quinta-feira, 18 de dezembro de 2025
Uma caçada implacável que mudou a narrativa do filme policial
A crítica ao filme M – O Vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang, lançado em 1931 e inspirado livremente em casos reais de assassinos em série na Alemanha dos anos 20, exige um olhar abrangente que vai além da superfície do thriller policial, passando transversal inclusive pela construção dos personagens e pelo ambiente social e político da época. O filme é um marco não apenas do cinema alemão, mas da própria linguagem cinematográfica moderna ao inaugurar uma forma de narrar o crime que abandona o sensacionalismo e mergulha na psicologia, na paranoia coletiva, na anatomia da insegurança e do medo urbano
A trama narra uma caçada a um assassino de crianças que aterroriza Düsseldorf, Hans Beckert, interpretado por Peter Lorre. A polícia, pressionada pela opinião pública, intensifica suas operações de caça ao pedófilo, o que acaba prejudicando também o submundo do crime, cujas atividades são interrompidas pela vigilância constante dos agentes da lei realizando batidas em bares, bordéis, pontos de jogatina e de tráfico de drogas. Assim, criminosos e autoridades, por razões distintas, passam então a perseguir o mesmo homem, que acaba localizado e identificado.
Lang constrói essa narrativa com uma precisão quase cirúrgica, evitando mostrar a violência diretamente; o horror nasce do que não se vê, do que se insinua. Assim, a morte de uma das crianças é constatada através da bola que levava rolando sozinha na grama até parar. A ausência de imagens explícitas é substituída por símbolos como um balão preso nos fios de iluminação ou uma bola abandonada no gramado que dizem mais do que qualquer cena gráfica poderia revelar.
Em termos narrrativos o filme se apoia em dois pilares fundamentais, a crítica social e a investigação da mente criminosa. Lang não está interessado em demonizar Beckert de forma simplista, mas pelo contrário, ele o apresenta como um produto de impulsos irracionais que ele próprio não compreende, um homem dilacerado por uma compulsão que o domina. A cena antológica do tribunal do crime, em que Beckert tenta explicar sua condição, é um dos momentos mais perturbadores do cinema justamente por expor a fragilidade humana por trás do monstro e evidencia ao mesmo tempo os sinais comportamentais de um psicopata.
Lang também expõe a sociedade violenta como um organismo doente, uma vez que a histeria coletiva transforma cidadãos comuns em vigilantes paranoicos e nesse clima a fronteira entre justiça e vingança se dissolve. O filme sugere que a violência não é apenas individual, mas estrutural, se infiltrando nas instituições, nas ruas, nos discursos e na ação de grupos sociais.
Cabe observar ainda, que M nasce no coração da República de Weimar, um período marcado por instabilidade e polarização política, agravados por uma crise econômica, com o crescimento de movimentos extremistas, dessa forma a atmosfera de desconfiança e medo que permeia o filme não é ficção e reflete o clima real da Alemanha às vésperas da ascensão do nazismo.
A desordem social retratada por Lang mostrando uma polícia impotente, que enxuga gelo no combate ao crime e o povo em pânico, com os criminosos organizados tomando para si o papel de juízes tudo isso ecoa a sensação de que o Estado estava perdendo o controle da segurança. A mesma sensação ocorre nos dias hodiernos fazendo com que o combate ao crime seja uma das bandeiras de campanhas eleitorais tanto no Brasil, como em países da América Latina.
O fato é que é quase impossível assistir ao filme hoje sem perceber como ele antecipa, de forma quase profética, a lógica totalitária que se instalaria poucos anos depois na Alemanha fazendo prevalecer a ideia de que, diante do medo, qualquer solução autoritária parece aceitável e possível. Como obra de arte, M é também considerado precursor do film noir e um marco do cinema psicológico.
O que torna o filme tão duradouro é sua recusa em oferecer respostas prontas e acabadas ao espectador. Lang não absolve nem condena completamente seu protagonista; não exalta nem confia nas instituições; e não oferece nenhum conforto ao público. Ele os coloca diante de um espelho desconfortável, onde o mal não é apenas um indivíduo, mas envolve toda uma engrenagem social doente, corrompida e corrupta.
O resultado é um filme que, mesmo após quase um século continua a provocar, inquietar e dialogar com nossos próprios medos contemporâneos. É uma obra que transcende o gênero policial e se afirma como um dos grandes estudos cinematográficos sobre culpa, responsabilidade e a fragilidade do homem como ser transitório e da própria civilização.
A estética expressionista em M – O Vampiro de Düsseldorf não é apenas um detalhe estilístico, ela é a espinha dorsal que permeia a atmosfera do filme. Fritz Lang, que vinha diretamente do cinema mudo e do Expressionismo Alemão dos anos 1920, ele adapta essa linguagem para o cinema sonoro, criando uma obra que respira inquietação, paranoia e distorção moral. Em termos práticos o Expressionismo sempre tratou o espaço urbano como um reflexo da alma humana através de contrastes.
