersticioso,” uma verdade que precisa ser aceita mesmo que tenhamos de chorar lágrimas de sangue”, o que custou ao cineasta dissabores com a censura.

Ele oferece às mulheres a fortuna e a imortalidade, mas elas não sabem o que o destino reserva às que não forem escolhidas. No teste de fogo, ele coloca baratas e aranhas nos quatros em que as jovens dormem e ri sadicamente, quando elas se assustam: “um pequeno susto para medir a coragem de vocês”. Outra mulher, ele manda esperar no seu quarto e  fala da sua preocupação para que a beleza das mulheres seja ultrajada pelos rigores do tempo “por isso promete matá-las” de forma antecipada.

Uma das vitimas ele dá de presente para seu fiel escudeiro, Bruno (José Lobo), o corcunda, e decide ficar com apenas uma das mulheres, deixando as outras quatro entre cobras e serpentes que cuidariam do seu destino final. Zé do Caixão é amaldiçoado por uma da moças, mas para ele, a morte delas não é um sacrifício, porque o amor fragiliza o homem e corrompe a mente. Depois da decisão, manda Bruno, simplesmente limpar a sujeira fazendo a assepsia do lugar dos crimes.

Nesse interim, ele interrompe  a festa de noivado de Laura (Tina Wholers) filha de um coronel. Ela lhe diz que pretende ser de seu sequestrador e que quer ter com ele um filho perfeito, sendo considerada por Zé do Caixão como uma mulher superior. Na sua estratégia, ele também mata o filho do coronel, irmão  de Laura e joga a culpa no Truncador (Antônio Francari), que acaba conseguindo fugir da cadeia.

A Laura , Ze do Caixão confessa que matou o seu irmão e que ela, por ser uma mulher superior será a mãe do seu filho. Mas ele também descobre que entre uma das mulheres que sequestrou e matou, estava uma gestante e ele estaria amaldiçoado, pois provocou a morte de um inocente. O filme também mostra uma relação infernal de Zé do Caixão com o sem nome através de Josef(el) Zanatas com o nome escrito de trás para frente, numa cena psicodélica e experimental.

Zé do Caixão afirma categórico  que esteve no inferno e que mesmo não existe. Quando o Trucador chega com um grupo de jagunços para eliminá-lo, Laura conta que está grávida e ele diz que com isso seu sangue se eternizará. Destaca ainda, que a sua missão na terra está cumprida pois terá um filho que dará continuidade à sua descendência e constata: “não posso morrer, tenho de defender meu filho dos homens inferiores’, mas acaba dominado e na luta com seus captores, ele mata um deles num pântano, no meio da areia movediça.

Márcia (Nádia Freitas) outra das suas vitimas tenta suicídio e, antes de morrer conta ao que a encontraram, que Zé do cCaixão  matou as jovens sequestradas e também foi responsável pela morte do filho do coronel, o que deixa toda a população da pequena cidade contra o assassino que chama os seus perseguidores de desgraçados, malditos e escravos do nada. Na sua vingança, o coronel (Roque Rodrigues) coordena  uma mobilização para expulsar o diabo daquela terra , “pois a reencarnação não existe e apenas é fruto da imaginação”.

Em desvantagem diante da multidão, Zé do Caixão relembra que o homem verdadeiro é superior às fraquezas terrenas e que é essencialmente imortal: “pois nada existe, tudo é mentira e eu sou indestrutível”, mas acaba desabando depois de fulminado por um tiro e ao cair, acaba rogando a ajuda de Deus e pede uma cruz, o símbolo da fé e da redenção.

Rodado em 1967, o filme foi feito com um pequeno orçamento e recursos escassos, atores amadores em sua maioria, mas revela um cineasta criativo e que mesmo sem formação acadêmica ou como autodidata coloca em debate o terror pelo terror, com cenas de cobras, aranhas e baratas verdadeiras, animais e insetos que também eram usados nos testes das suas atrizes e em cenas de realismo não fantástico.

O fato é que José Mojica Marins não só construiu a figura imortalizada do personagem Zé do Caixão, como é hoje considerado um cineasta cult nos Estados Unidos, onde é conhecido como Joe Coffin. Ele nos contou histórias variadas,  saltando desde a pornochanchada até o terror, sendo conhecido como o pai deste segmento no Brasil e um dos inspiradores do movimento marginal, graças ao seu estilo underground.

