sexta-feira, 26 de dezembro de 2025
Um clássico sobre o poder e a loucura que entrou na história do cinema
Considerado o pai do horror psicológico, o clássico O Gabinete do Dr. Caligari(Das Cabinet des Dr. Caligari) de 1920, dirigido por Robert Wiene a partir de um roteiro assinado por Hans Janovits e Carl Mayer, é também um marco do expressionismo alemão e um exercício de cinema que transforma em 71 minutos cenários em estados de alma, questionando o poder, loucura e a própria confiabilidade da trama narrativa exposta com todas as suas contradições. O filme é também uma metáfora estética do olhar deformado, a partir de ruas estreitas e entrecortadas, telhados góticos e cubistas complementados por prédios e objetos disformes, que compõem o eixo visual uma das obras primas do início da história do cinema e se constitui até hoje numa referência estética para os cineastas e cinéfilos.
Numa comparação dos atributos essenciais do filme, o Gabinete do Dr. Caligari tem sua força nos cenários angulosos e distorcidos, que deixam no espectador uma sensação constante de inquietação, definindo o tom expressionista da obra cinematográfica, cuja estrutura narrativa em quadro (frame history) gera questionamentos sobre a verdade, colocando ao mesmo tempo em dúvida o poder da autoridade e mesmo a questão da sanidade mental dos personagens. Tudo começa quando dois personagens sentados num local difuso e pouco iluminado conversam e um deles diz que os fantasmas existem, estão em toda parte e o afastam do lar, da mulher e da criança.
Em termos temáticos o foco central do filme está no questionamento da autoridade, da manipulação da informação e a questão da sanidade mental, o que revela a perturbação moral e intelectual dos personagens, um problema que continua atual e ressonante nos dias atuais na sociedade do século XXI. A narrativa envolve o momento em que um estranho personagem, que se apresenta como Dr.Caligari (Werner Krauss), anuncia numa feira comercial internacional o espetáculo do sonânbulo Cesare (Conrad Veidt) , que está adormecido há 23 anos. Na mesma noite da primeira apresentação ocorre estranhamente um assassinato misterioso.
O filme de Wiene, não é apenas um conto de horror; é uma demonstração de como o cinema pode traduzir estados mentais em um espaço físico qualquer e a cenografia acentuada com ruas tortas, sombras cortantes e interiores que parecem respirar, transformando o cenário em personagem, uma escolha estética que o coloca como um dos exemplos mais puros do expressionismo cinematográfico. Essa estética não é meramente cosmética ou decorativa, mas incorpora a própria linguagem dramática que comunica ansiedade, opressão e desorientação, refletindo o estado psicológico dos personagens e uma sociedade em crise.
A estrutura narrativa emoldurada, revela uma história através de um narrador que pode ser instável, e esse é um artifício que desloca o espectador do conforto da verdade objetiva para a incerteza interpretativa. Essa ambiguidade formal faz do filme um estudo sobre a construção da verdade e sobre como instituições representadas por figuras de autoridade como o doutor, que é psicanalista, e mesmo o diretor de um manicômio, que podem manipular percepções e memórias. Dr. Caligari anuncia Cesare como conhecedor de todos os segredos e sugere aos espectadores que lhe dirijam perguntas as mais diversas.
Um dos personagens questiona quanto tempo vai viver e Cesare responde na tampa: “até o amanhecer,” sinalizando para novos assassinatos, cometidos nas sombras da noite e com facas. Seria a profecia do sonâmbulo ou ele é uma projeção do mal, exigindo das autoridades policiais uma rigorosa investigação? A polícia chega a prender um homem com uma faca, mas ele nega participações nos assassinatos misteriosos.
No plano temático, Dr. Caligari trabalha com medos dopós‑guerra, ou seja, a desconfiança nas instituições, o trauma coletivo de um país derrotado militarmente e obrigado a indenizar aos vencedores, além da fragilidade do bom senso e da razão numa sociedade em crise econômica e moral. A figura do sonâmbulo Cesare e do próprio Dr. Caligari funciona como metáfora para manipulação política, social e psicológica, leituras que explicam por que o filme continua a ressoar em contextos contemporâneos de pânico e crise.