Em M, Vampiro de Düsseldorf a cidade não é apenas cenário, mas um corpo febril, com ruas estreitas, becos sombrios, prédios que parecem esmagar os personagens e tudo contribui para a sensação de opressão. A arquitetura rígida e geométrica, típica do expressionismo, reforça a ideia de uma sociedade mecanizada e desumanizada. Lang utiliza o claroescuro de forma magistral e no filme, as sombras são longas, angulosas, quase agressivas. Elas não apenas escondem o assassino, mas ao mesmo tempo o anunciam.
A cena da sombra de Beckert projetada na parede enquanto ele se aproxima de uma vítima é um dos momentos mais icônicos do cinema, transformando o mal em uma presença abstrata, quase metafísica.A luz nunca é neutra, ela denuncia, acusa, ameaça, valendo lembrar que tecnicamente o Expressionismo sempre usou a iluminação para revelar estados psicológicos, e Lang, como um mestre do cinema, leva isso ao extremo.
A atuação de Peter Lorre em M – O Vampiro de Düsseldorf é um daqueles momentos raros em que um ator, um personagem e um contexto histórico se fundem para criar algo absolutamente singular. É impossível falar do filme sem reconhecer que Lorre é o seu eixo emocional e, paradoxalmente, ao mesmo tempo o seu abismo moral como um personagem acima do bem e do mal, evitando qualquer caricatura do vilão clássico. Ele não é apenas um predador calculado, nem um psicopata frio e a sua interpretação aposta na contradição, Beckert é ao mesmo tempo patético e aterrorizante, infantil e demoníaco, mas essa ambiguidade é o que torna sua presença tão perturbadora.
O rosto arredondado, os olhos enormes e sempre úmidos, a voz trêmula tudo nele sugere num momento uma fragilidade, mas essa fragilidade não gera empatia; ela gera desconforto. Lorre cria um assassino que parece implorar por compreensão ao mesmo tempo em que provoca repulsa do espectador, num jogo psicológico que poucos atores conseguiriam sustentar.
No primeiro filme sonoro de Fritz Lang, o personagem de Lorre compreendeu imediatamente o poder expressivo desse novo recurso e seu assobio do tema de Grieg, “No Salão do Rei da Montanha” torna-se telegraficamente uma assinatura sonora do mal. Ele funciona não apenas como um tique, mas um sintoma, um aviso, um eco da compulsão que o domina, resultando em morte, uma técnica seguida por outros cineastas.
E quando ele fala, especialmente na cena do julgamento pelo tribnunal do crime, sua voz oscila entre o desespero e a lucidez, numa confissão que não busca absolvição, mas reconhecimento. Lorre transforma o monólogo final em um dos momentos mais intensos da história do cinema, trabalhando com o corpo de forma econômica, quase minimalista. Ele não exagera gestos, não teatraliza emoções, sua tensão é interna, contida, e justamente por isso tão inquietante. Já os pequenos tremores, o olhar perdido e a respiração irregular sugerem alguém aprisionado dentro de si mesmo. Essa contenção contrasta com o frenesi da cidade que o persegue.
Enquanto a multidão grita, corre e o acusa, Beckert parece encolher, como se tentasse desaparecer dentro da própria pele, numa atuação que transforma o corpo em metáfora da culpa. A performance foi tão poderosa que acabou definindo a carreira de Lorre nocinema e, em certo sentido, o aprisionou. Ele se tornou, aos olhos do público, o rosto do monstro humanizado de um criminoso atormentado. Mas em M, essa imagem nasce de uma profundidade rara, Lorre não interpreta o mal; ele interpreta a incapacidade de escapar dele o que é outra história, fazendo o espectador hesitar entre o horror e a compaixão. E essa hesitação é o que torna M tão moderno, tão inquietante e inesquecível, mas uma lição fundamental do filme é quando no final uma personagem apela que precisamos cuidar das nossas crianças.(KLeber Torres)
Ficha técnica
Título original: M – Eine Stadt sucht einen Mörder/ M – O Vampiro de Düsseldorf
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Fritz Lang e Thea von Harbou
Elenco : Peter Lorre — Hans Beckert (o assassino); Otto Wernicke — Inspetor Karl Lohmann; Gustaf Gründgens — Schränker (líder do submundo); Theodor Loos — Inspetor Groebe; Ellen Widmann — Frau Beckmann
Ano - 1931
País : Alemanha
Gênero :Policial, Suspense, Mistério, Thriller psicológico
Duração : 1 h 52 minutos
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