O cineasta, que foi roteirista de cinema e televisão,  ator e produtor,   também teve um discurso critico que lhe valeu cortes frequentes da censura, mas,  como autodidata, ele  também colocou na sua obra temas filosóficos  e existenciais, transcendendo os limites indefinidos entre o bem e do mal, como tinha noção de Zaratustra e do superhomem do Nietzsche assimilando ao se modo a leitura e problemática de um dos filósofos mais complexos do nosso tempo e o incorporando à linguagem que influenciou o cinema, a literatura e a vida das pessoas.

 

Ficha técnica:

Título : Esta noite encarnarei no teu cadáver

Direção: José Mojica Marins

Argumento e Roteiro: José Mojica Marins e Adenora de Sá Porto

Elenco - José Mojica Marins, Tina Whollers, Nádua Freitas, Antonio Fracati, Esmeralda Rachel, Paulo Ramos, Tânia Mendonça,  Carmen Marins, Mina  Monte, Denise Maria e Palito

Fotografia : Giorgio Attili

Diretor de arte – José Vedovato

P & B

Lançamento : 13 de março de 1967

Brasil

 

 

 

 

 



sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

A história de uma entrevista que virou filme sobre o poder

 


 


 

No momento em que o ex-metalúrgico Luis Inácio Lula da Silva, que esteve preso num processo de corrupção e tenta voltar pela terceira vez à presidência da República, um filme interessante e que serve de espelho para a sua trajetória política é Walesa, de 2012, dirigido por Andrzej Wajda. O filme tem como base narrativa entrevistas do ex-presidente polonês  Lech Walesa no período de 1990 a 1995, à jornalista italiana Oriana Fallacci  interpretada pela atriz Maria Rosaria Omaggio, famosa pela cobertura de guerras e revoluções, além de autora de entrevistas antológicas com vários líderes mundiais e que lhe deram projeção internacional. 

Lech Walesa (Robert Wieckiewicz) aparece como um político tarimbado, que começou a vida como eletricista e empregado de um estaleiro de  Gdansk, propõe à entrevistada uma série de perguntas para saber se  a entrevistas seria positiva ou negativa para a imagem da sua pessoa. O filme tem como cenário desde os anos 70 com a Polônia conflagrada em um clima de revolta da população irritada com o aumento de 30% no aumento dos preços da cesta básica e dos serviços públicos.

O filme também traça à trajetória de Walesa, que se tornou líder do partido Solidariedade e  ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Tudo começa quando ele sai da sua casa em 1971, para pegar um carro de bebê para o filho e acaba detido levando panfletos no meio de uma série de confrontos entre a população e a policia. O operário acaba detido e forçado a colaborar como informante com as forças de segurança.

Como eletricista ele acaba  se revelando como uma liderança entre os operários ao cobrar máscaras de proteção para os trabalhadores do porto e do estaleiro. Posteriormente, numa reunião do partido comunista que controlava o país, ele se  manifesta em defesa dos trabalhadores, depois promete ligar a eletricidade para um amigo que estava sem luz em casa, mas acabou demitido.

Ao ser questionado por Oriana Fallaci sobre quem o ensinou a agir, Walesa declarou: “sou um homem com muita raiva. E preciso viver com raiva.” O fato é que desempregado, ele acabou precisando procurar um novo emprego, arruma vários bicos  e recebe panfletos na rua,  que o levam ao comitê dos trabalhadores  onde criticou o estágio da luta por direitos da categoria por considerar em seu discurso que “as intenções são boas, mas o resto é lixo.”

O filme revela que a policia vai à casa de Walesa no mesmo dia da visita do Papa João XXIII ao país, em 2 de junho de 1971, quando ele é novamente preso mais uma vez e declara aos seus interrogadores : “antes eu falava porque não tinha escolha” e se recusa a colaborar com os órgãos de segurança afirmando também que não iria abandonar a sua filiação ao sindicato. Na entrevista, ele declara à jornalista italiana que foi preso várias vezes e que a prisão era um bom lugar para pensar.

Pai de seis filhos, ele confessa à repórter que a sua mulher não apenas suportou as suas detenções, como o ajudou muito contirbuindo na sua escalada política e o apoiando nas demissões que teve de enfrentar, sempre procurando trabalhos alternativos, inclusive trabalhando no conserto de carros.  Contou ainda que em 18 de dezembro de 1979, participou de um comício onde falou da sua demissão, sendo preso mais uma vez pelo serviço secreto polonês, no momento em que o país vivia uma nova crise de desabastecimento.