A influência do filme é palpável seja em sua sua estética e suas estratégias narrativas alimentaram gerações de cineastas e ajudaram a moldar o vocabulário dos filmes de horror e do cinema psicológico ao longo do século XX se projetando até os dias atuais. Mesmo para espectadores acostumados ao cinema moderno, a obra mantém força visual e intelectual, exigindo uma recepção ativa e atenção para a compreensão da trama narrativa do enredo na sua complexidade.
Mas existem mesmo assim algumas barreiras de acesso ao expectador de hoje, uma vez que a versão atual foi recuperada através de registros de várias cópias e fragmentos disponíveis. A restauração realizada pela Fundação F.W.Murnau, que recuperou filmes expressionistas influenciam esta experiência, pois nem todas as cópias preservam a colorização ou trilha original. Há ainda nesse interirm, o distanciamento temporal de mais de um século entre a produção e os espectadores contemporâneos, que podem achar o ritmo lento e a mímica exagerados, evidenciando que é preciso ajustar expectativas críticas para absorção e compreensão da obra a partir do seu contexto histórico.
No enredo, enquanto Dr. Caligari e Cesar enganam a polícia, uma mulher os descobre e denuncia que viu os dois juntos. À noite, ela é atacada, luta para se defender, mas desfalecida, acaba sequestrada por Cesare que, perseguido durante a fuga, acaba abandonando a vítima, caindo em seguida um pouco adiante como um zumbi. Na sequência seguinte os dois personagens que conversavam na parte inicial do filme, são visitados por uma mulher e um deles, o mais joverm, a pede em casamento.
A outra mulher narra em outra cena, que foi sequestrada por Cesare, o qual fora substituído no seu caixão por um boneco, enquanto Dr. Caligari empreende uma nova fuga. Mais adiante, num hospício, o investigador procura pelo paciente Dr. Caligari, mas, pelo contrário, ele é o diretor do manicômio e se descobre que ele vinha atuando há longo tempo com Cesare, cometendo crimes circuntanciais idênticos, indicando que o mesmo havia subjugado o sonâmbulo. Ali também é descoberto um documento revelando uma espécie de teoria e protocolo de dominação e poder sobre o sonâmbulo para o cometimento de crimes, como uma espécie de obsessão.
O corpo do sonâmbulo é encontrado no local onde caiu durante o sequestro fracassado e ele é levado para o hospício, onde reage, recupera os sentidos, ataca médicos e enfermeiros, mas acaba dominado e colocado numa camisa de força. Tudo volta ao cenário do início do filme e um dos personagens comenta que daquele dia em diante o louco não mais conseguiu sair da cela. Fica também a recomendação implícita para que não se deixe Cesare prever o futuro para que não ocorram novos assassinatos.
Ainda hoje, O Gabinete do Dr. Caligari permanece essencial e como um filme que não só assusta, mas ensina o que o cinema como arte pode fazer quando decide tornar a forma tão significativa quanto o conteúdo. Para quem estuda cinema, ele é leitura obrigatória e para o público geral, uma experiência que desafia e recompensa, como um filme piscológico sobre a loucura ou sobre o misticismo que deixou como legado a influência do horror no cinema moderno.
A obra inspiranda em termos estéticos e narrativos inovadores para a sua época, reúne fatores que a tornam uma referência obrigatória sobretudo como um filme psicológico sobre a loucura e a construção da verdade, usando como pano de fundo elementos místicos como a hipnose e sonambulismo dispositivos narrativos e simbólicos para explorar essa relação com a psicologia. O fato é que a ambiguidade entre delírio e realidade é a intenção central do filme o que lhe deu uma dimensão.(Kleber Torres)
Ficha técnica :
Título: Das Cabinet des Dr. Caligari/O Gabinete do Dr. Caligari
Direção: Robert Wiene
Roteiro: Hans Janowitz e Carl Mayer
Elenco: Werner Krauss, Conrad Veidt, Lil Dagover e Friedrich Fehér
Direção de fotografia : Willy Hameister
Direção de arte: Hermann Warm; Walter Reimann; Walter Röhrig
Música :Giuseppe Becce
País: Alemanha
Duração : 71 minutos
Gênero: Terror, suspense, expressinismo
Cor :P&B
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