Ao sair da prisão, ele emerge como um dos lideres do greve nos estaleiros, em 14 de agosto de 1980, que começou com uma grade mobilização, mas sem  a presença de Walesa, que chega após  a eclosão do movimento, depois de escapar a um cerco policial pulando um muro. Antes de sair da sua casa, ele havia entregue à mulher o relógio e aliança, com a recomendação para que os colocasse à venda caso ele não voltasse.

Nesta época, os grevistas reivindicavam aumento de salário para dois mil ztoty  e redmissão dos trabalhadores demitidos, além da construção de um monumento aos trabalhadores mortos na greve de 1970. Para Walesa, “eles aceitaram a nossas exigências. Mas depois alegaram que não mais aceitavam as negociações, nós estávamos em greve por solidariedade”.  Com a população da cidade aderindo à paralisação do estaleiro e do porto, os grevistas ampliaram a pauta de reivindicação propondo a realização de eleições livres e a lista passou a contar com nada menos que 21 exigências.

Num outro questionamento, Oriana Fallaci pergunta a Walesa o que significa ser líder  e ele destaca entre valores de liderança: “ser destemido e não se dobrar, além do mais, sei o que falar com as massas”. Ele desatacou que o sucesso do solidariedade estava no apoio de artistas e intelectuais, enquanto os russos pressionavam as autoridades polonesas para a repressão aos grevistas, no momento em que a paralidação ganhava adesões em todo o pais”

A greve termina em 31 de agosto de 1980 e o filme mostra Walesa sendo carregado nos braços pelos trabalhadores. Ele comemora a anistia e a soltura dos presos políticos e declara que “a vitória não foi minha, mas da união de todos.” Numa outra entrevista em sua casa, deitado na cama, o líder polonês diz à jornalista que “não me adapto á regras do jogo”, enquanto sua mulher colocava visitas e sindicalistas para fora de casa.

Walesa também confessa na entrevista que serviu para o roteiro do filme, que não lia livros, comprou até alguns, mas não lia mais que cinco páginas. Em 13 de dezmebro de 1981, o secretário do partido e o prefeito de Gdansk vão à casa de Lech Walesa informando que o governo havia decretado lei marcial. Assim, ele volta à militância sindical e diz num encontro com policiais que o abordaram com ameaças: “um dia vocês ainda vão me pedir trabalho”.

O líder do Solidariedade contou ainda na entrevista, que foi sequestrado pelos comunistas   e em 11 maio de 1982  condenado à 18 anos de prisão, mas acabou convidado a ir para a televisão para tentar encerrar  uma nova paralisação dos trabalhadores. Ele fala da repressão politica depois da ocupação da Polônia pela União Soviética,  da sua participação como colaborador do regime e  das mudanças com a  morte de Leonid Brejnev, ex-secretário geral do partido comunista soviético em 10 de novembro de 1982. Bem como da  festa com a soltura de Walesa, o qual declara a Oriana Fallaci que “o país está prestes a explodir e eu sei mudar isso com calma e paciência.”

No mais tudo culmina com as eleições que o levaram à presidência da Polônia em 1989 e no mesmo ano, em 9 de novembro. cai o muro de Berlim, num filme que revela uma história baseada em fatos reais, e como a voz e a ação de um homem ganharam repercussão num mundo globalizado e em constante mudança.(Kleber Torres)


domingo, 12 de dezembro de 2021

O homem que melhorou a música da igreja e inventou o jazz


 


Um show de Louis Armstrong (Reno Wilson) no Suburban Garden, em 1931, na primeira vez em que um negro tocava ao vivo na rádio  WSNB,  em New Orleans, na Louisiana, serve de contraponto para a narrativa de  Bolden - A Sensação do Jazz,  a cinebiografia do primeiro rei do  trompete,  Buddy Bolden (Gary Carr), que ouve a apresentação num dos cubículos do mesmo sanatório estadual onde veio a falecer em 4 de novembro do mesmo ano.  A história revela uma vida trágica, marcada pela pobreza, pela loucura e pelo abandono.

O filme que intercala cenas da apresentação de Satchmo, uma alusão à boca grande de Armstrong, com flashbacks da vida de Bolden, também revela como pano de fundo o contexto social e político turbulento no início do século 20, inclusive as relações raciais conflituosas entre brancos e negros explorados numa sociedade com grandes desníveis sociais.

Bolden = A Sensação do Jazz começa com uma informação: “sabemos pouco sobre Buddy Bolden,  que nasceu em 1877 e foi o inventor do jazz”. No início do show em que o apresentador branco sai do palco para não anunciar negro nenhum, Armstrong dedica a apresentação aos brancos que o assistem na casa noturna lotada e aos irmãos negros que estavam no lado de fora, formando uma verdadeira multidão para ouvir o programa transmitido ao vivo pela emissora de rádio.

Considerado como um rei do trompete, Bolden foi o  primeiro cornetista de Nova Orleans no tempo do ragtime, e um  precursor do jazz,  responsável por revolucionar o cenário musical nos estados Unidos e no mundo.  O filme mostra Bolden desde a infância deitado quieto no chão da fábrica têxtil onde sua mãe trabalhava, com o olhar perdido no vazio, o mesmo olhar do homem maduro deitado no catre do hospício onde findou os seus dias.

O filme também fala de Nora (Yaya da Costa), a  sua mulher e da sua mãe curiosa que perguntou sobre o que o músico fazia para viver e que teve como resposta: “eu melhoro a música da igreja”. Dono de um dom único e de uma genialidade no domínio do instrumento, Bolden tocava trompete mais alto que qualquer um outro músico do seu tempo e geração, mas acabou explorado pelo seu inescrupuloso empresário Bartley (Erik LaRay Harvey), que numa jogada de marketing, faz o músico saltar de paraquedas de um balão tocando alto sua corneta para chamar a atenção do público para um show da sua banda num parque público .

Bartley também fazia acordos com  empresários brancos na armação de embates entre lutadores de rua, com apostas e resultados combinados. Bolden, que tocava no Traseiro Fedido, uma casa de prostituição, onde Nora nunca foi, certa vez deixou o salão de dança e foi tocar no telhado visando chamar a atenção dos vizinhos e dos dançarinos que deixaram o salão e foram vê-lo da rua. O filme revela que apesar das poucas informações sobre a vida de uma lenda do jazz,  para quem na música o importante é que todos se comuniquem, formando um casamento entre o músico e o ouvinte, há uma história possível de ser contada ou imaginada.

Bolden que não sabia ler partituras e nem escrevia sua música, compunha sempre ao vivo, de improviso  no palco e como um criador, achava que as vezes é até melhor não tocar nada,  até que foi convidado a gravar numa espécie primitiva de cilindro metálico. Ele considerava que as pessoas ouviam a sua música, mas ele era invisível, assim, ele acaba envolvido com a venda e o consumo de drogas, que comprometem ainda mais a sua saúde mental, então, começa a faltar compromissos e é cada vez mais pressionado pelo empresário e pelos donos de casas noturnas que querem compensação dos prejuízos com as apresentações não realizadas. Também acaba tendo problemas com uma overdose e acha na sua loucura e paranoia, que tiraram as válvulas  e  botões do seu instrumento deixando-o impedido de tocar.

A sua internação ocorre quando ele provoca um incidente fora do salão onde apresentava, em que até policiais acabam feridos. No sanatório, quando não estava agitado, ele ficava deitado e indiferente a tudo, numa espécie de letargia, com a mesma expressão que tinha na infância. Como lunático indigente, Bolden  era considerado segundo um dos relatórios do manicômio como um perigo para si mesmo e outros.

Em tempo: o show de jazz de Armstrong e as apresentações antológicas do Buddy Bolden com a sua banda são um espetáculo à parte no filme e que pagam com juros o valor do ingresso, mas não atenuam o drama e nem  a tragédia pessoal de um gênio que lutava contra a pobreza, a discriminação e a loucura provocando a sua invisibilidade e até  morte antecipada aos 54 anos.   (Kleber Torres)

 

 

Ficha Técnica

Título: Bolden! / Bolden – A Sensação do Jazz

Direção : Dan Pritzker

Roteiro : Dan Pritzker e David Rothscild

Elenco : Gary Carr, Erik LaRay Harvey, Yaya da Costa, Reno Wilson, Karimah Westbrook, Jo Nell Kennedy, Robert Ri’chard, Serena Reeder

Trilha Sonora – Mark Ishan

108 minutos

sábado, 16 de outubro de 2021

Um alerta de ficção que poderia ter preparado o mundo para a covid-19


 

 

Antecipando os cenários da pandemia provocada pela covid-19,  que registrou até agora em outubro de 2021 um total de 220 milhões de casos e mais de 4,55 milhões de mortes no mundo, das quais 601 mil no Brasil, o filme Vírus Fatal ( Fatal Contac : Bird Flu in América), dirigido em 2006 pelo experimentado  cineasta Richard Pearce, trata de uma mutação do vírus H5N1  da gripe aviária transmissível entre humanos. A  obra de ficção  começou, coincidentemente, na China e  atingiu à população em escala planetária, com a capacidade de matar até 300 milhões de pessoas, ou seja, um potencial cinco vezes mais mortal que o da gripe espanhola, que há mais de um século dizimou 50 milhões de seres humanos, espalhando o pânico  e deixando cidades inteiras  em lockdown.

Tudo começa com um executivo americano Ed Collins (John Atkinson) visitando as instalações de uma empresa fornecedora na China, onde aparece um empregado tossindo e espalhando no ar o virus H5N1, o mesmo que na vida real provocou um surto epidêmico em 1997,  a partir de Hong Kong.  O filme também mostra de forma didática, o processo de transmissão do vírus de pessoa a pessoa o que ocorre no bar, num hotel, num avião quando o paciente zero dos Estados Unidos voltou ao seu país de origem daí a necessidade de cuidados como o uso de mascaras e higienização,  hoje enriquecida com o recurso do álcool em gel.

Em Vírus Fatal,  40 a 60% dos pacientes com a Sindrome Respiratória Aguda Grave morrem com dores no corpo inteiro, com dificuldades de respirar e tossindo tanto que rompem as cartilagens internas, se afogando em seu próprio sangue. O filme revela também que nem todas as pessoas expostas ao vírus adoecem, como ocorre nos dias hodiernos com a covid-19.

A reação dos governos não foi imediata e marcada por indecisões, além de  entraves burocráticos. Já governos que evitaram falar de pandemia para não assustar à população, tiveram como primeira preocupação assegurar a continuidade das lideranças e de comando para evitar o caos social, estabelecendo medidas de isolamento social e de quarentena. Um problema agravado por problemas logísticos que criaram dificuldades na produção e distribuição de alimentos, produtos de limpeza e de medicamentos.

Numa cena dramática uma mulher morre e o marido se suicida ao seu lado, deixando o filho pequeno abandonado. Há também especulação generalizada, como uma elevação de preços de mercadorias como o café sendo vendido a 17 dólares nos Estados Unidos e com o estabelecimento de um comércio paralelo com a instauração de um mercado negro, além de saques de mercados, o que não chegou a aconter no caso da covid-19, o qual paralisou as economias em escala planetária, mas não impactou à população com o desabastecimento de alimentos, um problema que afetou ao setor de veículos e de eletroeletrônicos.

Outra preocupação dos governos e cientistas em Vírus Fatal foi com as mutações no vírus, bem como problemas com os antivírus que não funcionavam contra o H5N1, daí a necessidade de investimentos em vacinas e definição de prioridades na imunização para o pessoal da área da saúde e para as pessoas consideradas de risco.

Collin Reed (Stacy Keach), um dos gestores durante a pandemia provocada pelo H5N1, declarou num dos diálogos do filme, que nunca pensou que uma gripe fosse algo tão importante, isso em tempos que considerou tenebrosos. Virus Fatal mostra hospitais lotados e cadáveres sem sepultura sendo cremados a céu aberto igual ao cenário escatológico observado durante os picos da covid-19 dos nossos dias.

O filme evidencia que não há uma resposta perfeita durante uma pandemia e que a melhor alternativa seria a articulação de esforços entre instituições internacionais com os governos nacionais, os quais devem atuar de forma integrada inclusive com a iniciativa privada no enfrentamento de uma tragédia distópica e que marcou também os nossos dias, quando as pessoas perderam o chão sob os deus pés e conheceram uma sensação de vazio tendo de se reinventar diante do isolamento social, da falência do sistema de saúde e de uma inevitável crise econômica com desemprego e uma escalada inflacionária.

No filme, nenhum herói falou de uma gripezinha e nem de remédios milagrosos ou chás para sua prevenção, terminando com o registro de mais de 25 milhões de mortes ainda com o contador girando na tela, mas também sem nenhuma CPI ou relatório final, mostrando que a arte nem sempre antecipa a realidade, mas serve para prevenir. O problema é que mesmo depois desta distópica covid-19, muitos cientistas ainda esperam uma outra pandemia inevitável no futuro, o que exige que se não aprendemos nenhuma lição com uma obra de ficção premonitória, melhor seria aprendermos com este choque oferecido pela realidade, num mundo onde o que é ruim pode ainda, segundo alguns escatologistas de plantão, piorar (Kleber Torres)

 

 

Ficha técnica

 

Título : Vírus Fatal ( Fatal Contac : Bird Flu in América)

Direção : Richard Pearce

Roteiro: Ron McGee

Elenco: Joely Richardson. Stacy Keach, Ann Cusak, Justina Machado, Scott Cohen. David Ramsey, John Atkinson e Kodi Smit-Mcphee

Cinematografia : Ian Strasburgg=

Music : Mark Adler

Colorido

2006

90 minutos


domingo, 10 de outubro de 2021

Um ícone do expressionismo alemão e da história do cinema


                                                                                                     

Considerado como um ícone do expressionismo alemão e um marco na história do cinema, o filme  Nosferatu, eine Symphonie des Grauens (Nosferatu, uma Sinfonia do Horror), dirigido em 1922 por  Friedrich Wilhelm Murnau, tem como referência a história de Drácula, romance de Bram Stoker, o que gerou nos anos 20 uma disputa judicial com os herdeiros do escritor, culminando com uma decisão judicial para destruição dos negativos e cópias do filme na Alemanha e na Europa. A decisão não evitou que cópias do filme, considerado uma obra prima, fossem comercializadas a partir dos Estados Unidos, onde os direitos autorais já haviam expirado anteriormente.

A história tem como base o  drama do corretor de imóveis Thomas Hutter interpretado pelo ator Gustav von Wangenheim,  que  negocia a venda de um castelo abandonado e em decadência para o estranho conde Graf Orlock (Max Schreck). O complicador é que o conde de hábitos noturnos,  vive num castelo em Bremen, na Alemanha e  é na verdade um vampiro milenar, que espalha o terror na região e é temido pela população da vizinhança.

O corretor passa alguns dias no castelo de Bremem, onde ao ter acesso de uma foto de mulher de Hutter,  Ellen (Greta Schroeder), o conde  passa a se interessar por ela e a influencia mesmo à distância com seus poderes sobrenaturais. O filme inclui efeitos especiais elaborados para a época da filmagem e revela para a mudança do conde, que os vampiros só podem manter a sua força se mantidos durante o dia em caixões com a terra amaldiçoada em que foram enterrados.

O fato é que o filme com 105 minutos e um enredo elaborado, tem na única coisa que o diferenciava do Drácula, o nome do conde rebatizado como Graf Orlock e os dos personagens centrais da história. Outra diferença foi encontrada para a morte do vampiro, que morre ao ser atingido pela luz solar, além de inspirar diversas outras caracterizações de chupadores de sangues, ganhando inclusive um remake em 1979, batizado como Nosferato – o vampiro da noite, assinado por outro cineasta alemão Werner Herzog e com a participação do ator Klaus Kinski e a bela Isabelle Adjani.

Nas vésperas de comemorar o seu histórico centenário, Nosferatu  foi inteiramente restaurado em 2006, com base em uma cópia de 1922 da Cinemateca Francesa, bem como de uma outra encontrada no arquivo de cinema alemão e  de outra película encontrada na Tchecoeslováquia, onde o filme foi rebatizado com outro nome para escapar da disputa judicial dos produtores do filme com a viúva do escritor Florence Stoker.(Kleber Torres)

 

 

Ficha técnica

Título : Nosferatu, eine Symphonie des Grauens / Nosferatu, uma Sinfonia do Horror Diretor  

Diretor : Friedrich Wilhelm Murnau

Roteiro : Henrik Galeen / Bram Stoker

Elenco : Max  Schreck, Alexander Granach, Gustav von Wangenheim, Greta Schroeder,G.H.Schnell, Ruth Landshoff, John Gottovut, Gustav Botz, Max Nemetz e Wolfgang Heinz

Cinematografista : Gunther Kampft e Fritz Arno Wagner

Diretor de arte – Albin Grau                

P & B

1922

105 minutos